Notas iniciais
Capítulo final. Enfim, vamos ao desfecho da história. Eu gostei muito de escrever "Purple". Foram vários dias pensando no que eu poderia colocar em cada capítulo para torná-lo interessante. O final pode ser abrupto, mas a história é apenas um conto, eu não tinha a pretensão de que fosse uma história longa. Estou trabalhando na one-shot que vai servir de epílogo, então não se preocupem que ainda guardei a cerja do bolo para vocês. Obrigado a todos que acompanharam esta história.

#007 — FINAL

A conveniência universal resolvera pegar pesado com Evanna.

Ela havia conseguido seu encontro com Lilith, certo? Certo. Mas no dia seguinte, chegara à escola e se deparara com cartazes e panfletos com a sua foto colados nas paredes e espalhados pelos corredores. E neles estavam escritas coisas não muito boas a seu respeito.

Agora todos sabiam.

Todos sabiam que ela era lésbica.

Obviamente, sua recepção não foi a mais amigável possível. Evanna passara de uma completa desconhecida que adorava Lilith a uma sapatão tresloucada que sairia flertando com todas as garotas que entrassem no banheiro feminino. Pelo menos era isso o que as pessoas falavam. E esse tipo de boato se espalhava rápido. Ela estava perdida.

Assim que colocou os pés dentro do prédio, choveram xingamentos e brincadeiras de mau-gosto. As garotas eram as que mais a repudiavam, e isso era horrível. Pessoas que antes conviviam com ela normalmente e pessoas que ela nem conhecia agora reuniam-se para cometer bullying.

Jogavam os mais variados objetos em Evanna, desde canetas e borrachas à bolas de papel. Aquilo podia não doer tanto fisicamente, mas em seu coração, abria um rombo e tanto.

Os gestos de repulsa contra ela doíam em sua alma, e essa era a pior parte. Era preferível mil vezes a Evanna ser linchada do que passar por aquilo. Era como se ela estivesse morrendo a cada passo que desse.

Lágrimas escorriam por seu rosto, e ela não tinha forças para se defender.

Entretanto, cinco figuras distintas na multidão de agressores se destacaram aos olhos de Evanna, como que para provar-lhe que estava sendo tola ao reagir dessa forma à insultos tão vulgares.

A primeira era conhecida por todos. De cabelos rosados, Cassandra Purple, a rainha do terceiro ano, parecia se divertir com a situação, mas seus olhos demonstravam que ela estava aflita. E isso não era algo que se devesse esperar de Cassandra. Ela sempre fora tão egoísta, tão fútil... E agora se comovia com a cena provocada. Parecia até mesmo haver um tiquinho de culpa em seu rosto, mas Evanna não se atentou a esse pequeno detalhe.

A segunda figura era Aiko Murasaki. E sua reação não podia ser outra: ela não ligava nem um pouco para o que estava acontecendo. A oriental apática jamais aprovara qualquer tipo de retaliação, independente de quem fosse o alvo. Mas isso não significava que ela fosse tomar alguma atitude a respeito, cada um que cuidasse da sua vida e reagisse como bem entendesse às adversidades impostas pelo destino.

Sua atitude, mesmo que de uma forma torta, ajudou Evanna a erguer a cabeça.

A terceira e a quarta responsáveis por atrair os olhos de Evanna eram uma dupla totalmente contrastante. A nerd da sala, Margareth Amethyst, super feminina, e uma garota novata que tinha um porte atlético e bem másculo, que Evanna descobriria mais tarde se chamar Anderson Magenta.

As duas estavam chocadas, não com o fato de descobrirem uma colega homossexual, mas sim com o rumo que as coisas haviam tomado. Anderson até estava um pouco revoltada e pedia para que parassem de agredir verbalmente Evanna. Ver duas garotas totalmente diferentes uma da outra superarem qualquer tipo de preconceito e se colocarem do seu lado, mesmo que de uma forma tímida, deu ainda mais forças a Evanna para que ela começasse a não dar bola às ofensas voltadas à ela.

Podia se entregar aos prantos e se tornar uma piada ainda mais risível ou encarar o momento de frente e ignorar as provocações como uma mulher de verdade.

Ela resolveu ignorar... Após direcionar seu olhar a quinta e última figura que reagia de forma diferente dos demais.

Ninguém menos que Lilith Liláses, seu adorado amor platônico, que a olhava com uma expressão decidida e caminhava em sua direção.

– PAREM COM ISSO! — gritou Lilith. — VOCÊS SÃO RETARDADOS OU O QUÊ? NÃO VÊEM QUE ISSO É NORMAL? ELA É LÉSBICA, E O QUE ISSO IMPORTA? O QUE ISSO TEM A VER COM SUAS VIDINHAS MEDÍOCRES? ABSOLUTAMENTE NADA!!! — Lilith parou para respirar, e em seguida continuou. — Fiquem sabendo... Que eu tenho um encontro com ela! Ouviram bem? Nós vamos sair juntas para nos conhecermos melhor! E EU NÃO TENHO NENHUMA VERGONHA DE SAIR GRITANDO ISSO AOS QUATRO VENTOS!

Todos ficaram calados.

A notícia pegou-os de surpresa. Quem poderia imaginar que, Lilith Liláses, a madonna da classe, aspirante a top model, estaria se envolvendo com Evanna Bristol?

Bem, uma certa pessoa imaginara, na verdade, ouvira, e fora ela que fizera o favor de expor à todos a sexualidade de Evanna. Essa pessoa estava presente, mas não demonstrava nenhum indício de ter cometido tal ato de má fé.

Evanna estava emocionada. Ela jamais imaginaria que Lilith fosse fazer algo assim, especialmente por quê envolvia a sexualidade da própria, que todos imaginavam ser hétero, mas que agora cogitavam ser bi. Entretanto, acima de tudo, Evanna estava feliz.

Agora, ela não era mais uma qualquer. Ela era Evanna Bristol, a garota que conseguira um encontro com Lilith, a mais cobiçada do terceiro ano. E não havia nada melhor do que deixar de amar em segredo. Ela agora não precisava mais se esconder. Graças a Lilith, a garota pôde perceber que realmente existem males que vem para o bem. Estava se sentindo muito mais leve do que antes. E isso era simplesmente fantástico.

– Vem, Eve. — disse Lilith, criando um apelido para Evanna. — Vamos pra sala. Não ligue pra esses bobocas. — e estendeu a mão.

Evanna hesitou, mas segurou a mão de Lilith. Então, as duas terminaram assim, andando de mãos dadas pelo colégio, todos os dias, após oficializarem o namoro.

Tudo estava bem.

...

Anderson deu uma passada na biblioteca para ver Margareth, que, como sempre, estava enterrada nos livros.

As duas haviam se tornado boas amigas. Já havia se passado uma semana desde que Andy iniciara as aulas na escola nova, uma semana desde o incidente com Evanna Bristol. Ela agora estava namorando com Lilith, e o preconceito dos outros alunos foi sumindo aos poucos, à medida que eles se acostumavam com o novo casal da escola. Ainda haviam piadinhas, mas nada tão pesado quanto antes. O clima estava bom. Andy estava feliz pelas duas. Era realmente esplêndido a existência de um caso em que um amor puro não foi reprimido por convenções sociais.

Por fim, não descobriram quem colou os cartazes sobre Evanna no prédio da escola. Parece que as câmeras não captaram nada e talvez o caso ficasse por isso mesmo. Todos sabem como esses problemas de colégio demoram a serem resolvidos, se pelo menos são.

Mas o importante era que tudo estava normalizado novamente, e todos sabiam usufruir dessa maré de calmaria. Margareth continuava lendo, Anderson continuava jogando futebol, Cassandra e Aiko continuavam a brigar... Todos pareciam estar ocupados com alguma coisa.

– Ei, Margy... Vambora? — disse Andy, enquanto dava tapinhas na capa do livro que Margareth estava lendo para que ela percebesse sua presença.

– Ah, olá, Andy. Já tô indo, só espera um pouco até eu terminar esse capítulo... — disse Margareth, sem descolar os olhos do livro um instante sequer.

Anderson atentou-se à capa do livro para ler o título, e se deparou com uma pergunta que raramente fazia a si mesma.

"Como anda a sua vida amorosa?", era o título do livro. Um título deveras estranho para despertar o interesse de Margareth, diga-se de passagem.

Andy terminou por ver-se divagando sobre isso, já que não tinha com o que ocupar a mente.

A sua vida inteira podia ser resumida em poucas palavras, e "amor" não era uma delas. Ela tinha amigos garotos, mas que não mantinham nenhum interesse nela, assim como ela não demonstrava nenhum interesse neles. E havia Margareth. E só. Esse era o seu pequeno círculo de relações interpessoais. Ela nunca parara pra pensar nos amores que perdera ou algo do tipo, nunca se apaixonara por alguém. Tinha um forte sentimento com relação a Margareth, mas era o chamado "amor de amigos". Ela era realmente estranha. Às vezes era realmente difícil compreender a si mesma, por isso ela sempre poupava o esforço de pensar nisso.

– Ei, Margy, por que tá lendo um livro como esse?

– Aham... — respondeu a nerd.

– O quê?

– Ahn? — Margareth olhou para Anderson, sem entender nada.

E explodiram em risos. A concentração de Margareth nas leituras sempre gerava situações engraçadas como essas, em que nenhuma das duas falava nada com nada, e ficavam rindo como idiotas.

Anderson apreciava esses momentos.

Na volta pra casa, as garotas continuaram a conversar e a rir. Eram realmente uma boa dupla. Sempre se divertiam na companhia uma da outra, e sempre se ajudavam em momentos de crise (entenda-se como crise Andy pedir ajuda à Margy com as matérias da escola).

Coincidentemente, passaram por um local muito especial para as duas. O lugar onde se conheceram. A rua onde Margareth quase fora estuprada.

– Ei, Andy, você lembra? — falou Margy, nostálgica. — Foi aqui que você me salvou daquele cara. Foi apenas a uma semana atrás, mas parece ter acontecido a tanto tempo... Muitas coisas aconteceram desde então. Tornamos-nos amigas, passamos a andar juntas...

– Sim, é verdade. — disse Andy, um pouco emocionada.

– Eu lembro que pensei que você era um garoto. — riu Margy. — Mas logo descobri que era uma garota. Você luta muito bem pra uma menina, sabia? Tenho orgulho de você por isso. E tem uma coisa que eu quero te falar desde o dia em que nos conhecemos. Uma coisa muito importante.

– Você já disse “obrigado’’ milhões de vezes, Margy.

– Não é isso... E-eu...

– Sim?

– Eu te amo, Andy. Desde a primeira vez em que te vi.

Então Margareth a beijou inesperadamente. O calor dos seus lábios era aconchegante.

– Sabe, eu não espero que seja um sentimento recíproco e tal, mas me sinto feliz por ter tido a coragem de me declarar pra você.

Anderson ainda estava inebriada pelo beijo. Fora um beijo tão bom... E fora o seu primeiro. Com Margareth... Sua amiga. Que a amava.

Realmente, o amor não escolhe hora e lugar para brotar e dar frutos.

Nada que Andy falasse serviria para explicar o que ela estava sentindo após aquele gesto, por isso, apenas segurou a mão de Margy, e puseram-se as duas a voltarem de mãos dadas para casa.

E isso foi melhor do que qualquer palavra para Margareth.

...

A escola estava em polvorosa. Agora haviam dois casais lésbicos no recinto. Pelo menos era isso o que diziam os boatos, ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo.

Em um belo dia, Margareth Amethyst e Anderson Magenta chegaram de mãos dadas, sem se importarem com o que os outros pensavam.

Quando questionadas por outras alunas sobre essa atitude, as garotas responderam:

– Hum... O que você acha? Andar de mãos dadas é coisa de namorados, não? Mas também existem amigos que fazem isso! Vamos deixar que tirem suas próprias conclusões.

E foram embora.

A dúvida gerada foi tanta que a escola praticamente se dividiu em alunos que apoiavam Mandy — o nome dado ao casal — e alunos que acreditavam em apenas uma amizade fraternal. Outros pegaram a mania de andar de mãos dadas com seus amigos, deixando as coisas cada vez mais engraçadas. Andar segurando as mãos de seu melhor amigo agora virara moda.

E Cassandra Purple estava possessa por causa disso. Ela era quem deveria lançar modas, certo? Ela era o modelo a ser seguido, não duas garotas sem um pingo de popularidade que saíram do anonimato após o suposto relacionamento. Isso a indignava.

Seu brilho já fora superado por dois acontecimentos. O "caso Evanna" e agora o "caso Mandy". Ela precisava fazer alguma coisa para chamar atenção.

E pensara no golpe mais escroto que já dera em alguém. Iria difamar Aiko Murasaki.

...

Era perfeito. Ela já sabia o que tinha que fazer. Teria sua popularidade de volta, ou pelo menos criaria uma situação em que fosse impossível não falarem dela ou de Aiko. Ela se vingaria pelo "toco" que levara da oriental quando as duas tiveram que fazer um trabalho em dupla.

Cass iria fazer com que parecesse que Aiko a tinha atacado e a beijado à força, criando uma fama de lésbica para a oriental e uma fama de "vítima da situação" para ela mesma. E já arquitetara como iria fazer isso.

Cass deixara um bilhete dentro de um dos bolsos da mochila de Aiko, anonimamente convidando-a a ir à quadra de esportes. Se a oriental fosse curiosa o suficiente, faria o que qualquer garota normal faria: ela iria. O único problema era que Aiko não era uma garota normal.

...

Aiko acabou aparecendo na quadra, mas não havia sequer lido o bilhete, apenas o amassara e jogara no cesto de lixo. O que a levou ao local, por conveniência do destino e para a sorte de Cass, foi uma imensa vontade de matar aula e ficar sozinha.

Assim que percebeu Cassandra na quadra, Aiko preparou-se para dar meia-volta. Não dividiria o mesmo ar com aquela engomadinha nem morta. E isso não era um exagero.

– ESPERA! — gritou Cass. — VOLTE AQUI AGORA MESMO! — e correu para alcançar a rockeira, que já ia embora.

Conseguiu segurar em seu ombro e a parar. Aiko virou o rosto com uma expressão de nojo.

– O que você quer? — falou, depois de um tempo.

– Eu preciso te contar uma coisa... — começou a fingir Cass, tentando parecer convincente. Aiko a olhava ressabiada. — Sabe, eu... Depois de acontecerem tantas coisas envolvendo as garotas da nossa classe, finalmente criei coragem para te dizer... Eu g-gosto de você, Aiko. — Cass disse, fingindo rubor.

Aiko simplesmente não acreditara no que ouvira. Aquilo era ridículo. Ela tentou, mas segurar a risada era impossível. Começou a rir histericamente, assustando Cass. Parou de rir tão repentinamente quanto começou, numa seriedade gélida.

– O q-quê...? — Cassandra não entendia mais nada.

– ESTÁ LOUCA? — gritou Aiko. — O QUE DEU EM VOCÊ? NEM EM UM MILHÃO DE ANOS EU RESPONDERIA ESSA SUA DECLARAÇÃOZINHA ESTÚPIDA E FALSA COM UM "TAMBÉM AMO VOCÊ, QUERIDA"! VOCÊ ME ENOJA! SUA EXISTÊNCIA ME IRRITA! ISSO FOI RISÍVEL! — riu de forma histérica novamente. — Suma da minha frente, você não passa de um aborrecimento a mais na minha vida. — terminou. Virou as costas e foi embora, deixando uma Cassandra humilhada e à beira das lágrimas para trás.

...

Aiko revirou-se na cama, ainda tendo pesadelos com o que ouvira de Cassandra. Abriu os olhos lentamente, espreguiçando-se, olhando para sua escrivaninha. Em cima dela, estava uma foto. Era Aiko menor, com seus pais. Ela parecia feliz. Mas isso acontecera haviam anos.

Virou-se para o outro lado e tentou dormir de novo, para esquecer dias que nunca voltariam.

Nunca.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!