Pure Imagination

8 Waking up and having breakfast: level hardcore!


Notas iniciais
Yey! Voltei! Não consegui escrever outros capítulos, mas como tenho coração mole (-sqn) aqui estou! -Esse capítulo e o próximo não tem muita coisa nova, mas acredito que no décimo capítulo as coisas comecem a andar de verdade. -Posso pedir uma opinião? Vou pedir mesmo assim. Eu tenho que entregar uma redação esses dias e nós temos que escrever uma narrativa baseada em um quadro de Debret sobre qualquer coisa (não precisando ser encaixada no contexto do quadro) e eu escolhi essa (http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Vista_exterior_da_galeria_de_aclama%C3%A7%C3%A3o_de_D._Jo%C3%A3o_VI_-_J.B._Debret.gif) e tentei pensar em uma história, mas como não estou com cabeça para isso, só me vieram histórias clichês. Pensei até em pegar o capítulo de Pure e mudar, mas pensei que era melhor criar uma outra haha Eis minha ideia clichê :/ --> algo como uma cidade isolada em uma ilha (ou terreno) por causa de uma explosão de guerras no mundo que os obrigou a fugir por causa da violência e ataques de bombas em grandes quantidades, mas isso aconteceu há duas gerações atrás e ninguém se atreveu a falar qual seria a guerra, seus objetivos ou contra quem, assim nada se sabe sobre isso, sendo que ninguém sai lá fora e a cidade é repleta de problemas de saúde, educação e tals. Até que o Rei chama as pessoas para dar um recado no pátio, dizendo que estão em guerra. Sem dizer mais nada sobre isso. Luke, que vem de uma família pobre (assim como a maioria maçante da população) é convocado por uma garotinha para o teste do esquadrão da guerra, por ter descoberto sua inteligência, sem realmente saber de nada, ele entra no grupo. Seria algo como: quem é o inimigo? Quem somos nós? haha. É, tinha pensado muitas coisas, mas não dá para falar tudo aqui haha. isso seria um resuminho muito resumido... ou talvez fosse uma missão secreta. Hm... vou pensar... -Pensei até em colocar canibalismo nos inimigos huashuashuash, mas como é só um pedaço da história que é para escrever... vou deixar com um final aberto e foda-se U-U e cria-se um grupo jovem e talentoso que finalmente sai do lugar e vê o mundo. -esses dias eu tive que fazer uma redação de inglês em cima da hora, era para ter pouco mais de 100 palavras, mas como eu comecei a escrever sobre suicídio e Ruffles (é, isso mesmo, Ruffles, era o que a menina estava comendo), percebi que era um assunto sério e deveria ser bem trabalhado e tive que espremer uma história gigante que escrevi. Ficou corrido e levei bronca, mas depois ele disse que ficou impressionado com o modo que escrevi O.O ele disse que cada pedaço se encaixou no final e...haha a história até ficou bonitinha... era sobre um garoto que queria cometer suicídio, mas no telhado uma garota de olhos entediantes o interrompe perguntando se queria comer Ruffles, mas eu juro que é uma história séria sobre a vida e o que nos faz feliz. Eu não sei porque disse isso, deu vontade de contar haha -enfim, depois desse meu falatório... Boa leitura o/

Acordei em um lugar estranho.

Na verdade, estava tão crente de que se dormisse iria acordar de volta a minha vida anterior ou na própria morte.

Mesmo assim, acordei ali. No meu quarto da Ordem Negra. Um cubículo (porque, pelo que me disseram, o quarto que inicialmente era meu havia explodido e cá estava eu em um reserva) repleto de coisas diversas. Quando digo diversas, digo, totalmente distintas. Posso ver daqui de minha cama de uma máscara gigante e colorida até o jornal de três anos atrás (imagino que sejam três anos atrás, se o tempo for o mesmo aqui do que era antes).

Sentia-me tão renovado quanto, ainda mais, desconcertado. Meu corpo doía dos exercícios de ontem (refiro-me tanto à super-escalada do inferno quanto a minha luta fracassada com Kanda). A preguiça invadia-me o peito, apesar da curiosidade querer me obrigar a explorar cada canto possível. Continuei na cama por falta de energia e acúmulo de dor muscular. Afundei meu rosto no travesseiro (que até que era macio), querendo me obrigar a acreditar no que acontecia a minha volta. Passou-se um dia, mas ainda era difícil de pensar nisso sem querer se internar em um hospício. Fiquei assim por um tempo consideravelmente grande.

Quer dizer, até sentir o cheiro invadir meu espaço.

Um cheiro confortante e delicioso. Era um cheiro macio demais.

Pão.

Cheiro típico de café da manhã.

Pulei da cama, ignorando a bagunça que deixei em meus lençóis e cobertores amontoados. Tropecei em um bule de chá de ferro (?!), mas consegui chegar a porta do meu quarto com sucesso.

De pijama mesmo, fui a procura do banheiro.

Pelo que Komui havia me dito ontem a noite (depois de me encontrar vagando perdido nos corredores, sonhando acordado sobre a luta), o banheiro era coletivo. Segui o mapa desenhado especialmente para mim e com dificuldade cheguei até o portão que levava ao tal banheiro.

Digo “com dificuldade” porque os rabiscos que acho que eram corredores e pessoas, terminavam em um “X” sem noção. Conclusão: as linhas para mim emaranhavam-se tanto que parecia mostrar-me o caminho em uma teia de aranha (com bonecos palitos sem funções) e por vezes via-me entrando em corredores errados. E, com aquele X, sentia-me um pirata bem desgovernado buscando o tesouro que chamo de “higiene matinal”.

Tive que parar para pedir informação duas vezes, mas cheguei ao banheiro.

Para os desinformados, meu senso de direção não é muito bom. Ainda mais cedo de manhã. Temo os momentos da noite em que provavelmente sentirei vontade de ir ao banheiro. Só me acharão anos depois, vivendo como um eremita em um canto dos corredores infinitos.

Empurrei a porta e entrei. Estava vazio. Parecia um banheiro/vestiário normal. Um espelho grande, azulejos brancos e azuis, pias de mármore. Parecia um pouco judiado, mas o prédio inteiro era um ancião capenga. Por fora, pelo menos, parecia que tudo estava para cair aos pedaços, mas claro que por dentro era bem mais aconchegante.

Estava com tanta fome, ou talvez apenas atiçado pelo maravilhoso cheiro que vinha do refeitório, que nem iria tomar banho. Me troquei, usando a calça, botas e suéter gola V (todos negros, por ordem) e a camisa social com gravata por baixo. Senti-me estranho, geralmente usaria roupas confortáveis por causa do corpo frágil, mas essas roupas me foram entregues por Komui ontem. Ou seja, não tinha escolha.

Pelo menos eu gosto de preto.

Molhei meu rosto na pia, para acordar. Quando me vi no espelho, percebi que não estava com aparência tão cansada quanto pensei que estaria. Não tinha conseguido dormir ontem, por causa de toda a agitação e agora deviam ser, o quê, oito horas da manhã? As olheiras eram mínimas.

Antes, naquela vida, eu tinha olheiras piores...

Senti uma nostalgia me atingir, mas antes que pudesse me deixar ser engolido por ela, prendi-me a outro detalhe no reflexo.

A cicatriz. Aquela que me cortava o olho esquerdo como um risco.

Não era um risco mais. A forma tinha mudado. Toquei-a como se fosse uma doença: com todo o receio possível (irônico que antes as pessoas tocassem em mim do mesmo jeito...). Tinha uma estrela marcada no fim dela (na testa) e embaixo dos olhos a forma assemelhava-se a um raio com um corte no meio.

Ignorei. Porque o cheiro de pão juntou-se a um cheiro doce que fazia meu estômago querer mover-se por conta própria.

Saí aos tropeços (nunca fui a pessoa mais coordenada) e consegui achar as escadas. Logo, estava no refeitório. As portas abertas revelavam-me as várias mesas compridas com bancos tão compridos quanto. Pessoas iam de um lado para outro, ouvia risadas e lamentos. E o cheiro estava ainda mais forte. Me hipnotizava.

Por um lado, o amontoado de pessoas era confortante, por, pelo menos, ser uma experiência nova. Komui ficou ontem a noite inteira me fazendo acostumar com esse mundo. Mas, pelo outro lado, odiava multidões. Elas me deixavam desconfortável.

Odiava multidões, odiava toques, odiava barulho, odiava agitação. E lá estava eu, naquele refeitório lotado e barulhento. Agradeci pela comida parecer deliciosa, porque se não fosse, estaria me refugiando no meu quarto (isolado de todos os outros cômodos). Ainda bem que a luta de ontem a noite me deixou faminto. Era uma sensação nova: estar faminto desse jeito.

Tentei não trombar em ninguém (mas andava com tanta cautela e tão encolhido que alguns me olharam estranho). Em mais uma atividade de sucesso do dia, consegui chegar até Jeryy, o cozinheiro (apesar de ter realmente duvidado de seu sexo por duas horas desde que o vi ontem). Não havia fila, vendo que cheguei um pouco mais tarde que os outros, e ,bem na minha frente, ele sorria para mim. De pele bronzeada, cabelos coloridos de roxo e rosa, trançados em duas linhas grandes que caíam pelas suas costas, Jeryy ajeitou os óculos escuros e inclinou para minha figura intimidada.

–Pois não?

Eu sabia que ele era uma boa pessoa, mas gente extravagante nunca foi o tipo de gente com quem eu lidaria facilmente. Não que tivesse algum tipo com que eu lide facilmente...

–Hã...hm...- era difícil pensar com ele me encarando tão atento, sentia minhas mãos suarem- pode ser o que quiser...

Saiu como um sussurro, mas ele entendeu. Confirmou com um riso e sumiu até a cozinha. Tentei ser o menos estranho possível observando o ambiente, encostado no balcão de pedidos, mas eu não posso mentir que me sentia desconfortável demais ao ver o amontoado de gente naquele espaço. Concentrei-me nos lustres do teto. Objetos inanimados sempre me pareciam amigáveis.

Pareceu-me a mesma eternidade tão citada nesses momentos, mas o relógio indicava apenas dez minutos, Jeryy voltou com pães doces e salgados e uma bebida quente.

Agora, com a comida em mãos, deveria ultrapassar outro desafio maior: o lugar do refeitório.

Olha, eu não sei de sua posição social ou de sua popularidade, mas eu nunca fui a pessoa mais querida da escola. Lugares do refeitório eram sempre meus desafios diários. Mesas ocupadas, mesas que simplesmente me rejeitavam... geralmente eu acabava por evitar esse tipo de escolha e ia comer no chão, ao lado do lixo.

Eu e o lixo, apenas. Porque éramos os nojentos da escola.

Tinha acordado alguns minutos atrasado, isso somado ao fato de que me perdi ao caminho do banheiro, resultou em várias mesas totalmente cheias! Todos já tinham seus lugares.

–Allen!- Lavi me chamou, procurei esperançosamente por ele e o encontrei sentado em uma mesa alguns metros a frente.

Lenalee, Lavi e Komui. Os três estavam lá, acenando.

Único problema? Estava totalmente ocupada. Cada canto dela tinha uma pessoa sentada e bandejas e pratos espalhados.

Aproximei-me mesmo assim, não sabia o que fazer, mesmo.

–Hey...- disse, sem muito entusiasmo. Pessoas demais me deixavam sem jeito.

Lavi pareceu seguir meu olhar que passava pela mesa inteira, porque pareceu um pouco aflito.

–Argh- resmungou- não tem espaço...

–Tudo bem- disse, mas não pude impedir de soar um pouco mal- eu acordei atrasado hoje. É meio óbvio que não teria lugar. Hm...acho que vou comer no meu quarto, sei lá. Eu estou meio preguiçoso hoje, mesmo.

–O que?- Lenalee disse- não precisa chegar a tanto, Allen! Nada de se excluir no quarto!

–Isso mesmo- Komui apontou para o outro lado- acho que tem um lugar para lá, Allen. Hm...- examinou com os olhos, até que abriu um sorriso orgulhoso- Ali! Na mesa do Kanda.

Algumas pessoas da mesa soltaram resmungos. Segui o dedo de Komui até avistar uma mesa ao fundo do refeitório, vazia (na verdade o pedaço estava um pouco vazio, as pessoas de outras mesas espremiam-se nos bancos para ficarem o mais afastado possível, havia um buraco demográfico no refeitório). Quer dizer, vazia se não fosse pelo ser mal encarado que comia sem entusiasmo: Yuu Kanda.

Engoli em seco. Eu queria mais do que tudo ser capaz de sentar ao lado dele. Sentia-me estremecer só de vê-lo comer o que quer que ele estivesse comendo, com aquela expressão maldosa que tanto assustava as pessoas. Incrível o modo como ele fazia isso. Simplesmente demais...

E chato, também. Me irritava.

Tentei engolir minha vontade de esquecer essa ideia e ir comer no chão, como sempre, mas decidi que era melhor agora, quando eu tinha uma desculpa de não ter lugar para sentar (mesmo que não parecesse que ele aceitaria essa desculpa, mas tentei não pensar muito nisso).

Ninguém me encarou enquanto andava, mas a medida que eles foram notando onde eu iria sentar, começaram a olhar com expectativas diversas. Incomodava saber que todo mundo olhava para mim. Odeio isso. Me deixa exposto demais e me deixa mais propenso a cometer deslizes idiotas. Como escorregões vergonhosos, odeio eles.

Consegui chegar lá vivo e com sucesso, mas só de sentir estar por perto, me perguntei se sairia de lá vivo.

Pigarreei. Foi só quando ele notou que eu existia.

Me encarou com dúvida e irritação.

–O que quer?- disse, mastigando.

–Hm...só...hm...sentar. Eu não tenho lugar e... eu não quero comer no chão. Hm... posso...?

Ele arqueou as sobrancelhas e novamente revirou os olhos. Pareceu examinar o meu rosto e depois o refeitório cheio.

Eu devia estar com uma expressão não muito legal, acho que estava suando frio. Tinha certeza de que as pessoas por perto estavam prestando atenção em tudo que fazíamos.

Surpreendentemente, ele não pareceu se importar. Rudemente indicou o lugar a frente dele na mesa(fazendo uma expressão totalmente irônica e irritada) e eu me apressei para sentar.

As pessoas pararam de olhar, mas eu sabia que elas estavam prestando atenção.

Pelo que Komui me disse ontem, Kanda e eu sempre fomos como água e óleo na Ordem. Por isso ele sempre parecia tão surpreso quando eu tentava falar com ele.

Daqui a pouco ele iria começar a apoiar Lavi na teoria da amnésia, porque eu não conseguia agir de um jeito que não fosse aquele. Ele é a pessoa que eu mais quero estar próxima... não que eu fosse admitir isso.

Conclusão: Kanda é tudo que eu queria ser. Mas é a pessoa que menos gosta de mim e mais me assusta. Ótimo.

A bandeja deslizou e eu fiz o possível para não parecer ser um idiota enquanto sentava. Não que ele prestasse atenção em mim. Ele parecia mais preocupado com a comida dele.

Seria aquilo macarrão? Ele come de hashis... Parece ser frio, tem carne, também. Parece bom. É comida japonesa? Ou seria chinesa? Ah, será eu ele é japonês ou chinês? Coreano?

–Quer parar de secar a minha comida?- rosnou, sem nem levantar a cabeça. Devia estar falando comigo, não havia mais ninguém.

–Hã?

–Eu disse para parar de encarar minha comida, seu esfomeado.

Eu não estava encarando tanto assim...estava? Meu Deus. Sou um idiota. O maior.

Ri sem graça,ajeitando-me no banco. Queria parecer invisível pelo menos até esquecer que encarei a comida dele que nem um otário.

Pergunto-me como “eu” agia com Kanda quando não era o “eu de agora”. Porque eu realmente não sei como agir.

Pense comigo: como você age diante de um ídolo supremo? Pode ser seu cantor favorito, dançarino, atleta... Você surtaria? Ficaria nervoso? Sim ou claro?

Acontece que eu nunca realmente liguei para essas pessoas. Nenhum ídolo que eu tive era assim: vivo. Quer dizer eu gostava de pessoas vivas, mas minhas admirações maiores voltavam-se para outros. Ou estavam mortos, ou eram personagens fictícios, ou seja: em nenhum momento eu me imaginei encontrando alguém que admirasse tanto.

Entende o que eu passo?

Não é como se eu fosse jogar-me aos pés dele e implorar para que ensinasse tudo que sabe ou algo do tipo. Eu só queria aprender com ele, só ficava nervoso ao sentir a superioridade emanando até do jeito que ele usava os hashis para comer.

Eu não sabia usar hashis.

–Desculpe- resmunguei, mas tão baixo que duvidei que ele realmente estivesse ouvindo.

Comi tudo tão rápido que me amaldiçoei por isso: não tinha mais nada para me ocupar. Fiquei batendo os dedos na mesa e encarando a mesa tão divertida lá atrás. A galera reunida e Lavi contando alguma coisa tão engraçada que Komui quase cuspiu tudo de uma vez e todos riram em coro. Estavam falando e rindo tanto que alguns pratos permaneciam intocados na mesa.

Então voltei meus olhos para a mesa onde estava. Vazia, apenas comigo e o moreno que lentamente tomava seu café da manhã de macarrão.

Suspirei.

–Se é para ficar reclamando- ele rosnou- é melhor nem sentar aqui, moyashi.

–M-Mas eu não falei nada.

Ele levantou o rosto. Foi a primeira vez que ele me encarou desde que sentei.

–Mas fica suspirando. Está atrapalhando. Se já comeu e vai ficar secando a mesa dos outros, vai pro seu quarto. Não era para você estar aqui.

E voltou a mastigar sem me encarar.

Por incrível que pareça, minha mente se revirou, querendo que minha boca cuspisse frases ofensivas que surgiam como cachoeira na minha cabeça. Usei minha força para evitar falar qualquer coisa do tipo, porque sabia que depois ficaria me remoendo de vergonha. O meu “personagem” estava lutando para ser interpretado, mas ainda me restava a insegurança do albino doente.

Simplesmente levantei e peguei meu copo de bebida quente que ainda restava. Poderia ser uma ilusão, mas vi quando Kanda levantou o rosto para me observar sair e cumprir seu pedido sincero, parecia um pouco confuso com meu ato ao invés de ficar agradecido.

Passei rapidamente pela nossa mesa vazia e encostei na parede. E lá estava eu, de volta às origens: sentado ao lado da lixeira.

E o lixo da Ordem Negra era tão nostálgico quanto fedorento. Como uma comida tão boa pode cheirar tão mal lá dentro?

Encolhi meus joelhos e tomei a bebida (já fria) de chocolate.

Não estava tão triste. Pelo contrário, estava acostumado com isso.

Ficar sozinho no canto, encolhido, ouvindo as pessoas alegres na perspectiva acima de mim. Eu conhecia a sensação. Até dava saudade.

Só que não.

Terminei de beber, sentindo enfim o estômago satisfeito e quieto para então jogar o copo de isopor na minha amiga e companheira de refeições “lixeira”. Sem saber o que fazer a seguir, estava pronto para seguir o outro conselho de Kanda e ir para o quarto.

Preparei-me para levantar, tentando não apoiar a mão na mancha roxa e pegajosa ao lado, quando por questão de centímetros minha cabeça quase derrubou uma bandeja segurada por alguém acima de mim. Provavelmente queria acertar a lixeira.

Me assustei tanto que pisei na mancha pegajosa e, olhe só, ela não era pegajosa e sim lisa. Não preparado para isso, escorreguei lindamente, batendo o braço na bandeja alheia e voltando de bunda no chão. No fim, sempre voltava para o chão, irônico, não?

–Ai- gemi.

Abri os olhos (fechados antes quando esperava a batida) e enxerguei botas negras encharcadas de algum líquido. Engoli em seco, totalmente surpreso com o MEU feito, enquanto subia lentamente os olhos, até encontrar (acima do peito encharcado também), o rosto nada (NADA) amigável do Kanda.

Ótimo. Simplesmente ótimo.

Ele estreitou ainda mais os olhos, jogando a bandeja para algum lugar longe dali.

Não precisou dizer nada, meu corpo mandou por mim: FUJA.

Mas minha mente mandou: ENFRENTE.

E eu simplesmente gaguejei.

–E-eu... er...sabe o que é... foi mal...eu...

Uma veia surgiu saliente em sua testa e estourou, enquanto estudava os estragos em seu próprio corpo.

Ok, esquece o “enfrente”. Por enquanto, o “fuja” é o melhor.

Em um segundo, estava em disparada pelas mesas. Ele pareceu surpreso por minha ação repentina, mas ouvi quando sacou a espada. Só ouvi, porque estava ocupado empurrando as pessoas e correndo pelo refeitório.

Quando ouvi os passos dele vindo atrás, comecei a pular nas mesas para evitar curvas.

Correr em linha reta é muito mais rápido.

Tinha certeza de que quando pudesse parar de correr, meus pés estariam cheios de café da manhã alheio.

Senti a fúria atrás de mim.

No desespero, parei só quando um rosto conhecido estava a minha frente, totalmente sem reação.

O ruivo que voltava para seu lugar parou para me encarar enquanto corria em sua direção.

–Alle...?

–LAVIIII!- gritei, gastando todo o esforço de minhas cordas vocais.

Enrosquei-me no pobre garoto, girando, sem querer, seu corpo com a força e quase nos lançando ao chão. Escondi-me atrás dele.

Nada como um amigo para usar como escudo.

–Allen?? O que foi que...? Ah...- ele percebeu quando viu Kanda arrastando sua aura negra em passos lentos (como ele estava tão perto andando naquela velocidade??)- e lá vamos nós...

Lavi riu, mas bufou.

–Yuu, deixa o Allen dessa vez- disse, mas não que isso parecesse convencer o moreno- você já bateu nele ontem.

–Kanda!- Lenalee se pronunciou- se violência no refeitório. Olha só o estrago!

–Ah, é?- Kanda disse, sua voz estava ameaçadoramente rouca- então porque não fala isso para o moyashi?! Maldito!

Seus olhos faiscaram.

–Kaaandaa...- Komui surgiu por trás, tocando o ombro do moreno- não destrua tudo isso, ok? Allen fez sem querer.

Achei que teríamos o funeral do Komui hoje, porque eu nunca me atreveria a tocar o Kanda em uma hora dessas. Eu gosto de viver e já experimentei morrer antes. Não foi muito legal, só para lembrar.

Uma veia estourou na testa do japonês. Surpreendentemente, ele não fez sushi de cientista, mas abaixou a espada calmamente. Parecia contar até dez mil para conter a raiva.

Quando ele finalmente embainhou a espada de volta, seu olhos faiscavam menos no azul escuro das íris. Mas não deixava de ser assustador.

–Tsc- resmungou- desastrado.

Ele me fuzilou com os olhos. Protegido pelo corpo de Lavi, senti coragem de falar:

–Foi você que apareceu e repente na lixeira!

–E o que você estava fazendo sentado do lado da lixeira, moyashi??

–Ué, foi você que me expulsou da mesa! Pare de reclamar só porque sujou a roupa, princesa. Supere!

Silêncio. Ok, talvez eu tenha gritado um pouco alto demais, porque agora as pessoas encaravam descaradamente. Conseguia ver (comicamente) algumas pessoas sorrirem divertidas, outras balançando o cabeça em monotonia e Lavi reclamou no meu ouvido: “De novo não...”.

Kanda arqueou as sobrancelhas.

–Princesa?- rosnou- Quem foi mesmo que escorregou idiotamente e caiu dez andares na missão?

–Quem foi que tentou me empurrar?

–Tsc. Pelo menos eu não dou piti na mesa do refeitório.

–Aaah, mas o Bakanda deu muito piti sobre terem sentado na mesa privativa dele. Para de bancar o anti-social, Bakanda! Aja como uma pessoa!

–Falou o otário que senta do lado da lixeira!

–Eu só pensei em deixar o senhor “sou-fodão-mas-cu-doce-e-fresco” sozinho um pouquinho para ver se faz os neurônios funcionarem.

–Moyashi!

–Bakanda!

O moreno colocou a mão na espada e recuei na hora. Não sei o quanto dói ser cortado, mas não estou afim de perder um braço.

Komui se adiantou, tentando conter o sorriso bobo no rosto. Ergueu a mão em trégua, vendo que só iríamos piorar toda a situação e explodir o lugar inteiro. Foi uma atitude inteligente, parou Kanda na metade do caminho para retirar a espada do suporte no quadril.

–Ou, ou!- Komui disse- Sem brigas! Meu Deus! Parem com isso! Todos sabem que vocês se amam, não precisa de toda essa melação no refeitório! Já basta a comida do Jeryy para nos deixar com diabetes, por favor!

–Komui...- Kanda rosnou. Eu podia antecipar a espada dele partindo o supervisor em dois.

–Calm, calma- ele ergueu novamente os braços- só brincando.

Afrouxei meus dedos no ombro de Lavi (que ainda era meu escudo, só por precaução).

Ok, adicionando mais uma coisa a minha lista gigante de coisas erradas: Kanda é extremamente e desnecessariamente frio, violento e irritante!

Komui ajeitou os óculos e balançou a cabeça. Ele suspirou, parecendo monotamente cansado com a situação.

–Vocês precisam rapidamente de uma missão para esfriar a cabeça...

Notas finais
Gostaram? Reviews? Eu prometo que a história começará a andar... LEIA AS NOTAS INICIAIS, please! Obrigada por lerem!!!!! :) Preview (eles ainda não foram em missão): "-Não!- gritei, explodindo, enfim- não, não, não! Vocês não estão analisando o caso!! Estão agindo como se já fosse causado por uma Innocence!! " "Engoli em seco. As sobrancelhas franzidas e o brilho estranho neles me diziam que ele parecia confuso ou desconfiado." É isso, até!