Putrefy
2 A Torta de Cereja
Notas iniciais
Boca Do Inferno uma hora atrás...
As luzes de néon estavam fazendo com que sua visão doesse, o cheiro de suor, cigarro, bebidas e esperma velho fazia seu estomago revirar. Seus pés estavam doloridos, o maldito salto estava acabando com as juntas do seu pé, cada passo era como se uma pequena agulha fosse enfiada em sua sola. As terríveis câimbras estavam acabando com qualquer resquício de humor que ela tivesse. Era difícil manter-se animada, era uma tarefa árdua sorrir e olhar nos olhos daqueles homens patéticos, que se aglomeravam ao redor do palco como um bando de moscas ao redor de um cadáver em decomposição, com seus olhares lamuriosos e vazios, cheios de admiração e desejo, porem completamente extintos de compaixão ou racionalidade. Eles eram patéticos, suas pequenas vidas valiam menos que um absorvente usado. Suas existências eram desgastantes e irritantes, só de imaginar o barulho de seus corações batendo, de suas jugulares pulsando fazia com que seu estomago subisse até a boca e voltasse, era revoltante o fato deles respirarem. Era degradante o fato de que eles não piscavam enquanto seu quadril se movia de cima para baixo. Era absurdo que suas mentes eram ocas e vazias enquanto suas calças estavam cheias e suas mãos ocupadas admirando-a despir-se para um bando de estranhos.
Contudo ela não era proibida de fingir e essa era uma de suas maiores virtudes, se não a sua maior virtude, fingir, mostras as pessoas exatamente aquilo que elas anseiam para ver, fingir um sorriso era recompensador, fingir palavras afinal as pessoas adoram ouvir aquilo que lhes agrada, ignorando totalmente o fato de que tudo que lhes é dito não passam de palavras mentirosas.
Ela era boa em fingir, tinha percebido isso desde muito tempo, desde quando era uma criança que morava perto do pântano, desde os domingos que ia à igreja com a mãe. Mas era melhor não pensar nisso, não agora. Isso faria com que seu humor abaixasse ainda mais.
Ela se abaixou, deixou um cliente colocar uma nota verde dentro da sua calcinha, lhe retribuiu com um sorriso afável, os olhos lascivos do homenzinho brilhavam. Ela sentia o cheiro que saía dele, ele cheirava a vida. Ela odiava esse cheiro. Voltou para o mastro frio de metal, enquanto fazia acrobacias e absorvia a música que tocava, tentando ignorar todos os burburinhos das conversas paralelas infligindo seus pensamentos. Só mais uma noite ela dizia a si mesma, e não teria mais que voltar para o inferno. Literalmente.
Não tinha vergonha em ficar nua na frente de completos desconhecidos, não se importava em se exibir, seu corpo ela seu instrumento e tinha orgulho dele, aprendera a manejá-lo ao seu favor desde muito cedo. Assim que atirou o sutiã ao publico se sentiu livre no palco, ela não dançava para os outros, não para aquele bando de hipócritas, fazia isso para si mesma. Todas as noites seduzia a si mesma, e podia afirmar que estava completamente apaixonada pela imagem que refletia no espelho do bar. Seu reflexo era encantador, e sempre que maneja o corpo pelo palco, subindo e descendo no chão frio, conseguia ver sua imagem logo á sua frente. Era para a mulher no espelho que ela dançava, e não para os caipiras que atolavam suas mãos com dinheiro suado e sujo.
A música acabou ela se levantou do chão e recolheu as notas perdidas entre suas vestimentas. Os homens assobiavam e falavam obscenidades, ela ignorava á todos. Apenas colocou o roupão e desceu do palco. A primeira coisa que fez ao sair do holofote foi tirar os saltos pretos, eles estavam fazendo bolhas em seus pés, estavam no vivo e doloridos. Foi um alivio ver-se livre dos saltos e sentir o sangue fluir livremente por seus dedos.
Caminhou com toda a elegância e dignidade que uma stripper descalça usando apenas um roupão poderia ter e foi para o lado de fora da boate. A luz a estava incomodando, o cheiro e principalmente aquelas pessoas. Eram apenas hospedeiros dentro de um corpo humano sem vida, um grande amontoado de carne desperdiçando tempo e ocupando espaço.
Cherry Pie encontrou um caminhão estacionado na parte de trás da boate encostou-se a ele. Tirou o maço de cigarros do bolso, abriu o lacre e puxou com os lábios o cigarro. O colocou na boca enquanto tateava dentro do felpudo bolso do roupão rosa á procura do maldito isqueiro, ele sempre sumia quando ela precisava dele. Ouviu o som familiar do isqueiro sendo aceso e sentiu o calor do cigarro em seus lábios. Ergueu o olhar e encontrou um isqueiro metálico que tinha o desenho cafona de duas palmeiras. Olhou para cima um homem com a careca lustrosa segurava o isqueiro enquanto ascendia o seu cigarro. Ela não se lembrava de ter pedido ajuda a ninguém.
—Achei que você precisava de fogo, baby. — O careca simpático disse a encarando profundamente.
Ela se segurou para não rolar os olhos, isso não seria educado. Tragou o cigarro, absorveu a nicotina apodrecendo seus pulmões, abriu os lábios e soltou a fumaça na cara do intruso.
—Você não deveria estar aqui, é proibido seguir as dançarinas, não sabia disso? — Ela retrucou batendo a cinza do cigarro no asfalto sujo, perto do pneu do caminhão.
O careca carismático não se importou com a represália. Voltou a falar.
—Eu sempre venho aqui e nunca tinha te visto dançar antes, você me impressionou bastante. Baby.
Era mentira, ela trabalhava a três anos neste maldito buraco esquecido por Deus. Se ele freqüentasse todas as noites com certeza a conheceria.
—É mesmo? Não me diga. Você deve ser um ótimo cliente. — Ela disse soltando a fumaça junto às palavras.
O homem se aproximou e encostou o braço direito no caminhão, na intenção de deixá-la intimidada. Ela já tinha visto esse tipinho antes. Não estava intimidada. Estava entediada.
—Selly é seu nome né? Você é muito bonita sabia moça?
—É Cherry. — Ela disse olhando o gordo braço branco e peludo que estava ao seu redor. — Nunca haviam me dito antes que eu era bonita. — Ela piscou com olhos inocentes para o homem.
—Sabe o que eu acho? — Ele disse tirando o cigarro dos lábios de Cherry. Eles estavam manchados pelo batom vermelho e o colocando nos lábios. —Que você devia me entreter essa noite. O que você acha baby? — Ele sorriu, seus dentes eram tortos e amarelados.
Cherry ergueu uma sobrancelha. Aquilo estava ficando interessante.
—E o que você sugere?— Cherry acariciou o rosto suado do homem. — Como eu posso te entreter, você é quem manda.
Ele colocou a mão no bolso de trás e tirou uma carteira, tragou o cigarro e soltou a fumaça para cima.
—Eu tenho alguns trocados que vão te deixar bem animadinha. E tenho uma coisa dentro das calcas que vai fazer um estrago na sua garganta. Heh. — Ele riu enquanto desabotoava as calças.
—Também tenho algumas idéias, baby. —Cherry disse com um sorriso no rosto.
Os olhos do homem lacrimejaram, o cigarro manchado de batom caiu dos lábios dele e rolou para o chão. Cherry sentiu o sangue quente e pegajoso correr em suas mãos. Olhou para baixo e viu que pressionava o estilete mais fundo na carne macia da barriga do homem. Enquanto ele tentava se desvencilhar das calças ela tinha pegado a lamina no bolso e cravado na banha do careca. Ela ergueu o estilete para cima rasgando a pele, e depois o desceu abrindo o corte.
—O que você fez sua... puta!? — Ele disse olhando para baixo e antes que pudesse pronunciar outra palavra o sangue jorrava de sua boca.
Cherry usou a outra mão para abrir o buraco na barriga dele. Ele tinha pequenos espasmos enquanto tentava tirar a mão da mulher do estilete. Era inútil tentar pará-la o sangue escorria rápido demais, sua vida se esvaia com rapidez. Cherry sentia o liquido viscoso escorregando entre seus dedos. Agarrou o pedaço liso e o puxou para fora. As entranhas do homem saiam de seu corpo como um porco no abate. Ele caiu de joelhos enquanto ela ainda puxava suas vísceras para fora, o eviscerando como um animal. O que difere um homem de um animal? O sangue de ambos era quente da mesma maneira.
Cherry soltou as tripas, o homem jazia largado no chão, pegou o cigarro caído ainda aceso perto da roda do caminhão e o colocou na boca.
—Eu não sou puta. Não mais. — Ela disse cuspindo em cima do homem.
‘Droga!’ ela pensou isso era arriscado demais, ela precisava tirar o porco do meio do estacionamento. Olhou para os lados e não viu nenhum lugar para esconder o corpo. Olhou para trás, a lona do caminhão se levantou com o vento.
—Bingo! — Ela disse tirando uma mecha de cabelo dos olhos. Era só colocá-lo na parte de trás do caminhão de algum idiota. Ninguém ia se importar. Ninguém valia à pena.
Não foi fácil, o homem tinha o dobro do seu peso, Cherry sentia o suor escorrer por entre suas pernas enquanto arrastava o corpo para dentro da traseira do caminhão. Assim que terminou precisava descansar e precisava de outro cigarro. Suas mãos estavam se esfarelando com o sangue coagulado. Levaria dias para tirar a sujeira de dentro das unhas, maldito porco sujo.
Algo a chamou atenção enquanto tentava mover o grande homem, seu isqueiro caiu de dentro do bolso. Era prata e brilhante, barato e reluzente. Cherry o pegou nas mãos e o admirou contra a luz. Era hipnótico. E agora era SEU. O colocou dentro do bolso de seu roupão.
Olhou para seu reflexo no vidro do caminhão, ainda maquiada e com gliter na cara, misturado ao sangue do animal. Abriu a porta do caminhão, por sorte estava aberto. Ela precisava se sentar em um lugar confortável. O caminhão cheirava a colônia barata e cigarro. Ascendeu o dito cujo e soltou a fumaça no painel. Tinha um par de botas de cowboy no assoalho. Elas tinham um bico prateado na ponta, ele brilhava contra a luz, era tão reluzente e atrativo. As experimentou ficaram enormes nos seus pés, mas eram incrivelmente confortáveis. Não calcava um sapato tão bom assim há anos.
O idiota tinha deixado a chave do caminhão na direção, com certeza era alguém muito retardado pedindo para ser assaltado. Ela poderia ligar o caminhão e dar o fora dali. Pegou o chaveiro, tinha uma pequena placa de madeira com um nome gravado. Estava escrito ‘Rey’. Então ‘Rey’ seria o idiota em questão a ajudá-la a se livrar do corpo do porco.
Boca do Inferno uma hora depois...
—Mas que merda é essa? MAS QUE PORRA VOCÊ FEZ NO MEU CAMINHÃO? — Rey perguntou confuso.
Agora era a hora de dar todo o melhor de si.
—Foi... Foi tudo tão rápido e eu não tive tempo de... Oh meu... Oh oh oooh meu Deus amado! — Cherry disse colocando ambas as mãos nos lábios trêmulos. As lagrimas escorriam pelo seu rosto. Talvez ela não precisasse se esforçar muito, fingir era um dom nato.
—O que aconteceu? Que porra é essa? Que porra aconteceu? O que é isso? — Ele a encarava com as pupilas dilatadas e cuspindo em sua cara. Ele estava claramente alterado. Cherry não gostava do tom da voz dele.
—Eu... Eu não sei explicar, foi tudo tão rápido e meu Deus do céu eu... e-eu não acredito nisso! — Ela fungava e soluçava alto.
Rey a pegou pelos ombros e a sacudiu, aquilo não estava funcionando da maneira que ela queria. Ela não estava conseguindo tocar dentro do idiota.
—Você precisa se concentrar garota e me falar porque diabos têm um maldito homem com as tripas pra fora na porra do meu caminhão.
Cherry respirou e ‘tentou’ conter as lágrimas.
—Paizinho, eu vim aqui fora para tomar um ar e ele veio atrás de mim, foi tudo muito rápido, ele me empurrou contra o caminhão, e... Oh céus eu nem consigo pensar nisso. Ele estava em cima de mim, com essas grandes mãos no meu corpo, foi tudo muito rápido, eu tinha que me defender paizinho! Era eu ou ele, você me entende não é? Deus o que eu fiz? Você vai chamar a policia? Eu te imploro! — Ela se ajoelhou e grudou nas penas de Rey. Aquilo era hilário, teve que se conter para não rir.
—A policia? —Ele suavizou o semblante. —Não garota eu não vou chamar a policia. Ele te atacou foi isso?
Ele era um dos lerdos...
—Sim, ele me atacou foi horrível e... Obrigada paizinho você me salvou!— Ela disse encostando-se às penas dele e as abraçando.
—Jesus Cristo! Se levante garota. Eu não fiz nada, você quem se defendeu sozinha. Pare de chorar vamos. — Ela se levantou e o abraçou, fazendo questão de encostar os seios no peito do homem. — Pare de chorar, por favor, certo? Cê não sabe, mas eu não suporto ver uma mulher chorando.
—Eu não acredito que eu fiz isso, isso é um pecado tão grande, tirar a vida e alguém paizinho! O que nós vamos fazer? — Era bom enfatizar que eles eram uma dupla.
—A gente tem que tirar ele daqui, certo? — Ele disse afagando os cabelos dela. O toque dele a enojava.
—Você acha que é isso o que temos que fazer? Eu não sei o que fazer meu Deus! — Ela fungou.
O homem com o bigode meio loiro colocou as mãos em volta do rosto molhado de Cherry e a fez o encarar. As coisas estavam começando a caminhar da maneira correta, era bom fazer com que ele achasse que ela precisava dele, que era frágil e inocente.
—A gente vai limpar essa bagunça, tá bom? Agora pare de chorar, vamos tirar isso daqui. Tudo bem? — Ele tinha um olhar preocupado. Como um homem podia fazer algo como ignorar um homicídio por um belo par de peitos? Cherry não sabia, mas era assim que o mundo girava.
—Tudo bem, paizinho. — Ela forçou um sorriso, era bom induzi-lo a achar que a idéia de desovar o cadáver era uma idéia própria dele, e não dela. Era muito importante convencê-lo disso. Ela se aproximou do homem de bigode e chapéu. Tocou em seu rosto. —Foi o bom Deus que o mandou aqui, eu sabia que podia contar com você. —Ela sorriu aliviada. Era extremamente importante se mostrar frágil e dependente. Os homens gostam de se sentir no controle, especialmente os fracos e inseguros.
—Não fale besteiras. Vamos entre no caminhão e vamos dar um jeito nessa... Bagunça. —Ele disse sentando no banco do motorista. Obedientemente Cherry foi para o banco do passageiro.
Ela se afundou no banco do estranho, enquanto ele ligava o ruidoso motor e partia pela estrada escura.
—Me diga uma coisa. —Ele disse com o cigarro entre os lábios. —Como você sabia que esse caminhão era meu?
—Oras paizinho, eu não sabia. Foi o destino, você acredita no destino, não acredita?
Ele a olhou de soslaio. Soltou a fumaça pelo canto da boca. O carro passou por um buraco e deu uma tremida. Cherry soltou um gemido. Rey tinha um semblante desconfiado. Talvez não fosse assim tão fácil dobrar ele no final das contas. Cherry sentiu uma pequena fisgada na nuca.
O caminhão passava por uma estrada de terra, Cherry conhecia aquele caminho. Eles estavam indo ao pântano Atchafalaya . Todos conheciam um dos maiores pontos turísticos de Louisiana são seus pântanos e com eles os aligátores.
—Sabe de uma coisa? —Ele perguntou sem tirar os olhos da estrada escura. O farol estava bem alto que ardiam os olhos de Cherry.
—Não paizinho, o que foi? — Ela perguntou inocentemente.
—Eu aprendi a alguns anos que nada é coincidência. Essa baboseira de destino sabe? Eu não acredito muito nessas merdas. Aprendi do pior jeito que tudo é exatamente do jeito que deveria ser. — Enquanto ele falava a fumaça tomava conta do veiculo. Cherry abriu o vidro ao seu lado.
Ela se encolheu no banco. O ar podre do pântano embriagou seus pulmões. Cheirava a madeira molhada. Á corpos em putrefação.
—E sabe o que é mais engraçado disso tudo? É que você me esnobou todo esse tempo que eu a chamei para sair, e agora. —Ele deu uma risada rouca. — Bem agora você aparece com essa cara lavada querendo a minha ajuda. É uma puta coincidência não acha? — Ele parou o carro. Eles haviam chegado ao pântano. Virou-se lentamente para Cherry. Talvez ele não fosse tão estúpido assim. Esse daria um pouco de trabalho para tirar vantagem.
A escuridão escondia o rosto do homem, tudo o que ela via era a brasa do cigarro aceso.
—Eu já disse como tudo aconteceu não me faça repetir. Você não sabe como é ser uma mulher pequena, em um mundo tão grande. Era ele ou eu, paizinho. —Ela disse colocando a mão sobre o joelho dele.
Ela pode ouvir por alguns segundos a respiração pesada do homem. Isso era um bom sinal, ele estava se dobrando.
—Tudo bem. — Ele finalmente disse. —Eu acredito em você. — Rey tirou a mão dela de seu joelho e abriu a porta do caminhão descendo.
Cherry fez o mesmo, sentiu a bota se afundar na lama. Estavam no pântano Atchafalaya. Faltava pouco para o sol nascer, portanto era a hora mais escura da noite. Não conseguia ver um palmo a sua frente com exceção do farol do caminhão. Esperava não terminar a noite na barriga de um jacaré.
Ela colocou a mão no bolso, sentiu o toque gelado ao isqueiro de prata barata, seu coração pulsou mais rápido, era bom tocá-lo. Colocou um cigarro na boca e ergueu o artefato para ascendê-lo.
—Você vai me ajudar a tirar isso da traseira ou não? — Ele perguntou provavelmente se referindo ao corpo. Cherry revirou os olhos, por sorte ele não podia vê-la no escuro.
Ela ouvia o som das botas se afundando na lama, enquanto caminhava até o homem, estava escuro demais não conseguia enxergar coisa alguma.
Enquanto se aproximava sentiu algo gelado em torno de seu pescoço. Seus olhos se encheram de lágrimas. Sentia a garganta arranhar e o pulmão arder. Sua pele ficava mais e mais gelada enquanto seus dedos ficavam dormentes. Não conseguia abrir a boca, se mexer ou falar. Ele a estava estrangulando.
—Eu acho bom você começar a falar sua puta louca. Porque tem um cara morto na traseira do meu caminhão? Você já esteve em uma cadeia? Você sabe o que tem lá? Pois eu acabei de sair de lá, não sou nenhum estúpido.
Cherry tentou erguer as mãos e tocá-lo, mas ele continuava a pressionar sua garganta com mais e mais força. Seu nariz e olhos escorriam ao mesmo tempo. Sentia o rímel preto grudando em sua pele branca.
Ele afrouxou as mãos. E tossiu, tossiu até sentir que seus pulmões iriam sair para fora. Levou ambas as mãos para o pescoço na tentativa de massageá-lo para afastar a dor.
—QUAL É O SEU PROBLEMA? VOCÊ DISSE QUE IA ME AJUDAR E EU ACHEI QUE PODIA CONTAR COM VOCÊ. — Ela disse se afastando. O tempo todo em que ele fazia um teatro patético de apertar seu pescoço ela tinha o canivete manchado com o sangue de outro homem no bolso, se quisesse teria aberto um buraco na barriga do caipira, mas era bom mostrar-se verdadeira e vulnerável. —Eu achei Deus isso foi um erro. Eu achei que ia ter alguma ajuda sua. Eu surtei, não sei o que aconteceu, já disse, por favor, paizinho em imploro. Foi tudo tão rápido não tive tempo de raciocinar, quando eu me dei conta, ele já estava sangrando no chão. Eu acho que eu tive um apagão. Ele tentou me atacar. Eu precisava me defender. — Ela deu as costas ao homem e foi andando sem rumo pelo pântano. Contou ate cinco mentalmente até ouvir o som dos passos atrás de si. Sabia que ele ia atrás dela, se não tivesse ido não teria funcionado.
—Espere! —Ele disse a alcançando. Tocou levemente seu braço e ela recuou. — Me desculpe, eu acho que não sei mais confiar em ninguém, você tem razão me perdoe. Sente no caminhão tá bom? Eu vou jogar aquilo no pântano e depois te levo para sua casa tudo bem? —Ele disse com voz arrependida.
A sorte era o escuro, pois ele não podia ver o sorriso brotar nos lábios dela.
—Você feriu meus sentimentos, paizinho. Achei que você fosse diferente. —Ela disse voltando em direção ao caminhão velho.
—Eu sou diferente, eu vou fazer diferente desta vez. — Ela balbuciou indo pegar o corpo. Ela não entendeu o que ele quis dizer com isso e tão pouco lhe importava. Ele deve ter sido preso pelo o que disse, ela já desconfiara disso desde a primeira vez que o viu avulso na Boca do Inferno, suas tatuagens mal feitas, seu jeito desengonçado olhando com cobiça para seu corpo, o tipo de homem que não saber o que é ter uma mulher a muito tempo, do tipo que não saberia o que fazer se tivesse uma, não saberia a onde colocar. O jeito que ele fumava sem parar, como se esse fosse seu único passa-tempo. Ela conhecia muitos homens, sabia farejar um ex-presidiario de longe. Ele estava fora de circulação, era como um animal que depois de enjaulado ela colocado de volta na natureza, não sabe se adaptar, não sabe em quem confiar. E seu pior erro foi esse.
Um tempo depois ele voltou ao carro, sujo e fedendo a lama. Ligou o carro e saiu sem falar uma palavra se quer. Cherry colocou a mão na perna do homem.
—Obrigada por me ajudar paizinho, serei eternamente grata a você. Você salvou minha vida.
—Eu não fiz nada, você não tem do que me agradecer. —Ele estava nervoso ao seu toque. —A onde você mora? Posso te deixar em casa.
—Oh paizinho. Você já fez demais por mim, me deixe no Boca do Inferno, que eu vou sozinha para casa, não posso mais abusar de sua bondade. — Ela tirou a mão da perna dele e se empertigou no acento.
—Vamos, não tem problema nenhum, você não deve morar tão longe.
—Eu não quero que você ache que eu sou uma oportunista, você tem sido tão bom comigo paizinho, é sério. Me largue na boate e eu me viro. Chego logo em casa.
—Já disse que não tem problemas, esta tarde para você sair por ai sozinha.
Se ele soubesse as coisas que ela fazia sozinha... Cherry não conseguiu afastar o pensamento.
—Por favor, eu insisto. Me deixe na boate e eu me viro, alias esta amanhecendo já, então não é tão tarde, não acha paizinho? —Ela seu um risinho abafado enquanto ele se aproximou da boate, que já estava vazia, os clientes tinham ido embora, ou Carl seu gerente já tinha colocado todos para fora. Merda! Cherry havia se esquecido totalmente dele, saiu para seu intervalo e não voltou mais, nem deu satisfação, em todo caso ela não precisava, ela era a atração principal daquela espelunca. Ele não iria ter coragem de demiti-la e se o fizesse, ela não dava à mínima. Ela não se importava.
—Tudo bem, você venceu. Me desculpe por... hã, por aquilo que aconteceu, você sabe... — Ele disse desajeitado.
Ela sorriu tranquilizadoramente, e tocou o rosto sem barbear do homem.
—Não se preocupe com isso, eu estou bem. Obrigada paizinho! — Ela se inclinou e depositou um beijo no rosto dele. Abriu a porta e saiu do carro.
—Hey! Quando eu posso te ver? — Ele gritou pela janela.
—Todas as quintas eu estou aqui, você sabe onde me encontrar paizinho.
Cherry parou e viu o caminhão sair pela estrada. Mais um idiota ganho, ele era o idiota que ela precisava, era a presa perfeita, todos os outros tinham falhado... Ela estava depositando muita fé nesse daí, pelo menos uma vez seus planos tinham que dar certo. Não dava mais para viver nessa vida. Ela precisava de uma reviravolta, e como não nasceu com um pau no meio das pernas para ser respeitada, precisava de um para conseguir alcançar seus objetivos, nem que isso lhe custasse fazer coisas degradantes. Uma a mais, uma a menos não iria fazer diferença.
Entrou na boate, ela ainda usava o roupão sujo de sangue, precisava se livrar dele, trocar de roupa e ir para casa. Só a idéia de ir para casa embrulhava seu estomago. Esse era o ultimo lugar que ela gostaria de estar. Foi direto para o vestiário. Assim que entrou Carl estava sentando em uma mesa contando o dinheiro da noite. Dinheiro que ela tinha trazido para aquele inferno com o seu corpo. Era uma quantidade muito maior do que a pequena porcentagem que ganhava, tirando as gorjetas que ganhava dos clientes, mesmo em uma boa noite não era suficiente.
—Ora ora, a boa filha retorna a casa. Posso saber a onde a senhorita estava? — Ele estava com um charuto na boca enquanto contava o dinheiro.
—Eu tive que sair para resolver umas coisas. — Ela se aproveitou que ele estava de costas e jogou o roupão sujo na bolsa, tudo o que ela não precisava era de perguntas.
Ele coçou a barba ruiva, sem tirar os olhos do dinheiro ignorando totalmente o fato de que ela estava nua ao lado se trocando. Não era nada que ele nunca tivesse visto milhares de vezes, ou tido...
—Eu não sei quem você pensa que é, mas não é assim que as coisas funcionam por aqui. Existe uma coisinha chamada: Responsabilidade. Você é MINHA empregada, e enquanto estiver em seu horário de expediente não pode deixar a porra da boate para ir fazer sei lá o que.
Ela revirou os olhos enquanto se equilibrava para tirar as meias calças.
—Foi uma emergência, nada que seja da sua conta. Eu já faturei bastante essa noite, se não você não estaria contando todo esse dinheiro.
Ele pela primeira vez prestou atenção nela, e se virou. Coçou de novo a barba vermelha irlandesa, e soltou círculos de fumaça.
—Você não é tudo isso sabia? Tenho outras dançarinas, o lucro não vem todo de você, pare de se achar a porra de uma estrela, porque nós dois sabemos que você não é isso, minha querida. Não se esqueça que quando você veio até a mim, era só uma caipira pretensiosa que ainda cheirava a torta que a mamãe fazia—Ele se levantou e foi até ela. Ela recuou até a parede. Só de pensar que já tinha trepado com ele a enojava, ele cheirava a cerveja. Depois que eles treparam ela nunca mais conseguiu tomar cerveja novamente.
—Que seja, eu precisei sair e não te devo explicações. — Ela disse colocando o vestindo. Ele ainda a mantinha contra a parede enquanto a observava se trocar. Em breve ela iria tirar o sorriso zombeteiro dele da cara. Ela não sabia, mas seus dias estavam contados.
—Você fica muito gostosa zangadinha sabia? — Ele disse colocando a mão embaixo do vestido dela.
Ela sentiu o gosto da bile na garganta. Tirou a mão dele com um tapa.
—Vai se foder. — Ela disse pegando a bolsa e saindo do quarto.
—Não cuspa no prato que você come. —Ele disse rindo.
Ela estava farta de tudo isso, agora ela iria ter a situação sob controle e iria sair daquele lugar o mais rápido possível, era divertido ver como ele achava que estava no comando, que a tinha no polegar. Mal ele sabia que em um piscar de olhos ela poderia ver se livre dele, para sempre. Era tudo uma questão de perspectiva, Carl precisava dela para os negócios, ela precisava do emprego para conseguir suas presas, homens solitários e de cabeça vazia. Era como pescar, jogar a isca e esperar que ela fosse mordiscada. Deixá-los pensar que estão ganhando, quando na realidade vão ser fisgados.
Já estava claro quando ela chegou à sua casa. A grama estava alta na frente da varanda de madeira da velha casa manchada, escutava o som dos grilos ainda ao redor do mato. Caminhou em passos lentos até adentrar o cômodo. Aquele lugar era vazio, não tinha vizinhos, uma casa quase abandonada a não ser por duas pessoas que moravam nela há anos. O lugar abandonando e perfeito para todo o tipo de coisa que ninguém quer saber, ou fingir que não sabe que acontece.
Assim que se aproximou da porta sentiu o cheiro nauseabundo da massa. Crocante e quente. Sentiu o aroma doce da cereja impregnar seu nariz, como em um desenho animado a fumaça saia da casa e dançava por fora, convidando quem passasse a se juntar a melodia doce e enjoativa do que estava sendo assado. Convidando a uma pequena mordida.
Abriu a velha porta que rangia, sentiu a madeira do assoalho ranger sob seus pés.
—Quem está ai?— A voz velha chamou da cozinha.
—Quem você acha que é? Sou em mãe. — Cherry disse irritada.
A velha com cabelos brancos e desgrenhados em um coque desalinhado saiu da cozinha até a sala, com moveis antigos e empoeirados que ninguém tinha coragem ou vontade de limpar á anos, uma casa esquecida por Deus e por todos. Sua cara e roupa estava suja de farinha, também tinha manchadas vermelhas no avental da maldita calda de cereja.
—Você esta com uma aparência horrível. Vá deitar um pouco, você precisa estar descansada, com uma aparecia jovem e bonita. — A mãe disse entusiasmada.
—Eu me sinto horrível.
—Você esta sentindo esse cheiro, querida?
Cherry queria ignorar, mas não podia.
—Estou assando a Torta de Cereja, tinha que ser feita, se não fosse as coisas não sairiam como deve ser. Não, não e não, isso não pode acontecer. Tudo tem que estar perfeito. Você tem que se deitar e descansar, eu tenho tantas coisas pra fazer e... Meu bom Senhor, olha à hora! Já são quase seis da manhã.
—É cedo ainda mãe, você não precisa se descontrolar. Acho que ele não vai ligar pra uma torta estúpida... —Ela sabia que isso era só um pretexto.
—Você sabe que ele ama essa torta, estou fazendo especialmente para ele. Acordei antes do galo para começar a fazer a massa... E até sová-la e deixar no ponto dá um trabalhão... E ó céus! Não pode estragar, não pode dar errado, tudo tem que ser perfeito. — A velha falava sem olhar para um ponto fixo, com os olhos amarelados e trêmulos.
—Não está sentindo esse cheiro mãe? — Cherry indagou.
—Jesus Cristo! A torta tá queimando! — A mulher foi como um furacão para a cozinha.
Cherry sentou-se no sofá velho e rasgado.
—Oh não, não, não! O que eu fiz para merecer isso meu Deus? Está arruinada, vou ter que fazer outra torta. — A mãe falava aos prantos, ela se importava mais com a torta do que com o que acontecia ao seu redor.
—O que vamos fazer, mãe? — Cherry perguntou, mesmo sabendo a resposta.
—O que nós vamos fazer? Eu vou fazer a torta de cereja. E você irá rezar, e muito, Carmen.
—Eu acho que não agüento mais rezar, não do jeito que Ele me ensinou... — Cherry afundou a cabeça no sofá, enquanto brincava com o estilete sujo de sangue nas mãos.
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