Notas iniciais
Nesse capítulo vamos conhecer a misteriosa Evanna Bristol.

#004

No dia em que Evanna Bristol se declarou para a garota que amava, ela havia dormido no sótão.

Que por sótão fique entendido um compartimento instalado no teto do quarto de Evanna.

À primeira vista, seu quarto era como o de uma garota normal, exceto por uma pequena e discreta corda que descia de uma parte do forro do teto. Ao puxar-se essa corda, abria-se uma passagem fechada a chave (que só Evanna possuía) e que levava ao seu "sótão". O espaço entre o forro e o telhado da casa era oco, isso possibilitou a criação desse esconderijo secreto, ou mesmo refúgio nas horas em que Evanna se cansava do mundo, algo muito comum entre os adolescentes. Porém, o sótão do quarto de Evanna tinha acesso restrito. Somente ela poderia entrar... Isso por que a garota possuía um segredo. Na sua "casa no teto" ficava tudo relacionado à sua paixão, Lilith Liláses.

Fotos tiradas em segredo, cartas de amor que nunca chegaram a serem entregues ao destinatário, roteiros escritos por Evanna de possíveis encontros com Lilith... Tudo isso, e derivados, ficava guardado em seu cantinho particular. E Evanna havia dormido nesse santuário à Lilith.

Ela se espreguiçou ao ouvir o despertador tocar: era hora de descer e fingir que havia dormido em sua cama no seu verdadeiro quarto, para quando sua mãe viesse lhe acordar. Dito e feito. Assim que Evanna terminou de se encolher em sua cama, houveram batidas na porta e uma jovem mulher, morena como Evanna, entrou no quarto.

– Hora de acordar, filha.

– Já estou indo mãe, só mais 5 minutinhos... — Evanna fingiu sono com o clássico clichê dos 5 minutos e um bocejo forçado. Mas a verdade era que estava super desperta. Ela havia decidido. Sairia do anonimato e se declararia à sua musa. Hoje.

Evanna Bristol vinha atuando como stalker de Lilith há mais ou menos seis meses, pelas suas contas. Isso a constrangia, poderia até mesmo ser uma atitude doentia, mas ela não ligava. Saía discretamente seguindo Lilith sempre que a via, para poder tirar fotos. Já havia contabilizado mais de 600 fotos nesses seis meses, todas guardadas no seu santuário. Já havia escrito mais de 100 cartas sobre como se declararia para Lily, mas não chegara a entregar nenhuma... Por medo. Por pensar que não era o suficiente para uma garota como Lilith, que certamente quereria um garoto jogador de basquete e modelo nas horas vagas, não uma garota lésbica e stalker que a perseguia sem que ela soubesse.

Mesmo que, em seu íntimo, Evanna soubesse que era errado, não podia evitar. Se não podia ter Lilith, que pelo menos tivesse lembranças dela acessíveis a qualquer momento em que sentisse saudade... Fora esse pensamento que a impelira a construir um santuário para sua amada.

Mas os dias de aflição estavam próximos do fim.

...

– POR FAVOR! ENTRE EM UMA RELAÇÃO, NEM QUE SEJA PURAMENTE PLATÔNICA E NADA RECÍPROCA, COMIGO!

...

Evanna havia dito. Ela conseguira. Havia se declarado à Lilith e ainda por cima a pedido em namoro.

Lilith estava estupefata.

Aquele era o momento mais estapafúrdio de sua vida. Então Evanna gostava dela? Evanna? De todas as pessoas, certamente ela seria a mais improvável. As duas nunca haviam tido nenhum contato direto, e quando o fazem, algo assim acontece. Lily estava completamente confusa. Não queria machucar o coração de Evanna, mas também não poderia aceitar o pedido de namoro... Ela não gostava de Evanna. Não amorosa ou sexualmente falando.

Lilith, que parecia sempre tão forte, ficou com os olhos marejados. Ela não gostava de ferir as pessoas, mas... Dessa vez, seria preciso o fazer.

– Bem, eu... Eu não te amo, Evanna. — ela foi direta. Precisava ser.

– ENTÃO DEIXE-ME TE CONQUISTAR! SAIA NUM ENCONTRO COMIGO, APENAS UMA VEZ! Tire suas conclusões... Após o fim desse encontro.

Lilith não sabia o que responder. Ela... Ela... Devia aceitar? Estaria sendo correta consigo mesmo se aceitasse?

– Por favor! — Evanna tinha lágrimas nos olhos. — Por favor!

Então, Lilith...

Cedeu.

– O-ok. Eu vou. Mas preciso ir agora, me desculpe.

Sem que soubessem, uma pessoa do lado de fora da sala ouvira tudo. Porém, quando as duas saíram, já não havia mais ninguém no corredor.

Enquanto isso, na biblioteca, estava Margareth Amethyst, a nerd da sala, totalmente alheia a todos os acontecimentos.