Purple
5 Capítulo 5
Notas iniciais
#005
A biblioteca era como a segunda casa de Margareth. Ela adorava o cheiro dos livros, tanto o dos novos quanto o dos velhos. Sempre que tinha tempo, dava uma passadinha na biblioteca, devolvia livros e pegava mais alguns. A bibliotecária já a conhecia bem e confiava nela, pode-se dizer que eram amigas, até.
Sempre em primeiro lugar na classe, Margareth era uma garota humilde. Não gostava de se gabar, como Cassandra, e sempre encorajava seus colegas de classe a estudarem mais. Estava determinada a passar no vestibular, mas passava a maior parte do seu tempo lendo.
Margareth lia de tudo, independente do gênero. Sejam livros de romance, drama, terror ou até mesmo biografias e livros de cunho filosófico ou político. Seu acervo cultural era imenso, coisa que adquirira graças a sua flexibilidade em encarar os mais diversos assuntos. O livro que lia atualmente se chamava "Uma noite e seis semanas", de um escritor brasileiro. Tinha uma premissa simples, porém instigante: falava sobre o relacionamento de um casal de lésbicas quando uma delas descobre que está grávida. Era um dos poucos livros que possuíam como foco um casal homoafetivo que Margareth já lera, mas estava gostando muito.
Interrompendo sua absorção do romance, Andy, a bibliotecária avisou-a de que eles estavam prestes a fechar para o almoço. Margareth soltou um pequeno "aaah!" e começou a ajeitar suas coisas para ir embora.
Não que ela não pudesse levar o livro para ler em casa (o livro era seu, aliás), mas a garota gostava do ambiente que a biblioteca fornecia. Era como se todos os livros à sua volta a proporcionassem um aconchego maior do que em qualquer outro lugar. Era mesmo uma garota estranha. Às vezes preferia o silêncio dos livros ao barulho das pessoas. Mas ela sabia que não podia conviver o tempo todo apenas com seus livros, então trabalhava bastante suas relações interpessoais. Esse negócio de se isolar não era com ela. Margareth apreciava o calor que se sente quando se está rodeado de pessoas que gostamos.
Após terminar de colocar tudo na mochila, Margareth se despediu de Andy e saiu da biblioteca.
Ela era uma garota comum: romântica. Sempre sonhara com situações impossíveis, em viver um romance como os dos livros, até mesmo em escrever um livro. Já havia começado uma pequena história sobre frutas que falavam, mas decidira que isso era ridículo demais e parara de fazê-la.
O dia estava quente, e as ruas, quase desertas. Margareth voltava para casa a pé, morava em um condomínio próximo à escola. Passou em frente a um edifício e reparou em seu reflexo nos vidros das portas. Ela era loira, olhos verdes, usava um suéter azul acompanhado de uma saia longa marrom e tinha os cabelos soltos, quando não os prendia em um coque. Era bonita. Ao menos, ela se considerava bonita, à seu modo.
Foi então que uma mão a agarrou por trás, tampando sua boca e a levando para um beco.
Não.
Aquilo não podia estar acontecendo.
O seu raptor começou a apertá-la cada vez mais forte contra a parede do beco e a passar a mão por seu corpo, a procura de algo. Margareth mordeu os dedos que tampavam sua boca, mas levou uma tapa na cara. Seu rosto latejava.
– O dinheiro, vadia! Cadê o dinheiro? Passa a grana ou eu te mato!
– Eu não tenho nada, senhor! — gritou Margareth. — Estava vindo da escola, eu não tenho nada... SOCORRO!
E então levou um soco na barriga.
O bandido parecia querer matá-la quando constatou que ela falava a verdade, mas mudou de idéia.
Começou a passar a mão nos seus seios e a tentar tirar sua roupa à força.
"Não! Tudo menos isso!", pensou, desesperada.
– SOCORRO! — gritou, apenas para levar outra tapa. Ele a prendeu contra a parede e levantou sua saia. Começou a tirar o cinto.
Não tinha jeito, ela seria estuprada.
Então ouviu-se um barulho e alguém caiu no chão. Margareth se surpreendeu quando viu que esse alguém não era ela.
– Você está bem? — perguntou uma voz. Um garoto alto se estendia diante de Margareth. Ele havia nocauteado o bandido por trás com um soco na nuca.
– Não, não estou! — disse a garota, chorando.
Fracamente, desencostou-se da parede e se aprumou.
– O-o-obrigada...
– Ele te machucou?
– Um pouco, mas eu vou ficar bem! Muito obrigada mesmo! Ahn... Como você se chama?
– Sou Anderson, prazer.
– Prazer, Margareth.
Tremendo, a garota saiu do beco, acompanhada de seu salvador. Ele realmente havia aparecido na hora certa.
Ele não... Ela. Apesar da altura, e além de sua aparência e nome serem masculinos, era... Uma garota.
Olhos marrom-escuros, cabelo curto. Sardas. Porém... Era uma garota. E bem mais "bonito" do que muitos garotos.
Margareth a olhou fixamente por algum tempo, antes de tomar o caminho de casa. Alguma coisa acendeu-se no peito dela, algo quente e inexplicável. Uma sensação que parecia ser mais do que simples gratidão por ter sido salva de um estupro.
Seria Anderson um príncipe que o destino colocara em sua vida? Ou melhor... Princesa?
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