Putrefy
9 A Coisa
Seis meses atrás...
Ela correu em passos largos, o pequeno tamanco de couro desbotado marrom soltou-se de seu pé esquerdo como se não quisesse fazer parte daquilo. Preferia passar o resto de sua mísera vida afogado no lamaçal do pântano do que compactuar com aquilo mais uma vez. Ela virou-se com rapidez notando que o calçado escapara de seu pé e deu meia volta procurando pelo tamanco. Ótimo, agora além de tudo tinha que continuar o caminho descalça esse com certeza era seu dia de sorte. Olhou para baixo na beira da água a onde pequenas ondas provocadas pelo leve vento quente do verão tremeluziam na água imunda do pântano de Atchafalaya. Ali estava o desgraçado do tamanco submerso no lamaçal. Carmen agachou-se para pegar o tamanco. Um caranguejo vermelho passou correndo por sua mão assim que ela tocou o velho tamanco, se ela estive em um bom dia teria esmagado o nojentinho com o sapato. Ao invés de fazer isso retirou a peça marrom da lama, e colocou de volta no pé descalço. Ignorou o fato de que ele estava todo sujo e enlameado, sentiu cócegas no pé ao calçá-lo, mas isso deveria servir até chegar ao seu destino. Ela não podia parar, pois o tempo era seu pior inimigo, quanto mais delegasse isso, quanto mais retardasse o processo a coisa (ela se recusava a chamar isso de outra forma, era A Coisa e pronto e acabou!) continuaria a crescer, e Oh Deus! Isso não poderia acontecer nunca...
Assim que se levantou sentiu como se a cabeça estivesse enevoada com um densa neblina, seu estomago se retesou para baixo e sentiu um desconforto dolorido. O vestido solto de verão azul e barato se ergueu com o movimento, ela o alisou para baixo e continuou a andar, nesse caso achou que deveria estar correndo com a rapidez de seus passos. Não queria ficar muito tempo de bobeira na beira do pântano, isso seria suicídio. Algum aligátor iria sentir o cheiro de sua carne quente e fazer dela sua refeição. Sabia que isso era tolice, esse não era o real motivo para correr dali, nem as milhares de fábulas que os moradores locais haviam inventado de monstros do pântano que se esgueiravam debaixo dos troncos podres das árvores durante a noite para raptar as filhas virgens dos pescadores. Tudo isso era tolice e ela sabia isso muito bem, afinal de contas tinha crescido brincando naquele lamaçal e o único monstro que conhecera em toda a sua vida vestia uma batina e entoava orações nos domingos de manhã. Ela queria sair logo dali para chegar ao seu destino o pântano lembrava a sua infância, e sua infância lembrava o inicio de seus tormentos. Ela não tinha tempo para devaneios tinha que se preparar. Ainda estava claro por de trás das arvores então não era ainda nem meio dia, porém era o último dia de lua cheia, o ultimo dia do ciclo para fazer o que fosse preciso e dar um fim na Coisa. Ela precisava se apressar e correr se fosse preciso, precisava contar mais uma vez com a sorte, uma vez mais fazer o tortuoso trajeto que vinha realizando nos últimos anos mais vezes que o seu corpo poderia aturar, não sabia como isso era possível, mas tinha que ser feito. A Coisa não podia continuar ali, mais uma vez teria que ser interrompida. Só o pensamento alarmante de demorar alguns segundos a mais, tornaria tão difícil para tirar A Coisa que estava começando a ficar enraizada, criando pequenas garras e fincando o seu lugar no mundo. E isso não poderia acontecer se o Bom Deus permitisse.
Um bom incentivo para correr era o fato de que os mosquitos a estavam comendo viva, o vestido sem mangas tornou sua pele um prato cheio para todo tipo de inseto que voava naquele lugar, ela mais batia contra si mesma para espantar os malditos do que corria. Amaldiçoando cada um deles enquanto corria pela lama. Olhou de relance para o seu braço que estava apresentando pequenos círculos roxos das mordidas. Com sorte até a noite todas iriam infeccionar. Mas era um preço baixo a ser pago pelo tratamento que estava buscando. Só de pensar na Coisa Maligna que estava ficando maior e espaçosa ela sentia vontade de gritar.
Por de trás da vegetação do pântano, entre o lamaçal e as trepadeiras verdes que faziam uma espécie de cortina natural contra invasores estava à pequena casa escondida. Carmen logo avistou a casa sob as palafitas de madeira em cima da água do pântano. Diversas vigas de madeira sustentavam a tapera do mesmo material, ao lado tinha um varal com algumas peças de roupas penduradas, uma janela improvisada fechada com a tela para evitar que os mosquitos carregassem quem quer que morasse ali dentro para fora da casa. Uma porta também fechada com o mesmo material contra os insetos que animais pequenos, ela sabia que á noite a porta de madeira era fechada. Apenas por precaução, Ninguém ousava entrar naquele lugar, ninguém era estúpido ou desesperado o suficiente para arriscar ter a perna devorada por um jacaré indo aquele casebre. Para poder atravessar á palafita que tinha uma escada de acesso a casa era preciso usar o barco. O pequeno barco de madeira estava parado na margem do córrego com o remo ao lado. Quem quer que o usasse para ir até a casa tinha que devolvê-lo a margem quando fosse embora. Menos quem morava ali dentro, Carmen sabia muito bem que a moradora da casinha nunca saia dali, as pessoas apenas iam até ela. Levavam até ela tudo o que ela precisasse. Era assim que as coisas funcionavam para Bubba desde que ela tinha largado o circo que passara por Morgan City em Louisiana. Fazia décadas que ela não saia daquela tapera desde que sua filha única decidira que morar no meio do pântano com os jacarés não era o estilo de vida que ela tinha em mente.
Carmen subiu no pequeno barquinho de madeira, o caminho da margem até a palafita não era muito longo ela só precisava de fôlego e perseverança para chegar até ali. Começou a remar com um pedaço de tronco oco que estava próximo ao barco. Assim que saiu da margem sentiu uma pontada na costela logo abaixo do seio. Era como se enfiassem uma agulha de crochê por entre suas costelas e a torcessem na esperança de tirar algumas vísceras para fora. Tudo bem continue remando, garota! O pior já vai passar você só precisa chegar até a casa e tudo ficara bem. Era tudo o que ela precisava acreditar, já tinha feito isso inúmeras vezes antes e essa não seria a ultima. Era uma perda de tempo, ela tinha coisas melhores para fazer como se pendurar em um poste de metal e tirar trocados dos bolsos de velhos patéticos ao invés de fazer essa cruzada, mas no momento não tinha alternativa a não ser continuar a remar. O movimento continuo de ir para trás e para frente com o tronco levantou uma subida dor na sua virilha, no começo era como uma picada de um inseto (e bem que poderia ser) mas logo se alastrou como quando se derruba suco de laranja em uma toalha de mesa e pensa que não vai escorrer muito até que toda a toalha florida se torna laranja. Subiu mais rápido do que ela esperou, dando pequenos espasmos doloridos dentro de si. Isso era um bom sinal Carmen não pode deixar de pensar, logo a Coisa não iria existir mais. Iria se juntar ao mundo perdido de todas as Coisas que ela vinha descartando desde que recebeu a primeira visita do sangue da lua (ou a visita do Cardeal como aquele homem nojento costumava brincar com ela) quanto tinha doze anos. Desde então esse caminho precisava ser percorrido, antes que a Coisa deixasse de ser uma Coisa e se tornasse algo mais.
Arfando ela finalmente chegou às escadas de madeira da casa sob a água. Com cuidado se equilibrando para não acabar dentro do lamaçal e virar petisco para os caranguejos, Carmen se esgueirou de quatro até a escadinha subindo com a ajuda das mãos. Subiu e olhou ao redor a vasta paisagem verde e marrom. O cheiro de carcaça podre, lama e água suja tomaram conta de suas narinas. Sentiu a bílis subindo até a boca e descendo novamente pela garganta. Um refluxo azedo que desceu queimando. Carmen resolveu ignorar isso mais uma vez sabendo que logo tudo estaria acabado. Virou os calcanhares e caminhou dessa vez lentamente até a entrada da casa. Sentiu o coração palpitando no peito, era assim toda vez que ela ia até aquele lugar uma estranha sensação de pânico e excitação tomava conta dela.
Afastou a lona de tela que cobria a entrada da porta, ao Aldo da mesma uma cabeça de jacaré estava pendurada mostrando uma fileira de dentes afiados. Era um espanto para mau agouro. Carmen ignorou o ímpeto de tocar aqueles dentes pontiagudos e adentrou o local. Estava tudo silencioso dentro da casa a não ser o chiar da panela no fogo como se alguma coisa estivesse sendo cozida, talvez caranguejos ou algum ensopado de algum peixe nojento que Bubba tivesse pegado naquele pântano sujo. A casa tinha um cheiro azedo e levemente adocicado que fez as narinas de Carmen arderem.
—Quem está ai? — Uma voz baixa e rouca veio do outro cômodo.
—Sou eu Bubba. —Carmen disse em resposta.
Ouviu os passos lentos e arrastados dos chinelos de plástico da avó que se moviam da cozinha até a sala onde Carmen estava parada de frente a um apanhador de sonhos pendurado no teto, Bubba adorava pendurar coisas pela casa.
—Pensei que você não ia vir esse mês, estamos no ultimo dia da lua cheia e por um momento pensei ‘ela foi mais cuidadosa dessa vez’’, mas nós duas sabemos que não foi isso que aconteceu. — A voz de Bubba era como se viesse do fundo de um pulmão enegrecido, ela falava baixo para que a outra pessoa prestasse atenção ao que ela dizia.
—Eu também pensei que não iria precisar vir. Mas eu sempre estou errada sob uma porção de coisas. Esse diabo de Coisa... Nunca vai ter fim não é? — Carmen se aproximou da avó e jogou os braços ao redor da velha.
Carmen não sabia ao certo quantos anos Bubba tinha, mas desconfiava que fosse mais de oitenta por sua aparência. A velha era baixa como uma criança de oito anos usava um vestido acinzentado por debaixo do avental marrom sujo de sangue de algum animal que ela tinha pegado e restos de comida. Com meias sujas cobrindo as varizes das pernas, ela era corpulenta e conforme andava os pesados seios pendiam para baixo. Bubba era cega como uma toupeira, mas sempre sabia quem estava parado á sua frente, e de alguma forma conseguia ler as expressões faciais das pessoas antes que alguma silaba fosse vomitada.
Ela enrolou os braços pesados e manchados pelo sol ao redor da garota.
—Não enquanto você deixar que isso aconteça. Não enquanto você não tomar as precauções, já falei para você criança. Para ter cuidado. Você não é estúpida é uma garota bem esperta. Eu não posso te ajudar para sempre — Bubba disse vagamente com a boca vazia e desdentada.
Carmen ponderou sob aquelas palavras por alguns segundos.
—Não é minha culpa, Bubba. Isso não deveria acontecer, mas continua a acontecer. E você mesma me disse que caso acontecesse eu deveria vir aqui para ver você. E é o que eu estou fazendo. — Suas palavras saiam arrastadas e aterrorizadoras. Um doce desespero.
Bubba eu as costas e voltou para a cozinha. Uma especa fumaça saia da panela de barro no fogão de lenha, uma prateleira logo acima era adornada de diversos vidros coloridos com temperos, especiarias e outras coisas que Carmen não queria saber. Ervas de todas as cores, líquidos escuros e algumas jarras escuras como potes de picles com cobras em conserva, não pode deixar de pensar na cobra Eva ao ver aquilo.
—Não pode acontecer, mas aconteceu, e o que está feito está feito. Só temos que remediar isso. Como é que você chama mesmo? —Bubba balançou as mãos ao ar.
—A Coisa. Você tem que dar um jeito nessa Coisa, por favor, Bubba. — Cherry odiava suplicar e sabia que Bubba ganhava a vida de pessoas que suplicavam para ela que fizesse isso. Achava que devolvia um pouco de dignidade aquela velha quando se sentia no poder, com pessoas suplicando que ela fizesse a sua ‘mágica’.
—Sim. A Coisa. Pois a Coisa não deveria existir se você fizesse o que eu te falei, você usou aquela poção de casca de romãzeira? —Bubba abriu os pequenos olhos cheios de remela. A velha estúpida achava que dar porcarias fedorentas para Carmen passar no corpo antes de deitar iria resolver alguma coisa. Era besteira e só Carmen sabia disso. A única vez que tentou usar aquela merda na esperança de funcionar o Padre tinha dado uma bofetada no seu rosto e mandado que ela tomasse um banho antes de se deitar com ele, pois fedia a peixe podre. Ela certa vez tentou sugerir o uso de camisinha e ele riu de sua cara ‘’Oh querida criança, você não espera que eu entre em uma drogaria e peça um pacote dessas coisas não é mesmo? Vá ver aquela velha maluca que ela dará um jeito nisso. Agora venha aqui benzinho...’’ Ela não sabia como ainda não tinha matado aquele homem, uma parte de si simplesmente não podia repeli-lo. E agora a Coisa fora feita novamente e estava crescendo dentro de si. E isso não poderia acontecer. Se Bubba não a ajudasse ela sabia que seria capaz de enfiar um arame enferrujado no meio das pernas do que carregar um bastardo do Padre dentro de si. Ele mesmo já tinha dito que Padres não podem ter filhos e é assim que as coisas tem que ser.
—Aquilo não funcionou, Bubba. Por favor, você tem que me ajudar. Vamos depressa Bubba. —Carmen sentiu o terror em sua própria voz.
Bubba continuou a revirar os vidros na prateleira.
—Quando você me disse a primeira vez que isso tinha acontecido, o que foi que a sua velha Bubba te falou? — Bubba perguntou.
Carmen se lembrava muito bem desse dia. Fora logo após ela ter tido seu primeiro sangue da lua (ou visita do cardeal) e depois de uma ‘visita’ do Padre, o sangue não desceu de novo. Quando perguntou para a mãe se isso era normal, ela teve um ataque puxando os cabelos e se esperneando no chão, dizendo que ela não poderia carregar isso dentro dela, que tudo era culpa dela. E a levou pelas orelhas até a casa de sua mãe, a Velha Bubba. Assustada e sem entender o que aquilo acontecia, na sua inocência de seus doze anos Bubba disse com muita calma ‘’Oh minha criança, você simplesmente não entende o que está acontecendo não é? Ele plantou um pequeno bebezinho dentro de você. E isso não pode acontecer, não o bebezinho dele. ’’ Quando Carmen confusa perguntou o porquê a velha deu de ombros e disse ‘’Porque isso é errado. Porque o dia que uma criança sair de dentro de você, o sol vai se esconder para sempre. Os peixes vão parar de nada, o vento não irá mais soprar e os pássaros não vão mais cantar. Pelo menos para você, minha criança o dia que tiver outra criança uma das duas tem que morrer. Isso é sabido ’’ sua mãe disse que o nome disso era ‘’aberração’’
—A senhora disse que eu teria que escolher entre eu e A Coisa. Eu não quero coisa alguma, não daquele homem.
Um sorriso vazio brotou nos lábios de Bubba que agora fervia alguma coisa em um canecão no fogo. Ela despejou um liquido especo e negro em um copo de barro e se aproximou de Carmen.
—Isso responde a suas duvidas? Eu vou te ajudar apenas nesse caso nunca se esqueça disso. O que você faz com outras pessoas é sua responsabilidade, e o que ele faz com você é minha responsabilidade. Agora beba o chá da lua. E acho bom você se deitar ali naquela cadeira de balanço. Você não vai conseguir ir embora sozinha desse jeito.
Carmen avidamente pegou o copo da mão enrugada de Bubba. O copo estava tão quente que o simples contado fez seus dedos arderem. O cheiro impregnou o ar, cheirava a carne em decomposição, menta, canela, peixe podre, gengibre, urina e a açúcar. Antes de soltar o copo Bubba perguntou.
—Há quanto tempo você não tem o sangue da lua?
Carmen hesitou por um momento.
—Quatro meses...
—Que Deus te ajude menina. Não deveria ter demorado tanto. — A velha disse em um tom sombrio. — Um dia isso não vai mais te ajudar, e eu não sei o que teremos que fazer com A Coisa.
Carmen deu de ombros e bebeu o liquido amargo, ele descia rasgando sua garganta, como se mil aranhas estivessem dentro daquele copo apenas esperando a oportunidade para botarem seus negros ovos no céu da boca de Carmen. Com uma mão tapando o nariz para não sufocar com o cheiro de enxofre que aquilo tinha ao terminar de engolir um gosto amargo inundou a sua língua, o liquido era muito quente e viscoso, sua boca estava entorpecida e sua língua formigava. Parecia que ela tinha bebido o piche que jogam nas estradas. O gosto não era amargo nem doce, era comer beber o liquido de um cadáver em putrefação.
O gosto não era nada comparado às cólicas que vieram a seguir enquanto Carmen rolava pela cadeira de balanço com as mãos segurando o ventre. Uma fisgada de dor rasgou de baixo para cima como se uma criatura monstruosa e grande demais quisesse sair dali de dentro, com uma faca de caça nas pequenas mãos deformadas tentasse abrir caminho por suas tripas para ver a luz do dia, com sorte nenhum desgraçado iria sair dali de dentro. O diabo da dor continuou sem cessar, dessa vez pior que as anteriores. Suas costas se curvavam para trás repuxando seu abdômen para baixo, o que quer tinha naquele copo era como um ácido que expulsava a Coisa de dentro dela, corroendo o todo. A Coisa parecia saber que não era bem vinda e lutava por sua vida, se agarrando á Carmen com toda a sua pequena força.
—Saia de dentro de mim desgraça! — Carmen disse baixinho enquanto nesse momento rolava no chão.
O suor escorria por sua testa. Sua barriga produzia sons estranhos e ela achou que a Coisa iria sair pelo meio do seu cu a qualquer momento. A dor continuava a esgueirar-se por dentro dela, como um tumor maligno se alastrando por todos os seus órgãos. Uma violenta câimbra subiu por sua virilha até o ventre, como se aquele jacaré com dentes pontiagudos pendurado na entrada da casa estivesse a comendo por dentro. Enquanto gritava internamente e se rolava no chão, Bubba continuava a cozinhar assobiando uma canção country alegremente. No alto da parede havia a foto de uma mulher curvilínea com plumas na cabeça e um biquíni de lantejoulas colado no corpo (não tinha como ter certeza da cor por era em preto e branco) segurando um par de facas em cada mão, Bubba em seus dias de glória no circo.
—Que Deus me ajude e dessa vez a Coisa saia inteira de dentro de mim, oh sim, por favor, que não fique nenhum pedaço apodrecendo e me matando por dentro. — Carmen rezou bem baixinho sabendo que nenhum Deus iria ouvir sua prece, pois o mesmo a ignorava enquanto um homem de batina colocava A Coisa dentro dela.
Agora ela sente algo escorregadio se esvaindo por suas pernas, algo caminhando lentamente por sua coxa descendo em direção ao joelho. Carmen levanta os olhos e observa a maravilha da natureza fazendo com que o intruso seja despejado de dentro de si. Era como o beijo quente de um amante que subia por sua coxa até o seu sexo, mas era melhor do que isso. Era o sangue escorrendo. Eram boas notícias. Em pouco tempo a dor iria se dissipar em apenas uma memória distante. O sangue continuava a fluir e beijar sua pele, beijos sinistros, porém gostosos.Adeus intruso, te vejo no inferno.
Bubba se aproximou e viu a sujeira em todo o seu chão de madeira.
—Você vai limpar isso porque eu não sou o diacho da sua empregada. O almoço está pronto você quer almoçar? — A anciã perguntou limpando as mãos molhadas no avental encardido.
Carmen estava contagiada com a alegria estampada em seu rosto.
—Sim... — Ela disse com a voz rouca e cansada. —Eu estou faminta.
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Cherry nunca sonhava, suas noites eram escuras como um apagão e um bom truque para não sonhar era ter uma garrafa de uísque ou algo que tivesse alguma porcentagem significativa de álcool por dentro (acetona ou álcool às vezes ajudavam na ausência do uísque) para entornar antes de cair no sono, assim isso a livraria de alguns pesadelos noturnos.
Outra maneira de evitar uma noite agitada era levar uma surra, ter o rosto surrado por um lunático era uma boa alternativa também, de fato bem eficaz. Assim que Rey saiu para pegar gelo do lado de fora Cherry foi engolida pela escuridão que até esqueceu o fato de seu rosto entorpecido iria doer como nunca quando acordasse.
E foi exatamente o que aconteceu, assim que seus olhos abriram tudo o que a stripper pôde ver foi uma imensidão vermelha e branca. Não entendeu o que aquilo significava até tentar se mover e ver que o lençol manchado de sangue estava colado no seu rosto sob a crosta de sangue seco. Cherry tentou puxar o pano tingido de vermelho e uma súbita dor subiu ao ser nariz, um lembrete da noite passada.
Depois que Rey voltou da maquina de gelo, Cherry estava deitada desacordada sob a cama encardida com seu sangue, não conseguia abrir a boca e tinha quase certeza que sua mandíbula havia sido tirada de seu lugar correto. Com uma pequena fresta nos olhos inchados olhou para Rey parado á sua frente, o corpo coberto de tatuagens inteligíveis, suado e com as costas das mãos manchadas com sangue, o sangue de Cherry.
Na segunda vez que ele subiu em cima dela não conseguiu chegar até o final (para quem ficou muito tempo sem usar as engrenagens, um pequeno vazamento de óleo parecia ser o menor dos problemas) e antes de entrar dentro dela, enquanto apertava seus seios com as mãos ásperas ele ejaculou na coxa de Cherry. Aparentemente ele ficou frustrado com a segunda tentativa mal sucedida e se virou de lado para dormir, finalmente deixando-a em paz. Cherry não conseguiu dormir até que a dor latejante de sua cabeça a fez desmaiar, só conseguia se lembrar dos grunhidos do homem em cima dela, suando como um porco.
‘’ —Com mais força! Sua marica! Bata com vontade!’’ Cherry gritou para ele na noite passada, e quando ele a penetrou pela primeira vez, quando ela sentiu a aspereza de sua pele suada contra seu corpo o estômago de Cherry revirou. O cheiro que ele tinha de colônia barata com cigarro e cerveja a enojava, sua voz rouca e seus olhos melancólicos a faziam querer chorar. Mas quando fechava os olhos tudo o que ela via em cima de si era o homem com o queixo pontudo, os olhos cortantes, gelados e sem vida e a cruz balançando no pescoço. Para enviar esse pensamento embora ela teve que ordenar que ele a batesse, se ela sentisse tanta dor a ponto de desmaiar terminaria com essas visões medonhas.
—Você está acordada? —A voz rouca ao seu lado da cama a tirou de seus pensamentos.
—Não. —Cherry grunhiu em resposta.
—Eu queria falar com você sobre... Bem sobre o que
—Por favor, não, não comece com isso. Não quero falar sobre isso. Nunca mais. — Cherry puxou o lençol descolando-o de seu rosto e se virou para Rey. Ele estava sentado ao seu lado fitando-a. Assim que viu seu rosto os olhos dele se arregalaram do tamanho de suas esferas azuladas.
—Meu Deus! Você está bem? —Ele fez o gesto de tentar tocá-la, mas ela o afastou com a mão.
—Não me toque, eu vou morrer se você colocar suas mãos em mim novamente. Eu estou bem. — Ela disfarçou com um risinho abafado. — Depois passamos em alguma drogaria e você me compra algum analgésico. — Cherry se levantou, sentiu os olhos dele seguindo o seu corpo desnudo ‘’nem pense nisso seu maldito!’’ ela sabia que não iria agüentar ele de novo.
Cherry sentiu a privada fria contra sua pele quente quando se sentou para urinar. Uma ardência a cortou por dentro, nenhum animal sabia ser delicado com ela. Lá estava ele parado de novo em frente à porta do banheiro a fitando. Ela não teria paz nessa merda de vida.
—O que é que você quer agora? Não está vendo que estou ocupada? —Ela revirou os olhos.
—Eu sinto muito por ontem. As coisas saíram do controle, não era para serem assim. —Ele tinha um olhar arrependido nos olhos.
—Não seja cínico, você não sente. Na realidade você está esperando a primeira oportunidade para pular em cima de mim de novo, seu pervertido. Corte essa merda que você não me engana. Ninguém é bonzinho assim meu bem todos, são podres no fundo.
—Não, eu só fiz o que você pediu garota. Jesus Cristo é tão difícil de entender que eu sou louco por você? — Rey tentou se aproximar e recuou para trás.
—Eu não pedi para você vir atrás de mim, de fato que eu me lembre eu disse que não queria você perto de mim. E o que você fez? Não conseguiu o que queria? Então fique feliz e pare de reclamar. Porque essa foi à única vez e isso não vai se repetir novamente, você está me ouvindo Rey? Isso NUNCA mais irá acontecer foi um erro, um tremendo erro. —Ela se levantou e foi até a cobra na caixa perto de uma cadeira acariciando a pele fria do réptil.
—O que nós vamos fazer com todo esse dinheiro? — Rey disse apontando para a mala.
Cherry calcou as botas com o bico de aço de Rey que ela tinha afanado e ascendeu um cigarro com o isqueiro prateado do mesmo.
—Primeiro nós vamos tomar um café. — Ela revirou a mala e tirou um lenço vermelho, enrolou na cabeça para esconder os cabelos, colocou um par de óculos escuros vagabundos na tentativa de ofuscar os hematomas. —Depois você me leva para aquela mansão para eu devolver ao dono.
Rey passou a mão nos cabelos e umedeceu os lábios.
—Então esse dinheiro não é nosso? Depois de todo o trabalho que tivemos?
Cherry sorriu.
—Não existe’ nós’ ou ‘nosso’, pare de usar o plural. Todo o trabalho que eu tive você quer dizer não é, paizinho? Até onde me lembro você ficou paralisando com o rabinho entre as pernas na merda do banco enquanto eu fazia todo o trabalho difícil. Sim eu vou entregar esse dinheiro para o dono, apesar de uma parte ser minha. Se você se comportar posso pensar em dar alguma coisa para você. Agora ande logo, coloque seu chapéu e óculos escuros porque você não quer ser reconhecido, não é mesmo?
Rey concordou e fez o que foi ordenado.
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No caminho para um café, Rey e Cherry passaram por uma viatura de policia, Rey se agachou no banco na tentativa estúpida de se esconder.
—O que você está fazendo, paizinho? — Cherry perguntou docemente.
—Nada, estou dirigindo. —Ele desconversou.
—Então porque está todo encolhido como um maldito ladrão de bancos?
—Porque eu sou a porra de um ladrão de bancos.
—Banco, foi só um não se sinta importante. Deus, você é muito ridículo sabia? Hey olá rapazes! — Cherry acenou para a viatura ao lado, um policial gordo com a testa oleosa acenou de volta.
—Mas, mas que merda! Qual é o seu problema? Tá querendo ir presa? Porque eu não quero voltar para a cadeia! —Rey teve um ataque de pânico enquanto estacionava, o canto de seu rosto escorria suor.
—Jesus Cristo relaxe, ninguém sabe quem nós somos. Anime-se paizinho, somos dois zés-ninguéns. —Cherry desceu do caminhão e bateu a porta.
No café Rey pediu um prato de ovos mexidos com bacon, café preto e uma torta de cereja (há! Cherry teve vontade de chutar o saco dele, esse cretino estava dando nos nervos) ela pediu uma cerveja, uma espiga de milho e um hambúrguer, que deu duas mordidas e deixou o resto no prato, pois tinha gosto da sola de sapato de Rey.
—Me diga, qual é a sua com aquele ricaço? — Rey perguntou, assim que ele falou pequenos pedaços de ovos voaram da sua boca.
—Ele é um amigo, ele é muito gentil comigo e às vezes faço alguns favores para ele. — O ato de mastigar doía os dentes de Cherry.
—Favores... — Ele replicou. —Você trepa com ele, é isso o que quer dizer não é? —Rey tinha uma ponta de indignação na voz.
—Sim eu trepo com ele, na realidade eu trepo com muitos homens se é isso o que você está sugerindo, afinal segundo você eu sou uma puta não é mesmo?
—Não foi isso o que eu quis dizer... — Rey tentou se defender enquanto dava outra garfada no prato.
—Não me venha com essa, isso foi exatamente o que eu disse. O que eu faço não é da sua conta, e não pense nem por um momento que só por você ter me fodido ontem a noite que te dá o direito sobre a minha vida. Escute bem o que eu vou dizer paizinho, você não é meu namorado.
—Minha nossa. Calma eu só fiz uma pergunta. Alguém acordou mal humorada hoje.
Cherry bufou.
—Termine logo o seu maldito ovo para sairmos dessa espelunca. —Cherry deu um gole na cerveja, ela estava quente e choca, o que não era de se espantar.
—Cherry... — Rey disse enquanto dirigia á caminho da mansão de Anton Von-John.
—Se você me perguntar meu nome, eu juro que enfio o pé no seu saco.
—O que? Não, não é isso. Você ainda vai trabalhar naquele lugar? — Ele olhou de soslaio.
—Na Boca do Inferno? Deus, até me esqueci daquela merda. Larguei tudo para vir para esse maldito banco. Acho que sim, aquele lugar sobrevive só por minha causa, Carl vai beijar meus pés se eu aparecer lá.
Rey ficou quieto por alguns segundos, o que não durou muito.
—Você trepa com ele?
—Meu Deus, paizinho qual é o seu problema? Que interesse é esse na minha vida? Arrume um passa tempo pelo amor.
—Mas você não me conta porra nenhuma, eu não sei o que se passa com você.
—Acredite em mim paizinho, você realmente não quer saber o que se passa comigo. Eu por acaso fico perguntando o que aconteceu com você, porque estava preso?
Rey não respondeu.
—Foi o que eu pensei. Pare a porcaria do caminhão. —Cherry replicou.
—Por quê?
—Porque eu disse para parar. Faça isso agora.
Rey obedeceu.
Cherry desceu do caminhão pisando duro, usava um vestido xadrezado com as botas de Rey. Ele desceu do caminhão atrás dela. Estavam parados em uma rodovia deserta.
—O que foi agora você quer ser atropelada? —Rey tirou o chapéu e coçou a cabeça.
—Por favor, eu só te peço uma coisa. Cale essa maldita boca! Sua voz é como uma britadeira moendo os meus miolos. Deus, porque você é tão irritante? — Cherry bateu no rosto de Rey.
Ele ficou parado por um momento sem entender o que aconteceu. Sua atitude, ele não fazia nada só a olhava com a cara patética a enfurecia ainda mais. Ela levantou a mão para dar outro tapa no rosto dele, mas ele segurou sua mão com força e a torceu para trás do corpo, a empurrou contra o capô do caminhão. O homem virou Rey e beijou com fúria, Cherry não quis abrir a boca mas ele o fez mesmo assim, até que ela cedeu e respondeu o beijo com contra gosto. Ele tinha gosto de café. Rey tinha uma arma presa no cós da calça, a tirou e colocou no capo. Grudou os cabelos de Cherry e empurrou contra a superfície quente do veiculo. Ela viu a arma brilhar contra o reflexo do sol.
—Se você quiser fazer algo a respeito, faça agora.Pegue essa maldita arma e estoure os meus miolos. Para mim tanto faz, estou farto dos seus joguinhos.
Cherry pegou a arma, continuou com o rosto colado no capo olhando para a rodovia. Ouviu o som de Rey abrindo a calça, e antes que pudesse destravar a arma ele estava de novo dentro dela. Dessa vez ele não se importou dela estar seca, na verdade talvez ela nunca tivesse ficado lubrificada, não saberia dizer o que é isso. Ele a penetrou sem rodeios colocando tudo dentro dela com força, enquanto grunhia como um porco atrás dela, com a mão tateando para o seu seio. Fechou os olhos e tudo o que viu foi a imagem do Padre em cima dela naquele quarto cheio de ursinhos de pelúcia, o cheiro de velas na igreja...
Abriu os olhos e um adolescente parado em uma bicicleta com o rosto coberto de espinhas os observava do outro lado do encostamento. Ele tinha um celular na mão tentando filmar aquilo. Sem pestanejar pegou a arma e disparou.
Três tiros ecoaram a distancia, pássaros voavam que estavam empoleirados em um poste ao lado. O celular rolou para o outro lado da rodovia, o adolescente estava caído em uma poça de sangue. Cherry sentiu Rey amolecer dentro dela e se afastar.
—O que foi isso? —Ele perguntou assustado.
—Eu disse que isso não deveria acontecer de novo, da próxima vez vai ser em você que eu vou atirar. —Cherry entrou no caminhão e bateu a porta. Ambos permaneceram em silencio o resto da viagem.
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—O que aconteceu com o seu rosto? — Anton perguntou passando os dedos velhos e manchados em sua pele.
—Um guarda, assim que eu fui sair do banco ele me rendeu e fez isso. Não foi nada demais. — Ela deu de ombros se sentando no sofá da luxuosa mansão. Rey cozinhava no caminhão embaixo do sol quente.
—Isso é tudo minha culpa, não deveria ter pedido para você fazer isso para mim. — O velho disse enquanto contava o dinheiro na mala. Deu uma bagatela para Cherry e entregou o resto para um segurança levar para um lugar seguro.
—Oh não paizinho! Não se preocupe isso não foi nada, eu tenho uma boa cicatrização.
—Sei. Então e o sujeito que a ajudou, ele é confiável? —Anton perguntou desconfiado.
—Ele não é muito esperto, mas com certeza é confiável. Ele não é um problema, fique tranqüilo. — A garota forçou um sorriso.
O velho passou as mãos pelos cabelos de Cherry, depois desceu até a cintura dela puxando-a para si.
—Já perdi pessoas muito importantes na minha vida. Preocupo-me com você, não confie nesse sujeito, não podemos confiar em ninguém. —Ele gentilmente beijou a face inchada de Cherry.
Aquele velho era um chato melodramático, é claro que ela não confiava em ninguém, começando por ele.
—Sim, foi realmente horrível tudo aquilo que aconteceu com sua filha e seus netos... Você é tão bom, sempre cuidando de mim. —Cherry deitou o a cabeça no ombro dele.
—Só não se meta em encrencas ok? Aliais, porque você não passa uns dias aqui comigo? Essa mansão é tão grande e solitária, posso chamar um médico para cuidar dos seus ferimentos. E faremos companhia um para o outro.
Ótimo, agora ele queria brincar de casinha.
—Não sei se devo, e se a sua mulher aparecer por aqui?
—Ela não vai, benzinho. Ela está ocupada demais gastando meu dinheiro na Europa. Vamos você merece alguns dias de descanso. Dispense o seu amigo para o buraco que ele saiu e fique aqui comigo por um tempo.
Ele sempre frisava a idéia de que não era algo permanente e sim temporário.
—Mas minhas roupas e minha cobra?
—Eu te compro roupas novas, mande seu amigo cuidar do animal. —Anton sorriu.
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Alguns dias se tornaram algumas semanas, no começo Rey não gostou muito da idéia de ficar sem Cherry, mas ela disse que se ele queria ter algum dinheiro ela precisava passar uns dias com o velhote. Todos os dias ele rondava a frente da mansão, ninguém comentava isso, mas ela sabia pela marca de diesel na frente do portão.
Eram bons uns dias longe de tudo, de cobras e palcos. De armas e sangue. E principalmente longe de Rey. Anton não era a melhor das companhias, estava o tempo todo no telefone ou no escritório gritando com alguém. Cherry não se importava, ele a aborrecia de qualquer forma.
Seu rosto apresentava apenas algumas marcas arroxeadas, o médico de Anton fez verdadeiros milagres com remédios e pomadas em sua face. Era um belo domingo de sol, Anton estava falando ao telefone na borda da piscina, e Cherry mergulhava na água, ficando alguns minutos submersa vendo as bolhas saírem de seu nariz e subirem até a superfície. Mergulhava para baixo fazendo piruetas sentindo a água purificar o seu corpo. Nadar sempre foi uma das coisas que ela foi boa, desde que mergulhava no riacho próxima a sua casa quando era criança. Ela nadou até a borda e tomou um gole da bebida que estava em uma bandeja, era uma taça decorada com uma laranja sangrenta na ponta e uma bebida cara que ela não sabia o nome, talvez fosse algum Martini ou algo do tipo. Ela só conhecia o nome de cervejas.
—Não me interessa o que os relatórios dizem, eu quero que vocês se mexam. Eu não vou sossegar até terem essa situação sobre controle. Você está me entendendo? Não acredito que deixaram isso acontecer, é claro que eu não estou bem, você sabe o que aconteceu com... Depois eu te ligo sim me mantenha informado de todos os detalhes. —Anton colocou telefone em uma mesa ao seu lado com um guarda-sol. —Cherry você está bem? Cherry?
Anton se levantou depressa e foi até a borda da piscina. Cherry estava tentando sair de água mas tinha parado na escadinha que a levava para fora da água. Estava deitada no chão de mármore desacordada.
—Cherry, está me ouvindo? —Anton segurou sua cabeça, tocando de leve seu pescoço para ver se tinha algum sinal de pulsação. Ela lentamente abriu os olhos.
—O que aconteceu? — Ela perguntou atônita.
—Não sei em um minuto você estava nadando e no outro estava caída aqui em cima, você está se sentindo bem? Alguém ligue para o médico! — Anton gritou para um dos empregados. —Você desmaiou querida, isso já aconteceu antes?
Cherry abriu a boca e não emitiu nenhum som. Por fim disse.
—Oh não! Oh meu bom Deus não!
—O que foi? —Ele perguntou confuso.
Cherry escutou o som do seu cabelo pingando no mármore frio do chão. Sentiu uma leve tontura.
—É a Coisa. Eu estou com outra Coisa! —O sol cintilou em seus olhos desiguais, fazendo sua cabeça latejar.
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