Pure Imagination

9 Sorry if I'm dumb, but I can be smart


Notas iniciais
Yey! Olá! Tudo bem com vocês?? -A pedidos de pessoas, eu resolvi postar a história do Ruffles... eu traduzi as pressas e mudei algumas palavras, mas aqui está: http://fanfiction.com.br/historia/485544/O_Cinza/ -Esse capítulo que estou postando foi escrito em meio a correria! Não revisei de jeito nenhum... perdão por qualquer erro e pelas ideias nada bem boladas e pela escrita não muito bem colocada... Provavelmente daqui em diante estará MUITO mais corrido, então, peço perdão se por acado não postar nas datas... -Espero que não esteja lixoso. Digo isso porque não gosto de escrever rápido demais, as coisas saem as pressas e sem muita boa ideia ou escrita. -Agradeço as pessoas que comentam!!! :))) só espero que fantasminhas digam oi... cof cof haha -Esqueci o que tinha a dizer... -Boa leitura!! o/

Foi logo depois da minha ida fatídica ao médico. Quantos anos eu tinha mesmo? Quase dez, acho. Talvez sete. Sim, algo próximo disso. Só me lembro de chegar em casa sem dizer uma única palavra ao meu pai durante a volta para o lar. E continuei no silêncio por dias.

Eu era uma criança birrenta.

Meus sentidos haviam parado depois de algo como “doença sem cura. Morrerá antes dos vinte anos, com certeza”. Eu não sei se o médico era totalmente profissional, se era sangue frio, ou se achava que uma criança não entenderia.

Mas eu entendi perfeitamente e senti perfeitamente a dor e decepção.

Crianças entendem, apenas para avisar os adultos que sem o mínimo de bom senso se creem superiores para falar algo ruim na frente delas. Crianças não são idiotas.

Eu conseguia sentir meu pai querendo desabar enquanto dirigia, apertando os dedos em volta do volante com força. Conseguia o ouvir segurando o nervosismo e respirando pesadamente cada vez que parávamos em um semáforo sinalizando vermelho.

Eu sabia que ele estava esperando que eu começasse falando. Mas o que eu poderia falar? O que isso ia mudar?

Eu conseguia sentir a inquietação nas suas ações.

Escutava, sentia, via, mas não agia.

E eu comecei a sentir tudo em mim. Dentro de mim. A fraqueza. O mal funcionamento. Tudo do meu corpo.

Eu percebi que estava fraco. Algo que nunca me incomodei em notar antes.

Eu comecei a sentir como o meu pulmão forçava-se a trabalhar. Como meu braço esforçava-se tanto para subir e descer. O meu coração batendo enquanto eu duvidava de seu trabalho.

Coisas que eu nunca percebera. Agora eu simplesmente prestava atenção ao meu corpo, tentando ver os seus problemas que eram meus. Às vezes apenas deitava na cama no meu quarto, olhando o teto, sozinho e em silêncio.

Ouvindo-me morrer aos poucos.

Eu fiquei umas boas duas semanas sem dirigir ao meu pai nada mais do que um “sim” ou “não”. Fiquei no quarto, encarando a janela, sentindo a tristeza da vida passar pelos meus olhos. E a alegria derreter de dentro de mim como a neve fazia lá fora, tão calmamente.

Mas eu estava agitado.

Qual era o sentido para que eu estivesse vivo?

Morrer?

Espalhar sofrimento pela minha casa?

Ver meu pai sofrer?

Como ele chorava toda vez que um dia passava.

Era um sucesso.

E mais um dia de risco por vir.

Cada nascer do Sol era nada mais nada menos que uma aposta.

E cada pôr-do-sol era mais uma “vitória”.

Minha vida era uma aposta entre médicos.

“Vinte anos”,”Cinco”, “Quinze”, “Dois”...

E o único que saia perdendo era eu mesmo.

Não que eu realmente tivesse como ganhar.

Não que realmente tivesse tantas coisas e pessoas para perder com isso. Eu nunca tive.

Isolei-me no quarto por dias. Não queria ir para a escola. Não queria comer. Não queria respirar. Não queria viver o resto da vida.

Podia morrer agora e surpreender a aposta dos médicos.

Surprise motherfucker! Morri!

Mana observou-me definhar pouco a pouco. Suas tentativas eram nada mais nada menos que falhas: eu já tinha virado as costas para a vida. Eu estava nervoso e magoado com ela.

Não fiz nada. Não sorri. Não chorei. Não falei.

Não senti.

Então, como qualquer outra criança como eu, explodi um dia qualquer. Podia ter sido ontem, podia ter sido amanhã, mas foi bem no “hoje”. Aguentei ao limite as palavras dos médicos, os olhares, as dores e explodi. Ignorei a dor nas pernas e braços e a respiração pesada dos meus pulmões. Ignorei o pedido de Mana para ficar quieto no quarto enquanto ele buscava um remédio em um posto de saúde próximo. Eu pulei a janela, corri para a rua, no meio da neve, sem ter o trabalho de buscar um casaco. Corri. Corri muito, até minhas pernas bambas falharem por fim e encontrarem o chão fofo de flocos de gelo. Meus joelhos bateram e eu fiquei lá, estatelado e ajoelhado, sem reação e sem emoção por longos minutos. Sem ser notado em meio ao escuro da noite e a agressividade da neve.

Eu chorei. As lágrimas incomodando meu rosto por causa do frio.

Quando percebi, não era mais ignorante e não era mais insensível.

Apesar de querer ser.

Eu sentia. Era uma pontada no coração, uma pontada nas lembranças e uma pontada no futuro. A dor e os gritos derramavam-se nas lágrimas e enfim senti o quão frio era a rua.

E o quão quente era Mana.

Eu gritei, esperneei, como uma verdadeira criança mimada jogando com pernas e braços todo o gelo macio e afiado que havia por perto. No meio da neve, solitário no manto branco e congelante que me envolvia. O que eu podia fazer? Eu era uma criança mimada. Daquelas que choram e dão chilique no mercado querendo mais do que tudo o chiclete sabor morango.

Uma criança querendo mais do que tudo poder viver e realizar-se, apenas.

Mas a vida, rígida, não me deu nada que não fosse coberta com dificuldades intrespassáveis.

A imaginação e a escrita, porém, deram-me suficientemente. Deram- me passagem e chance.

Ilusões quase tão reais.

Eu era uma criança birrenta. Porque sabia de tudo.

–X-

Uma semana consegue passar rápido. Em dois dias, meu corpo parecia mais inteiro. E não estou falando por causa da queda de dez andares (quer dizer, disso também), mas meu corpo nunca havia sido tão bom desse jeito. Saudável e funcional.

Gastei um bom tempo observando as pessoas lutarem e treinarem na sala. Outro tempo, gastei batendo em bonecos apenas para satisfazer a vontade de usar um corpo inteiro. E, uau, era incrível. Tentei despertar qualquer que fossem minhas habilidades, mas não me atrevi (nunca mais) a treinar com uma pessoa.

O que mais posso dizer? Nunca fui tão bem incluído.

Apesar de gaguejar bastante, ficar confuso, não saber como agir e ficar tímido o tempo inteiro, as pessoas vinham falar comigo. Lavi passou dias até tarde da noite no meu quarto, Lenalee chamava-me para ajudar nos serviços, Komui sempre vinha verificar meu estado. E Kanda continuava a me olhar como o ser mais estranho do mundo. Talvez eu fosse, mesmo. Mesmo assim, quando me sentia corajoso o suficiente (como quando ele não segurava um objeto perigoso) lançava-lhe o melhor olhar de desprezo que eu tinha. O que não era muito, mas dava para o gasto.

Mesmo assim, sempre que ele adiantava-se a treinar eu o seguia, apenas para observar.

Não pense que sou um stalker! Só um curioso ser confuso.

Pouco a pouco fui conhecendo mais pessoas e tentando me incluir, me acostumando à rotina e novos conhecimentos do mundo em que estava.

Não era fácil, admito. Por dias acordava no meio da noite, assustado, como se algo estivesse incomodando meus sonhos. Era nessa hora (perto das três da manhã) que as dúvidas me invadiam e me faziam murchar de desespero. “O que estou fazendo?”, eu geralmente perguntava (sem repostas convincentes) e revirava-me até conseguir finalmente pregar os olhos. O que demorava consideravelmente.

Sabe os maus pressentimentos? De tempos em tempos eles controlavam minhas emoções. Eu, de repente, parava o que estava fazendo e olhava ao redor, sentindo algo muito errado em todo o mundo em que estava. É natural se considerarmos o jeito como fui parar nessa cena toda.

Mesmo assim, com tanta coisa acontecendo, uma semana passou rapidamente. E eu mal podia acreditar.

Fiz de tudo para não cometer o erro de me sentar ao lado de Kanda no refeitório, como da primeira vez, nem que a solução estivesse em espremer-me em um banco lotado.

E, apesar da rapidez com que os dias passaram, eu realmente gostaria que fossem mais devagar. Apenas para aproveitar esses dias calmos e divertidos que se seguem tão bem.

Porque para uma pessoa como eu, que conhece o mundo dos livros, sabe que essa calmaria segue-se de uma tempestade preocupante.

–X-

Eu acordei mais cedo. No dia anterior, Lavi não pôde conversar comigo até tarde, uma vez que Bookman o instruiu a ler alguns livros exclusivos da biblioteca da Ordem Negra, portanto, sem nada mais a fazer, dormi cedo.

Eu queria acompanhá-lo até a biblioteca para mais uma vez surpreender-me com a infinidade de volumes que lá ficavam, mas a preguiça falou mais alto e acabei por adormecer na posição em que fiquei na cama quando apenas deitei para observar a janela.

Por isso, acordei mais cedo, chegando ao refeitório enquanto ele ainda estava quase vazio. Por incrível que pareça, me senti tanto triste quanto aliviado por isso. Aliviado porque ainda não passava de um anti-social com medo de multidões. Triste porque eu, como o ser solitário que sempre fui, agora tinha pessoas com quem sentar na mesa. Mas, no momento, elas estavam dormindo provavelmente.

Depois do meu pedido com o cozinheiro, pessoas começaram a chegar, mas nenhum conhecido próximo. Um menino idiotamente tímido e atrapalhado como eu não se sentia nada a vontade cercado de finders desconhecidos.

Sentei-me à mesa mais isolada que encontrei, esperando (e ao mesmo tempo não) que ninguém sentasse ao meu lado. Comia de um jeito apagado e sem chamar a menor atenção, não que eu conseguisse comer de outro jeito.

Como eu não me decidi por mim sobre companhia, alguém decidiu e se sentou na mesma mesa que eu. Assustei-me com o barulho repentino de uma bandeja batendo no material da mesa e do corpo sentando (Lê-se: despejando-se) no banco, bem à minha frente.

A pessoa suspirou, cansada, e foi quando eu levantei a cabeça para ver quem era.

Reever Wenham. Líder da Divisão de Ciências da Ordem Negra.

–Argh...-ele gemeu enquanto suspirava.

Parecia extremamente cansado, com bolsas escuras pendendo debaixo dos olhos esverdeados, a barba loira por fazer crescendo no queixo e os cabelos loiros bagunçados para o alto. Parecia um cachorro velho ofegando atrás de ar.

Não sabia se devia ou como começar uma conversa então só esperei enquanto ele esforçava-se para ajeitar-se e deixar os olhos abertos para pelo menos comer sem dormir.

Por sorte ou não, ele falou.

–Não dormimos faz quatro noites...- resmungou e eu sei que ele falava sobre a turma da Divisão de Ciências. Komui e eles costumavam ficar dias e noites a fio pesquisando, parando apenas para comer e para tomar o café da Lenalee. Mas não sei se ele pensou que isso realmente me interessava, porque eu não estava assim tão curioso a respeito.

–Nossa...- foi o comentário mais brilhante que encontrei. Estúpido.

E o assunto pareceu morrer por aquele momento.

Reever mais suspirava do que comia e eu mais comia do que me esforçava para manter qualquer conversa.

Eu conseguia sentir a aura cansada e a mente exausta lutando para forçar o corpo a comer. Estava insuportável.

–O que vocês tanto fazem?- perguntei, baixo, porque tinha vergonha de começar um assunto do nada.

–Hm?- ele pensou- examinamos alguns casos, fatos, relatórios... Às vezes só juntamos dados. Mas nossas cabeças estão tão cansadas que fica difícil pensar sobre qualquer coisa.

–Hm...

E o assunto morreu.

De novo.

Não consigo manter uma conversa por mais de duas frases!

Deuses, o assunto morre mais do que eu morro. Tudo bem, foi só uma vez, mas aposto que morri mais vezes do que vocês morreram!

A morte me persegue até nas conversas.

Sou um psicopata de conversas. Assassino de assuntos.

Ok, chega de falar de morte. Está me confundindo e eu preciso me concentrar em: (1) achar um assunto, (2) mantê-lo por várias frases e (3, mas não menos importante), comer.

Por sorte, ele de tempos em tempos falava algo.

–Por causa das innocences- ele mastigou- casos estranhos acontecem pelo mundo, né? Então às vezes alguns casos são analisados por nós e pelos finders, que vão primeiro analisar a situação para relatar aos exorcistas se devem ou não ser acionados e segurar as pontas enquanto não chegam, para ver se são realmente estranhos por causa da Innocence ou pela loucura da ciência.

–Ah, legal...

–Legal, mas cansativo.

Sobrevivi a uma conversa com TRÊS falas. Não vamos contar que eu só falei uma e que tinha duas palavras: foi um progresso no diálogo.

Por esse motivo, quis mantê-lo nem que fosse por mais alguns segundos.

–Hm...- pensei, terminando de mastigar o último pão do prato- se precisar de alguma ajuda...só dizer.

Ele me olhou com um misto de dúvida e hesitação perversas.

–Sim...er, obrigado, Allen- disse- é só que...Divisão de Ciências, sabe. É diferente de ser Exorcista.

Trinquei os dentes.

Não pude deixar de ficar indignado. Ele estava em dúvida se deveria confiar em um ser tão inculto quanto um exorcista. Claro que ele não fez por mal, mas ainda assim não deixava de ser um pouco ofensivo pensar desse jeito. Lenalee, Lavi, Bookman, eu sei que eles tem um conhecimento respeitoso! Talvez o “eu de antes” não fosse lá muito esperto, mas eu leio bastante e sempre tiro ótimas notas! Temos (acho) conhecimento básico e de combate. Apesar de eu nuca ter efetivamente participado de um combate...e nem resolvido algum problema causado pela Innocence.

–Ah, ok...- foi o que disse. Sem querer resumir tudo o que pensava.

Como sempre: cabeça cheia, palavras escassas.

E voltamos a comer em silêncio. E, dessa vez, nenhum de nós se esforçou em puxar assunto.

O refeitório já enchia-se consideravelmente de pessoas. Mesas completavam-se com finders e “zumbis” (ou seja, funcionários como Reever) vindos direto da sala da Divisão de Ciências, mas a minha mesa continuava apenas comigo e Reever sustentando um silêncio incomodante.

Um vulto negro chamou a atenção ao meu lado. Pessoas afastavam-se para ele passar e andava em passos apressados. Parecia Moisés exigindo a abertura do Mar Vermelho. Péssima comparação, mas Kanda realmente provocava uma fenda na multidão por onde passava carregando sua comida (agressivamente). Parei de comer por algum tempo (já que não havia nada mais para mastigar), apenas para observá-lo com o canto do olho atravessar o local até a mesa vazia e isolada na qual sempre sentava e na qual ninguém se atrevia a sentar.

–Você podia parar de encarar o Yuu, Allen~

Confesso que estremeci ao sentir a respiração na nuca e a voz tão repentina.

–Lavi!- gritei e depois me repreendi mentalmente, porque algumas pessoas olharam curiosas pelo aumento de volume na minha voz sempre sussurrada.

O ruivo riu, mas sentou ao meu lado, do jeito desleixado no qual sempre se organizava.

–Acordou cedo, Allen- disse- geralmente você chega mais tarde que eu.

–Eu dormi cedo. Você não pôde ir ao meu quarto ontem.

–Ah- ele sorriu de canto, aquele sorriso me assustava um pouco- é porque nas outras noites eu não te deixo dormiiir~

Esperava que não estivesse corado, mas eu sentia as bochechas queimarem. Lavi conseguia agir como um pervertido terrível às vezes...porque ele era um!

Voltei minha atenção a bebida, ignorando as risadas do ruivo.

–Bom dihããã...- Komui chegou, bocejando. Seu estado não estava muito melhor que Reever, senão pior.

–Bom dia!- Lenalee o acompanhava.

–Bom dia...- respondi, tentando não ficar nervoso quando Lenalee sentou ao meu lado.

Só então percebi que a turma inteira chegava com bandejas para sentarem-se à mesa que antes estava praticamente vazia. Cumprimentei Marie, Miranda, Johnny, Krory, Daisya... Tudo bem, eram muitas pessoas chegando de uma só vez e é difícil focar os cumprimentos desse jeito.

Logo, estava cercado na mesa tão bem ocupada e barulhenta.

E Kanda na isolada.

Meus olhos se esgueiraram para o japonês no canto do refeitório, comendo seu café da manhã sozinho na mesa tão grande e vazia, com o mesmo olhar que espantava os finders próximos.

Podia ser presunção minha, mas ele me lembrava de mim mesmo.

Sentado sozinho.

Mas óbvio que ele parecia muito mais descolado do que eu.

Que raiva.

–Hunf- resmunguei, mas ninguém ouviu, tão imersos estavam na própria refeição e as conversas paralelas.

Com outras pessoas da Divisão de Ciências na mesa, eu conseguia sentir o peso da depressão e cansaço que exalavam com muito mais força.

Era de tirar a animação e engolir suas vontades.

Parecia que iriam quebrar só tentando engolir a comida.

Poderia até ajudá-los, mas...ah, é. Era apenas um exorcista. Só sei comer e bater nos outros. Que pena.

Eu sentiria pena deles, se eu não fosse um exorcista incapaz de realizar atividades intelectuais.

Hunf.

Talvez eu esteja sendo muito duro.

Acordar cedo me deixa de mau humor... quem sabe com eles dormir pouco os deixe de mau humor?

É compreensível que eles não confiem em uma criança. Adolescente.

–Nossa- Lavi riu- vocês estão com um aspecto nada bom.

Ele apontou como se nós ou eles próprios não percebêssemos isso.

Komui respondeu, ou melhor, ofegou:

–Muitas coisas para fazer... Não dormimos há... hã...Johnny, quantas noites mesmo?

O garoto de óculos fundo de garrafa e cabelos cacheados presos estava com o rosto afundado em cima de um pão recheado, nem se incomodou em levantá-lo para responder:

–Parei de contar depois da terceira...

–Acho que foram quatro- Reever respondeu.

–Eu tinha certeza de que foram duas semanas...- Tap, um homem de lábios carnudos e corpo redondo como uma bola de pilates, respondeu, mexendo nas ataduras da cabeça com as mãos tremulantes.

Komui deu de ombros e juro que ouvi um “crec”.

–Foram algumas noites.

–Realmente- Lavi falou- a Divisão sofre...

–Ai, ai, ai- Lenalee resmungou- deviam dormir mais, ou o trabalho nunca sairá bom.

–Se a gente dormir- Johnny replicou, ainda afundado na comida- o trabalho nunca sai. Meu Deus! Acho que vou ter um ataque de pressão baixa... tá tudo escuro, chefe.

–Johnny, acho que talvez seja porque você está afundando no pão recheado...

–Acho que se fechar os olhos, entro em coma- Tap continuou.

E todos gemeram de frustração. Foi um coro de tirar animação.

–Ué, peçam ajuda para nós- o ruivo resmungou, sorrindo- em algumas coisas nós podemos ajudar quando não estivermos ocupados.

Eles pareceram hesitar por um bom tempo. Não sei se por causa do cansaço eles ainda tentavam entender as falas, ou se realmente não confiavam tanto em crianças para trabalhar.

–É, passem-nos um caso. Só um- Lenalee completou- para tirar um pouco do peso de suas costas.

Komui gemeu.

–Tá, passa um qualquer para eles... Johnny.

Johnny finalmente levantou o rosto e, com relutância e dificuldade, tirou uma pasta que transbordava papéis e anotações bagunçadas do seu avental. Seu rosto estava cavocado e fundo de cansaço, mas conseguiu sortear um papel qualquer sem que sua mão quebrasse ou algo do tipo. Óbvio que para Lenalee e Lavi eles passavam: eram mais velhos.

Hunf. Hunf.

–Ah- gemeu, enquanto forçava-se a ler- esse foi uma notícia vinda da parte norte da Índia- ele forçou a vista e ajeitou os óculos- um homem foi encontrado perdido e sem forças. Estava febril e desnutrido, não conseguia dizer nada. Uma família o acatou e quando deram-lhe água ele simplesmente teve um ataque e morreu. Parece que isso tem acontecido bastante.

A Divisão gemeu, como se estivessem sendo forçadas a pensar. Dava para perceber que o cérebro deles não estava nas condições para pensar seriamente sobre algo.

Eu ergui as sobrancelhas. Esse era o caso? Só podia ser brincadeira...

Lenalee e Lavi pareciam absorver as informações. Eu só observei enquanto agitava a bebida de chocolate. Eles que se virem com a solução.

Mas nenhum dos dois pareci interessado em pensar seriamente sobre isso.

–Como isso pode ter a ver com uma Innocence?- ela questionou.

–Hm...- Lavi pensou- talvez o homem estivesse afetado por uma.

–Talvez a água estivesse contaminada por uma.

–Talvez ele tivesse engolido uma.

–Hm...

E eles pensaram juntos. Enquanto Johnny voltava a se afundar e Tap amarrava as ataduras na cabeça.

Quando meus olhos deslizaram, pude ver Kanda. Ele havia parado de comer e nos encarava com os olhos pensativos. Pergunto-me se dali ele conseguia ouvir o que acontecia nessa mesa.

–Hm...

Já tinha terminado de tomar minha bebida, joguei o copo direto na lixeira ao lado. Cesta.

–Hm...

Eles coçaram a cabeça. Se você realmente quer saber, eles não pareciam querer pensar muito no momento. Pareciam estar só fingindo seriedade enquanto espremiam o rosto.

–Hm...

Tamborilei os dedos na mesa, encarando o japonês na mesma intensidade que ele nos encarava. Mas ele não percebeu, porque não olhava para mim.

Pude vê-lo revirando os olhos do jeito que sempre fazia, observando Lenalee e Lavi pensando (ou pelo menos fingindo que estavam).

–Hm...

–Ah- Lavi disse- e se a Innocence estivesse afetando a água do local? Ou se ela estivesse afetando o corpo dele ou o ar? Talvez o reservatório tenha uma innocence afundada e esteja contaminando quem bebe. Innocences fazem mal a humanos não escolhidos por ela.

Bufei estrondosamente.

Patético. Simplesmente.

Estava começando a perder o controle sobre isso.

Irritei-me quando Lenalee balançou a cabeça afirmativamente, considerando a opção friamente.

–Não!- gritei, explodindo, enfim- não, não, não!- cutuquei com força a mês a cada negação- Vocês não estão analisando o caso!! Estão agindo como se já fosse causado por uma Innocence!! Isso não está certo, caramba!!!

Bati o punho na mesa, antes de perceber que chamei a atenção da mesa inteira. O ruivo e a garota me encaravam surpresos, mas não tanto quando o resto da mesa.

Uma semana inteira e eu nunca havia erguido a voz, a não ser para brigar com Kanda. Aliás, o moreno ergueu as sobrancelhas para o meu drama, do outro lado do refeitório. No momento, mal consegui descobrir se ele estava se divertindo com isso ou extremamente surpreso também.

Meu rosto enrubesceu quase que imediatamente enquanto me ajeitava de volta no banco.

Pigarreei.

–Desculpa- disse, quase sussurrando e voltando minha atenção para o copo vazio.

Komui ajeitou os óculos no nariz e seus olhos, que segundos atrás afundavam-se em sono, estavam sérios e divertidos enquanto me encaravam.

–Então, Allen- Komui disse- diga.

Eu hesitei.

–Hã... não, eu... desculpe.

–Nada disso!- Lenalee bateu no meu ombro- diga! Se você sabe, deve dizer.

Eu olhei ao redor, todos me olhavam com tanta expectativa e dúvida que eu me dividi entre imitar Johnny e enfiar o rosto no prato e simplesmente arriscar falar para o maior público que eu já tinha visto esperando minha fala. Geralmente eu conversava com meu pai ou Dr. Lee e, se me sentisse sortudo, com os dois ao mesmo tempo. Apenas.

Komui sorriu para mim, mas o que me fez começar a falar foi ver Kanda finalmente me encarando friamente.

Engoli em seco.

–V-vocês- disse- deviam começar analisando a ciência e, se algo realmente estranho estivesse acontecendo, então partir para teorias da Innocence. Vocês não dizem que ela é imprevisível? Não tem sentido fazer teorias dela primeiro. É só mandar finders e exorcistas caso realmente seja necessário.

Lavi coçou a nuca. Eu respirei fundo, tentando continuar.

–Esse caso nem precisa ser analisado friamente desse jeito- brinquei com o guardanapo na bandeja, tentando não desviar-me para os olhos que apontavam para mim- não acredito que vocês não perceberam. É simples, conhecimento básico e talvez até popular.

As pessoas ergueram as sobrancelhas, um pouco indignadas, mas eu continuei:

– Conhecimento básico. É no Norte da Índia, certo?- Johnny confirmou- é perto do Paquistão, aposto. Essa parte tem savanas e desertos, o clima é seco. Creio que esse período esteja caracterizado de falta de água no lugar em questão, não é? O homem foi encontrado perdido, febril e desnutrido. Adicione desidratado, então. A febre acontece por causa da desidratação dele- alguns balançaram a cabeça- er... água resfria nosso sistema, as células, por causa do trabalho delas. Sem água, o corpo esquenta, então...né... febre...

Eu ri sem graça, porque eles realmente estavam encarando, mas resolvi continuar até o fim, porque ninguém disse nada. Até Lenalee perguntar:

–E por que ele...morreu?

–Ah, isso é fácil- continuei- as células explodiram.

Senti alguns da mesa, principalmente Miranda, uma mulher de cabelos e olhos negros, com bolsas escuras embaixo dos olhos tão intensas quanto as da Divisão.

–Não lembram? Bem... er... A-a concentração das hemácias, nosso sangue, é de o,9%. As células desidratadas estão murchas. A primeira reação ao encontrar alguém desidratado é dar água, mas isso é errado. Como a concentração é de o.9%, dar água deixará o sangue como...hã...hipotônico- Miranda inclinou a cabeça, em dúvida- er... menos concentrado que a célula, então para manter o equilíbrio ela sugará água para aumentar a concentração do sangue e infla, infla e infla até explodir...por isso, ele...morreu....

Ri sem graça. Falei algo errado?

Alguns continuaram confusos, mas a Divisão de Ciências bateu na própria testa. Fiquei sem graça por causa dos olhares, mas Komui sorriu de novo.

–Esse é o nosso Allen- disse.

–Argh- Reever gemeu- não acredito que esqueci isso. Biologia. Soluções. Obrigado, Allen. Foi tão óbvio... Ambiente hipotônico... Suco vacular hipertônico... argh!

Lavi riu.

–Tem razão, tem razão.

–E é por isso- Lenalee repreendeu- que eu digo que vocês devem dormir um pouco.

–Sim, senhora-disseram em uníssono.

Cocei a nuca, enquanto a garota atirava neles o seu sermão típico de uma mãe. Foi nesse momento que encontrei os olhos de Kanda, cruzando-se com os meus olhos, lá do outro lado.

Engoli em seco. As sobrancelhas franzidas e o brilho estranho neles me diziam que ele parecia confuso ou desconfiado.

Antes que ficasse mais suspeito, desviei, suando frio.

Ele me deixava nervoso só de encarar.

Olhei mais uma vez de esguelha, mas ele já havia sumido de seu lugar. Levando sua bandeja e sujeira.

Senti algo bater em meu ombro. Tão repentino foi que pulei ainda sentado.

–Aah!- gritei.

–Hã? Não precisa se assustar, Allen- Komui riu, batendo de novo no meu ombro- sou eu. Eu.

Concordei com a cabeça e ele ocupou o lugar ao meu lado, onde Lenalee estava minutos atrás, antes de ir falar com o cozinheiro.

–Belo desempenho. Vejo que continua um bom aluno.

–Só me lembrei mais rápido que vocês. É coisa simples.

–Sim, sim...- ele tirou uma pasta de dentro do seu avental, tão bagunçada quanto a de Johnny- espere um minuto.

Ele fuçou com os dedos entre as várias folhas diferentes dentro dela e retirou uma pasta mais fina e organizada de dentro. Sorriu e estendeu-a para mim.

–Para mim?

–Sim. Para você.

Examinei a pasta. A capa amarela trazia leras impressas por um carimbo negro que borrou algumas linhas da palavra: [MISSÃO].

Quase paralisei ao ler aquilo. Nervoso de felicidade ou de medo? Não sei. Chamo de ansiedade.

Acho que o café da manhã estava voltando para a minha boca.

Komui bateu nas minhas costas, mas eu estava vidrado demais na palavra para reagir. Então ele completou:

–Chame Kanda. Vocês estão indo em missão. Vejo vocês na minha sala daqui uma hora.

Notas finais
Desculpa pela mal formação do "enigma" que o Allen soluciona... Minha cabeça estava cheia demais com trabalhos para fazer e não tive tempo ou imaginação suficiente... -Para quem não viu, a história do Ruffles: http://fanfiction.com.br/historia/485544/O_Cinza/ -É que a diferença entre o Allen que conhecemos e o Allen de pure é que o AllenPu leu demais e foi para a escola (um aluno dedicado) e isso juntando ao fato de eu adorar personagens inteligentes, temos um Allen diferenciado que consegue usar a cabeça *0* apesar de não ter feito nada tão brilhante nesse aqui quanto eu queria, mais tarde fica melhor haha (quando esfriar a cabeça) -Ainda estou escrevendo o próximo, mas darei um preview mesmo assim :P "-Mais que...!- Kanda me encarou enojado e depois continuou- Mais uma missão com esse moleque?? Vocês são retardados ou o quê?? Eu não suporto esse pirralho maldito!" "E pulei. De olhos fechado, porque sou idiota e medroso. Mais uma vez, eu tenho medo de altura." Até! o/