Putrefy

13 Aproveite o Silêncio


Notas iniciais
Olá pessoas! Eu não morri ainda estou aqui! A fic teve um hiatus bem longo eu sei e peço minhas sinceras desculpas, eu estive doente, era final de semestre na faculdade e ainda trabalho então minha vida estava um caos. Mas eu não me esqueci de vocês! Esse capitulo é bem morno e o próximo não vai demorar muito, e as coisas vão esquentar mais prometo. Obrigada pela compreensão de todos e boa leitura ;)

Chega um momento em que o cheiro inebriante e nauseabundo não o confunde mais, ele sabia que era podre. Porém no meio da podridão havia algo adocicado levemente perfumado e era esse aroma que o confundia. Ele estava louco, queimando pela ardência incandescente do desejo e precisava fazer algo a respeito, tinha que tê-la uma vez mais. Ele já tinha feito isso na noite anterior e na noite anterior á anterior também. O tempo era relativo e o silencio reinava.

****************************************************************

O dia era quente e um gordo com a camisa manchada de mostarda estava encostado no balcão, sua roupa estava suada e colada ao corpo delineado seus horrendos seios masculinos. Ele se abanava com um papel que parecia ser um recibo de conta ou algo do tipo. Seu olhar era indiscreto, sempre que tinha uma oportunidade virava-se para trás com o pretexto de olhar para fora observando o farto decote da moça atrás dele. Ele nem tinha a decência de não olhar para uma moça com um velho numa cadeira de rodas, céus ele poderia ser o pai dela! A mocinha estava levando seu pai ao banco para receber a miséria que era o dinheiro de sua sofrida aposentadoria e ainda tinha que ser assediada por um gordo nojento com camisa suja de mostarda, que a cada oportunidade encarava os seios fartos dela pela camisa de linho branca. Também que tinha ele? Era apenas um homem fazendo o perfeito papel de homem, e quem mandou aquela mulher vir ao banco com uma saia justa preta e aquela blusa escancarada ali mostrando o conteúdo para quem quisesse ver. Ele estava apenas vendo o que todo mundo via. Não tinha culpa de ela estar segurando a cadeira de rodas de um velho caquético.

O velho babava e roncava ruidosamente, com um chapéu de cowboy encobrindo seu rosto, enrolado num chalé xadrezado cobrindo seus braços. Apesar do calor infernal de El Paso, mais uma cidade da estrela solitária dos Texas fazia, aquele velho encarquilhado estava provavelmente com frio. A sorte do gordo é que a gostosa não estava com nenhum frio, podia ver as gotículas de suor se acumulando no vão de seus seios fartos, pensou em como seria afundar a cara naquela carne macia e tocar o vão daquelas pernas quentes. Ela deveria ter um rosto bonito também, mas se não tivesse não faria diferença, com aquele corpo qualquer homem ficaria louco, era só virar ela de lado e mandar ver.

O homem que estava atrás da moça bonita com uma bela bunda e seios perfeitos também teve a mesma idéia do gordo, talvez todos os homens daquele estabelecimento (exceto o velho que morreu e esqueceu de ser enterrado) tinham no momento que aquela bela mulher de cabelos rubros adentrou o banco quente. Ela estava um pouco acima do peso, sim era verdade, a blusa era justa nos peitos e ela tinha uma pequena saliência na barriga, talvez gostasse de tomar uma cerveja de vez em quando, com aquele rabo não importava. Quando mais carne melhor. Ela usava grandes óculos de sol escuros, mesmo dentro do banco. Deveria ser uma daquelas vadias que apanham do marido e se escondem atrás das lentes escuras. Usava um lenço vermelho ao redor da cabeça em contraste com o cabelo da mesma cor. O homem atrás da mulher de vermelho deu mais uma encarada naquelas ancas e colocou a mão no bolso.

A caixa que era tão velha quanto o velho na cadeira de rodas com a gostosa de vermelha tocou a companhia e chamou o próximo da fila no banco, apesar de serem cinco caixas apenas um estava funcionando. Os outros estavam ‘’fechados para almoço’’ desde o ano anterior. Aquela múmia de rosto franzido e o guarda que estava próximo á porta giratória eram os únicos que ainda trabalhavam nesse lugar esquecido por Deus. E o gerente, mas ele estava ocupado demais fingindo contar cédulas de dinheiro na mesa de trás da velha múmia com rosto de maracujá de fundo de gaveta, quando na realidade também apreciava o decote da mulher de vermelho.

—Próximo! —Brandiu a velha no caixa sem tirar os olhos do computador. O gordo de camisa manchada aproximou-se empurrando um papel para a velha.

O velho deitado na cadeira de rodas com um chapéu de cowboy em cima dos olhos e uma manta xadrezada imunda suspirou, ainda mostrando que apesar dos pesares estava vivo. A gostosa de vermelho tirou uma mecha vermelha de cabelo da testa e colocou atrás da orelha. Agachou-se próxima ao colo do velho, dando á todos os presentes uma visão privilegiada de seu traseiro e mexeu na manta do mesmo.

—Senhoras e senhoras isso é a porra de um assalto! —Ela tirou uma espingarda do colo do velho, a destravou e apontou para o gerente que ergueu os olhos dos peitos dela para a arma.

O velho ergueu-se de supetão revelando que não era velho coisa nenhuma com duas semi-automáticas em cada mão levantando-se da cadeira.

—Façam o que eu e ela mandarmos e ninguém se machuca! Isso é a porra de um assalto! —Ele gritou com seu sotaque arrastado.

—Você! O palhaço que estava checando a minha bunda, você gostou é isso? —A mulher de vermelho virou sua atenção para o homem que estava atrás dela na fila. Ele arregalou os olhos e tentou balbuciar alguma coisa. Ela acertou o olho esquerdo dele com o cabo da espingarda.

—Merda! Eu disse que ninguém ia se machucar! —O velho que não era tão velho assim retrucou.

—Você disse benzinho, eu não! Vocês ainda não entenderam que isso é um assalto? — Ela atirou numa das câmeras de segurança estilhaçando em mil fragmentos. —Todo mundo deitado na porra do chão seus merdas! Não quero ouvir ninguém chorando, eu odeio chororô dos outros, não odeio paizinho?

O velho não tão velho assim que estava fazendo a velha do caixa pegar um saco e enfiar o dinheiro voltou à atenção para a moça.

—Sim! Ela não suporta ouvir choro. Se algum filho da puta aqui chorar, ela vai arrebentar os miolos de todo mundo. Anda logo sua desgraçada enche esse saco de dinheiro! —O cowboy apontava a arma na cabeça da velha, que sem muita vontade e desanimada fazia o que era mandado.

Um estouro. A garota atirou no guarda que estava próximo da porta giratória. Todos gritaram.

—Esse engraçadinho aqui acha que estamos de brincadeira. Eu tenho cara de quem está brincando? Porque eu não vim aqui para brincar caralho! —Ela chutou a perna do guarda próximo do ferimento. Depois chutou a arma dele para longe e pegou.

—M-mas eu não tava fazendo nada moça!

—Tava sim seu porco mentiroso! Eu vi você mexendo nesse seu radinho ai, chamando a sua radio patrulha de merda. Você sabe a onde estamos companheiro? No diabo do Texas! E nenhum xerife vai entrar aqui e acabar com a nossa festa! No chão, quem se levantar vai ter os miolos estourados igual ao desse merdinha! —Ela gritou.

—Mas você não estourou os miolos de ninguém, doçura! —O cowboy argumentou enquanto se aproximava do gerente enchendo o saco com mais dinheiro. Notas verdes eram assopradas pelo ventilador da mão tremula do gerente.

—Não seja por isso, vamos dar um jeito nessa situação! —Ela virou-se e atirou na cabeça do guarda que estava no chão segurando a perna. Mais gritos e pedaços de massa encefálica que grudaram na porta giratória.

—Eu não vou limpar essa bagunça... — A velha retrucou.

O cowboy deu um tapa na cara dela, sentiu a dentadura da velha se mover dentro da boca.

—Cala essa maldita boca, sua velha estúpida! A única coisa que vai ser limpa aqui vão ser suas tripas embaixo da terra pelos vermes!

—Pegou tudo paizinho? —A moça perguntou aproximando-se do velho que atendia como paizinho.

—Sim vamos embora agora! Anda! —Ele disse saindo de trás do balcão com os sacos de dinheiro embaixo dos braços.

—Ninguém se levanta até sairmos daqui de dentro! Se algum espertinho tentar alguma gracinha e quiser bancar o herói vai ter os miolos decorando o chão! Ninguém gosta de heróis então vocês, seus caipiras estúpidos não vão tentar fazer porra nenhuma! Ninguém se mexe! —Ela disse calmamente enquanto apontava a espingarda de um a um dos reféns que estavam estirados no chão de barriga para baixo.

—Venha menina! —O cowboy disse puxando a moça em direção á saída traseira do banco. Ela continuava para encarando o gerente que estava deitado ao lado da mesa. Ela não se moveu.

—A policia vai chegar aqui a qualquer momento, anda! O que você tá esperando? —Ele puxou o braço dela.

—Maldito porco desgraçado! —Ela disse e atirou na cabeça do gerente. Uma explosão de sangue e pólvora serpenteou pelo chão.

—Por que diabos você fez isso, garota?

—Ele sabia paizinho... Ele sabia... —Ela balbuciou.

—Sabia o que? Do que cê tá falando menina?

—Da escuridão. Quando você á toca ela te toca de volta... —Cherry Pie disse baixinho. Rey pensou por meio segundo sabendo do que se tratava. Desde que o padre tinha morrido ela não era a mesma. Sempre via o rosto do maldito em todos os lugares. Tinha medo de quando ela veria aquele rosto perverso estampado no seu.

*************************************************************************

Treze horas antes...

—E então? —Ela perguntou apreensiva. Parecia uma criança usando uma das camisas de Rey cm cima da cama do motel. Estava pálida e com os olhos fundos.

—Está feito. —Rey respondeu tirando a camisa suja de sangue e jogando num canto atrás da TV.

—Você fez como eu pedi?

—Exatamente como você pediu, naquele campo descampado entre as estacas da cerca. Eu acho que ele ainda estava vivo quando eu o coloquei lá, pois ficava gemendo umas coisas estranhas. Precisava tudo isso mesmo? —Rey coçou a barba por fazer e tirou a calça jeans.

—O que foi que ele disse? —Seus olhos desiguais estavam cada vez maiores com as pupilas dilatadas.

—Não dava para entender direito, algumas pessoas sabem quando vão morrer e começam a falar tudo quanto é tipo e besteira. —Ele pegou uma cerveja do frigobar e abriu.

—Paizinho, escute com atenção. Eu preciso saber o que foi que ele disse. —Ela parou em frente á Rey. Mesmo abatida continuava tão bela e cheirosa, Rey pensou se ela estaria no animo para trepar.

—Mas que diabo! Não sei, ele falava umas frases desco... Desco

—Desconexas? —Ela completou.

—Isso mesmo! —Rey deu um grande gole na cerveja que estava meio quente. — Ele falava algo sobre pagar, ficava repetindo que ia pagar algo sobre um erro. E ele falou umas três vezes filha. O que você tinha contra aquele padreco? —Rey tirou o chapéu o colocou em cima da televisão

—Isso não é da sua conta. — Ela estava roendo as unhas postiças. —Então está feito?

—Sim, que droga! Já não falei que eu fiz se quiser te levo lá para dar uma olhada...

—Não! —Ela gritou — Prefiro imaginar. É mais bonito.

—Bonito? Aquilo estava além de bonito. Garota eu nunca vi uma coisa tão feia na minha vida.

Ela arqueou uma sobrancelha.

—Nem quando você foi preso?

—Garota... Você sabe que eu não gosto de falar sobre isso. — Ele a repreendeu.

—O que foi que você fez de tão grave que não pode me contar? Que homem cheio de mistério. —Ela encostou o rosto no ombro de Rey.

Ele não sabia o que responder para ela. O que ele fez deveria ser muito grave. Pois nem ele mesmo lembrava o que tinha acontecido dez anos atrás. Tudo era uma escuridão sem fim na sua memória.

—E qual é o seu nome mesmo? —Ele perguntou.

Ela bateu de leve nas costas dele.

—Bobo. Já te disse mil vezes que é Cherry Pie.

—Você tem um nome estranho para caralho...

—Shhh. —Ela disse selando os lábios dele com o indicador. —Às vezes as palavras são desnecessárias e tudo o que precisamos fazer é aproveitar o silêncio. —Cherry passou a mão pelo abdômen de Rey descendo até o seu sexo.

***********************************************************************

—Você tem certeza que o caminho é esse, paizinho? — Cherry estava com os pés apoiados no painel do caminhão enquanto Rey dirigia pela interestadual.

—Você disse para irmos ao Texas, não é? Eu era a merda de um caminhoneiro então é lógico que eu sei para onde eu estou indo. —Rey assoprou a fumaça do cigarro ultrajado.

—Ok! Não está mais aqui quem falou. Você não se importa em abrir essa janela? O cheiro do seu cigarro está me incomodando.

—Você fuma mais que uma chaminé e está dizendo que o meu cheiro de cigarro está te incomodando? —Rey abriu a janela.

—Talvez seja seu cheiro que esteja me incomodando, quando foi a ultima vez que você tomou um banho?

—Eu tomo diversos banhos por dias, você sabe disso! — Ele respondeu ofendido. Desde que tinha saído da cadeia Rey se pegava cada vez mais embaixo do chuveiro, quando paravam para descansar (e transar) em algum motel de beira de estrada a primeira coisa que ele fazia era entrar embaixo do chuveiro, e quando não tinha um chuveiro a pia servia também.

—Então é esse o problema, você se lava demais. Está fedendo sabonete velho. —Ela respondeu batendo o pé no retrovisor.

—Pare com isso menina, você está me desconcentrando.

—Você está me desconcentrando. —Ela remedou. —Você é um velho ranzinza, sabia disso paizinho?Eu já saí com muitos velhos, e nenhum deles eram tão chatos quanto você.

—Nenhum deles tinha que passar o dia todo te ouvindo tagarelar. —Rey acelerou, estava com dor de cabeça e a voz dela estava ecoando no fundo de sua cabeça.

—Pelo menos eles me pagavam quando eu chupava eles. A única coisa que você me deu foi essa coisa... —Ela disse baixinho.

—O que foi que disse?

—Nada. Eu não disse nada.

—Eles te pagavam? Então você era uma putinha? —Rey provocou.

Cherry bateu com o pé no volante.

—Retire o que disse! — Ela bateu com o pé no volante próximo a onde Rey segurava.

—Tira esse pé sujo daí! Você tá me atrapalhando.

—Retire o que você disse! —Ela virou o volante com o pé fazendo o caminhão inclinar-se.

—Você está louca? Quer matar nós dois? Pare com isso! — Rey bateu no pé dela e ela se encolheu. Menina irritante e impertinente.

—EU MANDEI VOCÊ RETIRAR O QUE DISSE! — Ela avançou por cima de Rey fazendo com que ele perdesse o controle do volante, segurando as grandes mãos dele.

—Para com isso sua vadia louca!

—RETIRE AQUILO QUE VOCÊ FALOU! —Ela disse jogando o corpo contra Rey, empurrando o caminhão para fora da pista. Um carro com os faróis altos passou por eles e buzinou.

—Tá bom, tá bom! Eu retiro o que eu disse! —Rey cedeu.

Cherry voltou para o seu lugar e ele tomou novamente o controle do caminhão.

—Eu já te disse que não sou puta. —Ela disse para si mesma com orgulho ferido.

—Que coisa eu te dei? — Rey perguntou ascendendo outro cigarro.

Cherry tossiu enojada.

—Que coisa? Tá maluco? Você nunca me deu porra nenhuma seu imbecil. —Ela virou-se contra o vidro do caminhão.

Rey fez como ela havia dito e aproveitou o silencio. A companhia dela as vezes era exaustiva e insuportável.

—Você viu aquilo? —Ela perguntou?

Rey revirou os olhos.

—Eu to dirigindo vi porra nenhuma. O que você viu?

—Naquele carro que passou por nós agora pouco...

—O que tem ele?

—O homem que estava dirigindo era igual o McDirt... —Ela falou quase em um sussurro como uma criança que conta uma piada suja.

—Mc quem?

—O padre, paizinho. O padre.

—Pelo amor de Deus! Pare com isso menina. O padre está morte e enterrado, estamos á quilômetros de distancia de Louisiana indo para outro estado. Você não pode esquecer isso? —Rey pegou na perna dela.

Ela tirou a mão dele de sua perna.

—Bem que eu queria, mas todo vez que fecho meus olhos ele está lá. Espreitando e esperando por mim.

Rey remoeu aquilo em silencio. Às vezes achava que Cherry era tão perturbada quanto ele. O que era pior que perder uma memória? Uma memória que nunca se esvai e sempre volta á superfície da lembrança.

*****************************************************************************

—Papai? Papai? —Vozes de crianças distantes ecoavam no escuro.

Rey andava descalço no pântano, procurando aquelas vozes infantis que o chamavam.

—Papai! Papai? A onde está você papai?

Ele andava, mas não saia do mesmo lugar, a lama pegajosa estava grudada em seus pés descalços. Ele estava correndo sem sair do lugar.

—Venha brincar conosco papai! Conte-nos uma história para dormir! Mas eu não quero dormir! Você sabe que é tão escuro, e eu tenho medo do escuro papai!

Rey tentou mover os pés e afundou cada vez mais na lama, que parecia areia movediça, o cheiro era podre e o puxava cada vez mais para baixo. Sentia um formigamento nas pernas e o cheiro de carne apodrecendo.

—Maldito homem! Seu porco imundo nojento! Eu nunca devia ter me casado com você, Deus como ele tinha razão! Ele esteve certo o tempo todo sobre você seu pilantra! — A voz de Amélia vinha de algum lugar do pântano. Dedos fantasmagóricos agarraram seus pulsos submersos pela lama.

****************************************************************************

—Paizinho? Paizinho! Acorde paizinho! —Cherry chacoalhava Rey. Ele abriu os olhos e derrubou o cigarro no colo. Sentiu a virilha arder.

—Merda! —Rey tirou o cigarro depressa e jogou pela janela, a estrada estava escura.

—Você dormiu enquanto dirigia seu idiota! Tem um motel logo ali na frente. Vamos parar e descansar um pouco.

—Eu não estava dormindo.

—Não, claro que não. Pare essa merda de caminhão e vamos descansar. Amanhã teremos um longo dia. Vamos assaltar um banco. E eu estou cansada de mijar dentro de latas de cerveja. Quero usar um banheiro de verdade.

—Assaltar outro banco? Você quer entrar para a lista dos mais procurados do país? E que história é essa de mijar em lata de cerveja, eu estava bebendo essa merda!

—Você é tão engraçado paizinho, às vezes acho que você é mais esperto do que demonstra ser. Qual seria a graça de mijar em uma lata de cerveja se ninguém beber? —Cherry piscou com seus olhos desiguais e inanimados.

Horas mais tarde Rey acordou com o som de Cherry vomitando no banheiro do motel, ela andava bebendo demais e consequentemente vomitando demais também. Era isso pelo menos o que Rey acreditava.

*************************************************************************

—Me ajude a abotoar esse vestido paizinho! —Cherry disse virando-se de costas para Rey.

Ele aproximou-se dela para subir o zíper do vestido.

—Por que diabos você pintou o seu cabelo? Gostava tanto do castanho. —Rey perguntou olhando para o cabelo de Cherry que estava vermelho cereja.

—Para termos um disfarce, oras! Agora que somos ladrões de bancos temos que inovar e mudar nossa aparência. Ou você quer voltar para a cadeia?

—Deus não! Você engordou nos últimos dias querida? —Rey tentava subir o zíper que estava emperrado na cintura de Cherry.

—Como você ousa dizer isso de mim? Claro que não engordei. É a umidade desse maldito Texas. Eu estou retendo líquido só isso. —Ela passou a mão pela nuca nervosa.

—Como quiser. Essa porcaria não sobe mais. Se eu forçar mais um pouco vai arrebentar nessa sua água retida. — Rey deu de costas e colocou o chapéu de cowboy na cabeça. Esse era o oitavo banco que eles estavam assaltando no estado da estrela solitária. Nas semanas anteriores eles foram um casal com um carrinho de bebê carregado com armas obviamente. Foram também um padre e uma freira (Rey insistiu para que Cherry permanecesse com o habito por mais um tempinho no motel, mas ela estava incomodada com a batina dele. Ele preferiu não irritar uma garota que dormia com uma arma embaixo do travesseiro) com armas dentro da bíblia. Rey continuava perguntando por que eles continuavam a dormir em motéis infestados de pulgas quando poderiam estar em hotéis cinco estrelas com o dinheiro que estavam limpando dos caixas. Ela disse que não era sensato sair por ai esbanjando dinheiro. Ela sempre era a mais esperta da dupla.

—Não dá pra pedir nada pra você seu inútil! Às vezes fico pensando pra que você serve. Ligue no canal seis que vai passar o noticiário local. —Ela disse calçando os sapatos.

—Desde quando você se interessa por noticias? —Rey ligou a TV

—Desde que nós estamos aparecendo nela. Nos apelidaram até de os novos Bonnie & Clyde sabia? —Ela tinha uma estranha excitação na voz.

Rey ligou a TV e a âncora do jornal local estava falando.

‘’Uma onda de assaltos á banco vem assustando os cidadãos do Texas. Um casal ainda não identificado apelidado como Bonnie & Clyde do século XXI como o casal de assaltantes e assassinos que aterrorizaram as centrais do país durante a grande depressão. A dupla vem assaltando e matando durante os roubos de pequenos bancos do interior do estado. Com medo de sacarem seus dinheiros algumas pessoas estão evitando irem até os bancos. O xerife da jurisdição de El Paso disse que estão montando uma força tarefa para capturar esses dois...’’

Rey desligou a TV.

—Ei! Eu estava assistindo! Seu mal educado! —Cherry protelou.

—Um monte de besteira. Eu já te falei garota —Rey empurrou Cherry na cama e apontou o dedo para o rosto pálido dela — Eu já fui preso uma vez e não quero ir de novo. O que você acha que vão fazer na cadeira com uma belezinha como você ein? Seu rosto vai ser o primeiro a ser retalhado.

Cherry mantinha um sorriso zombeteiro no rosto.

—Pare de rir! Eu estou falando sério! — Rey esbofeteou o rosto de Cherry. Suas quentes maçãs do rosto ficaram vermelhas. —Eu não posso voltar para a prisão! Não posso! Você está me entendendo? Pare de rir da minha cara menina! — Rey desferiu outro tapa nela. Seus lábios sangravam.

—Eu não me importo. —Ela disse baixinho.

Rey largou dela e deitou ofegante ao seu lado da cama. Passou a mão pelas calças e sentiu que estavam molhadas. Tinha gozado.

—Eu... Eu não te entendo. Por que você é assim tão fria? —Rey limpou os olhos marejados.

Cherry bufou e se levantou.

—Quando você parar de ser um bebê chorão e começar a agir como um homem, podemos ir assaltar a merda do banco? —Ela passou a mão pelo lábio cortado e pegou um lenço de papel.

—Me desculpe... Eu não queria te machucar.

—Esse é o menor dos nossos problemas. A próxima vez que quiser me machucar de um chute na minha barriga.

—Por que diabos eu faria isso?

Cherry sorriu. Seus dentes estavam manchados de sangue.

—Porque eu estou grávida, paizinho. —Cherry tinha um sorriso distorcido com o sangue vermelho. Rey sentiu a cabeça zumbir e a vista escurecer. ‘De novo não’ foi o que ele pensou antes de ser engolido pelas trevas mais uma vez.

*********************************************************************

O cheiro de desinfetante fez Rey abrir os olhos. Sentia a têmpora latejar, como se tivesse tomando um grande porre, ou levado uma pancada na cabeça o que era praticamente a mesma coisa. O lugar tinha um cheiro asséptico de limpeza, suas narinas ardiam e não conseguia abrir os olhos voluntariamente e enxergar com clareza. Pequenos pontos luminosos se formavam á frente de sua visão, precisou estreitar os olhos para poder firmar em um ponto fixo e enxergar novamente. Logo os pontos que era apenas borrões foram tomando formas e uma grande parede branca formou-se á sua frente. Rey tentou mover-se e viu que estava sentado em uma grande e confortável poltrona marrom. Próximo á parede branca tinha um bebedouro, uma mesinha de centro com algumas revistas que pareciam ser algo sobre moda e comportamento feminino.

Rey olhou ao redor e estava completamente sozinho nessa sala branca. Não fazia a menor idéia de como diabos tinha ido parar nesse lugar que cheirava a desinfetante e álcool em gel. Sua boca estava seca. Foi até o bebedouro e pegou um copo descartável, encheu com água gelada e deu um grande gole. Próximo ao bebedouro tinha um quadro com uma mulher com o dedo indicador entre os lábios fazendo sinal de silencio.

Saindo do quarto branco Rey passou por um íngreme corredor da mesma cor, tão limpo que doía a vista e saiu em uma espécie de recepção. Algumas cadeiras sortidas com mulheres sentadas. Parecia um consultório médico já que algumas estavam pálidas e com cara de doentes. Rey começou a se perguntar se tinha passado mal e se estaria em um hospital, apesar daquele lugar não se parecer com um. Foi até um balcão onde uma mulher usava o computador.

—Com licença, moça? —Rey se apoiou na bancada. A mulher o olhou sem reparar nele.

—Moça você poderia me informar que lugar é esse?

A mulher atrás do balcão o olhou com desdém.

—Você está na Clínica St. Claire. —Ela não tirou os olhos do computador.

—Clínica? Você sabe me dizer a quanto tempo eu estou aqui? — Rey perguntou confuso.

Ela tirou os olhos do computador prestando atenção em Rey pela primeira vez.

—Quem o senhor está acompanhando? Sua acompanhante já saiu da sala?

—Minha o que? —Rey pensou em Cherry. A onde ela havia se metido. Ele forçou a memória para lembrar como tinha ido parar ali, mas sua mente estava tão branca quanto aquelas paredes.

—Não é você obviamente quem vai fazer o procedimento. Quem o senhor veio acompanhar para eu ver a ficha? —A moça perguntou voltando para o computador.

—Eu não estou entendendo, acompanhar o que?

Ela bufou.

—O procedimento. O senhor está se sentindo bem? Está meio suado...

—Estou... Mas o que... Que procedimento? A onde está a Cherry? — Rey começou a ficar irritado. Algumas pacientes tiraram os olhos de suas revistas e desviaram a atenção para ele.

Uma mão delicada tocou no seu ombro. Rey virou-se e uma mulher negra vestida com um tipo de uniforme rosa que parecia um pijama o encarava.

—Sr. Furnier vejo que o senhor acordou. —A negra disse.

—Como você sabe meu sobrenome? —Rey não estava gostando daquilo.

—O senhor assinou o prontuário. Vejo que já levantou, está se sentindo melhor?

—Que prontuário? A onde eu estou? Que porra é essa? Eu exijo saber a onde Cherry está!— Rey elevou algumas escalas de sua voz. As mulheres tinham voltado á atenção para ele.

—Sugiro que o senhor se acalme. Cherry é a moça que veio aqui com o senhor certo? Ela já está na sala para o procedimento.

—QUE PORRA DE PROCEDIMENTO É ESSE? ALGUÉM ME EXPLICA O QUE ESTÁ ACONTECENDO? —Rey tirou a mão da mulher de seu ombro e saiu em disparada pelo corredor.

—Cherry! Cherry a onde você está? —Foi correndo pelo corredor, abrindo portas a onde havia macas, mesas com apoio para as pernas de mulheres como um consultório de ginecologista. A mulher negra e a recepcionista corriam logo atrás dele.

—Sr. Furnier se acalme ou eu irei chamar os seguranças! O senhor não pode entrar nesta área! Aqui acompanhantes não devem transitar apenas pacientes e pessoas autorizadas!

Ele ignorou e continuou a abrir as portas.

—Cherry! Cherry a onde você se meteu mulher! Tire a mão de mim! Eu preciso saber a onde ela está! O que está acontecendo? A onde eu estou? —Rey empurrou a mulher negra com o pijama rosa de enfermeira que estava na sua frente e empurrou duas portas duplas. Deitada em uma maca estava Cherry com uma touca cirúrgica na cabeça. Um médico e uma enfermeira estavam ao seu lado. Ela tinha as pernas apoiadas na mesa obstétrica.

—Quando eu colocar o tubo de anestesia para você inalar quero que conte até cem de trás para frente, tudo bem Sra. Furnier? —O médico disse levando uma máscara de anestesia até Cherry.

Rey abriu a porta de supetão e todos viraram para olhá-lo.

—O que ele está fazendo aqui? Lucy tire esse homem daqui imediatamente! —O médico disse.

—Cherry o que você está fazendo? Não me toque sua cadela! Cherry o que estão fazendo com você? —Rey estava desesperado.

—Sr. Furnier isso é uma clínica de aborto. O senhor deveria esperar na sala de espera, todos os formulários já foram assinados pelo senhor mesmo. —A enfermeira negra que agora atendia como Lucy disse.

Rey lembrou-se de Cherry no quarto do motel, com a boca ensangüentada pedindo que ele batesse em sua barriga. Suas palavras de ‘’ Porque eu estou grávida, paizinho’’ ecoaram em sua mente e tudo fez sentido. Apesar do enorme vazio de como ele tinha ido parar ali.

—Paizinho, por favor, saia daqui! —Cherry em lamento.

—Não! Eu não autorizei isso! Deus ela é só uma criança! —Rey aproximou-se de Cherry e o médico tentou impedi-lo. Rey pegou uma tesoura cirurgia com uma ponta fina que estava na mesa perto de outros instrumentos cirúrgicos.

—O senhor precisa sair daqui agora! —O médico disse sem ver o que Rey tinha pegado.

—Eu não tenho que fazer nada. Cherry! Levante e se vista nós vamos embora daqui.

—Paizinho não! —Foi tudo que ela teve tempo de dizer quando o sangue quente que jorrava da jugular do médico espirrou em seu rosto.