Putrefy
11 A Boneca
Notas iniciais
‘’—Existem duas coisas que você precisa saber minha filha... —Ela começou a frase dessa maneira enquanto escovava os cabelos cor de cobre da garota. — Se quer se dar bem nessa vida, escute com muita atenção e grave bem estas palavras: A primeira coisa que você tem que saber é que você vai precisar fazer muito coisa que não vai ser do seu agrado e enquanto tiver que fazer isso terá que fechar os olhos e pensar em um ponto de escape.
—Um ponto do que? —A menina a interrompeu.
—Pensar em algo que você goste, por exemplo, do que você gosta? De ir à igreja?
—Não! —Ela sentiu um leve tremor subir pela perna. —Disso não. Eu gosto de ir até o parque e tomar um sorvete.
A mãe a olhou ternamente, um olhar maternal estranho com algo escuro dentro dos olhos.
—Muito bem esse é seu ponto de escape, seja o que for que esteja acontecendo lembre-se do seu ponto de escape e ignore o que esteja fazendo assim eu te garanto que você não sentira... Nada. A outra coisa que você precisa saber é que tem o poder e só precisa saber como usá-lo. Á seu favor é claro.
—Eu tenho? — A garotinha não sabia o que a mãe queria dizer com isso.
—Tem sim. E sabe onde fica? —A menina balançou a cabeça. —Fica bem no meio das suas pernas. Lembre-se não há nada mais contagioso que o mal.’’
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O quarto estava escuro e abafado, um pequeno lance de luz escapava pelos buracos da cortina na janela. Fora isso tudo estava ausente da presença de luz. Não era verão, ainda era outono e apesar de Louisiana ser sempre extremamente quente o quarto parecia estar com uns 40° graus de tão caloroso que estava. Ela sentia sua testa suar, talvez fosse o nervosismo que a fazia ter a sensação térmica de estar cozinhando dentro de um forno. Por um breve momento ponderou de como deveria ser o inferno? Afastou a idéia, pois já sabia a resposta: ele era muito parecido com o que estava prestes a acontecer.
—Eu trouxe uma coisa para você, espero que goste. —Ele tinha a voz penetrante e levemente rouca, ela sempre associava aquela voz ao rugido de um trovão, era forte e impactante. E a fazia tremer de medo.
O homem continuava parado de pé em frente á ela. A garotinha estava sentada na ponta da cama, neste momento até sua respiração parecia ruidosa demais, tudo o que queria era sair daquele quarto abafado e correr para bem longe. Pensou se poderia chorar por sua mãe, mas no fundo sabia que de nada iria adiantar. Ela provavelmente iria mandá-la enxugar as lagrimas e voltar lá para dentro. E depois daria uma bela surra nela para aprender a parar de ser fresca e insolente. Ela nem sabia o que a palavra insolente queria dizer, mas sua mãe adorava repetir esse nome. Talvez isso a fizesse acreditar que era culta e não uma caipira estúpida.
Escolheu continuar encolhida na cama fitando os sapatos pretos polidos do homem que estavam tão lustrosos que podia ver seu próprio reflexo neles. Ainda não entendia porque aquele homem usava um vestido preto. Sua mãe a corrigira inúmeras vezes explicando que aquilo não era um vestido, e sim uma batina. ‘Garota estúpida, isso não é um vestido. É uma batina. Algo que homens importantes da igreja usam. Você é tão burra que não consegue entender isso?’’. Para ela isso era mais um jeito metido de chamar o vestido preto por outro nome. Para ela ele não passava de um homem mal. Um homem muito mal que a visitava todas as quintas feiras para forçá-la a fazer coisas que não entendia. Um homem que falava sem parar nos domingos de manhã na igreja, á quem sua mãe olhava com admiração e algo mais sombrio que aos seus pequenos olhos ela ainda não sabia identificar o que era. Um homem que ficava horas á fio em frente á uma cruz de madeira tagarelando para outras dezenas de pessoas da comunidade, e tudo o que Carmen tinha vontade de fazer era se levantar e chorar. Não o choro baixinho que ela ousava proferir a noite enquanto rezava para que aquele Deus que o homem mal falava todos os domingos sobre ser tão bom e piedoso, que ouvisse suas preces e fizesse com que o Padre McDirt ficasse doente na próxima quinta feira e não á fosse visitar (o que obviamente não aconteceu, pois só mais tarde Carmen foi perceber que o Deus á quem sua mãe rezava com muito fervor podia se revelar um sujeito bem impiedoso que ignorava garotinhas machucadas), mas sim levantar-se urrando de dor e indignação e mostrando á todas aquelas cabeças ocas que ele era um mentiroso. Que ele não era um homem bonzinho ou legal. Que ela a forçava a fazer coisas que ela nem deveria saber na inocência de sua idade púbere que eram possíveis serem feitas. E que o pior de tudo que a mostrou que algumas dessas coisas não só poderiam ser gratificantes, como após algum tempo se tornaram agradáveis...
—Não está curiosa para saber o que eu tenho dentro da caixa, criança? —Ele fez uma longa pausa. Ela não olhou para ele, continuou fitando o chão —Vai fazer essa desfeita comigo? Ora essa Carmen. Não foi essa a educação que sua mãe te deu, foi? Você não quer que eu conte para ela que você me desagradou quer? Não acho que ela vai gostar de saber que você me aborreceu.
Ela não teve escolha se não olhar para cima. O homem de olhos com cor de gelo fez a temperatura do quarto cair drasticamente a encarando. Seu queixo pontudo e proeminente a fazia lembrar-se de um vilão de quadrinhos, a diferença é que ali não havia nenhum mocinho para salvá-la. Ele tinha um sorriso de deboche no rosto, um olhar superior mostrando que ela era uma criança muito estúpida no final das contas.
—Muito bem. Vou perguntar de novo. Carmen gostaria de saber o que eu tenho dentro desta caixa? — Desta vez ele mostrou uma fileira de dentes brancos como um tubarão.
—Sim. —Sua voz saiu como um sussurro.
—Não ouvi o que disse. Fale para fora criança.
Ela sentiu uma gota de suor escorrendo pela face já não sabia se era lagrima ou suor, preferiu não pensar muito á respeito.
—Sim, senhor. — Ela repetiu.
—Não foi assim que sua mãe te ensinou a me chamar, não foi? —Ele tinha um divertimento e malicia dançando pelos olhos gelados.
—Sim senhor, Padre McDirt. Eu gostaria de ver o que tem dentro de caixa, por favor.
—Oh agora sim está melhor. É um presente que trouxe para você, docinho. — Ele puxou o laço da caixa vermelha. Com curiosidade ela espiou dentro para ver o conteúdo. Era uma boneca. Com vestido em um estilo futurísco prateado, o maldito sabia o quanto a cor prateada chamava sua atenção, tão brilhante e penetrante ofuscando totalmente os cachos loiros. Seus olhos brilharam e ela não pode controlar a mão avançado para dentro da caixa.
Antes de tocar a boneca ele fechou abruptamente à caixa. Balançou a cabeça negativamente e fez um sinal de desaprovação, Carmen não entendeu o que tinha feito de errado.
—Não, não minha criança. Eu disse que trouxe para você, mas em momento nenhum disse que essa boneca era sua. Isso é uma troca, compreende? Você só vai ganhá-la se merecer. Tem que provar ser uma boa menina.
—Mas eu sou uma boa menina. —Ela disse com uma ponta de mágoa.
—Isso é o que eu preciso ver. —Ele sentou-se ao lado dela, e colocou a mão em seu ombro. —Você precisa fazer para merecer, para poder ter esse presente. Eu sei que você não vai me decepcionar.
—Mas eu quero brincar com a boneca. —Ela protestou fazendo beicinho.
Ele inclinou a cabeça.
—É claro que você quer, e eu sei muito bem disso. E você vai poder brincar. Depois que fizer uma coisa para mim. Não é nada muito complicado, na realidade é bem simples. Você apenas precisa se comportar e fazer o que eu pedir. Exatamente como eu pedir é o mais importante de tudo. —Ele franziu o cenho para demonstrar a seriedade em suas palavras.
—E o que o senhor quer que eu faça? — Ela perguntou com uma ponta de receio.
—Pois bem. Primeiramente eu vou dizer o que eu não quero que você faça. Eu não quero que você grite. Está me entendendo? — Ele falava lentamente como quem conversa com uma criança lenta, Carmen se sentiu ultrajada, pois sabia que não era uma.
Ela optou por balançar a cabeça afirmativamente.
—Então repita o que não é para você fazer. — Seus olhos serpenteavam com uma doce maldade.
—Gritar. Eu não posso gritar.
—Ótimo. Se quiser chorar eu não vou me importar, de fato você fica bem bonitinha chorando. Mas por favor, não chore muito alto tudo bem? — Carmen já sentia vontade de chorar com as insinuações do homem.
Ele pegou sua pequena mão e juntou com a dele. Imediatamente ela sentiu seu coração disparar, levou a outra mão para o rosto na tentativa infantil de afastar as lagrimas, mas sabia que já era tarde demais. Ele fitou seus dedos por um momento e colocou sua mão embaixo da batina. O primeiro impulso de Carmen foi tirar a mão imediatamente dali, mas ao perceber o que a garota pretendia fazer o Padre rapidamente apertou seu pulso com um pouco mais de força. Ele a repreendeu com o olhar.
—Eu sei que você já viu antes, também sei que já sentiu. Mas não da maneira certa. Eu quero que você o que gentilmente. Com muita calma, pois não há nada a temer. Quero que devagar você explore cada centímetro minha criança. Oh sim isso mesmo. — Ele manuseava a mão de Carmen pelo inicio de seu pênis até o final, ela estava sentido pulsar sob seus dedos. Carmen queria tirar a mão logo dali e terminar logo com isso, mas ele não iria se dar por vencido tão cedo.
—Você pode não entender agora, mas este é o membro mais sagrado do homem. Pode parecer besteira, mas é a mais pura verdade. Daqui que a vida começa, oh sim com cautela e devagar, abra um pouco mais a sua mão docinho. E muitas vezes aqui mesmo ela termina. Quero que sinta quando algo quente escorrer e não faça cara de nojo. Você tem que se regozijar de alegria por estar sendo... Contemplada com o dom da minha, benzinho. Sinta o membro viril do homem. — Ele tinha os olhos fechados enquanto falava, Carmen fez o mesmo. Assim pensou em seu ponto de escape, que no momento era a boneca dentro da caixa, imaginou como seria brincar com ela no sol logo que ele terminasse o que quer que estivesse fazendo. — Contemple o sêmen que é de onde nós viemos, o inicio de toda a vida. É quente, pegajoso e viscoso. Sei que você vai gostar também do sabor, logo irá tomar da fonte, querida. Ande vamos, suba essa mão mais rápido. Ninguém aqui está com pressa, mas também não vamos montar acampamento ai dentro, certo?
Carmen obedeceu o que lhe foi ordenado, sentia as veias do homem passando por entre sua pele, só queria que ele parasse de falar nojeiras e terminasse logo com isso.
—Agora, você sabia que o maior prazer que uma mulher pode oferecer para um homem é por trás? — Ele a interrompeu de seus devaneios
—O que? Mas eu não quero... —Ela tirou a mão de baixo da batina do Padre rapidamente, não gostou do rumo que a conversa estava sendo conduzida.
O Padre abriu os olhos e observou com desprezo. Uma rajada de fúria passou pelo seu semblante e ele tocou o rosto dela. Delicadamente passando pela maçã da face corada. Levantou a mão e a pousou em sua bochecha. Dessa vez com força. Carmen só percebeu que tinha levado uma tapa na cara com o estalo no ouvido e a ardência.
—Essa não é a resposta que eu queria ouvir, por favor, fique quietinha e me deixe explicar. Não te ensinaram que é falta de educação interromper um adulto enquanto ele fala? Menina mal educada. Como eu ia dizendo, o ânus é a cavidade mais quente e acolhedora do corpo, a melhor maneira de demonstrar sua devoção e homenagear um homem é por esta entrada. Tão quente e apertada, perfeita para satisfazer as necessidades de um homem. Lembra-se de que eu disse para você não gritar?
Carmen com a mão no rosto ferido concordou.
—Agora é o melhor momento para ficar em silencio. Eu vou deitá-la de bruços e se quiser pode afundar o rosto no travesseiro, não vamos importunar sua mãe com uma choradeira certo? Ande Carmen, não faça uma cena pare de chorar, pois eu ainda não comecei.
A menina não conseguia conter as lagrimas que corriam como vermes pela sua face.
—Não sabe que quanto mais você chora me dá mais tesão? Bem você nem deve saber o que essa palavra quer dizer, mas um dia há de saber. Tudo o que tem que fazer é deitar-se. Ande logo e não faça uma cena, pois minha paciência está se esgotando com você hoje mocinha. Assim que você sentir que eu estou dentro de você, pulsando, latejando e fazendo a pressão necessária talvez seja uma boa hora para rezar. — Dito isso ele a empurrou de encontro com o travesseiro, Carmen fechou os olhos e imaginou qual era o cheiro da boneca. Se tivesse sorte ela teria cheiro de baunilha e não cereja. Ela já estava farta de tortas de cereja.
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—O que você quer aqui menina? —Bubba a ignorou enquanto mexia com a grande colher de pau dentro da panela de barro.
—Eu... Eu preciso de sua ajuda Bubba. —Sua voz saiu quase como um sussurro envergonhando, não queria proferir aquelas palavras em voz alta, como uma criança que fala um palavrão e quando a mãe pergunta ‘o que foi que disse, peste?’’ olha para baixo e diz que não foi nada.
—Aham. — A velha sempre mastigava alguma coisa, Cherry só não sabia o que era. —E não é que você sempre precisa de ajuda? Já parou para pensar que talvez eu não possa te ajudar.
—Por favor, Bubba. Não me faça implorar, não desta vez. Eu realmente preciso muito disto. Eu tenho... Tenho que me livrar desta... Desta coisa. — Ela se escorava no batente da casa de palafitas olhando para os pés descalços.
Bubba limpou as mãos manchadas e velhas no avental sujo, ela não sabia se aquilo realmente tinha ajudado a limpar. Tinha a leve impressão que tinha sujado mais com aquela pasta amarela nojenta que era a cor do tecido.
—Há. Você já não veio aqui esses dias, menina? Nem vacas são tão férteis assim garota. É só abrir as pernas que cria raiz dentro de você? —Bubba deu um sorriso com seus dentes manchados de marrom por mastigar fumo, sim era fumo o que ela mastigava e acumulava gotículas de saliva ao redor da boca.
Com seus passos lentos a velha foi se aproximando, Cherry queria correr dali. Bubba sabia farejar uma mentira, então ela precisava dar o melhor de si. Isso nunca tinha acontecido antes, quais eram as chances dela perceber que não era uma situação corriqueira? Tudo o que Cherry queria era terminar logo com isso, de todas as pessoas que ela havia mentido na cara dura, enganado e trapaceado sem um único pestanejar a fazia ficar inquieta a simples idéia de contar uma mentira para sua querida Bubba. Mas não era uma mentira muito grave, não chegava nem a ser uma mentira, pois mentir era uma palavra muito forte. Então qual era a palavra certa para essa ocasião?
Omissão. Omitir. Bingo!
Era isso o que ela estava fazendo, a coisa mais simples do mundo, omitir os fatos e mantê-los ao seu favor, Bubba não precisava saber de seu pequeno deslize, e muito menos precisava saber que fora com um idiota completo como Rey que tinha o QI de uma mosca de fruta. Era tudo questão de confiança, parar de olhar para o chão sujo e encarar Bubba de frente. Ao tentar fazer isso seus olhos desiguais encontraram os velhos olhos cansados da avó, aqueles olhos que valiam mais que mil detectores de mentiras, e ela sentiu toda a sua coragem se esvaindo pelo ralo. Não ia conseguir enganar a velha. Merda! Esse era seu fim. Estava condenada.
—É rapidinho Bubba, faça aquele chá que só você sabe fazer. Prometo que eu vou limpar o que sujar, e não vou mais voltar. Só desta vez.
—Você sempre diz isso menina, e acaba vindo aqui á cada virada da lua. Se te abrirem no meio o sangue do teu bucho sai preto de tanta porcaria que tem enfiado no corpo. Não sei como ainda não caiu dura no chão. —Bubba chegou mais perto e apalpou o seio direito de Cherry, uma apalpadela dolorida até o esquerdo. Cherry tentou erguer os braços em sinal protetor, mas a velha lhe repreendeu com o olhar.
—O que diabos você está fazendo Bubba? Pare com isso.
Bubba não disse nada, desceu a mão até o ventre de Cherry apertando com a palma da mão, apertou forte o suficiente para Cherry se sentir grata por não estar com a bexiga cheia. Teria mijado ali mesmo.
—Ande Bubba. —Cherry sentia o suor porejar em sua testa. —É rapidinho. Faça por favor, aquele negócio, eu prometo que não vou mais te perturbar. Eu só preciso que isso acabe logo.
Bubba nada disse continuou mastigando seu fumo, seus lábios estavam marrons, quase pretos pela substancia, a velha tinha um cheiro de queijo estragado e flores mortas, mesmo assim Cherry amava aquele cheiro imensamente. Deslizou a mão por debaixo do vestido de Cherry e antes que ela pudesse protestar ou tentar tirar a mão da velha dali, ela tinha enfiado os três dedos dentro dela de uma vez. Cherry gritou de dor.
—Para com isso Bubba! Não vai sair assim, cadê o maldito chá?
—Não vai ter nenhum chá menina. —Bubba disse limpando os dedos no avental imundo.
—O que você quer dizer com isso? Está sem ervas? Se quiser eu posso mandar buscarem para você e... —Antes de terminar a frase confusa Cherry foi interrompida.
—Eu disse que não vai ter nenhum chá para você.
—Como assim, não vai ter chá para mim? —Cherry franziu o cenho, merda! A maldita a tinha pegado no pulo procurou soar o mais indignada possível, afinal quais eras as chances dela saber apenas molestando o seu corpo?
—Desculpe Carmen, mas você sabe que não é assim que as coisas funcionam. Eu achei que fosse claro para você isso. Eu só posso te ajudar quando aquilo acontece. Se não aconteceu não tem nada que eu possa fazer. — Ela deu de ombros.
Cherry estava confusa, não sabia o que ela queria dizer com isso. Talvez a idade tivesse retardado as idéias da pobre Bubba.
—Mas... Aquilo aconteceu Bubba. Você sempre me ajudou, porque não pode me ajudar agora? Por favor, Bubba é a última vez e eu prometo!
—Há! Guarde suas promessas para você. Palavras são o vento. Você sabe muito bem o que eu quis dizer não se faça de boba porque eu sei que isso você não é, não senhora. Boba você não é. É esperta até demais.
—Bubba! Por favor! Não estou te entendendo, você sempre me ajudou. Era o nosso trato. Meu e seu. Desde que eu comecei a... Comecei a ter espaço pra essa coisa crescer, você sempre me ajudou. Não me faça implorar. — Cherry sentiu o rosto corar.
—Sim, eu cumpro com a minha palavra, é você que não cumpriu com a sua. Garota tola e desavisada. — Ela cuspia o tabaco que mascava enquanto falava. —Sempre foi assim, eu tiro a coisa de você se for dele. Do homem de batina. De outro eu não posso fazer nada. E você sabe disso. Então não venha choramingar, dê o fora daqui menina e para de me atazanar!
—Não Bubba! O que a senhora está falando? É dele! É dele como das outras vezes, Bubba! Você tem que tirar isso de dentro de mim. —Cherry sentiu os vermes correndo pelo seu rosto. Malditas lágrimas.
—Não me engane, se você pensa que está enganando alguém é a si mesma Carmie. Eu sei que não é dele, e você também sabe disso. Se eu fosse você tratava de tirar essa coisa logo daí de dentro, antes que crie raiz, fique maior, mais forte, mais espaçoso e te devore viva. Você sabe que não nasceu pra ser ter isso, não cometa o mesmo erro que eu cometi, e não cometa o mesmo erro da sua mãe, tem coisas que não devem ir para frente. —As palavras da velha a cortavam por dentro.
—É dele, Bubba! Eu juro! É como das outras vezes! Você tem que tirar daqui, por favor, Bubba! — Cherry estava de joelho agarrada ao avental sujo da avó. —Eu estou falando sério, você TEM que me ajudar, tire daqui, tire logo pelo amor de Deus! —Cherry fechou os olhos e se lembrou do que Bubba tinha dito muitos anos atrás logo após sua menarca.
‘’Garota, escute bem o que eu vou te dizer. Isso é errado, muito errado. E o mais errado disso tudo é deixar tomar espaço, crescer dentro de você. Se um dia isso acontecer, só um de vocês vai sobreviver, não tem mais espaço no mundo pra uma coisa dessas. E enquanto for daquele homem de batina isso não vai acontecer, nunca! Enquanto for dele é meu problema, quando não for dele, o problema deixa de ser meu e é todinho seu. Vai ter que escolher: Você ou a coisa. ‘’
—Eu não quero morrer Bubba! Não quero isso, por favor, Bubba! Tira de dentro de mim! — Cherry sentiu o gosto salgado das lágrimas atravessando os lábios.
—Eu queria te ajudar minha criança, você já fez sua cama agora tem que deitar. Se quiser tirar isso daí vai ter que ser por conta própria. — Bubba empurrou Cherry para longe e se sentou na cadeira ao lado do fogão. A velha estava mais branca que um papel.
—É a mesma coisa Bubba, só tirar.
—Não é a mesma coisa, garota estúpida. Porque é tão cega, um olho de cada cor e nada consegue ver...
—Bubba pelo amor de Deus, é a mesma coisa.
—É diferente, Carmie. Você não entende...
—Entender o que Bubba? Porque antes com... —Cherry ponderou as palavras, Bubba não gostava que ela usasse a palavra mais obscena de todas: Padre. —Com ele você me ajudava, e agora não?
—Acho melhor você sair daqui, você tem que ir embora daqui logo, e não volte mais enquanto não resolver isso. Não minta para si mesma, e não minta para mim. Você achou ruim se deitar com um homem de batina? Não deve ter sido tão ruim quanto dormir ao lado do diabo. Ele te escolheu pra ter a coisa dele. Quando você toca a escuridão, ela te toca de volta.
—O que você tá falando Bubba? Você está se sentindo bem?
—Por favor, saia logo daqui menina. E eu não quero ficar perto dele. Se afaste desse homem, nada de bom vai vir dali. Pode ter certeza. —Bubba levantou-se vagarosamente acompanhando Cherry até a porta. Cherry secou as lágrimas dos olhos na costa da mão.
—Bubba, por favor... —Cherry implorou baixinho.
—O mais triste de tudo é que você nem faz idéia do que eu estou falando não é mesmo? O homem do petróleo e o homem das algemas quebradas... O diabo está escondido bem no meio deles. —Bubba escarrou no chão. Cherry odiava os enigmas que a velha falava, só porque morou a vida todo no circo achava que sabia manejar profecias.
O sol da Louisiana fez os olhos molhados de Cherry arder, Rey ainda continuava encostado nos degraus envolto numa nuvem de fumaça proporcionada pelo cigarro. Bubba cravou as unhas no ombro direito de Cherry. Por um momento ela achou que a velha iria com a cara no chão.
—Então é esse? É com ele que você está menina? —Bubba tinha um olhar de terror.
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—Quem é aquela velha? —Rey perguntou enquanto dirigia, ele ia pela rodovia seguindo direito pela abandonada Victor II Boulevard.
Cherry abraçou os pés contra o corpo no banco do carro, se encolheu um pouco e soltou um longo suspiro.
—Por que ela disse que nós temos que nos afastar? O que você disse pra ela, ein? —Ele mantinha as mãos rígidas de encontro ao volante, Cherry pensou se ele torceria o pescoço dela com a mesma força que dirigia ao saber sobre o que ela tentava arrancar de dentro de si.
—Você faz muitas perguntas. Isso não é da sua conta, paizinho. —Cherry estudou a paisagem, arvores secas se entrelaçavam pela rodovia. Sentiu um tremor no estomago, o nome disso era fome.
—Que história é essa de se deitar com o diabo, o que diabos ela queria dizer com isso? E por que ela disse que se eu não contar ela não conta, o que ela sabe Cherry? — Rey tinha os ombros rígidos e o maxilar travado, estava visivelmente tenso.
—Ela é velha e louca, não dê ouvidos para o que ela disse paizinho, foi um erro ir visitar a Bubba. Não me faça mais perguntas, não pergunte coisas que não vai gostar de saber a resposta. — Cherry roeu o esmalte vermelho das unhas. —Por que está tão preocupado, paizinho? Contar sobre o que?
Rey tossiu desconfortavelmente, tateou pelo painel do carro até achar o maço do Marlboro. O prendeu com os lábios e riscou um fósforo. A fumaça saiu pelo seu nariz.
—Contar sobre o que? — Ele repetiu.
—Não paizinho. Eu fiz uma pergunta, o que você quis dizer quando perguntou por que ela não iria contar alguma coisa?
Ele soltou a fumaça no volante, o sol brilhou de encontro com seu rosto fazendo um contraste alaranjado, Rey não era um homem mal apessoado no final das contas, tinha olhos azuis não muito chamativos, e um maxilar quadrado do tipo rústico. Estava próximo do meio dia, o que explicava sua fome.
—Não entendi o que você quis dizer com isso. —Ele não olhou para Cherry. Ela percebeu que ele estava desconfortável com o rumo da conversa, como se soubesse de algo que não queria lhe contar.
—Sei... Por que você ficou mexido com o que ela falou? —Cherry o pressionou.
—Caralho Cherry! Você parece que é louca tem horas! Me arrasta para aquela porra de fim de mundo, sai daquela tapera junto com aquela velha... Aquela velha medonha e depois que ela me fala um monte de coisas que não fazem sentido me pergunta por que diabos eu estou mexido? Pra começar porque ela me assustou. —Ele lhe lançou um olhar de repressão, tinha orgulho ferido e uma leve pontada de medo no meio daquele mar azul opaco.
—Nossa calminha, paizinho. Não precisa ficar agitado eu só fiz uma pergunta. Vamos mudar de assunto, ok? O que acha de pararmos em algum lugar para comer alguma coisa? Não sei você, mas eu estou faminta. — Ela tocou levemente o joelho dele.
Rey abaixou a retaguarda.
—Eu não estou com fome. —Respondeu com seu sotaque sulista, o homem era devagar como uma porta.
—Não me lembro de ter perguntado se você está com fome ou não, eu estou e isso é tudo o que importa. Olhe paizinho, ali tem um café, pare o caminhão para descermos.
Rey balançou levemente a cabeça dando um sorriso amarelo.
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—Por cima das costelas que vou querer molho barbecue. Ah e se tiver algum tipo de molho picante pode colocar bastante, mas não aquela porcaria que vocês usam misturado com água para enganar os fregueses, eu quero com pimenta de verdade, se é que me entende. Algumas rodelas de cebolas grelhadas para acompanhar o bife, e uma porção generosa de fritas, se você puder pode jogar o caldo que usou da costela por cima das fritas. Vocês têm milho cozido? —Cherry perguntou ávida ao garçom que anotava seu pedido.
—Temos sim senhora. —O jovem garçom anotava tudo em um bloco.
—Ótimo, vou querer dois! Se puder marinar eles na manteiga isso seria fantástico, chego á salivar só de pensar nisso. Uma porção generosa de purê de batatas também para acompanhar. E já ia me esquecendo, a costela do porco vou querer com o osso, nada de tirar ele. Gosto de comer de verdade usando as mãos. Para mandar tudo isso para baixo traga uma Pepsi bem gelada, pode ser uma daquelas da garrafa de vidro. — Ela disse sentindo o gosto de tudo o que falava. Encostada na parede do pequeno café podia ver o caminhão estacionado do outro lado da rua.
—Ótima pedida, vou providenciar para que o pedido seja feito. E o senhor vai querer alguma coisa? —Agora o garçom tinha se voltado para Rey.
—Não estou com tanta fome assim, me traga uma caneca de cerveja. —Rey procurava alguma coisa no bolso da calça.
—É pra já. Volto logo com as bebidas. — O garçom que tinha uma farta colheita de espinhas na cara se afastou.
—Posso saber quem vai comer todo esse banquete? — Rey perguntou colocando o cigarro entre os lábios. Cherry não pode deixar de notar que logo atrás dele tinha uma placa escrito que eraproibido fumar. Talvez ele não soubesse ler, isso não iria causar nenhum espanto nela.
—Oras paizinho, quem você acha que vai comer? Quando disse que estava faminta é porque realmente estou com muita fome, se pudesse comeria um cavalo. —Cherry passou a mão pelo saleiro, ele era feito de imitação de prata, conseguia ver seu reflexo no objeto. Era tão brilhante e atrativo.
Um casal de idosos olhava feio para Rey com o seu cigarro aceso, ele não parecia se importar.
—Nunca vi você comendo tanto assim, está se sentindo bem? —Rey perguntou preocupado. Cherry rolou os olhos.
—Estou ótima, obrigada pela preocupação. Olhe nossas bebidas chegaram. —Cherry entusiasmada apontou para o garçom que manejava as bebidas em uma bandeja. Ela rolou o saleiro de uma mão para a outra.
—Aqui está. A refeição logo será servida. — O jovem abriu a garrafa de vidro da Pepsi com um abridor e empurrou a caneca para Rey.
Rey virou metade da caneca em um só gole. Cherry bebericou delicadamente o refrigerante.
—Rapaz, quando trouxer a comida me traga outra cerveja. —Rey disse dando um leve arroto. Cherry sentiu o estomago revirar de fome.
O casal de idosos se abanava como em protesto pelo fumaça do cigarro de Rey que chegava até eles.
—Depois que eu terminar de comer, preciso que você me leva á um lugar, paizinho. — Cherry ergueu o saleiro verificando seu reflexo se perder na imensidão prateada.
—Para onde?
—Preciso ir até a minha casa pegar algumas roupas. Que dia é hoje mesmo?
Rey apagou o cigarro no descanso de copo.
—Quinta feira. Você vai ficar na sua casa?
—Não, bom pelo menos acho que não. Deveríamos morar juntos naquele motel nojento, não é uma idéia fabulosa, paizinho? — Cherry piscou.
Rey arregalou os olhos.
—Você está falando sério? — Um lapso de esperança dançou pelo rosto de Rey.
—Oras paizinho! Não será tolinho, se fosse para sair da minha casa não seria parar morar em um lugar que o lençol é sujo de esperma seco. Seria para dormir em lençóis de cetim. — Ela riu em divertimento.
—Não consigo entender esse seu senso de humor às vezes acho que você fica... — Rey parou por um momento, pigarreou. Arrumou o chapéu de cowboy na cabeça e se empertigou na cadeira.
—O que foi paizinho, aconteceu alguma coisa? —Cherry olhou para trás. Dois policiais entraram no café.
—Eu... Eu preciso ir ao banheiro. — Rey desviou o olhar.
—Não acredito! Não me diga que está com medo daqueles dois policias. Você fugiu da cadeia ou algo assim? — Ela brincou.
Rey não achou graça.
—Claro não, que idéia estúpida. Esqueceu-se que eu te ajudei a assaltar a porra de um banco. Eu não fugi da cadeia, mas posso voltar a qualquer momento se nos reconhecerem. Não... Não! — Ele falava mais para si do que para Cherry.
—Deus! Como você é medroso. Eles tem mais com o que se preocupar, como o almoço, por exemplo, do ficar caçando assaltantes. E foi só um roubo, não vão nos reconhecer, relaxe. —Cherry viu o garçom se aproximando equilibrando os pratos de comida. Os policiais estavam próximos ao balcão conversando com a atendente.
—Você matou um homem, pelo amor de Deus. Enfiou a porra de uma bala na cabeça dele. — Rey se remexeu na cadeira.
—Por que não vai até eles e conta tudo? Você parece muito preocupado com isso, Jesus! Fique calmo homem.
—Eu... Eu preciso ir mijar. —Rey levantou-se e passou pelas mesas como um furacão em direção ao banheiro. Cherry o observou sem entender o que acontecia, as vezes ele parecia um rato.
—Aqui está sua comida senhora, bom apetite! —O garçom depositou o prato em frente á Cherry.
—Muito obrigada, você não tem idéia de como estou com fome. —Cherry olhou em direção aos policiais, um grisalho e barrigudo e outro mais jovem. Ambos a olharam de volta. Ela ergueu a garrafa de Pepsi como saudação e eles retribuíram com um sorriso.
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—Você entendeu o que eu disse paizinho? — Cherry virou-se para Rey.
—Entendi não sou estúpido, garota. —Rey tinha ficado estranho desde que viram os policiais no restaurante. Ele tinha um olhar distante e disperso.
—Acho bom, eu estou falando sério. Não saia da porcaria do caminhão, isso não é como a casa do ricaço, você não pode entrar lá dentro. É rápido, vou entrar pegar algumas roupas e sair. — Cherry olhou para as mãos, ela segurava o saleiro do restaurante em uma delas.
—Por que você trouxe isso? Não sabia que gostava tanto de sal.
Cherry franziu o cenho.
—Não estou brincando paizinho, você precisa se concentrar, e não sair desse maldito caminhão.
—Tá bom, tá bom já entendi. Não vou sair daqui. Agora vá logo lá pegar a sua roupa.
Cherry abriu o porta luvas, a arma de Rey ainda estava ali dentro, a pegou e colocou por dentro da jaqueta que vestia.
—A onde vai com isso? Devo me preocupar?
—Jesus Cristo paizinho, você faz perguntas demais sabia? Qualquer dia desses vou me cansar de você e suas perguntas chatas. Parece um maldito disco quebrado. —Cherry inclinou-se e beijou os lábios de Rey.
—Não saia daí. Volto logo.
Rey passou a mão pelas pernas dela.
—Paizinho! — Ela bateu na mão dele. —Não pode dar liberdade pra você, não é mesmo? — Cherry desceu do caminhão. Realmente contava que Rey não fosse estúpido o suficiente para segui — lá. Era uma quinta feira e não queria arriscar que o Padre desse de cara com aquele caipira estúpido.
Ao aproximar-se da porta da casa passou por sua mente por um breve momento que ele talvez tenha se esquecido dela, mas a idéia logo foi afastada quando o cheiro nauseabundo da torta de cereja invadiu seu nariz. Sentiu o estomago revirar e a cabeça ficar pesada. Não queria batizar a porta da mãe com um vomito. Ultimamente os vômitos matinais estavam se tornando vespertinos e noturnos.
Assim que abriu a porta escutou os risos vindos da cozinha, aquela maldita voz de trovão, se ela fosse silenciosa o suficiente iria até o quarto, pegaria uma muda de roupa e sairia dali sem chamar a atenção de ninguém.
—Achei que você não vinha mais. —Cherry sentiu o coração quase pular para fora do peito com o susto, olhou para trás e o homem de batina estava escorado no batente. Em sua mão estava o pratinho com a torta.
—Por onde você esteve todo esse tempo, garota? Eu estava preocupada... E o bom Padre veio aqui semana passada e nada de você... Como pode fazer uma coisa dessas... Que irresponsabilidade e se ele... E toda essa torta... Pensei que talvez você... —A mente de sua mãe ainda não acompanhava o raciocínio, cada vez mais retrógado. Era como se sua mãe estivesse perdendo o juízo com o passar do tempo.
—Eu não vim por isso, vim pegar algumas roupas. —Cherry reuniu um pouco de coragem e respondeu. Padre McDirt a fitava com aqueles olhos frios como gelo.
—Já que você está aqui, deixe-me ajudá-la a arrumar suas coisas.
—Não obrigada, não preciso de sua ajuda. —Cherry rebateu.
—Carmen! Não seja insolente... Ele veio aqui para... E como ousa... E se... — Sua mãe lutava para manter uma frase conexa. Cherry deu de ombros.
—Mas não seria incomodo nenhum para mim, você sabe o... Grande prazer que me proporciona ajudá-la minha criança. — Ele deu o prato para Ruth e caminhou em direção de Cherry. Ela recuou.
—Não me chame assim! Sei bem a ajuda que você quer dar. Eu disse não, obrigada.
—Mas não é assim que as coisas funcionam, benzinho. Se eu disse que ia de ajudar, é porque realmente vou te ajudar. O que acha de subirmos e quem sabe rezarmos um pouco? — Ele fez a menção de tocar o ombro de Cherry, ela se esquivou.
—Eu disse não! E não coloque essa sua mão suja em mim, se não Deus me ajude não sei do que sou capaz. —Cherry sentiu o peso da arma no bolso da jaqueta, sua mão coçou levemente.
—Eu não acho que você está entendo a situação. Você não tem escolha, criança. Eu disse que vamos subir, e você VAI subir comigo. É assim que as coisas são, não se esqueça que eu posso reportar a policia sobre uma certa jovem que gosta de colecionar coisas brilhantes, principalmente se algumas delas fazem parte do acervo da igreja como a própria cruz desaparecida do pescoço de um padre. — Ele disse em tom de ameaça.
—Pode falar o que quiser Padre. Não tenho medo de suas ameaças. Você nunca mais vai tocar um dedo em mim. Nunca mais. — Ela se afastou. Ele se aproximou.
—Ah é? E como você chegou á essa idéia? Há três semanas atrás eu me lembro muito bem de termos rezados juntos no confessionário e você não ter reclamado. —Ele se aproximou perigosamente, Cherry podia sentir seu hálito doce, sabia que não iria responder por si se ele chegasse mais perto, a arma palpitava contra o seu peito.
—Não me interessa, as coisas mudaram e eu não vou deixar você fazer mais isso comigo, seu velho sujo. Eu preciso arrumar minhas coisas. —Ela virou-se, sentiu ele agarrando seu braço. A arma queimava contra seu peito sob o pano da jaqueta de Rey.
—Foi aquele caipira estúpido que colocou essas idéias na sua cabecinha oca? Aquele com quem você anda fornicando? —A malicia serpenteou sob os olhos dele. Cherry sentiu um arrepio na nuca.
—Como você...
—Eu sou do clérigo dessa cidade minha doce criança, sei de cada passo seu, não sabe que está em mim e eu estou em você? Você não pode simplesmente se negar a fazer o que eu quero, e sabe muito bem disso.
—Não me toque! Eu estou avisando, tire essa sua mão de mim. — Ela o alertou.
—E o que você vai fazer a respeito? Se esconder atrás da barra da sua mãe e chorar, ambos sabemos que isso não funciona, você é minha. Ainda não entendeu isso depois de todo esse tempo? Não pode se negar para mim. —Ele estava próximo demais.
—Seu velho pervertido. Estou cansada de você e suas ameaças! Quer ver o que eu vou fazer? Ótimo! Vai ser a ultima coisa que você vai ver seu porco de vestido! —Cherry encostou a arma na cabeça do Padre. Ele sorriu debilmente e sua mãe soltou um grito.
—Carmen pelo amor de Deus! Você não pode... O que está... Largue... Oh meu Deus! — Sua mãe balbuciava catatônica.
—Cala essa sua boca, eu vou estourar a cabeça dele, e depois a sua. —Cherry não sabia se era a Coisa de Rey dentro de si que a tornava mais corajosa, mas resolveu aprovceitar.
—Você... Você não pode fazer isso! —Sua mãe a alertou. O padre continuava com aquele maldito olhar presunçoso.
—Ah é? E por que não? —Cherry indagou.
Pela primeira vez sua mãe conseguiu articular uma frase sem gaguejar os se distrair por entre as palavras. A primeira e única vez.
—Porque ele é seu pai.
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