Notas iniciais
Nesse capítulo vamos conhecer a esportiva Anderson Magenta.

#006

De personalidade calma e um pouco fechada, mas bastante altruísta, Anderson já estava acostumada a ser confundida com um garoto. Por duas razões, acreditava ela. A primeira seria por ser muito alta; A segunda, por causa de seu nome.

Anderson.

"Que raios de pais eram esses que colocaram um nome masculino em sua própria filha?", você deve estar pensando.

Poderiam existir mil razões complicadas envolvendo a ética entre pais e filhos ou alguma baboseira do tipo, mas não era nada assim, de certa forma. A resposta era bastante simples, e Anderson a possuía. Mas o que tinha de simples, tinha de bizarra.

Seus pais... Queriam que ela fosse um garoto. E isso era algo que pouca gente sabia. Na verdade, só Anderson e seus progenitores sabiam.

A gravidez da mãe de Andy, como foi apelidada, foi perigosa e cheia de complicações. Todos, inclusive o médico, esperavam que um menino fosse gerado, mas não foi isso o que aconteceu. Contrariando o veredicto do obstetra e fazendo o destino de besta, Anderson nasceu, mas como menina.

Não era uma garota o que os seus pais queriam. Ela foi considerada um "erro de cálculo" e repudiada por sua mãe, que morreu pouco depois do parto.

Anderson soube sobre sua tempestuosa origem aos 15 anos, já tendo uma mente boa o suficiente para superar e seguir em frente, convivendo normalmente com sua família.

Criada para agir e aparentar ser um garoto, Anderson escondia toda a sua feminilidade em sardas e um tímido e pequeno rabo-de-cavalo.

Era atlética e boa nos esportes, como um garoto de boa desenvoltura seria, e gostava de futebol. Jogava todos os fins de tarde ao menos uma partida com seu pai, que adorava a filha. Marco, o pai de Anderson, nos primeiros anos após o nascimento dela, havia ficado fissurado em criar a menina como se fosse um garoto, mas aos poucos, foi se acostumando com a idéia de que ter uma garota não era algo ruim, e deu espaço a Andy, que decidiu que ele continuasse criando-a como sempre criou... Como um cara. Ela não se importava. Poderia continuar como uma garota mesmo sendo tratada como um garoto. Andy sabia que seria difícil para seu pai mudar abruptamente o modo de se portar à ela, e achara melhor isentar seu pai dessa tarefa. Afinal, eles continuariam sendo pai e filha e se amando mutuamente, independente de como a situação fosse encarada. Tratar Andy de um modo diferente a essa altura do campeonato seria estranho para os dois e um desperdício de tempo. Marco se espantou com o gesto de maturidade da filha, mas acatou sua decisão. Por isso, todas as tardes, Marco não se importava de bater uma bolinha com ela.

Inicialmente, Andy não gostou da idéia de ter que mudar de escola e cidade por causa do trabalho de seu pai, mas se conformara rápido. Anderson era assim, uma pessoa simples com pensamentos simples, e que, apesar das adversidades, apesar de ter tido em sua infância, em sua história, todos os fatores que formariam um adolescente rebelde, não o era.

E todos se orgulhavam dela por isso.

...

Faziam apenas alguns dias desde que Anderson se mudara de cidade com seu pai, mas já haviam acontecido muitas situações curiosas.

Ela impedira um estupro.

Andando pela cidade, uma forma usual de conhecer qualquer local, Andy ouvira gritos e foi em direção a eles. Quando viu a cena, não pôde ficar parada, sem fazer algo. Resultado: um marginal nocauteado e uma jovem de mais ou menos a sua idade lhe agradecendo muitas vezes por tê-la salvo.

Margareth. Era esse o nome da loirinha. Curiosamente Anderson havia conseguido lembrar o nome dela, era péssima em recordar coisas como essas.

...

Já havia se passado quase um dia. Era manhã de terça, e ela tinha que ir a nova escola. Se entrar no começo do ano já era chato o suficiente, entrar no meio era ainda pior. A garota estava totalmente desmotivada com a situação.

...

– Eu não acredito! Moramos perto uma da outra! — disse Margareth, que por ironia do destino havia encontrado Andy no caminho para a escola.

Anderson decidiu que talvez fosse sua chance de tentar conseguir sua primeira amiga.

– É, bom... — disse ela, sem jeito. — Que coincidência.

– Muito obrigada, novamente. Você salvou minha vida, literalmente. — dizia Margareth, enquanto as duas andavam à passos rápidos. — Está indo à escola?

– Er... Sim. Academia Colors, conhece?

Os olhos de Margareth se arregalaram.

– Se eu conheço?! Eu estudo lá! Não me diga que está fazendo o 3° ano?

– ...Tô.

– Nossa, que louco. Vamos ser colegas de classe. — Margareth estava mesmo surpresa. Como podia? Sua salvadora iria estudar junto com ela. A loira esperava não estar deixando transparecer sua felicidade.

– Espero que a gente se dê bem. — falou Andy, ainda um pouco tímida.

– Com certeza. — disse Margareth, antes de perceber que já estavam perto do prédio da escola.

Uma agitação estava ocorrendo em frente à escola e até mesmo dentro. Nos corredores, haviam grupos separados olhando cartazes que haviam sido pregados nas paredes. Curiosas, Anderson e Margareth foram ver sobre o que eles diziam.

Ficaram sem palavras.

Cassandra observava de longe. Aiko olhava sem dar a mínima importância, e Lilith estava... Chocada.

Cinco das seis garotas estavam presentes no local. E os cartazes eram justamente sobre a que ainda não havia chegado.

"LÉSBICA NA ÁREA!", "GAROTAS, TOMEM CUIDADO NO BANHEIRO", "SAPATÃO INCOMPREENDIDA ATRÁS DE XOXOTAS".

Eram coisas como essas que estavam escritas nos cartazes. E eles estampavam a foto de Evanna Bristol.

Todos comentavam sobre o acontecimento, se perguntando quem fizera aquilo e por que o fizera. Mas é óbvio que não deixariam de malhar Evanna assim que esta pisasse no colégio.

E esse foi o estopim de uma série de acontecimentos que chocariam a todos na Academia Colors, acontecimentos que serão descritos no próximo capítulo.

Uma alma injustiçada estava sendo punida sem motivo aparente e o culpado estava rindo por dentro.

Todos eram suspeitos.