Putrefy
7 O Banco
Notas iniciais
Alguns dias atrás...
O cheiro das velas preenchia seus pulmões. Em algum lugar não muito distante ouvia-se o coro das crianças brincando em roda, suas vozes infantis e inocentes cantarolando cantigas que todas as crianças conheciam. O local estava vazio, ninguém iria entrar ali naquele momento, pois ela sabia que a sorte nunca estava ao seu favor. Como seria o escândalo se algum fiel entrasse na igreja e encontrasse uma mulher sentada no colo do bom padre da paróquia local? Por um breve momento ela torceu para que alguma alma entrasse naquele lugar e visse o que estava acontecendo.
Isso nunca iria acontecer ninguém ia naquela igreja em uma tarde ensolarada da suja Louisiana, todos tinham coisas melhores a serem feitas, e ir rezar não era uma delas. Carmen ainda sentia o abdômen doer pelo esforço que tinha acabado de empunhar em cima do velho, o suor escorria no meio de seus seios e ele estava ofegante como um porco velho. Seus olhos verdes e frios estavam fechados, poderia usar o crucifixo que havia tirado do pescoço imundo do Padre Aleister McDirt e usá-lo para enforcar o velho, seria irônico no mínimo. Morto por uma cruz, mas ele não era nenhum Salvador.
Segurou o artefato com força entre os dedos, até sentir o metal gelado e brilhante ferir sua pele. Ele abriu os olhos e soltou um riso abafado.
—Porque está rindo? —Carmen perguntou com a cabeça encostada no ombro do Padre.
—Eu estava aqui pensando, você deve me amar muito. —Ele disse com uma sotaque arrastado sulista.
—Não fale tolices. Você sabe que eu te odeio. —Ela retrucou ofendida.
—Não é o que o seu comportamento revela. Você vem aqui na igreja, no meio do dia e praticamente monta em cima de mim. Diga minha filha, não podia esperar minha visita na quinta feira? Confesso que senti falta da torta da sua mãe.
Ela apertou a cruz com mais força contra sua mão, seria um golpe rápido, com sorte ficando-a no pescoço dele, ele sangraria até a morte. A solução de todos os seus problemas.
—Eu estava passando aqui por perto, revolvi dar uma passada para ver como você está. —Ela mentiu, ela tinha ido ali com o intuito de se apossar do colar de metal dele. Ela sempre se sentia atraída a objetos reluzentes de prata ou metal. Não sabia o porquê, mas algo ficava inquieto dentro dela até conseguir obter o que queria. Era muito mais tentador quando conseguia algo que não lhe pertencia.
Ela se levantou e ergueu o shorts que vestia.
—Mentirosa. Não vejo outra explicação para vir me ver. Você sempre diz que não me suporta, mas sempre está aqui, na Casa do Senhor para me ver. Admita que não consegue ficar sem me ver, minha filha. Você está ligada a mim e mesmo que não admita uma parte sua não vive sem mim. Você obviamente não veio aqui pelos castiçais, não pense que eu não sei que você andou levando alguns daqui sua ladrazinha, agora eu os mantenho escondidos dentro da sacristia.
Ela abriu a portinha do confessionário abafado para sair. A luz que refletia no vitral da igreja cegava seus olhos. Era multicolorida e triste.
—A não ser que você... Volte aqui sua ladra! Devolva o meu crucifixo! Volte imediatamente daqui sua bastardinha — O Santo Padre levantou-se erguendo a batina tropeçando para fora do confessionário. Carmen ria enquanto corria a rua abaixo com seu novo artefato.
Quando chegou a sua casa subiu as escadas depressa, correu até o velho quarto e se arrastou para debaixo da cama, como fazia quando era uma garotinha. Tocou o assoalho de madeira e deu três batidas até ouvir o som da madeira oca. Com a ponta dos dedos ergue a tabua retangular. Assoprou as teias de aranha que tinha se acumulado no interior do chão e enfiou a mão dentro do buraco. Sentiu a caixa fria e a pegou. Era uma caixinha simples de madeira envernizada, tinha uma pequena fechadura. Carmen puxou o cordão do pescoço onde estava à chave e a abriu. Seus olhos brilharam com o relance dos objetos que estavam guardados dentro da caixa. Ali dentro havia duas taças de prata reluzente, ela assoprou e limpou com a costa da mão direita, viu seu reflexo. O nariz fino, sobrancelhas arqueadas e a boca carnuda, seus olhos verdes e iguais, seria tão bom se fossem ambos dessa cor. Colocou as taças de lado e continuou a vasculhar a caixa. Lá dentro também tinha o isqueiro de metal reluzente que ela tinha pegado de Rey, um bar de abotoaduras de prata que um cliente descuidado não notou ter sido tirada dele enquanto ela se esfregava em seu colo na Boca do Inferno. Um par de brincos de argola que Carl tinha deixado cair enquanto estava ocupado demais contando o dinheiro do seu lucro. Tinha ali também alguns talheres que ela não se lembrava a onde tinha conseguido um canivete que um homem havia derrubado enquanto caminhava na sua frente. Uma saboneteira de metal polido que certa vez ela ‘encontrou’ no banheiro de um posto de gasolina. Um grampeador de papel que tinha pegado em um banco. Algumas presilhas cor de prata que uma vendedora em uma loja de roupas deixou á mostra no balcão. A maioria das coisas não passava do lixo de outras pessoas, nenhuma tinha nenhum valor significativo. Todas juntas não dariam mais que dez dólares. Mas era uma coleção adquirida ao longo dos anos, pequenos objetos reluzentes que chamaram sua atenção a ponte de serem sutilmente surrupiados. O mais importante de tudo era que nenhum deles fora dado á ela, Carmen simplesmente os pegara para satisfazer o seu desejo pessoal, e os escondia dentro de uma caixa velha no fundo do assoalho de seu quarto. Era seu segredinho. Eles faziam bem para ela, era como um vício incontrolável. Tudo que reluzia e refletia sua imagem chamava sua atenção de forma desesperadora. Ela precisa ter tudo àquilo que reluzia sua imagem.
Colocou a cruz que tinha batido tantas vezes em seu rosto enquanto o homem sujo a possuía de todas as maneiras dentro da caixa de pequenos tesouros como ela mesmo chamava. Era uma pequena vitória, mas ainda sim uma vitória. Não sabia por que não tinha dado um fim a vida podre daquele homem. Talvez ele não fosse digno do privilegio de ter uma morte por suas mãos.
Ouviu passos pela escada. Fechou a caixa, colocou-a de volta em seu lugar no subsolo e arrumou a tabua por cima. Passou a chave de volta para o pescoço e se arrastou debaixo da cama.
—A onde você estava? — A velha Ruth Mortenson perguntou passando a mão pelos cabelos elásticos cor de cobre presos em um coque desalinhado.
—Por ai. —Ela responde vagamente.
A mulher se aproximou.
—Você está com um cheiro diferente.
—Porque você está me cheirando? Respeite meu espaço, por favor, mãe. — Carmen disse aborrecida.
—Eu conheço esse cheiro. —A mulher retrucou.
—Você é uma velha ridícula que não sabe o que fala, pare de me cheirar igual a um cachorro sarnento. — Carmen levantou-se foi até o guarda-roupa e puxou uma mala velha.
—A onde você pensa que vai?
—Eu vou sair por alguns dias, tenho algumas coisas para resolver.
—Mentira! —A mulher disse com a voz cortante. —Você vai me abandonar como todos fizeram. Eu sabia que esse dia iria chegar, não ia demorar muito para você fazer como todos os outros e me largar aqui á própria sorte. Eu sabia! O Bom Deus conversou comigo em um sonho e me disse que você iria largar sua própria mãe. Eu sabia, eu sabia, eu sabia... —Ela dizia baixinho de forma incoerente. Era uma mente cansada e perturbada.
—Meu Deus qual é o seu problema? Eu só vou sair por alguns dias porque tenho negócios a resolver, em alguns dias eu volto. —Carmen se aproximou da caixa de vidro em cima da cômoda e pegou a cobra de estimação. Ela sibilou ao ser tocada.
—Pelo menos você vai levar esse bicho imundo daqui de dentro. Deixe ela bem longe dessa casa.
—Qual é o problema, mamãe? — Carmen segurou a cobra e a aproximou do rosto enrugado da mulher. Ruth ficou paralisada e fechou os olhos.
—Tire- a de perto de mim, você sabe que eu não suporto essa coisa... Ela é maligna... —Como se fosse algo muito terrível de ser dito alto, a mulher pronunciou a palavra maligna baixinho. — Ela é do diabo...
Carmen aproximou o réptil do rosto da mãe. A cobra silvou no ouvido da mulher. Se ela escutasse com cuidado poderia ouvir o velho coração dela acelerar.
—Mas ela é um bichinho tão adorável, sim você é uma coisinha tão linda, é sim. Olhe mãe, ela gosta de você. — Carmen se divertia com a situação.
A mulher pronunciou cada silaba.
—Tire essa coisa daqui! Tire ela de perto de mim. — O pânico pela cobra fez a mulher paralisar, desde que Carmen a tinha trazido para dentro de casa, Ruth não ousava por os pés naquele quarto sem que ela estivesse lá dentro, a mulher achava que Carmen a protegeria do animal.
—Mas ela gosta de você. Ela quer dar um beijinho, vamos mãe. Dê um beijo na pequena Eva. — A cobra amarela e branca dava a volta nos braços de Carmen e era extremamente pesada. Sua parte posterior passeava pelo pescoço a mãe, sibilando contra o rosto da velha.
Ruth tremia com os olhos fechados.
—Pelo amor de Deus, filha. Tire- a daqui. Eu te imploro, guarde essa coisa na caixa. —Uma lágrima escorreu dos olhos azuis da mãe.
Aquilo era divertido e nunca se tornava cansativo.
—Só um beijinho e eu tiro. Faça um bico vamos. Beije a cobra mamãe.
—Eu não vou beijar essa criatura do diabo. Tire ela de perto do meu rosto pelo amor de Deus.
—Eu disse: Beije a cobra. E você vai fazer o que eu mandei. Beije-a agora, mãe.
—Por favor Carmen, não me faça fazer isso. Você sabe que eu não consigo, por favor... —Ela sussurrava.
—Beije a cobra, só um beijo e eu tiro. Beija ela agora mamãezinha querida.
—Por favor... —Ela suplicou.
Carmen estava explodindo de tanto rir.
—Se você não beijar essa maldita cobra, eu vou pedir para que ela morda. Ela atende ao meu comando. —Isso não era verdade, mas sua mãe não sabia disso.
—Não faça isso com a sua mãe, por favor.
—Então me conte o que aconteceu com o meu pai. —Carmen perguntou.
A mulher se inclinou depositou um beijo rápido na cobra, que continuou a sibilar alegremente sem entender o que acontecia.
Cherry torceu o nariz e puxou o animal.
—Você é uma mulher muito espertinha sabia disso? Sempre que eu toco nesse assunto você foge, prefere até beijar a cobra a me contar sobre o meu pai.
A mulher alisou o avental e arrumou o cabelo desgrenhado.
—Não tem o que ser dito, ele foi embora e me deixou com uma criança pequena. E agora você vai embora e vai me abandonar.
Carmen revirou os olhos.
—Já disse que logo eu volto. —Ela terminou de fazer as malas, pegou a cobra e se aproximou da mãe. —Você ainda me deve essa conversa sobre o meu pai. Não espere acordada por mim. — Carmen deu um beijo de leve na testa da mulher.
—Você está cheirando a pecado. —Ruth por fim disse.
Carmen não pode deixar de rir da ironia.
—Acredite se quiser, mas eu acabei de sair da igreja. — Ela empurrou a porta atrás de si e saiu daquele lugar.
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Um dia atrás...
Ela abriu com cuidado a porta da mansão e olhou ao redor. Tudo estava exatamente como se lembrava: limpo e luxuoso. Todos os detalhes vivos ao redor do cômodo, os quadros, os afrescos no teto e as inúmeras obras de arte espalhadas pela sala davam um toque de requinte ao local, ela se sentia em casa e nem um pouco intimidada. Poderia muito bem viver neste lugar, era como se pertence à vida confortável de uma pessoa rica. Era uma pena que não tenha nascido em um ambiente requintado, mas ela tinha que se virar com o que podia.
O homem desceu as escadas em seu roupão de cetim vermelho. Sempre que ela o encontrava em sua mansão ele estava desfilando em um de seus inúmeros roupões caríssimos de cetim macio. Da ultima vez que ela esteve ali ele usava um fino roupão azul com chinelos combinando. Dessa vez era um vermelho. Ela se perguntou se ele tinha algum cinza, ou prateado...
—Minha doce Cherry! Estava ficando impaciente de tanto te esperar. — O magnata do petróleo Anton Von- John segurava um charuto na mão esquerda, deixando um rastro de fumaça atrás de si.
—Oh paizinho! Você mora tão longe de mim, e eu tinha que ficar bonita para você. — Ela disse inocentemente.
Ele se aproximou e tocou o ombro dela com sua mão enrugada e manchada. No dedo mindinho ele portava um anel de prata com as inicias AVJ de seu nome, Cherry cobiçara aquela jóia desde a primeira vez que tinha botado o olho nele na Boca do Inferno.
—Você poderia ver nua, que continuaria linda. — Anton encostou os lábios nos de Cherry e deu um beijo rápido e delicado. Ela sentiu sua língua quente, tinha gosto de charuto e de hortelã. — Por que você não deixou o meu motorista de buscar, como das outras vezes?
—Eu arrumei uma carona. — Ela colocou a mão no peito do homem sob o roupão de cetim vermelho. Sentia seu velho coração bater. Pensou quanto tempo ele ainda duraria?
—Devo me preocupar com isso? — Ele ergueu uma sobrancelha grossa e cinza.
Cherry fitou o rosto do velho, ele não era um homem atraente, mas tinha seu charme. Ele deveria ter entre 60 e 65 anos ela nunca tinha perguntado sua idade. Lábios finos, olhos cor de mel e grossas sobrancelhas. Tinha um nariz adunco, uma verruga não muito grande embaixo do olho esquerdo e outra na bochecha direita. Ele era encantador, e o que o tornava mais bonito era os sete dígitos em sua conta bancária.
—Não é nada que mereça a sua atenção, benzinho. Senti tanto a sua falta. —Cherry o abraçou com força e inalou o perfume do pescoço do velho. Ele cheirava a um móvel antigo.
Ele coçou as costas dela e desceu as mãos vagarosamente até encontrar sua nádega, deu um leve apertão. Ele não queria conversar, queria outra coisa.
—Oh paizinho, isso é uma arma em seu bolso ou só está feliz em me ver?
—Não tenho bolso nesse roupão. — Ele encostou o nariz no dela e deu um leve beijo nos lábios dela. Ela queria que ele terminasse logo com isso, para ela poder ir embora fazer algo mais produtivo, como dormir.
Anton passou o charuto nas mãos de Cherry. Ela deu uma tragada para dentro dos pulmões e sentiu a garganta arder. Tossiu ruidosamente salivando um pouco no chão.
—Você não pode engolir a fumaça, bobinha. —Ele advertiu.
Cherry ainda se recuperava da crise de tosse.
—Porque você não me disse isso antes? Como eu ia saber disso? — Ela limpou a garganta e devolveu o charuto á ele.
Ele achou graça.
—Eu achei que você soubesse isso. Não é uma boa idéia tragar o charuto, ele não foi feito para se tragado e sem degustado. Observe. — Ele colocou a ponta na boca e aspirou à fumaça, a prendeu por alguns segundos e soltou para fora. —Assim, está vendo? Você tem que segurar a fumaça na boca, sentir o gosto, aprecia e degustar. Tente de novo. — Ele ofereceu o charuto novamente para ela.
—Mas qual é a graça disso? Ficar segurando fumaça dentro da boca? Não obrigada. —Ela recusou o charuto empurrando-o.
Anton riu.
—Adoro seu espírito livre, você fala o que pensa sem ter medo. Gosto disso. É uma das inúmeras qualidades que me atraem. Mas a primeira são seus olhos coloridos, o verde e o azul têm um contraste belíssimo. Quero que alguém faça um retrato seu para eu pendurar na minha parede.
—E o que a sua mulher iria achar disso, ou os seus filhos?
—Eles não passam muito tempo aqui, não tem nada a ver com minhas obras de arte. Desde o primeiro dia que eu a vi dançando naquele palco com uma cobra enrolada no pescoço, eu sabia que você era a peça de arte mais bonita para um homem poder colecionar. Dona de tamanha beleza imensurável.
Cherry queria gritar com ele e dizer que não era nenhuma peça de arte para ficar de display na sala de um velho rico entediado. Se ela tivesse sentimentos poderia dizer que ele os tinha ferido. Por sorte ela não tinha nenhum sentimento nem pudor.
—Vamos subir para o quarto, paizinho? Tenho muitas coisas divertidas em mente para fazermos. — Ela lhe estendeu a mão com um sorriso afável.
Um ano atrás...
Era mais uma noite quente e fétida na velha puta enrugada conhecida como o estado de Louisiana. Os aligátores continuavam a caçar na beirada do pântano e os homens se arrastavam para a Boca do Inferno á procura de alguma diversão.
A casa estava cheia, homens se espremiam em volta do palco para ver a atração principal da noite que fora anunciada a semana toda: A Incrível Mulher Que Dança com Uma Cobra. Não havia nada de realmente extraordinário nisso, era apenas uma mulher nua com um réptil no pescoço, mas para um bando de caipiras entediados este era o ponto alto da semana.
Ela estava atrás da cortina de veludo vermelha só esperando o sinal para sair. Eva estava enrolada em torno de seu pescoço. A cobra também estava acostumada com o estardalhaço e fazia parte do show, não se assustava tudo ocorria muito naturalmente.
—Senhoras e senhores, agora o momento que vocês estavam esperando sua vida inteira. Se preparem para uma coisa jamais vista ou imaginada. Curvem-se para o veneno doce de Cherry Pie!
A voz anunciou no alto falante, a música começou a tocar os acordes do baixo lentamente.
The world was on fire and no one could save me but you.
It's strange what desire make foolish people do.
I never dreamed that I'd meet somebody like you.
And I never dreamed that I'd lose somebody like you.
A cobra estava pesada em seu pescoço, as cortinas se abriram e ela saiu lentamente dançando á batida da música, dançando para si mesma. Com movimentos lentos, deixando a cobra delinear o seu corpo. Cherry usava um conjunto vermelho de calcinha e sutiã com miçangas pretas e vinho. Todos estavam atônitos a obervá-la.
No, I don't wanna fall in love (This love is only gonna break your heart)
No, I don't wanna fall in love (This love is only gonna break your heart)
With you (This love is only gonna break your heart)
Ela se agachou a cobra passeava pelas curvas dos seus seios com a língua explorando seu corpo como a de um amante. Era gelado e dava arrepios. Ela ignorou a sensação. Na ponta do palco um homem envolto em uma fumaça de um charuto a observa. Ele tinha uma áurea diferente dos outros clientes, tinha um certo ar de superioridade. Ele coçou uma verruga no canto inferior do olho esquerdo com o dedo mindinho, ela viu um pequeno anel de prata reluzir e chamar sua atenção. Aproximou-se ainda envolvida pela voz aveluda da música. O velho continuava a observá-la com desejo no olhar, como os demais.
Ao lado dele tinha uma garrafa de vodka, a cobra descia sobre o seu sexo e dava a volta na tanga vermelha. Ela ignorou. Pegou a garrafa e tomou um gole. O homem a estudava com o olhar impenetrável, ela tinha que fazer algo para chamar mais a sua atenção.
Subiu o pé até o queixo do homem, ele desceu o olhar até a sua perna e subiu até encontrar a cobra em sua cintura. Ela empurrou a cabeça dele para trás e introduziu o pé direito na boca do homem, que obedientemente a abriu. Ela escorregou o conteúdo da bebida pela sua coxa, descendo diretamente pela perna até a boca do homem através de seu pé. Todos gritavam obscenidades ao ver aquela cena. O homem fazia um esforço para engolir o liquido que se espalhava por toda a mesa e sua roupa. Ela retirou o pé. Ele limpou a boca com a costa das mãos.
Ergueu a garrafa e deu um gole, não engoliu. Agachou-se e agarrou a boca do velho, a apertou com as mãos até que ele a abriu e cuspiu lentamente o conteúdo dentro da boca dele. Ela conhecia aquele homem da televisão, ele tinha algo a ver com uma grande quantia de dinheiro. Ele seria seu.
—Oh paizinho! — Ela disse com a voz embargada assim que subiu ao aposente do homem. — Isto é o paraíso na terra. Sentia falta de nossos encontros, você me faz tão bem, sabia disso?
Anton Von- John estava sentado em uma larga poltrona vermelha embalando a stripper no colo.
—Oh eu já ia me esquecendo minha querida. Antes de tudo eu tenho um presente para você. — Cherry sentiu uma pitada de curiosidade.
O velho se levantou e foi até uma escrivaninha. Pegou alguma coisa ali de dentro que ela não soube identificar, Cherry foi tentar coçar o olho esquerdo e se lembrou que estava sem a lente de contato, ele gostava de coisas exóticas, e ela achou que seria uma boa encontrar-se com ele com seus olhos naturais, ele obviamente adorava a excentricidade.
—Isso nem se compara a beleza de seus olhos que é infinitamente ampla como um oceano e um rio. — Ele tocou seu rosto com a mão velha e enrugada. Ela fumava um cigarro dentro do quarto. —Mas acho que por hora vai servir para... Acentuar sua beleza. — Ele disse abrindo a caixa, ela quase se engasgou novamente com a fumaça, era lindo demais e estonteante. Um colar de alguma pedra preciosa que ela não sabia qual, vindo dele deveria ser absurdamente caro.
—Isso é o que eu estou pensando que é? Oh paizinho, você é tão generoso! —Ela se aproximou do velho e depositou um beijo demorado em seus lábios, ele precisaria ser muito bem recompensado por isso.
—Sim, minha querida. É um colar alternado de safiras e esmeraldas para elogiar a beleza, que nem de perto se compara, de seus olhos. Vire-se para que eu o coloque em você. — Cherry mal conseguia conter a excitação pelo presente, dando pequenos pulos de alegria. Ele ergueu seu longo cabelo para por o colar.
Cherry ouviu um barulho fora do quarto um som que não sabia distinguir o que era. Olhou com cuidado para o vão da porta e viu uma sombra. O idiota do Rey não tinha seguido suas ordens e saiu do carro, nenhum empregado ousaria subir ali em cima uma hora dessas. Quem vai a onde não é chamado é obrigado a ver o que não quer.
—Você ouviu alguma coisa? — Ele perguntou.
Cherry negou. Ela tinha ouvido em alto e bom som.
—Acho que o assoalho rangeu. Oh paizinho! Estou tão feliz! Esse é o presente mais maravilhoso que eu já ganhei. Sua mulher não vai se importar de você me dar um presente tão caro?
—Minha mulher não se mete entre meus negócios. Ela não tem olhos tão bonitos como os seus para serem elogiados. — Ele passou os dedos velhos pelas costas dela, abrindo o zíper dourado do vestido. — Você já está usando outro colar querida, não sabia que era religiosa. — Anton segurou a cruz que Cherry tinha furtado do Padre McDirt. Ela a tinha guardado na sua pequena caixa de tesouros mas, resolveu resgatá-la e usá-la como um amuleto da sorte.
—Oh isso? Uma garota deve manter-se as suas origens não é mesmo paizinho? Vamos parar de conversar e tire logo esse vestido. — Cherry ergueu as penas desvencilhando-se da peça de roupa.
—Tudo o que eu quero que você vista são esses colares. —O homem disse com desejo em seu tom de voz.
Ela olhou para o vão da porta, Rey não estava mais lá, o que era uma pena pois iria perder toda a diversão.
Ela despiu-se lentamente, sabia que o velho gostava do ato de observar ela tirar a roupa, era como uma espécie de fetiche, ele adorava por suas mãos velhas em seu corpinho jovem. Ela não usava calcinha tampouco sutiã, ela nunca tinha gostado mesmo desses empecilhos. Olhou para o espelho e viu que tinha feito como fora orientada, não usava nada além do seu novo colar precioso, era bom se sentir rica o poder era inebriante.
—Deixe-me ajudá-lo com isso. —Ela disse puxando o roupão do velho e revelando sua ereção. Para um homem daquela idade ele não estava em má forma, tinha um corpo magro e sem sinais do envelhecimento. Talvez as pessoas ricas envelhecessem de forma diferente ela pensou. Ele tinha os pêlos pubianos grisalhos.
Anton deitou-se na cama e Cherry fez aquilo que desde muito nova fora ensinada a fazer. Montou no velho deixando que ele entrasse por completo dentro dela. Quando mais rápido fizesse isso, mais rápido poderia sair dali e ir embora. Ele tocou sua face para tirar o cabelo que caia por seu rosto e ela se aproximou para beijá-lo. Ela odiava ser tocada, odiava o contato físico, mas se quisesse obter alguma coisa dele precisava fazer alguns sacrifícios. Sabia que o coito com ele não durava muito, nem mesmo com o Viagra.
Mexeu o quadril se ajustando ao corpo do velho, que gemia de satisfação e a essa altura tocava os seus seios, ele pelo menos era mais delicado que o Padre e não os beliscava. Ela queria tirar as mãos dele de seu corpo, já era ruim o suficiente ser penetrada por ele, e tocada era pior ainda quando não se tinha uma gota de lubrificação. Esperou ele fechar os olhos e passou um pouco de cuspe na sua região intima na expectativa de aliviar o incomodo.
Pensou que se fechasse os olhos e não visse com quem estava tudo poderia melhorar. Colocou as mãos espalmando o peito do homem, jogou a cabeça para trás enquanto fazia o movimento continuo trabalhando em cima do homem, sentindo-o por completo dentro de si. Ela só queria que ele terminasse logo aquilo. Não suportava ser tocada. Fechou os olhos e tentou imaginar outra pessoa. Mas tudo o que ela viu foi um fundo preto, não tinha imaginação o suficiente para interpretar algum outro rosto. Pensou em Rey, mas ele não a atraia de maneira alguma, era apenas um pobre coitado. Tinha feições bonitas e não era nada mal nu, como ela mesma já havia constatado. Pensou como seria o pau duro dele dentro dela, e não o do velho, suas mãos inexperientes tocando o seu corpo e não aquelas mãos velhas. Ela se movimentou mais rápido. Pensou como seria o cheiro dele de suor e gasolina ao invés do cheiro de charuto e madeira daquele homem. Sua voz rouca pelo tabaco gritando seu nome de prazer e ela acreditava que até nessa hora ele perguntaria qual era o seu verdadeiro nome. Isso era loucura, ela abominava aquele homem e sentia desprezo por ele. Era inadmissível estar fantasiando uma foda com ele.
—Oh paizinho! — Ela gritou com todo o ar de seu pulmão, sabendo que não era o velho que ela estava chamando, e sim o caipira estúpido que estava esperando no caminhão.
O velho finalmente obteve seu prazer. Cherry desmoronou em cima dele, ele beijou o lóbulo de sua orelha e por fim disse.
—Está tudo certo para amanhã? — Ele perguntou com a voz ofegante.
—Sim, tudo como você disse. Nós vamos entrar e fazer o que tem que ser feito no banco. — Ela disse entre um suspiro.
—Nós? — Ele perguntou desconfiado.
—Eu disse que você poderia confiar em mim, e você disse que não iria questionar o meu meio de fazer isso. — Ela concluiu.
Ele assentiu.
—Tudo bem, o importante é que todos pensem que foi um assalto relâmpago, ninguém nunca vai associar o roubo de um banco aqui de Louisiana ao meu nome. Você pode pegar a quantia que quiser para você, desde que não seja nada exagerado. Mas o mais importante de tudo é trazer as promissórias que estão dentro do cofre para mim, uma pessoa de minha confiança irá encontrá-la depois onde você irá entregar os documentos para ele.
Ela coçou os olhos, estava cansada.
—O que são esses documentos mesmo?
—Coisas do ramo petrolífero, algumas promissórias devedoras da concorrência, assim que eu obtê-las não haverá mais uma concorrência e eu serei o único a administrar o petróleo nessa região, mas não é nada que você deva se preocupar. Não pense demais querida, pode doer sua linda cabecinha.
Ela estava confusa.
—Porque um homem como você que tem tudo, precisa assaltar um banco?
—Ora minha doce criança, porque tudo nem sempre é o suficiente. Porque às vezes nem sempre chegamos ao topo sem derrubar algumas pessoas com isso. O mundo precisa de teatralidade, e um pouco de drama como um assalto, por exemplo, vai atrair a atenção de todos, ignorando o meu crescimento súbito financeiro. Mas não é nada que deve despertar a sua atenção. — Ele beijou seu cabelo. Ela odiava os beijos dele.
O velho tinha razão, ela tinha ficado feliz por ele ter confiado a ela a tarefa de assaltar o banco, ela estava fazendo tudo pelo dinheiro. E ela sabia que ele gostaria que ela não medisse esforços, nem que por isso algumas pessoas perdessem a vida, o que tornava tudo ainda mais interessante.
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O zumbido fazia seu ouvido latejar, o sangue quente escorria no chão e o homem que fazia palavras cruzadas estava debruçado no chão sob sua mistura de sangue e massa encefálica. No começo as pessoas não souberam como reagir ao barulho estrondoso da espingarda, mas cada pessoa reagia ao pânico de uma maneira diferente.
—Rápido,pegue uma das cadeiras e use para prender a porta, antes que os guardas resolvam entrar aqui dentro, isso vai nos fazer ganhar tempo! —Cherry gritou para Rey.
Ele fez como pedido correu até a porta giratória e a travou com um pedaço de ferro da haste da cadeira, os guardas assim que notaram o que estava acontecendo tentaram abrir a porta em vão, tampouco poderiam atirar no vidro, pois era blindado. Rey passou a mão pelo rosto sujo de sangue e ficou parado na porta.
Uma mulher começou a gritar histericamente assim que o homem caiu morto no chão, os atendentes do caixa já levantaram as mãos ao alto e algumas pessoas seguiram o exemplo, parecia um código de ética de como reagir a um assalto, Cherry não tinha pedido para que ninguém fizesse isso, mas mesmo assim eles fizeram. Talvez as pessoas que trabalham em banco passassem por algum tipo de treinamento onde isso era ensinado. Rey estava parado como um idiota (que ele era) com o rosto coberto de sangue, se ela soubesse que ele não iria ajudá-la e sim se fazer de estatua ela teria batido na cabeça dele com a arma.
Os guardas tentaram avançar, mas Cherry foi mais rápida e agarrou um menininho que estava reclamando ao lado da mãe pelo colarinho e apontou a arma para a cabeça dele, fazendo com que todos restringissem suas ações.
—Ninguém se mexe ou eu atiro na cabeça dele, e eu não estou por brincadeira. —Ela disse com a voz confiante.
A mãe gemia, tremia e soluçava. Sua cara estava coberta por muco e lagrimas.
—P-por favor, na-não machuque o meu filho! Pegue-me no lugar dele moça. —A pobre mulher implorava.
Cherry sentiu cócegas na barriga de vontade de rir.
Rey continuava parado com o revolver em punho olhando para nenhum lugar especifico.
—Hey você! Se fosse pra ficar olhando teria te deixado lá fora, faça alguma coisa útil e pegue a mulher. Já que ela quer tanto ajudar. —Cherry disse apontando para Rey.
Ele pestanejou voltou a realidade e fez como lhe foi ordenado. Puxou a mulher pelo cabelo apontando a arma na cabeça dela. Os guardas continuavam impotentes perto da porta, Cherry com certeza sabia atirar melhor do que eles, o que felizmente mostrava que eles não demonstravam nenhum perigo para ela.
Cherry virou-se na direção do caixa onde todos os atendentes estavam parados com as mãos para o alto e um olhar peculiar de pânico nos olhos. Não era muito intenso, talvez eles não estivessem a levando a sério o suficiente, talvez esse tipo de coisa fosse rotineira ‘’oh sim Bobby o que você comeu ontem no jantar e oh droga, espere um momento que estamos sendo assaltados. De novo!’’
—Quem é que tem a chave do cofre? —Cherry perguntou com calma.
—O que você vai fazer? — Rey perguntou ao seu lado.
Se ela não estivesse ocupada segurando o pirralho que não parava de chorar, ela teria dado uma coronhada em Rey.
—Fazer uma copia e colocar em um chaveiro. O que você acha que eu irei fazer seu retardado? Vamos eu fiz uma pergunta e quero uma resposta. E abaixem essas porcarias de braços que vocês estão ridículos.
Os atendentes fizeram como ordenado e abaixaram os braços. Os guardas continuavam em posição de defesa em ter muito que fazer.
—Largue a arma senhora! Você também, o cara alto de bigode, coloque a arma no chão e vocês podem sair daqui ilesos! — O guarda mais forte gritou pelo vidro, Cherry optou por ignorá-lo.
—Oh esperem. Eu mudei de idéia, ergam os braços novamente. Isso aqui é um maldito assalto então é melhor que comecem a agir como um. Onde está a porra da chave do cofre? —Cherry estava começando a ficar alterada.
Todos ergueram as mãos rapidamente. A mãe do menino choramingava ao redor de Rey para que Cherry soltasse a criança, toda aquela gritaria estava deixando-a confusa.
—O que eu faço? — Rey era o mais perdido de todos, perguntou.
Isso estava um verdadeiro desastre.
—Calem a boca todos vocês. Vocês estão me dando dores de cabeça e eu não consigo me concentrar. Pra começar por você paizinho, você é o primeiro que tem que se calar! Quem tem a chave do cofre, andem logo que eu tenho mais o que fazer. —Cherry sentia a adrenalina passar por seu corpo.
Uma mulher asiática que estava no caixa com os braços erguidos fez a menção para falar balançando a cabeça.
—E-eu te-tenho. —Ela completou nervosa. —Eu vou te levar ao cofre, ma-mas por favor não nos machuque. —Ela implorou.
—Ótimo! Finalmente alguém colaborando! — Cherry empurrou a criança para ele andar.
—Eu quero a minha mãe! Manda ele soltar a minha mamãe! —A criança retrucou.
Cherry revirou os olhos. Puxou a orelha do menino com força.
—Cale a boca menino chato, anda Rey arraste essa mulher nos vamos ao cofre. O resto ninguém se mexe ou eu vou estourar os miolos de cada um. Meu carrinho de bebê está cheio de balas querendo ser usadas. —Cherry torceu a orelha dele com força, a criancinha gritou e começou a chorar mais alto.
—Não machuque o meu filho! — A mulher tentou se debater, mas Rey puxou o cabelo dela com mais força.
Cherry virou-se de costa segurando a criança e apontando a arma para a bancária com traços orientais, ela andava em passos lentos indo em direção ao fundo a onde o cofre ficava Cherry sabia disso, pois Anton tinha contado para a mesma.
Um homem baixo de cabelos loiros correu em direção de Cherry para tentar bancar o herói, na esperança de tirar a criança de seus braços. Cherry estava irritada desse tipo de gente. Ele sorrateiramente se esgueirou para tentar empurrá-la ignorando totalmente o fato de que era ela quem portava a arma.
—Cherry cuidado! — Rey gritou para avisá-la.
Cherry empurrou a criança em direção a parede, o menino bateu de cara contra a parede e caiu desmaiado no chão com o nariz sangrando, sua mãe soltou um grito. Isso era tudo o que ela não precisava no momento. Só estavam a atrasando para entrar no cofre. O rapaz chegou próximo dela para derrubá-la no chão, com o aviso de Rey (que finalmente mostrou alguma utilidade) ela apertou o gatilho da espingarda acertando o ombro do homem, que se ajoelhou no chão. Cherry aproximou-se dele.
—Então nós temos um herói aqui entre nós? É isso mesmo? Puxa o mundo precisa de homens assim valentes como você, não concorda comigo, paizinho? Uma pena que eu não precise de um herói. O que eu disse? Eu pedi apenas uma coisa, uma coisa bem simples. O que foi que eu pedi paizinho? —Cherry apontou a espingarda para o rosto do homem que gemia e se contorcia de dor.
Rey tentava tapar a boca da mulher que não parava de choramingar querendo correr para o filho desmaiado no canto do banco.
—Você pediu que todos ficassem quietos. — Rey respondeu.
Cherry assentiu.
—E o que você fez? Você tentou me atacar pelas minhas costas seu vermezinho desprezível. Eu que sou uma donzela. A onde está o cavalheirismo minha gente?
—Puta cretina... —O homem disse baixinho no chão.
Cherry sentiu um formigamento nas mãos.
—O que foi que você disse? Você me chamou de puta?
—E-eu não disse nada. —O homem respondeu.
—Calado! Se eu quiser que você fale eu vou me lembrar de pedir. Já que você é falante, vamos usar sua boca para outra coisa. —Cherry encostou o cano da espingarda na boca do homem, ele arregalou os olhos. Todos observavam atônitos. A mulher oriental continuava parada na frente do cofre com os braços erguidos.
—Mas eu não disse nada, sua puta louca! —Ele debochou.
Cherry encostou o cano mais rente à boca do homem.
—Chupe a minha espingarda. — Ela disse friamente.
—Pare com isso Cherry, vamos logo pegar o dinheiro e dar o fora daqui. — Rey protestou inconformado.
—Não, não paizinho. Ele não quis bancar o valente e tentar me derrubar? Vamos ver se ele sabe chupar tão bem quanto uma puta. Eu disse para você chupar a arma, se não fizer isso eu vou estourar a porra da sua cabeça vazia como um melão. — Cherry o desafiou.
O homem derramava uma poça de sangue pelo ferimento no braço que ele tentava controlar pressionando com a outra mão. Ele estava vermelho de raiva.
Cherry destravou a trava de segurança da arma.
—Isso não é um pedido. Ou você chupa, ou morre. Mostre-me do que é capaz. —Ela empurrou o cano com força na boca do homem que ouviu o som dos dentes dele se quebrando. Um filete de sangue escorreu pelo canto da boca. O rapaz soluçava, enquanto ela forçava a entrada do cano pela garganta dele, saliva vermelha escorria da boca dele.
—Isso, assim mesmo. Você está indo muito bem querido. Vamos engula essa arma até o final. Uma boa puta não vomita. — Cherry disse.
O homem chorava, e ela continuou enfiando a arma para dentro e para fora da boca dele, o homem fazia os reflexos involuntários de quem queria vomitar. E foi o que ele fez, vomitou sob a espingarda.
—Como eu desconfiava você não sabe fazer isso direito. Uma pena. — Cherry apertou o gatilho e todos gritaram.
Nada aconteceu a arma estava vazia. Ela pode ver a cor sumir do rosto dele.
Ela achou isso hilário e riu descontroladamente.
—Acho que hoje é seu dia de sorte tolinho! — Cherry tirou a arma da boca do homem e bateu com força contra o rosto do mesmo, derrubando-o para trás que caiu inconscientemente. Agora eram dois desmaiados e um morto até o momento.
—E você, o que está esperando? — Cherry tirou algumas balas do decote do vestido e colocou na espingarda. — Abra logo esse cofre que eu não tenho o dia todo. Venha paizinho. — Cherry disse se aproximando da entrada do cofre.
A atendente fez como lhe foi ordenado, abriu a pesada porta de metal revelando uma imensidão de dinheiro sobre dinheiro, dispostos em maletas, prateleiras separando as notas e os valores, malotes de dinheiro. Uma imensidão verde sem fim que fez seus olhos brilharem. Se pudesse mandariam todos embora e se trancaria ali dentro para o resto de seus dias. Infelizmente não podia fazer isso.
—Anda paizinho, encha o carrinho com todo o dinheiro que você conseguir colocar. — Cherry passou os olhos pela prateleira até encontrar a maleta preta no canto direito embaixo da terceira prateleira, como Anton lhe tinha instruído, ali dentro estavam as promissórias.
—Mas e essa mulher? — Rey perguntou confuso. Às vezes ela tinha vontade de colocar uma bala no meio dos olhos azuis dele.
—A solte paizinho, e depois encha o carrinho. Tudo bem? —Cherry disse pacientemente indo em direção a mala e a segurando. —Ande logo que já enrolamos tempo demais aqui dentro.
Rey empurrou a mulher para fora do cofre, que foi se arrastando em direção ao filho desmaiado. Rey foi direito nas notas mais altas, derrubando mais dinheiro no chão do que colocando dentro do carrinho.
—E o que nós vamos fazer com ela? — Rey apontou para a bancária asiática que estava encolhida em um canto do cofre.
Cherry tinha se esquecido da presença dela.
—Isso não é nenhum problema. Posso resolver de maneira fácil. — Ela mirou primeiro no peito da mulher e desferiu três tiros, ela caiu agoniando no chão. Depois deu dois no rosto arredondado dela, só para se certificar que ela não ia contar o que tinha visto ali dentro.
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Rey não dirigia, corria com o caminhão a toda velocidade, voltando para o motel de beira de estrada a onde estavam abrigados. Desde a noite em que ela tinha entrado na água com ele eles não tinham trocado muitas palavras, o que era algo bom, pois, Cherry nem sempre gostava de conversar.
—Isso foi maravilhoso, não foi paizinho? — Ela batia com os pés no painel do caminhão.
—Não, isso foi estúpido e arriscado. Você não precisava ter matado aquele cara, e nem empurrado aquela criança. Que merda foi aquela com o cara chupando a espingarda? O que há de errado com você? — Ele disse irritadiço.
Cherry estudou o semblante fechado de Rey, que dirigia com um cigarro na boca, maxilar travado, olhos azuis escondidos atrás de óculos escuros e o bigode feio loiro despenteado.
—Você é um tremendo estraga prazeres paizinho. Isso foi divertido, mas você é velho e chato e não sabe apreciar as coisas boas da vida.
Ele lançou um olhar furtivo para ela.
—Você chama de diversão atirar em pessoas e assustá-las? Jesus Cristo menina, o que há de errado com você?
—Comigo? — Ela perguntou inocentemente. — Não me diga que você nunca fez nenhuma travessura? Você nunca foi um menino mau paizinho? Oras você já foi preso, deve ter feito algo muito de errado.
Ele continuava emburrado.
—Não quero falar sobe isso. Vamos mudar de assunto. Sobre qual é o seu nome verdadeiro por exemplo.
Ela riu sarcasticamente e colocou a mão na coxa de Rey.
—Boa tentativa de desviar o assunto. Tudo bem, você venceu. Eu não pergunto mais sobre isso e você não pergunta sobre o meu nome. Velho rabugento.
—Não sou velho, você que é nova demais. Seu nome deve ser muito feio para você não querer me contar. — Um leve sorriso brotou no rosto dele.
Cherry apertou a coxa dele.
—Não gosto do meu nome, não gosto das pessoas que me chamam por ele. Você não me chama por meu nome e eu gosto um pouco de você, se você começar a me chamar pelo meu verdadeiro nome talvez eu deixe de sentir alguma empatia por você. — Na realidade Cherry não sentia absolutamente nada por aquele pobre homem, mas era divertido brincar com os sentimentos dele.
Rey corou como um adolescente, seu sorriso aumentou.
—Então você gosta de mim?
Ela não devia ter dado a brecha.
—Não coloque palavras na minha boca, nunca disse que gostava de você. Eu disse que gosto um pouquinho da sua companhia, trate de tirar esse sorriso bobo do rosto. Olhe chegamos ao motel, estou exausta. Assaltar bancos cansa sabia?
Rey balançou a cabeça estacionando o caminhão.
—Pra que serve essa mala preta no seu colo? —Ele perguntou tocando a maleta no colo dela.
Cherry tirou a mão dele delicadamente.
—Nada que te interessa, o dono vai vir buscar mais tarde. — Cherry bateu a porta ao sair do veiculo.
Mais tarde naquela noite ela estava deitada na cama mudando de um canal para o outro, enquanto Rey tomava um banho demorado, talvez ele estivesse se masturbando, não sabia dizer por que a idéia lhe causava certo arrepio. Nunca conhecera um homem que gostava tanto de um banho, ele tomava cerca de três por dia. Talvez na prisão ele fosse privado de tal privilegio.
—Que tal? — Rey perguntou parado ao seu lado.
Cherry não deu muita atenção e continuou a olhar para a televisão.
—Que tal o que? —Ela perguntou entediada.
—Olhe para mim. — Rey insistiu. Se ele fosse mostrar uma ereção, ela iria atirar nele.
Rey estava usando só uma toalha branca do motel em torno da cintura, tinha diversas tatuagens borradas e inteligíveis feitas á mão na cadeia provavelmente pelo abdômen e braço. Sua maior surpresa foi ver o rosto limpo do homem. O bigode nojento tinha sumido. Ele poderia ser considerado atraente sem ele. O rosto magro, o maxilar quadrado. Nariz um pouco torto deveria ter sido quebrado, profundos olhos azuis e as sobrancelhas claras em contraste com o cabelo cor de bronze molhado.
—Quem é você, e o que fez o paizinho? — Cherry brincou.
—Ficou bom? — Ele perguntou ansioso.
—Porque você tirou o bigode? Desistiu de participar da indústria pornográfica?— Ela perguntou em escárnio.
—Estava cansado daquela coisa em cima da minha boca, e depois de hoje fiquei com medo que me reconheçam na rua pelo bigode. Você sabe depois que saímos do banco. —Ele justificou.
—Uma sábia escolha. Então o que você quer fazer? — Cherry estava com fome, pensou em pedir que ele fosse comprar alguma coisa.
—Eu vou foder com você agora. —Ele disse sério.
Ela não conseguiu conter o riso.
—Sim claro. Estou falando sério, estou com fome vá buscar alguma coisa para comermos, paizinho.
—Não. Eu vou comer você agora garota. —Ele tinha um tom pesado na voz.
—Tirou o bigode e está se achando o comedian... — Antes de terminar a frase Rey grudou no seu couro cabeludo e puxou da cama. Cherry arregalou os olhos e tentou se debater. Mas ele a virou de costas batendo seu rosto com força contra a parede do quarto. Seus dedos apertavam seu couro cabeludo fazendo sua cabeça doer e queimar.
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