Purple
3 Capítulo 3
Notas iniciais
#003
A pressa de Lilith para chegar à sala de aula era muita, tanta que chegou a esbarrar em uma garota na entrada do colégio. Lilith sabia quem era. Aiko Murasaki estudava com ela. Oriental, cabelos negros como os seus, blusas de bandas de rock, fones de ouvido. Essa era a descrição mais exata que se podia ter de Aiko, que era, basicamente, bastante diferente de Lilith.
Ela era o tipo de garota arrasa-quarteirão que atrai todos os olhares quando passa: alta, magra, porte de top model; cabelos negros e longos que chegavam até as suas costas. Seios pequenos, porém bumbum avantajado, o que dava um charme especial, diziam os garotos. Tudo isso com apenas 16 anos.
Já havia recebido convite de diversas agências de modelos, mas recusara todos. Não que nunca houvesse pensado ou sonhado em ser a estrela de um desfile, mas haviam as questões escolares para serem resolvidas primeiro: estava no último ano do ensino médio e precisava ficar focada em passar de ano e ingressar na faculdade, o que era um de seus objetivos.
Lilith, ou Lily, para os íntimos, estava acostumada a ter muitos olhos virados em sua direção. Olhos ambiciosos, que ansiavam pelo seu corpo, olhos de admiração que queriam ser como ela... Mas havia algo que Lilith não sabia. Um certo par de olhos a observava durante muito tempo, mas ela ainda não havia se dado conta.
Enfim chegara à sua classe. Todos os olhares se voltaram a Lily, que pediu permissão para entrar a professora.
O clima estava tenso. Parecia ter acabado de ocorrer uma briga entre alunos ou algo tão perturbador quanto.
– Bem, temos mais uma atrasada... — disse a professora. — Senhorita Liláses, você completará dupla com a senhorita Purple, que acabou de ficar sem equipe.
Lilith olhou para Cassandra e logo deduziu que o clima de tensão instaurado na sala devia ter saído de um possível atrito com Aiko, já que elas provavelmente estariam fazendo dupla antes da rockeira sair de sala.
O par de olhos anônimos que gostava de observar Lily estava na classe. Olhou Lilith por todo o tempo em que a garota demorou a se aprumar e começar a resolver o seu trabalho com Cassandra, na esperança de que ela o notasse, mas a garota não demonstrava nenhum sinal de ao menos se dar conta de sua existência. Os olhos resolveram voltar a se concentrar em fazer o trabalho.
– Ai, que bom que você chegou, Lily, eu estava mesmo precisando de ajuda para terminar o trabalho. — disse Cass. — Acredita que aquela vadia da Murasaki se recusou a fazer dupla comigo e resolveu cabular as aulas? Ah, faça-me o favor, era EU quem deveria ter feito isso.
– Hahaha. Você não muda nunca, Cass. E aí, qual o problema que você não tá conseguindo resolver?
...
O relógio se moveu, e em um quarto de hora as duas já haviam terminado o trabalho.
Cassandra deu graças a Deus por ter pegado Lily como parceira em vez de continuar com Aiko: Lilith era a segunda mais inteligente da sala, ficando atrás apenas de Margareth Amethyst, a garota nerd que não saía da biblioteca.
As horas se passaram e finalmente o sino tocou: era hora de voltar para casa. Todos já estavam saindo da sala, exceto Lily e mais algumas garotas, que terminaram por sair antes dela. Na verdade... Os olhos que eram fissurados em Lilith também permaneceram na sala, mas tinham uma presença tão apagada que Lily não os percebeu.
Os olhos, se vendo a sós com seu sonho de consumo, resolveram tomar coragem e abordá-la.
Seria hoje. Finalmente o dono dos olhos havia criado coragem para falar com sua deusa. Eles se aproximaram sorrateiramente e pegaram no ombro de Lily, que estava de costas.
Lilith se assustou com aquilo, óbvio. A garota se virou, espantada, para trás, e encontrou a pessoa que a tocara... A garota que a tocara, na verdade. Ela possuía brilhantes olhos verde-água, e era morena tanto em cor de pele quanto na cor dos cabelos. Suas madeixas eram de um castanho-escuro bonito. Ela parecia tímida demais para falar alguma coisa. Mas falou.
– O-olá, Lilith. E-e-eu sou uma grande stalke... Admiradora sua! Uma grande admiradora sua!
– Ah... Olá, Evanna. — Lilith agora se recordava dela. Era tão apagada na classe que quase ninguém a percebia, Lily inclusa. — Bem, o que você quer? — indagou Lilith, com um sorriso.
Os olhos, que na verdade eram Evanna, se encheram de coragem e disseram alto e claro:
– POR FAVOR! ENTRE EM UMA RELAÇÃO, NEM QUE SEJA PURAMENTE PLATÔNICA E NADA RECÍPROCA, COMIGO!
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