Putrefy
6 Green and Blue
Notas iniciais
Seus olhos desiguais o perseguiam pelo cômodo. Ele estava começando a ficar impaciente e sua mão latejava. Aquilo precisava ser feito, ele não tinha outra alternativa, nunca houvera uma escolha diferente e as coisas teriam que fluir de acordo com seu curso natural. Ele precisava se agarrar fielmente á isso e acreditar.
—Não acredito que você está fazendo isso comigo! Depois de tudo! Maldito seja você! Seu cretino! —Sua voz tinha se tornado apenas um eco que insistia em martelar no fundo de mente vazia e dolorida.
Estava tão fria aquela noite, talvez ela precisasse de um cobertor para se aquecer. Ele pensou que ela iria gostar disso, mas não importava o que fizesse ela não deixava de ser fria. E nunca respondia ao seu toque, as suas carícias e as suas longas investidas noturnas.
No final o cheiro não era tão desagradável, uma nuance podre estava se tornando doce e dançava em suas narinas dilatadas.
*************
Ela se trocava enquanto ele terminava de comer um salgadinho que tinha pegado na maquina de doces do motel. A TV estava ligada em um programa sobre financias, em que o tal milionário que Cherry tinha comentado que conhecia estava dando uma entrevista. O sujeito não era de todo desagradável aos olhos. Tinha um nariz adunco, grossas sobrancelhas grisalhas, pequenos olhos castanhos que eram bem juntos. Uma boca fina e um cabelo grisalho penteado para trás. Sua barba era salpicada de tons de cinza. James Rey Furnier coçou o bigode loiro e pensou se esse era o tipo de homem que chamava a atenção da stripper.
—Preciso que você me leve até a mansão dele, paizinho. Tenho algumas coisinhas para resolver com ele. —Ela disse enquanto saia do banheiro com um vestido curto branco. Ele era liso e sem mangas também tinha um zíper dourado nas costas. Era um bom vestido não algo barato, Rey se perguntou a onde a garota o tinha conseguido. —Você está ouvindo o que eu disse? — Ela parou na frente da TV, seu olho esquerdo estava estranho. Irritadiço e vermelho.
—Levar você na casa do velho. Entendi não sou estúpido. Saia da frente que eu estou tentando ver a televisão. —Ele disse sem pestanejar.
Ela coçou o olho esquerdo com a palma da mão e arqueou a sobrancelha.
— Oh paizinho! Você não entende porcaria nenhuma do que essas pessoas estão falando mesmo. Você se importa? — Ela disse se virando e mostrando as costas nuas para ele subir o zíper do vestido.
O zíper vinha do cóccix até a omoplata, era brilhante e dourado, subindo o zíper Rey teve vontade de tirar o vestido dela e a possuir ali no chão. Obviamente não ia fazer isso. Ele era muito covarde para fazer tal coisa.
—Obrigada paizinho. Não se esqueça que depois nós vamos roubar um banco. — Ela se sentou na cama para calçar um par de sapatos de salto brancos que trazia na mala.
—Isso é algum tipo de brincadeira?
A entrevista tinha acabado e outro programa tinha começado a ser transmitido.
—Não, paizinho. Estou falando sério. Precisamos de dinheiro. Não é nada demais, e não é um banco assim tão grande e você deve ter alguma experiência em roubos, não é mesmo? — Ela disse sugestivamente.
Ele não queria falar sobre isso.
—A onde você arrumou esse vestido chique?
—Anton me deu de presente. Ele gosta que eu fique bem vestida quando vou ter com ele. Droga! Isso está me irritando. — Ela disse coçando o olho esquerdo que estava vermelho e lacrimejante. Seus lindos olhos verdes inanimados.
‘’Agora no canal 10, você está assistindo ‘’Caçando Criminosos’’ seu programa número um dos criminosos foragidos mais procurados dos Estados Unidos’’ Uma voz feminina anunciava na televisão.
—O que diabos têm de errado com o seu olho? Você pegou conjuntivite ou alguma coisa assim? — Rey perguntou preocupado.
—Ah isso? Não é nada. É culpa dessa maldita lente de contato que está irritando meu olho. Mas se eu tirar e lavar já vai passar. —Ela disse enfiando o dedo dentro do olho, Rey não sabia por que ela usaria lentes de contato.
‘’...também conhecido como Assassino das flores tem aterrorizado o país, se tiverem alguma informação sobre este homem entrem em contato com a polícia do estado da Califórnia. Voltando para nossa Lousiana, um terrível homem... ’’ Rey desligou a televisão. Esses noticiários sangrentos o irritavam com suas manchetes sensacionalistas.
—Você usa lentes de contato? Pra que? Seus olhos são lindos?
Ela estava de cabeça baixa fuçando no olho esquerdo.
—Você que pensa. Não uso lentes, apenas uma lente. Tudo por causa dessa maldita Heterocromia. —Ela segurava algo brilhante na ponta do indicador. Quando ela subiu o rosto ele viu que seu olho verde esquerdo estava azul, e o direito continuava verde.
—Hete... O que? Mas que porra é essa nos seus olhos, menina? —Rey não pode deixar de se espantar, ela tinha um olho de cada cor, de toda forma talvez esse fosse seu único defeito.
—Heterocromia, é uma anomalia genética eu li em um livro uma vez, faz com que você nasça com um olho de cada cor. É horrível eu sei. Quando eu comecei a trabalhar no Boca, logo que ajuntei uma grana comprei um par de lentes verdes, apesar de eu não usar as duas, apenas uma. Ah você entendeu. —Ela disse irritada. Os olhos desiguais só acentuavam sua beleza olhando mais de perto.
—Nunca tinha visto isso antes. Seus pais têm olhos de cores diferentes? — Ele se atreveu a perguntar.
—Minha mãe tem olhos azuis, se meu pai tem olhos verdes eu não sei, nunca o conheci. Ele abandonou minha mãe antes de eu nascer. —Ela disse com uma súbita melancolia. —Então, tudo pronto? Vamos paizinho, temos um longo dia pela frente. —Ela disse estendendo á mão para Rey.
Enormes portões de ferro com gárgulas no topo adornavam a frente da mansão de Anton Von-John. Eles estavam fortemente guarnecidos com seguranças. Os portões eram ameaçadores, Rey julgava que tivessem cerca de cinto metros de altura, mas ele nunca foi muito bom em contas. Uma coisa era certa: eles eram amedrontadores.
Cherry se inclinou sob Rey para falar com um segurança pela janela do caminhão, ela tocou a virilha de Rey com a palma da mão. O homem sentiu o sangue borbulhar.
—Hey Lucas como está? — Ela massageava a virilha de Rey.
—Cherry, o patrão está esperando por você. — O segurança tinha um sorriso bobo para a garota. Rey se sentiu incomodado.
Com um comando de Lucas, os enormes portões eletrônicos foram abertos, Rey entrou vagarosamente. Havia um pequeno caminho de pinheiros até chegar á mansão.
Cherry procurava alguma coisa dentro de sua bolsa.
—Você fica dentro do carro, tudo bem paizinho?
—E eu tenho outra escolha? O que diabos você vai fazer lá dentro com esse homem? —Ele perguntou desconfiado.
Ela tirou uma pequena pistola de dentro da bolsa, Rey arregalou os olhos.
—Mas... Mas que porra é essa? Abaixe isso! Você viu o tamanho daqueles caras no portão? Se nos virem com isso vão nos furar feito uma peneira.
Ela riu e tocou o rosto de Rey com as longas unhas vermelhas pontiagudas.
—Paizinho, você é uma figura sabia? Nem todos podem espremer as tetas que sai petróleo jorrando, alguns precisam de outros meios para isso. — Ele não entendeu o que ela quis dizer com isso. —Relaxa isso aqui é para você. Só por precaução vai ficar aqui no carro com você, use a caso for necessário.
—E como eu vou saber se é necessário? —Ele perguntou confuso.
Ela rolou os olhos de cores diferentes.
—Quer saber? Deixe-a dentro do porta-luvas certo? Melhor nem mexer com ela se não é perigoso que você acabe atirando no próprio saco. Volto em um minuto e não saia daqui, paizinho. — Ela se inclinou e deu um beijo quente na bochecha de Rey. Ele sentiu um formigamento no rosto.
Ela não andava como uma pessoa normal desceu do carro e alisou o vestido. Dando pulinhos ao invés de andar ela foi indo até chegar à enorme porta branca de madeira. Bateu algumas vezes e logo foi atendida, entrando no enorme casarão.
Agora era só esperar ela resolver sabe se lá o que.
Rey não estava nem um pouco curioso. Ele estava muito curioso. Mil e uma coisas passavam por sua mente, aquela garota o estava tirando fora dos eixos e nem ele mesmo sabia por que atendia todas as vontades dela, isso não fazia nenhum sentindo. Estaria ele tornando-se um capacho vivendo apenas para os caprichos dela?
O homem ligou o rádio para ver se um pouco de música mudaria a direção de seus pensamentos. Sintonizou em uma estação country. Dolly Parton implorava com sua voz adocicada para que uma mulher chamada Jolene com flamejantes cachos de cabelo castanho avermelhado, com pele de marfim, os olhos verde esmeralda e um sorriso que é como um sopro de verão que não tirasse dela seu homem. No final das contas era uma música agradável.
Confortavelmente jogou as pernas sob o volante e tentou absorver a paisagem do local. Estava entardecendo, o local era cercado por altos pinheiros que invadiam o carro com seu cheiro refrescante. No central do pátio havia um enorme chafariz jorrando água por um balde preso nas mãos de um querubim de marfim. Era grande e luxuoso Rey nunca tinha visto nada assim na vida. Se era assim por fora, imaginou como seria por dentro...
Resolveu afastar o pensamento, ascendeu um cigarro de Cherry que ela havia deixado no console do carro. Ele era fino e tinha gosto de cereja o que era muito propicio. Olhou para o outro lado e alguns carros estavam estacionados em fileira, uma Ferrari vermelha, um conversível preto, e outros que ele não sabia identificar. Por um momento sentiu que estava dentro de uma carroça e ele era o burro puxando.
Tragou o cigarro enjoativo era uma maneira bonita de morrer de câncer, com gosto de doce na boca. Olhou o relógio de pulso, marcavam dez para as sete. Arrumou o retrovisor e viu seu reflexo. Sua aparência não era das mais bonitas. O bigode desalinhado, a barba por fazer e os olhos azuis tão brilhantes quanto um peixe morto. Não era de se espantar que Cherry não quisesse nada com ele. Talvez tomar um banho de vez em quando e se barbear não fosse fazer nenhum mal.
Rey fechou os olhos, talvez cochilar fizesse com que ele parasse de querer se meter a onde não era chamado. Fechou os olhos e a imagem de Amélia e as crianças veio imediatamente em sua cabeça. Com seus rostos pálidos e olhos assustados. Dez anos depois e todas as noites quando ele tentava dormir eles voltavam para assombrá-lo.
Cansou de ficar esperando, não iria matar se ele fosse sondar rapidamente o que Cherry estava fazendo naquela casa. Afinal de contas o que ela poderia estar fazendo de tão importante com um velho milionário lá dentro há tanto tempo? Desceu do caminhão e caminhou lentamente em direção á entrada da mansão. Os seguranças perambulavam livremente ao redor do local. Rey não queria despertar suspeitas então tentou andar normalmente. Sim ele era apenas um sujeito comum que estava ali de passagem. Era difícil se agarrar á essa idéia quanto se tinha uma pistola escondida na parte de trás das calças.
Tentou rondar o perímetro de forma casual, sem levantar grandes suspeitas. Os seguranças ignoravam completamente sua existência, ninguém estava realmente prestando atenção no homem com chapéu de cowboy parado ao lado de fora. Todos tinham coisas melhores para se preocupar e Rey era insignificante demais para merecer algum tipo de atenção. O que era um bom sinal para ele, sendo assim ninguém iria notá-lo entrando na casa.
Silenciosamente abriu a porta, um grande hall de entrada estava á sua frente. Com grandes sofás de couro branco combinando com a mobília antiga, um grande lustre cravejado de cristais pendia do teto, que era adornado com pinturas antigas semelhantes á capela Sistina. Peças e quadros de arte que Rey não sabia identificar estavam espalhados pelo cômodo, que tinha uma larga escada cor de marfim no meio levando a duas varandas superiores a onde deveriam ser os outros aposentos. Rey lembrou-se de fechar a boca antes que alguma mosca entrasse dentro dela. Ao centro da sala havia uma lareira acesa e logo acima dela uma enorme pintura a óleo do mesmo sujeito que Rey tinha visto na televisão, o dono da ‘casa’. O todo poderoso Anton Von-John. Suas sobrancelhas grossas e o olhar duro julgava Rey pelas paredes, como se ele fosse um intruso, uma barata que havia subido á mesa de jantar. Rey resolveu ignorar o que via e subiu as escadas, até o momento não tinha nenhum sinal de Cherry.
O andar superior era tão grandioso quanto o inferior o que não era exatamente nenhuma surpresa, julgando por essa ser a residência de um magnata do petróleo local. Louisiana não era abastecida apenas pela pesca e caça de seus pântanos, nem pelas lendas de magia negra. A única coisa negra que dominava aquela região era o petróleo e até um cara estúpido como Rey sabia disso.
Uma larga porta de madeira entalhada estava entreaberta, Rey ouviu o risinho de Cherry ecoando pelos vãos, esgueirou-se na beirada para espiar o que estava acontecendo.
Anton Von-John estava sentado em uma larga poltrona vermelha e Cherry estava sendo embalada em seu colo sussurrando alguma coisa em seu ouvido, como se fossem velhos confidentes, Rey sentiu a mão coçar e a levou em direção á arma apenas por precaução.
—Oh paizinho! — Ela dizia com a voz manhosa. — Isto é o paraíso na terra. Sentia falta de nossos encontros, você me faz tão bem, sabia disso? — Ela chamava o velhote da mesma maneira que chamava á Rey. Talvez ele não fosse único.
Ele acariciou os longos cabelos que ao contraste da lareira do quarto não eram da cor negra, mas sim cobre. No dedo mindinho dele havia um anel de prata com alguma inicial gravada, Rey forçou a memória a se lembrar a onde havia visto isso antes. Sim claro! Na Boca do Inferno o velho tinha se sentado uma noite ao lado de Rey para babar por Cherry. No momento Rey estava tão hipnotizado que não tinha dado muita atenção ao sujeito, mas se lembrava do anel em questão.
—Oh eu já ia me esquecendo minha querida. Antes de tudo eu tenho um presente para você. — A voz dele era grave e fazia a porta que Rey estava encostado tremer.
O velho se levantou e foi até uma escrivaninha. Os olhos desiguais de Cherry o acompanhavam com ansiedade. Os olhos azuis de Rey acompanhavam cada movimento da garota. O velho voltou com uma pequena caixa de veludo preto na mão.
—Isso nem se compara a beleza de seus olhos que é infinitamente ampla como um oceano e um rio. — Ele tocou o rosto pálido da garota. Ela fumava um cigarro dentro do quarto. —Mas acho que por hora vai servir para... Acentuar sua beleza. — Ele disse abrindo a caixa, Rey não pode ver o que tinha dentro, mas os olhos distintos de Cherry se arregalaram em surpresa.
—Isso é o que eu estou pensando que é? Oh paizinho, você é tão generoso! —Ela se aproximou do velho e depositou um beijo demorado nos lábios enrugados dele. Rey sentiu o frio do aço da pistola contra sua mão. Ele estava empunhando-a.
—Sim, minha querida. É um colar alternado de safiras e esmeraldas para elogiar a beleza, que nem de perto se compara, de seus olhos. Vire-se para que eu o coloque em você. — Ela dava pulinhos de alegria enquanto o velho puxava o cabelo dela, cheirava seu pescoço e colocava o colar. Rey ouviu um click. Tinha destravado a arma.
O velho parou.
—Você ouviu alguma coisa? — Ele perguntou.
Cherry negou.
—Acho que o assoalho rangeu. Oh paizinho! Estou tão feliz! Esse é o presente mais maravilhoso que eu já ganhei. Sua mulher não vai se importar de você me dar um presente tão caro?
—Minha mulher não se mete entre meus negócios. Ela não tem olhos tão bonitos como os seus para serem elogiados. — Ele passou os dedos velhos pelas costas dela, abrindo o zíper dourado do vestido. — Você já está usando outro colar querida, não sabia que era religiosa. — O velho disse pegando a cruz no pescoço de Cherry.
—Oh isso? Uma garota deve manter-se as suas origens não é mesmo paizinho? Vamos parar de conversar e tire logo esse vestido. — Cherry ergueu as penas desvencilhando-se da peça de roupa.
—Tudo o que eu quero que você vista são esses colares. —O velho disse com a voz impregnada de desejo.
Rey sentiu o gosto da bílis na boca. Se ele não saísse logo dali iria disparar a arma. Tão rápido quanto entrou, ele saiu da casa. Vomitou tudo o que tinha no estômago no chafariz e voltou para dentro do caminhão tentando afastar a imagem de sua mente.
Pouco tempo depois Cherry voltou para o caminhão e cutucou Rey que estava cochilado.
—Vamos paizinho. Terminei o que tinha para fazer. — Ela exibia orgulhosamente o colar de duas cores no fino pescoço.
—Cherry, o que você fazia lá dentro? —Rey perguntou vagamente.
Ela piscou os olhos inanimados e desiguais.
—Eu estava tratando de alguns negócios, já disse. Não seja curioso, paizinho.
—Mentira. O que é isso no seu pescoço?
—Me desculpe? A onde você quer chegar? — Ela perguntou confusa.
—Eu disse que você é uma puta mentirosa. Você não quer ficar comigo porque eu não posso te pagar é certo? Você não me disse que seus ‘’negócios’’ fazia parte eu ficar te levando para se prostituir por ai. Você é uma puta. Uma grande cade... — Antes de terminar a frase Rey sentiu a face arder. A desgraçada tinha virado um tapa no rosto dele.
—Nunca mais use esse tom de voz comigo. Nunca mas me chame de puta. Eu já disse não sou puta. Ganhei esse colar porque Anton se importa comigo, o que é algo que um idiota perdedor como você não deve saber o que é. Eu disse que você poderia me ajudar, mas não ficar no meu caminho. —O tom de voz dela era cortante.
—Porque você fica com ele? O que faz dele melhor do que eu? Só porque eu sou um ninguém perto dele? Ótimo! Desça da porra do meu caminhão e peça pro seu velho rico te ajudar a esconder a merda de um corpo no maldito pântano. Peça pra ele te ajudar a roubar a merda de um banco.
Cherry sorriu.
—Então é disso que se trata? Orgulho ferido? Será que eu vou ter que te ensinar tudo, paizinho? Quando você vai entender que a consciência humana foi um trágico passo em falso na evolução. Nós nos tornamos autoconscientes demais. A natureza criou um aspecto distinto de si mesma. Somos criaturas que não deveriam existir segundo a lei natural. Somos coisas que operam sob a ilusão de possuírem uma identidade. Esse acréscimo de experiência sensorial e de sentimentos é programado com a total garantia de que somos alguém quando, na verdade, todo mundo é coisa nenhuma. Não passamos de parasitas andando por esse mundo paizinho. Alguns estão dispostos a oferecer mais do que outros. Apenas dirija e saia dessa casa.
Rey ficou surpreso com a quantidade de sabedoria que aquela garota entre seus tenros anos podia absorver como uma esponja. Ele não tinha idéia de onde ela tirava essas coisas.
Rey dirigia pela estrada escura sem trocar uma palavra com Cherry. Como de costume ela interrompeu o silencio.
—Está absurdamente quente esta noite, não acha paizinho?
Rey pensou em ignorá-la, mas se lembrou que ela não reagia exatamente muito bem á esse tipo de coisa.
—Quente como o inferno. — Ele respondeu.
—Você nunca esteve no inferno, como poderia saber?
—Já estive na prisão, o que é quase a mesma coisa.
Ela riu. Seu riso era doce e melódico.
—Você não sabe de nada não é mesmo paizinho?
—E o que você poderia saber a respeito do inferno?
Ela suspirou colocando os pés no console.
—Se existe um inferno, nós estamos vivendo nele neste exato momento. Quando você deixa o diabo entrar na sua casa, você percebe que o inferno não é nada comparado á se deitar com ele.
Ela estava começando a assustá-lo.
—O que você quer dizer com isso?
—Nada paizinho. Não se preocupe com o que eu digo na maioria das vezes as palavras são o vento. Veja! — Ela rapidamente mudou sua postura. —Um rio logo ali na frente.
—Isto não é um rio, é a porra de um pântano. E está de noite deve ter cobras lá. Nem pense nisso.
—Paizinho, por favor. Eu tenho uma cobra de estimação. E está tão quente. Você não gostaria de se juntar á mim para tomar um banho de rio sob as estrelas? —Ela perguntou inocentemente.
Quase que imediatamente Rey parou o caminhão. No final das contas ele não tinha tanto medo assim de levar algumas picadas de cobras.
Cherry foi a primeira a se despir e correr para dentro da água, ela não tinha nenhuma inibição com o seu corpo. Ficava ainda mais tentador no escuro com apenas o brilho das estrelas. Talvez isso fosse um convite para Rey avançar o sinal.
—Você não vai entrar paizinho? A água está uma delícia. — Ela espirrou um pouco de água na direção de Rey.
—Não sei se devo. Parece-me meio perigoso ai dentro.
—Não seja tímido, paizinho. Não tem nada ai que eu não tenha visto antes. Não se preocupe, não irei tirar nenhuma virtude sua. —Ela disse inocentemente.
Rey despiu-se e entrou na água. O primeiro toque gelado fez seus pêlos se arrepiarem. Ela era uma eximia nadadora, fazendo acrobacias na água escura. Ele não tomava um banho de rio á anos. Nem se lembrava quando fora a última vez.
—Viu eu disse, não tem nada de errado sermos naturais. Não sei por que todo esse pudor com nossos corpos. —Ela se aproximou. Rey temia que ela chegasse mais perto e notasse sua ereção. Não sabia o que poderia fazer se ela se aproximasse demais.
—A água está gelada. Deve ter cobras aqui em baixo, acho que senti uma se roçando nos meus pés. —Rey tentou mudar a direção da conversa. Ela continuava avançando. Perto demais, perigoso demais...
—Qual é o problema paizinho? Você é muito ranzinza já te disseram isso? — Uma vez uma mulher com cabelos cor de palha tinha lhe dito isso, pouco tempo depois ele tinha se casado com ela e tido dois filhos, não queria se recordar disso, não agora. — Se a água está tão fria, deveríamos ficar bem próximos. Você poderia me proteger do que quer que tenha dentro dessa água. — Ela chegou bem perto dele. Ele sentiu os seios dela tocarem seu abdômen. Sabia que pela altura de ambos ela sentiria a ereção dele na sua barriga. —A não ser que você não possa me proteger de si mesmo. O que você me diz, paizinho?
Ela estava perto demais, isso estava se tornando perigoso.
—Eu não acho nada. Está ficando tarde, deveríamos voltar para o motel. —Ele tentou se esquivar. Não sabia se esse era mais um dos joguinhos mentais dela. Tinha cansado de tentar decifrar aquela mulher, porque ela o tentava tanto e mostrava interesse e depois o repelia?
—Eu acho... — Ela entrelaçou os braços ao redor do pescoço dele. Ele sentia o corpo gelado dela contra o seu. —Que quando você quer muito uma coisa, não saberia o que fazer se tivesse a oportunidade de tê-la.
Ela se aproximou dele e encostou seus lábios nos dele. A princípio ele achou que ela estava brincando até perceber que ela demorou tempo demais com os lábios encostados aos seus. Ele não sabia como responder se deveria tomar uma atitude ou esperar algo dela. Ela abriu os lábios para dar passagem à língua dele, virando o rosto para moldar-se á face de Rey. Ele tomou isso como um sinal e avançou, explorando sua boca. Não queria parecer feroz demais, mas a realidade era que estava faminto. Ela se movia lenta e graciosamente contornando sua língua com destreza. Ele travava uma batalha dentro da boca dela, brigando com seu próprio desejo interior. Ela abriu os olhos desiguais e sorriu.
—Eu não disse que você não saberia o que fazer? — Ela descolou o rosto do dele. — Vamos embora antes que você goze nas minhas coxas. Teve sua oportunidade cowboy, e não soube usá-la. — Cherry saiu da água gelada deixando Rey na mão. No sentido figurado da palavra.
Quando voltavam para o motel uma viatura de policia passou ao lado deles. Rey se esquivou abaixando-se no banco.
—Qual é o seu problema? Ninguém vai te prender por respirar. Meu Deus, relaxe homem. — Ela disse zombando.
Rey se arriscou e a ignorou. Todo cuidado era pouco.
Naquela noite enquanto estava deitado no chão frio não conseguiu dormir novamente, tinha medo de fechar os olhos e sonhar, sonhos desagradáveis de coisas que o podiam morder. Tinha medo que toda a podridão o sugasse para dentro e não o deixasse escapar nunca mais. Não conseguia se perdoar por ter tido a oportunidade de ter a mulher de seus sonhos e ter ficado paralisado para fazer alguma coisa a respeito. O medo dominava seu corpo, como ela havia dito ele não saberia o que fazer.
N amanhã seguinte estavam parados na frente do banco. Ele insista que deveriam usar máscaras, se iam roubar um banco deveria ser como ele tinha visto nos filmes. Os assaltantes raramente deixavam que suas vítimas vissem seus rostos. Ela riu em deboche dele.
—Mas qual é a graça se eles não nos virem? Se não gravarem nossos rostos e ficarem todas as noites pensando em nossa imagem, a face que vai dar calafrios para esses pobres coitados para o resto de suas vidas? Qual é o ponto de fazer um assalto se não podemos ter nem um pouco de crédito sobre isso? — Ela perguntou naturalmente.
—Estou começando a me perguntar se você quer fazer isso porque precisa de dinheiro ou pela fama.
—Não faça perguntas paizinho, elas podem te cansar e você se você já não funciona muito bem quando não tem questões na sua cabecinha, imagine se estiver cansado. Isso é excitante não acha? — Ela disse pegando uma espingarda que estava na parte de trás do caminhão. Essa era de Rey ela insistira em usá-la. Ele iria se contentar com o revolver. Ela tinha garantido que ninguém iria se ferir, mas uma pessoa já o tinha alertado que palavras são o vento.
—Nós vamos entrar lá dentro, pegar o dinheiro e ir embora certo? Já disse que não quero me meter em encrencas. Não quero ir preso de novo.
—Talvez você deva raspar esse bigode e tirar esse ar de ator pornô dos anos setenta. Ficará mais difícil de te reconhecerem depois disso. — Ela passou os dedos pelo bigode loiro do homem.
—Está pronto paizinho? — Ela tinha colocado uma barriga falsa para fingir que era uma gestante. Colocara a lente de contato verde esquerda de volta. Segundo ela ninguém suspeitaria de um simples casal. Uma mulher grávida e seu marido indo fazer um saque. O diabo estava nos detalhes, e ela tinha pensado meticulosamente em todos eles. Perguntou-se á quanto tempo ela vinha planejando isso.
—Porque eu? Porque entre todos os homens você me escolheu para fazer parte disso? Sou tão estúpido assim?
Ela tocou seu rosto.
—Não se menospreze paizinho, você foi o único estúpido o suficiente para aceitar tudo o que eu pedi apenas isso. Vamos lá! Vai ser divertido, algo que poderemos contar para os nossos filhos. — Ela disse colocando a mão na barriga falsa.
Rey escondera sua arma dentro da calça jeans. Cherry sua espingarda dentro do carrinho de bebê que levava, ela obrigara Rey a comprá-lo antes de irem até o banco. Nenhum detalhe poderia escapar.
—Não vai ter detector de metais para nós. Eles vão nos deixar entrar pela porta normal por causa do carrinho de bebê, até os guardas tem dignidade. Nenhum revistaria uma pobre mãezinha. — Cherry disse convicta.
Rey não sabia quando os guardas tinham se tornando tão estúpidos, mas ela tinha razão, assim que se aproximaram pela porta e o carrinho de bebê não coube, rapidamente abriram a porta lateral para o que os dois passassem. Os patifes estavam ocupados demais discutindo sobre o placar de um jogo para darem alguma atenção ao casal que entrava no estabelecimento. Cherry olhou para Rey com seu melhor olhar de ‘’eu te disse’’.
O banco estava relativamente cheio para uma típica terça feira. Atendentes mal-humorados atendiam clientes suados na fila que fazia a volta dos caixas. Ninguém parecia feliz, a não serem os aposentados que cortavam a fila e contavam seu alegre dinheirinho da aposentadoria. O banco tinha uma tonalidade amarelada, pilhas de papéis em cima dos guichês. Um sujeito gordo que suava como um porco fitou Cherry enquanto ela entrava com o carrinho de bebê e a barriga estourando. Rey se perguntou se ninguém mais respeitava as gestantes.
Uma mulher negra se abanava com um leque, uma criança pirraçava na fila e pedia colo para a mãe que se recusava a dar, o banco era extremamente quente. Um homem fazia palavras cruzadas na fila, enquanto os restos dos clientes estavam absortos em seus pensamentos vazios.
Cherry limpou a garganta. Foi para frente da fila empurrando o carrinho, todos acharam que ela iria cortar a fila pelo privilegio de estar grávida, algumas pessoas reclamaram e ela os ignorou completamente. Rey manteve o foco nos guardar que estavam de costas falando sobre algum assunto sem importância e não dando atenção ao que acontecia ali dentro.
Ela se virou para todos e acariciou a enorme barriga.
—Bom dia senhoras e senhores. Primeiramente um comentário: Está quente pra cacete! — Algumas pessoas entortaram o nariz ao olhá-la. O resto a ignorou. Ela não gostava de ser ignorada. — Então eu preciso me livrar disso que está escorrendo suor na minha maldita vagina. — Ela abriu as pernas enfiou a mão por debaixo do vestido e tirou a barriga postiça, agora ela tinha a atenção total de todos. Rey achou graça.
—Assim está melhor. Agora antes de qualquer coisa. — Ela remexeu dentro do carrinho de bebê. —Isso é um assalto, e vocês não devem alarmar o pânico. —Dito isso ela tirou a enorme espingarda do carrinho e apontou para o homem que fazia palavras cruzadas; apertou o gatilho e estourou os miolos dele. Rey sentiu o ouvido zumbir e o sangue espirrar em seu rosto.
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