Putrefy

10 Flocos de Neve


Notas iniciais
Mais uma vez me desculpem pela demora '-' estive sem tempo e inspiração nos últimos dias. Se temos algum puritano entre nós, acho melhor deixarem seus pudores de fora e não se impressionarem com esse capítulo. Espero que gostem e boa leitura :)

O cheiro já não era tão insuportável, moribundo ou nauseante. Na realidade era agradável, tinha um odor mórbido, porém adocicado e depois de tanto tempo ele mal conseguia senti-lo. Não conseguia distinguir o cheiro podre de sua realidade distorcida, era como se ela sempre tivesse aquele cheiro, seu cheiro misturado com o dela formando a mais doce de todas as fragrâncias: O cheiro de morte.

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O sol do final da tarde estava se pondo no horizonte, pequenas labaredas alaranjadas dançavam no céu marcando o outono. Louisiana era quente em qualquer época do ano, mas no outono era incrivelmente úmida. Era como se o pântano tivesse algum plano diabólico de dominar toda a região, e aos poucos ia invadindo o ar com sua brisa podre e adocicada.

James ‘Rey’ Furnier escarrou no chão, sua boca tinha um gosto amargo de uísque barato e cigarro velho. Olhou para a gosma no chão e coloração marrom. Refletiu por um momento se talvez esse tipo de ação repelisse Cherry de sua companhia. Afastou o pensamento, não queria penar naquela maldita garota. Não agora. Ela deveria estar se divertindo com aquele velho nojento (provavelmente ele não cuspia no chão e fitava o cuspe) na sua mansão, enquanto ele a entupia de dinheiro e a fazia se sentir especial. E tudo o que Rey tinha á oferecer era um grande monte de nada.

Ele não tinha um tostão no bolso, não era um sujeito feio, poderia ser considerado charmoso por algumas mulheres. Nem satisfazer a maldita na cama ele sabia, ela ficava ali parada inerte como uma boneca enquanto ele fazia todo o trabalho. Era como comer uma defunta. Seus olhos desiguais continuavam a olhar para o vazio, e Rey mal conseguia terminar a ação, antes de ela bocejar ele tinha ejaculado na perna de Cherry. Ejaculação precoce era o menor de seus problemas no momento.

Rey não era nenhum Einstein, não tinha nenhuma mente brilhante, porém estava começando a desconfiar que a stripper o tivesse abandonado. Ela simplesmente decidiu ficar alguns dias na casa (mansão) do velhote e mandou Rey passear. ‘’Oh não se preocupe paizinho, pode ir embora. Depois eu ligo para você vir me buscar’’. Ela disse sorrindo com sua cara deslavada e arrebentada pelos punhos de Rey. Nenhum beijo e despedida ou agradecimentos. Ela resolveu passar umas férias do diabo com o velhote e deixou Rey na mão. Quem ela pensava que ele era? Seu maldito motorista?

E só esse pensamento, daquele velho entrando e saindo dentro dela o enchia de fúria, enquanto ele jogava suas preciosas notinhas verdes nela, ela se derretendo pra cima dele. Ou pelo menos era isso que Rey imaginava que estava acontecendo. Será que o que o tornava tão atraente para Cherry era seu dinheiro? Se Rey fosse um cara montado na grana ela sentiria um pingo de empatia por ele? Rey ponderou se ele sabia o nome dela...

A velha caixa de correspondência continuava no mesmo lugar de sempre, agora estava enferrujada e desbotada pela ação do tempo. O tempo passava para todos, mesmo para aqueles que ficaram dez anos parados dentro de uma cela mofada. A tinta preta estava descascando, mas se você apertar bem os olhos consegue ler o escrito ‘Furniers’ na lata velha, memória de uma vida tão distante. Rey flexionou os dedos que estavam fechados, suas unhas sem cortar estavam cravadas na pele fazendo-a arder levemente. Os nós dos dedos estavam brancos pela força impelida, antes que ele pudesse pensar em abrir a mão tinha esmurrado a caixa de correio de sua antiga casa.

Repetidamente ele bateu no pobre pedaço de lata, até o sangue escorrer por entre seus dedos e cair no seu velho jeans desbotado. Rey bufou, gritou e grunhiu como um animal, e no final das contas não era isso o que ele realmente era, um animal indomesticado? Sentia todo o ódio fluir dentro de si, talvez nem fosse ódio fosse frustração. Rey era um velho homem frustrado. Não sabia como, mas tinha voltado para a casa que dez anos atrás a policia o tinha levado á força, a casa onde sua mulher morava com outro homem, criando seus filhos sem ele e ela sequer o permitia visitar as crianças. Era arriscado voltar lá, mas valia a pena a tentativa. Era como se houvesse um imã naquele terreno o atraindo de volta para o lugar. Sempre que ele acordava suado á noite na cama velha e fedorenta do motel ele estava sonhando que estava voltando para casa.

Só que aquela não era sua casa, era a casa de Amélia. E se aquela era a maldita casa dela, porque diabos ela mantinha a caixa de correio com o sobrenome DELE? Aquele era seu sobrenome e como eles nunca haviam se separado formalmente (não ela não poderia perder os privilégios da remuneração de ter um marido presidiário) aquele continuava sendo o sobrenome dela fazendo assim dela sua esposa, certo?

Errado! Rey sabia que aquilo era loucura, desde o dia em que aquela ele havia sido preso ela tinha deixado de ser sua esposa. Até que a morte os separe é algo muito vago, o padre deveria ter dito ‘’até que a prisão os separe’’ teria tido um efeito melhor para a situação.

E como um cão sarnento que não consegue largar da mão do dono que lhe bate, Rey tinha voltado para aquela casa. Foi uma péssima idéia Cherry ter ido passar uns dias com o ricaço, Rey tinha muito tempo livre. E como diz o ditado: cabeça vazia é a oficina do diabo. Lá estava Rey novamente para o lugar onde não era desejado nem em um milhão de anos. Ele sabia que no fundo a razão por continuar voltando para lá, era o desejo incontrolável de retornar para casa. Jogar os sapatos sujos em um canto, se esparramar na poltrona, abrir uma cerveja enquanto via algum programa inútil sobre esportes. Escutar Amélia cantarolando na cozinha alguma música da Dolly Parton. Jolene era sua preferida, sempre que a desgraçada tocava no rádio lágrimas subiam aos seus olhos lembrando-se da cretina. Sentir o cheiro de alguma coisa que ela estava assando e de fundo escutar os risinhos das crianças no quarto ao lado. Ele daria tudo para ter isso de volta, mas sabia que não era mais possível...

Hesitou por um momento ponderando se deveria voltar embora, o caminhão estava estacionado três quadras para trás, ele não era louco de parar na frente da casa, os freios á ar o denunciaram na hora e antes que descesse Amélia estaria atirando nele com alguma espingarda, isso era tão típico daquela vadia egoísta.

Rey chutou um pedregulho no chão de terra batida, enquanto caminhava em passos lentos e receosos indo em direção a velha casa com a pintura branca e descascada. Sentiu algo na sola do sapato, olhou para baixo e um brinquedo quebrado estava meio enterrado no quintal. Era um caminhãozinho quebrado e sujo. Tinha a aparência de que estava abandonado ali há alguns anos, mas isso não poderia ser possível...

Continuou andando lentamente sentindo o coração palpitar contra a camisa de botões xadrezada. Era como se suas entranhas tivessem se misturado e feito um nó dentro de si, se tivesse que recuar esse seria o momento. Não se aproxime Rey! A voz da razão gritava na sua cabeça, saia daí seu tolo! E pelo mais irônico que poderia ser a voz da razão era aveludada como a de Cherry. ‘Você não manda em mim, sua puta!’ Rey discutiu internamente com ele mesmo. Ele sabia que ninguém estava sussurrando coisas absurdas ao seu ouvido. No fundo ele ainda tinha um pingo de juízo, que optou por ignorar completamente.

Parou próximo da porta de entrada que estava trancada, ou pelo menos ele achava que estava. Ouviu a vozinha das crianças ecoando no fundo da casa, elas deveriam estar se aprontando para a escola.

—Andem logo Carollyn e Junior! Eu não tenho a manhã toda. Comam logo esse cereal que o ônibus já deve estar passando!

Como um criminoso Rey se esgueirava nas beiradas da casa, a voz inconfundível e estridente de Amélia vazava pelas beiradas da porta. A respiração de Rey parecia alarmantemente alta demais, ele sentia que a qualquer momento ela iria abrir a porta e flagrá-lo ali espiando pelas beiradas. Ele era um covarde, não tinha coragem de entrar naquela casa novamente, não tinha vontade de ver aquelas crianças ou de olhar aquela mulher nos olhos. Apenas o pensamento o estarrecia, sentia o suor escorrendo na testa e pingando no colarinho da camisa. Sua jugular pulsava oito vezes mais rápido que o normal e suas mãos estavam empapadas de suor. Ele estava tendo uma crise de pânico, fora uma terrível idéia ter voltado para aquele lugar.

Uma onda de calor percorreu todo o seu corpo, não queria passar por tudo aquilo novamente, aquela vida, aquela casa e aquela família não lhe pertencia mais, fora um tremendo erro ter voltado para lá e no fundo nem ele mesmo sabia como tinha sido levado a fazer isso. Uma boa parcela era devido à bebida, ele se sentia estupidamente corajoso á fazer coisas absurdas, mas no fundo era um covarde.

Cherry tinha razão, ele era patético e deplorável. Não tinha colhões e não era digno de ser chamado de homem. Um rato tinha mais coragem que Rey. Pensando bem um rato não poderia ir preso, já Rey... Se a maldita tivesse algum tipo de ordem de restrição contra ele seria seu fim. Ele seria acusado de perseguidor e voltaria para de trás das grades. Não valia a pena ir preso pela boceta enrugada e alargada da Amélia, ele tinha outras prioridades, como perseguir Cherry!

Antes que se desse conta estava correndo de volta para o caminhão como um cachorro com o rabinho entre as pernas. Desde que Cherry o tinha ‘largado’ ele passava mais tempo bebendo uísque de quinta e fumando cigarros velhos que encontrava no porta luvas do caminhão, não se lembrava qual fora sua ultima refeição decente. Rey preferia acreditar que a combinação de álcool e nicotina estava mexendo com seus sentidos, ele vinha tendo alguns apagões, o dia passava relativamente rápido demais ou então demasiadamente lento. Tudo ficava preto, ele não sabia o que acontecia como em um sonho ruim, e quando abria os olhos estava em outro lugar. Dessa vez não foi diferente, estava deitado na cama suja com o sangue seco de Cherry incrustado no lençol fumando um cigarro, vendo a fumaça ser expelida para fora de sua narina indo em direção ao teto, com a garrafa de uísque ao seu lado, ou era tequila? Isso ele já não conseguia lembrar. Quando abriu os olhos estava parado na frente de sua antiga casa suando como um condenado e antes que pudesse se derreter em seu próprio suor enquanto corria de volta para o caminhão deu uma leve piscada, apenas para hidratar os olhos o que foi demorado demais. Quando tornou a abri-los estava estirado no chão sujo do quarto de hotel, rodeado de uma poça de mijo e deitado em sua própria baba. Não se lembrava de ter dirigido, não sabia se tinha matado alguém pelo caminho, estava simplesmente estirado no chão.

Rey sentiu a cabeça latejar, alguém a tinha aberto e colocado uma britadeira no lugar dos seus neurônios, não havia outra explicação para a dor excruciante que sentia martelando nas profundezas da sua mente. Sentia algo maligno serpentear por trás de seus olhos, se esgueirando como um zumbido por seus ouvidos até explodir na parte de trás de sua nuca. Quando fez a menção de levantar-se sentiu uma enorme pressão na têmpora e deitou novamente no carpete imundo. Estava gelado por alguma secreção que Rey não sabia identificar se era sua ou bolor, achou melhor não investigar mais a fundo o que era aquilo.

Na segunda tentativa, espalmando o chão para não cair mesmo já estando deitado Rey conseguiu levanta a cabeça, teve uma visão panorâmica melhor da situação, estava nu deitado em cima de algumas guimbas de cigarro, roçou os dedos pelo abdômen e sentiu uma leve ardência como se algo fisgasse sua pele, estreitou os olhos e tinha algumas marcas avermelhadas que olhando mais de perto pareciam... Queimaduras? Havia ele se queimado dormindo com o cigarro aceso? E por que diabos estava pelado no meio do chão?

Rey coçou os olhos para ver se a sensação de que estavam envoltos em algum tipo de nevoa sumia, foi quando notou uma diferença no cenário. Olhando para o seu lado ele não estava sozinho, outra silhueta estava formada no chão. Rey estreitou a visão: uma mulher deitada de bruços em um canto, próxima ao pé da cama, seu cabelo castanho claro salpicado com tons de cobre cobria uma parte das costas espalhado no chão como uma cascata ele estava pegajoso e molhado com uma aparência de umidade. Rey se empertigou no chão, que merda era aquela? Não podia ser...

Ele se levantou e puxou o cabelo para vislumbrar o rosto, apenas para que sua mente tivesse certeza, para se certificar que seu subconsciente não estava lhe pregando outra peça, ele conhecia aquele traseiro e conhecia aquela pele pálida quase sem cor. Assim que tirou o cabelo da face o rosto familiar foi revelado. Rey se perguntou por quanto tempo andou apagado e travado se odiando pelo o que mais ele teria perdido nesse apagão.

Lentamente ela abriu os olhos com um sorriso tímido.

—Bom dia paizinho! Que horas são? — Cherry perguntou inocentemente.

—O que... Mas o que? Como? O... —Rey levantou-se rapidamente esquecendo toda a tontura que sentia, seu corpo estava dolorido e suas costas ardiam. — O que... Mas que merda aconteceu aqui, quando você voltou? —Rey sentia como se tivesse levado uma surra, seu saco doía tanto que era como se um elefante o tivesse pisoteado.

Cherry se levantou lentamente, espreguiçando-se como uma bailarina, colocando os braços para frente, esticando os dedos fazendo-os estralar um á um, seus seios se moviam graciosamente acompanhando o movimento do corpo. Rey sentia-se hipnotizado.

Ela se aproximou e tocou o rosto de Rey com suas unhas pontiagudas escarlate, deveriam ser postiças, com certeza mais um dos presentes do velho milionário, seguindo essa linha de raciocínio Rey lembrou-se que até antes de ele capotar desacordado ela não estava ali, então como diabos estavam ambos nus no chão? E porque ele sentia como se tivesse sido atropelado por um trator?

—Oh paizinho, você não se lembra não é mesmo? Deveria ficar preocupada com esse seu blackout? Você acha que deveríamos ver um médico. Oh! — Ela cobriu a boca com as mãos em um falso gesto de espanto — Sim nós deveríamos ver um médico, depois de ontem à noite, acho que nos excedemos um pouco... — Ela deixou a frase no ar. Rey entreabriu os olhos, abriu a boca fez a menção de soltar uma frase e tornou a fechá-la.

—Ontem à noite? O que aconteceu ontem à noite? Como você veio parar aqui? Que merda está acontecendo! E por que, por que minhas costas estão ardendo? — Rey foi correndo até o banheiro, virou-se para o espelho, esgueirando-se tentando olhar para as costas, pegou outro espelho menor que deveria ser de Cherry para ver através dele seu reflexo no outro espelho e o que viu o encheu de espanto: Suas costas estavam ligeiramente marcadas com riscos desiguais vermelhos cobrindo de cima á baixo. Eram marcas de unhas.

—Foi você quem fez isso? O QUE DIABOS ACONTECEU MULHER! — Rey avançou na direção de Cherry que ria baixinho próxima ao pilar da porta do banheiro do motel fuleiro que estavam hospedados. Como um jogador de futebol americano que se joga em direção á bola para agarrá-la Rey jogou-se contra Cherry a empurrando no chão, o baque das costas dela contra o chão sujo fez um estralo que por um momento ele pensou ter quebrado duas delicadas costelas. Mas o diabo de mulher era mais forte do que aparentava, ela continuava a rir de Rey como se debochasse dele.

—Isso não foi muito educado, querido papai. — Ela pestanejou com seus longos cílios dourados. — Você realmente não se lembra do que aconteceu nesse quarto algumas horas atrás? Que tipo de tóxicos você andou ingerindo, ein? Puxa é uma pena, fizemos algumas coisas tão interessantes.

Rey se encheu de fúria, ela estava gozando com a cara dele, e não no bom sentido da palavra.

—O que aconteceu? O que aconteceu? Pelo amor de Deus me fale o que aconteceu! Eu não... Eu não me lembro de nada, eu estava na... —Ele não podia dizer á ela a onde estava. — Eu estava na rua, e quando abri os olhos estava aqui no chão e... E você não estava aqui! Pare de me enrolar! O que aconteceu! — Rey cuspia enquanto falava.

—Pelo amor de Deus se recomponha homem! —Cherry disse afastando-o. — Se você não se lembra eu vou te contar. Mas de antes de ouvir o que eu tenho para dizer, talvez você não acredite, talvez ache que é mentira, pois bem pode achar. Eu não me importo, mas nenhuma mentira sairá dos meus lábios. —Ela livrou-se das mãos de Rey, foi até a sua mala que estava em cima de uma cadeira velha e caçou alguma coisa ali dentro, tirando um vestido azul florido sem mangas, ele era solto, mas mesmo assim marcava suas curvas. O vestiu, e Rey continuou sentando nu no chão observando-a se mover pelo quarto.

—Fale logo, menina! —Rey não pode deixar de notar que ela estava com um cheiro estranho e com uma textura pegajosa quando se jogou em cima dela no chão. —E que merda de cheiro é esse em você? Porque seu cabelo está assim? — Rey arqueou uma sobrancelha.

—Assim como, você não gosta do meu cabelo?

—Não, não é isso, mas ele está meio... Sujo... —Rey disse vagamente.

Cherry fingiu estar ultrajada.

—Se meu cabelo está sujo é por sua culpa, seu velho pervertido. Eu disse que isso não deveria acontecer novamente e aconteceu... Não reconhece seu próprio cheiro? —Ela fez beicinho. Rey não compreendia o que ela queria dizer com isso de ‘seu próprio cheiro’ eles tinham...

—A onde você quer chegar com isso? Nós... Eu, você? — Rey apontou para si mesmo e depois para ela. Cherry assentiu.

—Não! Não, não! Eu me lembraria de algo assim, não seja mentirosa e me conte o que aconteceu... —Rey começou a se questionar se talvez não tivesse sido estuprado em um de seus apagões por uma gangue de afro americanos. Se tivesse sido não se lembraria, nem se tivesse trepado com Cherry. Sua mente era uma escuridão total, um vazio completo não se recordava de nada. Tinha medo das ações que poderia tomar estando inconsciente. Alguns podem chamar de fuga dissociativa, de escape da realidade, de blackout ou até de bebedeira. Mas no fundo ele tinha medo do que sua mente fazia enquanto ele jazia desacordado, da ultima vez que ele acordara sem se lembrar do que tinha acontecido na noite passada fez com que ele passasse dez anos atas das grades.

—Se você não quer acreditar não é problema meu. —Ela puxou uma lixa e começou a lixar as longas unhas vermelhas. — Mas eu vou contar mesmo assim, porque vai ser divertido ver você se remoendo pelo o que perdeu. Uma pena que não vai acontecer de novo...

—Fale logo caramba! Não tenho a porra do dia todo! Se você não me contar logo o que aconteceu, que Deus me ajude! Eu não vou ser bonzinho com você. — Rey gritou.

Cherry sorriu.

—Oh sim claro, porque você vai ir trabalhar não é mesmo? Até onde eu sei você é um vagabundo que não faz nada a não ser beber e ficar desmaiado o dia todo. Preste muita atenção que eu não vou contar de novo. Bom eu tive alguns contratempos, e não eu não quero falar sobre isso, muito obrigada pela sua preocupação. Não me interrompa enquanto eu falar se não eu não conto mais porcaria nenhuma. Enfim como eu ia dizendo ontem á noite eu vim da casa de Anton Von- John porque bem, eu não tinha mais nada para fazer lá e estava com saudades do meu paizinho querido! — Ela piscou decentemente e Rey se permitiu sorrir.

—Não seu tonto, eu não senti sua falta. Deus como você é burro. Eu vim ver se a minha cobra não tinha morrido de fome. Então, chegando aqui...

‘’... Anton pagou um taxi para eu voltar, porque bem você sabe, ele tem muito dinheiro e não deixaria uma dama como eu. Não ria enquanto eu uso a palavra dama se não você vai morrer sem saber o que aconteceu aqui. Ele não deixaria uma dama como eu ir da casa do caralho a onde ele mora até essa pocilga e graças a Deus ele não sabe que estou morando com um fracassado como você sozinha, já pensou se ele soubesse com o tipo de pessoa que estou lidando? Aposto que não tocaria mais nenhum dedo em mim. Chegando aqui caiu um grande pé d’ água. Já disse que eu odeio essa merda de lugar pegajoso? Se não está esse calor infernal com os mosquitos sugando todo o nosso sangue e nos transmitindo tudo quanto é tipo de doença está caindo um dilúvio que faz com que toda a porra da cidade pareça à merda de um pântano, já pensou que isso faz de nós sapos? Vivemos em um pântano gigante, não acha isso interessante paizinho? Chegando aqui ensopa e molhada, pois veja bem, eu não tenho um guarda-chuva, o encontrei deitado na cama desacordado, para variar.

Eu já deveria ter me acostumado com o peso morto que você é qualquer dia desses entrarei aqui e se o encontrar morto juro que não ficarei nem um pouquinho surpresa. Você estava deitado ali naquela cama, nesses lençóis sujos e fedorentos que tem o seu cheiro por sinal. Babando em cima de uma garrafa de uísque, falando nisso, eu gostaria de saber a onde você arrumou dinheiro para comprar bebidas. Enfim, lentamente entrei silenciosa como um gato e dei um cutucão em você, delicadamente com a ponta dos meus pés. Você abriu esses seus grandes olhos azuis e me perguntou alguma coisa como ‘ a onde diabos você estava?’ ou era algo como ‘que dia é hoje?’ não me lembro muito bem, pois ignoro metade das coisas que saem da sua boca.

Sentei-me na cama ao seu lado, e passei a mão nos seus cabelos suados, e você colocou a mão na minha coxa, eu não deveria ter deixado fazer isso, porque como você nem sabe eu não gosto de ser tocada, principalmente por você. Mas eu deixei, não me pergunte o por quê. Você muito esperto, usou isso como uma brecha que eu obviamente não tinha aberto, mas convenhamos você não é muito bom em interpretar sinais, não é mesmo paizinho? Devagarzinho foi subindo essa sua mão velha pela minha pele branca e macia, eu estava usando um vestido que ganhei de Anton, laranja e vermelho borrado. Você começou a se esfregar em mim, se aninhando no meu colo. No começo eu deixei, não interpretei como nenhuma ameaça, afinal sou grande o suficiente para me defender e você não é nenhum lobo mal.

Sua mão chegou até a minha calcinha e puxou a fitinha dela, eu dei um tapa na sua mão e o adverti ‘não toque em mim paizinho!’ mas eu não sei o que aconteceu com você, veja bem você é um sujeito bem previsível, mas ontem a noite, era como se alguma força tivesse se apoderado desse seu corpo velho, tornando-o mais feroz. Você me empurrou para trás, mesmo com os meus protestos ignorando-os totalmente. Eu disse que não, mas você não quis me ouvir. Montou em cima de mim e me beijou. Não foi um beijo desses sem sal e desajeitados que você sempre dá. Ele tinha gosto de cigarro e uísque, era quente e molhado e eu mal conseguia acompanhar seus movimentos, juro que meu maxilar ficou doendo quando eu desisti de tentar te beijar. Você ergueu meu vestido, não devagar me ajudando a me despir, você não estava me ajudando em nada, você só queria se livrar daquele pedaço de pano, muito caro por sinal. Resolvi facilitar, já disse para não me perguntar o porquê, era como se você fosse outro cara, era como se tivesse outro homem ao meu lado. E bem você não estava nada mal, pelo contrario tinha alguma coisa em você que ascendeu algo dentro de mim. Existem coisas que despertam a excitação, que o próprio tesão desconhece.

Paizinho, simplesmente arrancou minha calcinha com os próprios dentes, enfiou a cara no meio das minhas pernas e começou a cheirar minha abertura de cima a baixo e antes que eu pudesse dizer alguma coisa estava passando a língua. No começo era rápido demais, e desajeitado, mas... Tornou-se incrivelmente sincronizado, passando do meu monte de Vênus, descendo pelo clitóris em um movimento circular, entende o que eu digo? E tudo o que eu pude fazer foi abrir mais as minhas pernas, em minha defesa não era algo que eu queria, mas simplesmente não podia dizer não, tenho um sério problema em dizer não.

Não me pergunte como isso aconteceu, por favor, não me julgue paizinho, pois nem eu mesma sei explicar o que aconteceu, mas era como se tivessem aberto uma torneira dentro de mim, senti algo escorrendo pelas minhas coxas, indo até a minha bunda e escorrendo para dentro do meu ânus, não era sua saliva, não era meu suor. Era um liquido viscoso e branco saindo dentro de mim, como a seiva de uma árvore, e você estava insaciável, continuando a sugá-lo, até assoprar levemente, assoprando, chupando com força, fazendo círculos e cuspindo dentro de mim. Na mesma ordem, assoprando, chupando, fazendo círculos e cuspindo e quando eu estava me acostumando, você mudava a ordem como se quisesse me surpreender. E realmente me surpreendeu até que algo explodia dentro de mim, não podia mais agüentar, eu ia gozar. E se me permite contar um segredo: Eu não gozo com um homem há anos. A única que conhece meu corpo sempre fui eu mesma, vocês homens estavam sempre preocupados demais em provar que eram bons demais, ou para satisfazer a si mesmos, que nem queriam saber se eu tinha gozado. Terminavam, saiam de cima de mim e pronto e acabou. Então anote o meu espanto paizinho, ao sentir aquele formigamento que vem dos dedos dos pés e sobe até o fundo da minha barriga como um gelo que esfria e se prepara para queimar.

Não tive tempo para gemer ou falar alguma coisa, você se levantou e me puxou pelos cabelos, sim com força tirando um punhado deles em sua mão. Me aproximou do seu sexo, como se ordenasse que eu fizesse o mesmo por você, e que escolha eu, pobre de mim teria? Você não era o meu paizinho bobo e sujo, não sei quem era você, mas confesso que gostei do homem da noite passada.

Abri a boca devagar, colocando apenas a ponta da língua na sua glande, apenas para mostrar quem estava no controle, o controlando por toda a sua raiz, e você gemeu respondendo ao meu toque o que era um sinal para continuar. Com cuidado protegendo-o o contra os dentes e sentindo o entrar até o fim, enquanto eu o sugava e bombava com a minha mão, o estimulando, sentindo o crescer e pulsar dentro de minha boca. Tire de dentro da boca e passei pelas suas bolas, brincando com a língua colocando-as dentro da boca e cuspindo para ficar mais liso, você puxou meu cabelo enquanto voltou a colocá-lo dentro da minha boca, descendo até a garganta, e eu apertei, fechando o cerco. Não poderia facilitar, sabia que você iria gozar a qualquer momento. E senti o liquido quente descendo pela minha garganta, pelo gosto podia saber o que você tomou de café da manhã, que era cigarros velhos e uísque.

Você me empurrou para trás, oh paizinho. Apoiou as minhas pernas contra os seus ombros e entrou em mim, metendo com toda a sua força, eu senti os meus fluidos misturando com os seus, escorrendo pelo lençol que estavam empossados com esse muco pegajoso e branco grudando nossas peles. E você foi fundo, querendo fazer um buraco dentro de mim e sair só Deus sabe a onde. Você grunhia como um animal selvagem, mas eu não deixei que você gozasse dentro de mim, quando eu gozei, meu corpo explodiu em mil partículas, cravei as unhas nas suas costas desenhando um mapa de cima a baixo e você não demonstrou ser importar e antes de dar tempo de se recompor te empurrei dentro de mim. Isso não o fez parar, pelo contrario. A fúria em seus olhos cresceu mais e mais, e você começou a bater na minha coxa com o seu pau. Apontando aquele brilho branco e consistente, já vi muitos, transparentes e translúcidos. Mas o seu estava grosso e consistente como algo não visto antes que não poderia ser desperdiçado. Deixei você gozar em cima da minha barriga, passando pelos meios seios e todo aquele liquido branco escorrendo pelas minhas penas, se empossando no meu umbigo, passei a mão pelo meu corpo, como quem passa um hidrante corporal, entende o que eu digo? Você não parou por ai, me fez abrir a boca e espirrar dentro dela, nos meus olhos e cabelo até ficar duro e grudento que nenhum pente no mundo fosse desembaraçar. Passei a mão pelo meu corpo enquanto ele secava e a pele ficava arrepiada e grossa ao toque, como se tivessem derrubado farinha em cima de mim. Quando secou totalmente e eu toquei com a ponta dos dedos era como um floco de neve. Você me fez abrir a boca e colocar a língua para fora, para mostrar que sou uma boa menina e tomei todo o meu remédio. Ao final estávamos quebrados e exaustos, caímos no chão a onde tínhamos ido parar... ‘’

—E depois você me acordou e me encheu de perguntas. Satisfeito com a resposta?

Rey estava atônito, catatônico e petrificado. Nunca tinha ouvido tantas obscenidades saírem da boca de uma mulher, e quando olhou para baixo notou que estava de pau duro, era como se todo o seu apagão tivesse sumido e tivessem acendido uma luz no calabouço que era sua cabeça trazendo memórias antigas á tona. Era difícil de crer que tudo isso tinha acontecido, e mais difícil ainda era aceitar que ele não estava consciente para fazer parte de tudo isso.

—Eu... Eu não acredito em você. Você está contando alguma outra coisa que aconteceu com você e brincando comigo. Se tivéssemos feito tudo isso eu me lembraria... Eu acho. —Rey deixou a ultima frase sair de sua boca.

—E ai está o velho paizinho chato e rabugento. Enquanto você fica ai reclamando da vida eu vou tomar um banho e levar o resto de porra sua que ainda está grudada em mim. Se apronte que eu preciso que você me leve á um lugar. — Cherry disse entrando no banheiro.

—E aonde vamos?

—Você faz perguntas demais sabia? Estou entediada e cansada de responder. —Ela fechou a porta atrás de si deixando Rey com suas duvidas não respondidas.

***********************************

Rey tirou o chapéu e coçou a cabeça suada, jogou a fumaça para fora da boca e pensou se ainda teria o gosto de Cherry guardado debaixo da língua. Desligou o motor do caminhão e fitou a stripper que espantava alguns mosquitos que a estavam mordendo.

—Porque estamos no pântano? —Rey perguntou confuso.

—Já disse que me cansei, você já usou o seu limite de perguntas. ‘Porque isso, porque aquilo’’ nossa você é muito chato sabia? — Ela pulou para fora se embrenhando no meio do pântano, estava usando o mesmo vestidinho azul florido, com as botas de couro e ponta de aço de Rey que ela tinha afanado desde que haviam se conhecido na Boca do Inferno algumas muitas noites atrás. Rey não teve outra escolha a não ser segui-la obedientemente como um cachorro que vai atrás de seu dono.

Ela o fez passar por um pântano estreito e íngreme, e diversas vezes ele pode sentir que algum aligátor estava colocando seus grandes olhos reptilianos sobre eles. Ela não se importou era como se tivesse traçado aquele caminho inúmeras vezes, e como não gostava se der importunada Rey optou por não questionar a onde estava indo.

Mesmo quando ela o fez remar um barco em direção a uma casa apoiada por palafitas ele permaneceu em silencio, ela tinha um semblante sério e preocupado, e ele não a tinha visto tão tensa até o momento. A onde quer que estivessem indo a deixa consternada.

Pararam na frente da casa de madeiras, ela estava velha e apodrecida e o que mais chamou a atenção de Rey era a cabeça de um aligátor com seus grandes dentes pontiagudos sendo exibidos em fileira na porta da casa pendurado. Rey imaginou se o monstro do pântano era um dos muitos amantes de Cherry, não via outro motivo para ser obrigado a se embrenhar nesse lugar. Achou melhor guardar a piada para si, pois ela não estava com cara de quem a aceitaria com bom humor.

—Preste atenção no que eu vou dizer paizinho velho e estúpido. Preciso que fique aqui fora me esperando enquanto eu resolvo algumas coisas lá dentro. Não vai ser como na casa de Anton que eu pedi para que me esperasse lá fora e você entrou dentro para xeretar. — Rey abriu os olhos em espanto. —Sim eu sei, tenho mil olhos e mais um. De cada cor inclusive. Você NÃO pode entrar lá dentro sob hipótese alguma, por favor, em lhe imploro paizinho. Fique aqui fora e logo eu volto. —Ela deu um beijo rápido na bochecha dele. E entrou na casinha humilde.

Rey achou melhor não contrariá-la algo lhe dizia que o que quer que ela fosse fazer lá dentro não lhe dizia a respeito. Um ditado muito sábio dizia que a curiosidade matou o gato, e no momento ele não estava com vontade de acabar eletrocutado em nenhuma cerca elétrica como um bichano curioso.

Sentou-se no degrau e ascendeu um cigarro. Antes que se desse conta tinha fumado o maço todo e estava caçando as guimbas no chão para fumar de novo. O sol estava querendo se por no horizonte, diabo de menina! Não que ele fosse algum covarde, mas não tinha muita vontade de atravessar aquele pântano no escuro.

Enquanto se desvanecia em seus pensamentos ouviu passos atrás de si. Cherry saiu em passos largos e com a cara mais amarrada que um jegue fujão. Ela tinha os olhos vermelhos, andara chorando? Ele nunca á tinha visto chorar.

—Cherry? Você está bem o que aconteceu? — Ele fez a menção de tocá-la mas ela o afastou com o braço.

—Não me toque, se você me tocar... Que Deus me ajude e eu não vou saber o que fazer! É tudo sua culpa! —Ela cuspiu na cara dele. Rey não entendeu o motivo da fúria.

Uma velha encarquilhada, com um avental sujo de sangue e alguma gosma verde, olhos pequenos como de uma toupeira e boca desdentada saiu logo atrás de Cherry. Ela lhe deu medo quase que instantaneamente.

—Então é esse? É com ele que você está menina? — Sua voz era rouca e profunda. Ela mastigava tabaco o que fazia sua boca produzir pequenos sulcos de saliva no canto marrons.

—Não estou com ninguém Bubba. Vamos paizinho, vamos embora antes que escureça! — Ela disse puxando Rey pelo braço.

A velha se aproximou e tocou o outro braço de Rey, ele sentiu um arrepio subir pela espinha.

—Vocês não deveriam ficar juntos. Eu já disse para ela, e vou dizer para você rapaz, escute o que eu digo. Pegue suas coisas e vá embora. Não fique perto dessa menina nem mais uma noite ou um dia. —Ela falava baixo para que Rey se esforçasse a entendê-la.

—Bubba! Não fale bobagens, pare de assustar o paizinho. Não de ouvidos á essa velha louca. Vamos embora. — Cherry continuou a puxá-lo pelo braço. Rey não se moveu. A velha parecia olhar dentro de sua alma, nos cantos mais escuros.

—Ainda não é tarde demais, vá embora e não olhe para trás, rapaz. Eu prometo que não vou contar se você não contar. —A velha lhe deu uma piscadela assustadora.

—Contar o que? Medo de quem? Eu não tenho medo dela, se é isso o que a senhora quer dizer. — Rey rebateu.

Cherry revirou os olhos e suspirou.

—Não escute o que ela diz. Vamos embora agora!

A velha passou a mão velha e manchada no rosto de Rey, ele quis afastá-la mas não teve coragem.

—Oh meu bem, você não entende que não tem nada a temer? Uma vez que você toca a escuridão, ela o toca de volta e te deixa marcado para sempre. Uma pena que você ainda não percebeu, mas um dia vai entender as minhas palavras. Quando você se deita com o diabo, não pode esperar acordar sem pagar as conseqüências...

Um sorriso escuro estampou no rosto da velha. Rey sentiu sua vista escurecer e um arrepio estranho. Era como se dedos invisíveis fantasmagóricos se fechassem tampando seus olhos.

Notas finais
E ai o que acharam? Críticas construtivas são sempre muito bem vindas, me deixem saber o que estão achando! Beijos e até a próxima ;)