Pure Imagination

22 Everybody hates romantic innuendos


Notas iniciais
Hey!!! Como vocês estão? Eu demorei menos, certo? CERTO?? Ficou um pouco complicado porque luz vivia faltando aqui em casa hahaha mas tá tudo certo! Aulas começam semana que vem...sim, eu estou numa depressão por causa disso...argh Vou responder os comentários de Bad Boy ainda (eu demoro para responder porque sempre gosto de pensar bastante e estar no melhor humor possível!). -Esse capítulo está bem transitório e se vocês começaram a notar já há algum tempo as coisas que passam pela cabeça do Allen... -Eu tento revisar, mas erros sempre escapam. Se virem algum me falem, por favor! -Eu estou com um pouquinho de pressa, então não consigo pensar muito no que falar...as coisas somem da minha cabeça bem agora! -Boa leitura o/

Eu não entendi porque estava lá.

Eu odiava calor humano, eu odiava contato desnecessário, eu odiava barulho e odiava multidões. Quase tudo na Lista do Ódio pré-estabelecida estava clicado e minhas pernas ainda doíam nas juntas pelo frio congelante que furava meus músculos e ligações, mas ainda assim estava agradecido porque o tópico “calor infernal” da lista pelo menos não estava acontecendo.

Era de se imaginar que um cemitério seria um lugar perfeito. Gelado, quieto, morto, sozinho, calmo. Mas o lugar estava agitado como eu nunca o havia visto antes. E nem era ainda época do juízo final ou apocalipse zumbi.

Era literalmente dia dos finados. Aquele feriado em que matar “aula” havia sido considerada uma ação sensivelmente legal pela minha mente sensivelmente idiota.

Até então, estar parado na frente dos portões para descansar da caminhada inútil era compreensível porque a estupidez estava sempre nas minhas equações. Só que era mais como uma das incógnitas que entre uma linha e outra de contas eu acabo esquecendo de copiar.

E depois fico assim, imaginando porque o resultado saiu tão estranho.

Porque o que eu estava fazendo entrando no cemitério no meio da multidão de parentes e entes queridos que iam visitar túmulos? Aparentemente eu estava tentando matar tempo (trocadilho não pretendido).

Apertei-me entre uma família grande e outra cuja proximidade esmagadora quase me fez engolir buquês de flores de cheiros enjoativos que me lembravam vagamente abelhas e perfumes femininos adocicados. O esforço para andar foi mínimo comparado ao de me manter vivo e em três dimensões quando os dois lados se espremiam ao meu redor. Aos empurrões e tropeços mais que os próprios passos, eu estava dentro do lugar.

Era um lugar bonito. Do tipo macabro de bonito.

Enquanto você não pensasse no que significavam, não passava de uma selva de pedras e estátuas com personalidade própria. Uma pequena cidade entre muros em que nada se movia.

A temperatura parecia três vezes menor lá dentro.

Ou talvez a hipotermia estivesse finalmente acontecendo direito depois de tanto tempo enfrentando a neve.

A partir da entrada, a multidão se espalhava entre as ruelas de paralelepípedos e concreto. Alguns tinham flores, outros, comida e alguns não traziam nada além de uma expressão incompreensível no rosto.

Eu não tinha nenhuma dessas coisas e mesmo assim fiz meu caminho pelo concreto vazio diante da movimentação nos túmulos encaixados de pedra, glamorosos, altos, com mensagens nas lápides acima dos baús pedregosos e estátuas simbólicas ainda acima.

Eu fiquei me imaginando deitado dentro de caixas de mármore e a facada no peito foi inevitável. Não parecia uma coisa muito boa.

Talvez fosse por isso que traziam comida e flores. Quem sabe para dar uma animada no escuro básico com cheiro de pedra e tempo apodrecido.

Quase tropeçando em raízes invasoras saindo pela calçada, meu instinto de lobo ômega solitário me tirou rapidamente do movimento. Pulei por vasos e por velas e até por crianças pequenas que desesperadamente seguravam nas mãos dos pais para impedir que algum espírito engraçadinho a tirasse do chão.

Após um tropeço gracioso por um vaso molhado de flores coloridas bem arranjadas (que fiz o favor de arrumar rapidamente e agradecer pelas pessoas não estarem ali para me fazer pagar) a cidade de pedra estava para trás. Homens, mulheres, crianças, idosos e idosas ainda faziam seu caminho até os túmulos. De longe, do lado vazio em que eu estava, aquilo parecia uma grande feira.

Eu estava num campo de grama. O que não era exatamente melhor, porque era onde lápides solitárias ficavam. Apenas elas saindo da terra, quebrando o verde e o branco com um cinza sujo de poucas palavras. Era a parte simplória do cemitério.

Até então, eu não havia percebido o quanto eu estava cansado, mesmo com a respiração pesando no peito e as pontadas incômodas nas pernas. O ar de inverno não deixava fácil inspirar, como se congelasse uma corrente de oxigênio a meio caminho. O chão parecia macio e confortável e melhor para um descanso do que a calçada da rua cheia de neve.

Junte útil ao agradável (e um pouco de desinteresse)e a solução caiu como uma luva.

Acontece que era mesmo confortável. Ali estava quieto, eu tinha uma visão boa do céu nublado e da selva de pedras e um belo encosto. Que, a propósito, era uma lápide qualquer cuja existência eu estava tentando ignorar.

Suspirei de alívio ao encolher os joelhos. Assim estava ainda mais confortável. Eu podia afundar minha cabeça ainda mais no casaco grosso e puxar minhas mãos para dentro das mangas como um pequeno boneco de posto. Minha respiração podia bater dentro das vestes e assim tudo parecia mais quente.

Larguei a mochila (inútil) ao lado e me encolhi ainda mais contra a pedra.

Não vou mentir que talvez não tenha ficado ali imaginando mil e uma situações nem um pouco prováveis de acontecer naquele universo por talvez uma hora. Era algo natural par se fazer quando se estava confortável: pensar. E ao invés de me manter no castigo de me punir mentalmente pela idiotice, eu preferia pensar no que um exorcista poderia fazer estando ali.

Bem, para começar um exorcista não estaria ali por uma estupidez.

Talvez para verificar se algum corpo continuava no lugar que deveria e na situação que deveria (ou seja, morto) ou quem sabe buscar pistas úteis sobre algum caso fantasmagórico ocasionado pelo despertar de uma innocence. Porém, não por causa de um equívoco estranho em relação a datas. Quer dizer, a minha imbecilidade não tem nada de supernatural, por mais que pareça.

–Dia de merda esse- antes que eu pudesse impedir, minha boca estava se movendo.

Era como sempre. Eu ficava quieto por tanto tempo que começava a falar com paredes. Ou, no caso, lápides.

E não havia tempo ou motivos o bastante para me fazer acreditar que era errado.

Apoiei a mão na pedra fria na qual estava encostado, os dedos sempre procurando ocupação sentiram-se confortáveis com a mudança de temperatura ao saírem do bloco quente que meu corpo fazia para a superfície dura e gelada. Era como se eu estivesse apoiando um toque aconchegado em um ombro amigo.

Só que era uma pedra. Inanimada.

São detalhes. Apenas detalhes.

–Eu andei todas essas quadras, meus pés estão doendo e o frio está congelando meus joelhos- tentei movê-los, mas estavam doloridos demais para brincar com os movimentos- eu sou capaz de ficar congelado e ser obrigado a ficar aqui pra sempre. Acho que eu até engoli algo morto que estava na neve, sem trocadilhos, de tanto gelo que voou no meu rosto. Não que isso tenha sido um trocadilho. Não foi. Foi só uma palavra mal colocada. E não que isso importe também...eu estou falando com um túmulo? É. Eu estou falando com um túmulo. Quer dizer, não. Na verdade, eu estou falando com...

Inclinei-me para o lado, buscando na pedra sem graça um nome que pudesse me guiar. Mas havia musgo, havia plantas escalando o material, cocô de passarinhos e o tempo envelhecido estava óbvio na moldura. O nome era quase inteligível. Principalmente quando se está ocupado morrendo de frio e sono.

–...estou falando com alguém que não tem nome-completei, desapontado.

Esfreguei as mãos com a respiração batendo nas palmas cobertas. O calor foi espontâneo, mas também rápido demais para ligar. Subitamente, mesmo a lápide ficou confortável para deitar a cabeça e divagar.

Cada suspiro fazia o ar ficar branco e por motivos de idiotice aquilo era entretecedor. Era como pintar a paisagem sem um pincel e fazia o frio parecer menos perturbador.

O ambiente parecia tão bom e promissor que por aquele momento eu esqueci de todo mal que passava pela minha cabeça, sendo substituído por músicas nostálgicas e piadas que eu nunca faria em voz alta.

Mas ri do mesmo jeito.

Eu sei que alguma coisa naquela situação era engraçada o bastante. Só não tinha descoberto ainda.

–Mas quer saber?- eu me virei, atento a como aquela parte era vazia demais para ter pessoas questionando meu novo hobby de falar com objetos inanimados. Na verdade, aquela parte estava tão abandonada que por um momento eu podia esquecer da multidão no cemitério. Aquela parte, sem túmulos de pedra e flores frescas, apenas grama em lápides de nomes questionáveis em filas idênticas, parecia o local para onde corpos sem visitas eram colocados.

Tinha alguma metáfora ao trocadilho por ali, mas eu não tinha vontade de procurar.

–Aqui é um lugar bom pra se ficar- não impedi o bocejo de cortar a fala, aproveitando a deixa para me aconchegar mais dentro do meu casaco- o papo é bom, a companhia é boa, a grama é até confortável. Quem diria que grama era confortável. E eu estou falando mais do que falei em uma semana de escola. E você até que é um bom ouvinte, pessoa...que não sei o nome. E você é uma pessoa, né? Eu não fui parar em um cemitério de animais, porque isso seria um tanto esquisito... Falar com animais seria estranho. Não que isso já não seja estranho. Mas eu falei sério. Talvez seja o ambiente, mas eu até...me sinto bem.

Quanto tempo você está aí embaixo? É confortável? É escuro? Apertado? Você se acostumou facilmente? Você fica entediado? Você sente saudades de viver?

Como é morrer?

Eu vou gostar?

Suspirei contra os pensamentos que corriam pela minha mente. Eles estragavam o clima e ultrapassavam o barulho do vento assobiando entre as árvores e covas.

Enquanto eu tirava ervas daninhas cobrindo a lápide e esfregava o musgo intruso escurecendo a pedra, tudo que pude fazer foi uma nota mental definitiva para lembrar de trazer algo para ocupar as mãos por lá.

Lição de casa seria uma boa ideia.

–X-

OoO

–X-

–Se vocês tivessem me avisado, eu teria dado conta.

Já era a terceira vez que eu repetia a mesma coisa. Kanda apenas rosnava algo grosseiro e Lavi nem mais dava sinal de que estava me ouvindo além de acenos vagos com a cabeça. Eles pareciam ter desistido de mim.

Era difícil acompanhá-los na caminhada e discutir (sozinho) ao mesmo tempo. De frase em frase eu tinha que parar para jogar os braços para cima ou fazer algo com as mãos para marcar minhas palavras. A cidade estava até vazia, as ruas calmas daquele lado abrigavam apenas aqueles que estavam se preparando para jantar, mas eu consegui trombar pelo menos três vezes com pessoas quaisquer que vinham no sentido contrário.

E tinha a discussão em andamento.

Kanda e Lavi dito que tudo bem, mas eu estava me sentindo culpado demais para deixar de ler a algo como decepção na língua dele. Pelo menos eu achava que era.

–Eu juro que teria!

–É. Nós já captamos, Allen — Lavi parou de andar, apenas porque eu havia parado e estava sendo deixado para trás- Mas também captamos que tudo bem. Já tomamos conta disso.

–Os dois -destaquei- sem mim.

–Exato. Agora será que dá para parar com a frescura e andar, moyashi? Tsc.

Apertei os olhos para o Kanda, engolindo a vontade estranha de fazer alguma careta como resposta. Quando se tinha alguém mais “civilizado” como Lavi ao lado, era difícil ligar para o que ele falava.

Era difícil...eu juro que era.

–Não é frescura- rebati, mesmo que tenha dito isso pelo menos sete vezes desde que chegamos ao destino- eu não sabia que viríamos de táxi.

O tom ultrajado passou batido frente aos dois abstraídos. Na verdade, era quase uma inutilidade usar sarcasmo ou ironias com eles. Eles não sentiam as palavras, eles só ouviam.

Ou se sentiam, não ligavam.

As sobrancelhas do Lavi subiram tanto que quase sumiram embaixo da bandana de couro.

–Aqui é literalmente apenas o outro lado da cidade – ele começou falando, o sorriso falhando nos lábios sardônicos- você queria que acordássemos as águias mutantes para uma viagem até aqui?

Algo brilhante cresceu dentro de mim.

–Nós temos águias mutantes?!

–Tsc. Para de enganar o moyashi, usagi maldito- Kanda voltou alguns passos, claramente derrotado pela maioria- E você- seu olhar me fazia querer pular nos braços da Dolores Umbridge- se não começar a andar eu vou poupar suas pernas da inutilidade de existir e cortá-las fora.

Uma última vez, levantei os braços. Um zíper imaginário correu pela minha boca e Kanda pareceu ponderar se deveria levar a sério.

Ao confirmar de sua cabeça (como se estivesse nos permitindo continuar vivos) continuamos a caminhada que já havia durado ao menos dez minutos de reclamações. O sol começava a se despedir entre as casas e deixava as cores da cidade alaranjadas.

Eu já estive ali.

Era a mesma cidade de sempre, desde outro universo. As mesmas casas, as mesmas lojas, os mesmos buracos na rua. A padaria, a loja de sapatos caros, o estabelecimento fechado por lavagem de dinheiro e o muro de grafite. Era o mesmo lugar calmo e pequeno, que deixava a sujeira das cidades grandes e a simplicidade das cidades rurais pela metade.

Era confortante. Saber onde se está pisando.

Apesar de eu estar diferente.

O uniforme negro pesava e esquentava, mas calor nunca haviam sido um problemas quando se gosta de usar roupas largas e grandes. As pessoas olhavam com curiosidade e dúvida, porém como ninguém era idiota o bastante para enfrentar ou mal interpretar o olhar de Kanda que nos guiava pela frente, ninguém se atrevia a chegar perto.

Entregava uma sensação poderosa. O tipo de poderoso que te deixa a beira do perigo e a beira da humanidade.

Mas quem disse que eu ligava para essa última parte?

Eu estava carregando um sorriso torto no rosto, talvez tentando compensar pela rudeza de um certo samurai com falta de músculos faciais para um sorriso.

Opa, talvez ele os tenha cortado para livrá-los da inutilidade de existir.

As crianças passavam e os olhos ficavam para trás, ainda grudados em nosso trio excêntrico de cabelos rudemente estranhos e roupas pesadas. As crianças talvez vissem espiões do governo com missões emocionantes, mas tenho quase certeza de que seus pais viam adolescentes com um senso de estilo moderno demais.

Eu gostava de nos ver como heróis...

...porém eu sei que éramos três imbecis tentando andar reto em uma calçada estreita.

Só que eu podia escolher ignorar essa parte.

Heróis já estava ótimo.

–Mas da próxima vez – tentei me acotovelar com Lavi sem sucesso para que não ficasse atrás- eu pago o táxi...ou pelo menos parte. Dividimos em três.

–Tá, Allen- o ruivo riu entre sua respiração, verificando os arquivos em suas mãos- mas agora eu e o Yuu-

–Não me cha-

–Já pagamos. Então seu trabalho é ficar admirando minha beleza enquanto não encontramos nada para investigar- ele piscou com seu único olho à mostra. Minha mente trabalhava em busca de algum motivo pelo qual ele usava um tapa-olho, mas o esforço era demais debaixo do sol da tarde.

Ah, eu estava admirando. Eu sempre estava.

Pessoas eram muito bonitas, mas o nível da Ordem Negra era surreal como se...como se...

Como se viessem de um mangá.

Era como chegar na formatura usando seu pijama infantil do Batman quando todos estão usando trajes de gala assinados por um estilista famoso. E, a propósito, eu sou a pessoa em questão. Eu sempre fui.

Baixa auto-estima não é uma boa coisa para se praticar quando se anda cercado de pessoas com porte e aparência de modelos famosos. Infelizmente, também é meio impossível largar essa parte quando, ora, SE ANDA CERCADO DE PESSOAS COM PORTE E APARÊNCIA DE MODELOS FAMOSOS.

Só que ninguém precisa saber disso.

Muito menos o bonitão convencido e o bonitão rude.

–Então, estamos indo aonde?- perguntei, deslocando Lavi alguns poucos centímetros para que abrissem espaço.

–Tsc. Não leu o arquivo? É para isso que ele serve.

–Eu sei para que arquivos servem. Mas eles só servem quando estão disponíveis para ler, se algum idiota não tivesse me acertado com o cotovelo no táxi e me feito jogar os papéis pela janela eles estariam disponíveis e eu poderia lê-los.

–Talvez se você tivesse segurado firme não teria caído.

–Talvez se você e muitos outros parassem de culpar a vítima o mundo seria um lugar melhor.

–Talvez eu devesse te livrar da pena de viver nesse mundo, ó, tão cruel e rasgar sua garganta aqui e agora mesmo.

–Talvez você devesse parar de resolver todas as discussões com ameaças que nunca serão cumpridas.

Kanda parou de andar, a expressão forte no rosto. Quase indignada e talvez até prazerosa com a protestação.

Ok, talvez eu não devesse ficar provocando só caso ele realmente ponha as palavras à prova.

O homem ainda me assusta.

–Mas...-continuei, aumentando a velocidade o bastante para ficar a salvo do outro lado do Lavi e o mínimo para não parecer desesperado-eu não cumpriria as ameaças se fosse você. Porque...ossos são duros. Os meus ossos são duros. E podem quebrar sua espada.

–A mugen corta bem ossos.

Engoli em seco. Lavi tinha um olhar esperto no rosto e até isso estava me assustando.

–A mugen deve ser usada apenas por motivos nobres.

Kanda concordou com a cabeça, obviamente achando algum divertimento na situação.

O maldito.

Lavi, por outro lado, encontrava divertimento e ainda apontava.

–Vocês nunca param com isso-ria, ainda com os olhos (ou o olho?) nas folhas de sua pasta. Ele lia mais páginas por minuto que eu por hora- chega até a ser fofo.

–Cala a boca, usagi. Seu trabalho é encontrar o lugar.

–O que foi, Kanda?- continuei, claramente deixando a idiotice ultrapassar o nível de segurança- Não sabe como funciona um diálogo? Ou só acha que podem te chamar de...hm... atoleimado?

O mais difícil era ignorar um olhar que arrancava sua carne. Eu podia sentir seus dedos se movendo na bainha da espada.

E o pensamento nem mais me afetava. Era até um tanto vitorioso.

–O que foi?-perguntei, o sorriso crescendo no rosto como se não pudesse ser impedido- Não sabe o que quer dizer atoleimado?

Apenas as sobrancelhas criavam uma cena intensa e mil e três palavras rudes.

E nem aquilo me afetava.

Eu estava me tornando imune aos seus ataques?

Os rostos nervosos que ele fazia causavam uma familiaridade hilária no meu estômago e queriam de verdade me fazer gargalhar. Talvez fosse porque ele parecesse constipado enquanto tentava se segurar para não sujar a espada com o meu sangue.

É. Aquilo era hilário.

Sufoquei o riso ao voltar a caminhar, sem perceber que Lavi havia feito um grande progresso na caminhada enquanto estávamos rivalizando olhares (quem piscasse primeiro com certeza perdia) e contando as rugas das testas alheias.

–Quando vocês pararem de ficar secando um ao outro, me avisem-ele disse, com o tom simples de um riso segurado.

–Não estávamos secando um ao outro – corrigi sob o clima estranho- mas já paramos- seja lá o que antes estávamos fazendo.

–Hm...-Lavi fechou o arquivo e foi só quando alcancei seu lado que percebi o sorriso grande que ele sempre gostava de ter no rosto. Seus dentes eram brancos. E era um tom de branco cegante. O tipo bom de cegante. Se é que há sentido nisso.

E...talvez eu quisesse falar um ou dois trocadilhos sobre isso com seu tapa-olho, mas fiz a boa parte de ficar quieto.

Austin Brooke não faria piadas horríveis. Austin Brooke era uma pessoa séria e focada. Austin Brooke não ficaria tropeçando palavras aos montes.

Já Allen Walker...

–Então...-o ruivo passou um braço pelo meu ombro com uma familiaridade duvidosa-o negócio é o seguinte. Vamos primeiro pegar a vaga num hotel como sempre, porque ficar indo e vindo da Ordem todo dia ia ser trabalhoso, sem falar no preço do táxi-

–Eu já disse que se tivessem me avisado...!

–Vamos revisar o conteúdo que já temos em mãos sobre essa história. E amanhã começamos a busca prática. O que acham?

–Eu acho-aparentemente Kanda já nos havia alcançado com a quietude de uma formiga bailarina. Óbvio que ele havia sido rápido. Estamos falando do senhor Habilidades Sobrehumanas- que ninguém disse que você poderia resolver tudo sozinho.

–Eu acho- comecei, com a voz monótona não deixando de provocar- que pessoas negativas deviam ficar fora da conversa.

Sem olhar, eu já sabia que ele tinha fechado o rosto. Eu ouvia os ossos dos dedos estalando, querendo fazer o mesmo com meus ossos agressivamente.

–Tsc. Eu acho qu-

Eu acho– Lavi gritou- que os dois poderiam parar de ficar querendo chamar atenção um do outro. Essa missão é pra ser cumprida, Yuu, não pra ficar dando em cima de pessoas.

–Uau...-sussurrei, totalmente mergulhando no prazer que era ver o rosto dele se contorcendo em horror e desgosto. Austin Brooke faria o mesmo. Austin Brooke gostaria de ver Kanda sofrer- se esse é o jeito dele flertar, eu acho que alguém precisa ensinar que depois da quinta série puxar o cabelo do outro não significa declaração.

–Tsc- ele até parecia estar se acostumando, esbarrou entre nós e disparou na frente-Não fui eu que comecei.

–Sério?!- gritei, porque ele estava se deslocando rapidamente em seu andar confiante- A gente realmente vai ir pra esse lado da conversa?!

Não recebi resposta alguma de volta. Seu vulto apenas andou pela calçada e desapareceu por uma esquina qualquer. Pensei em perguntar para Lavi o porquê de ele estar rumando sem nos esperar, sendo que arranjar um hotel é claramente algo pra se fazer juntos. A não ser que ele sempre fique em um separado.

O mangá não mostrava muito esses detalhes das missões. Porém, a ideia de ficar longe do perigo inexplicável e a não tentação de ser Allen e não “Austin” assim que Kanda trocou de rua parecia até um benefício.

Decidi por ficar quieto e continuar com minha postura de costume. Perguntar seriamente só geraria dúvidas. E Lavi era uma pessoa um tanto perceptiva e curiosa para dúvidas. Era ele quem descobria quando eu tinha fome por esquecer o horário do almoço ou quando Johnny escondia papéis suspeitos entre as frestas da parede da Ordem Negra ara impedir que Komui os encontrasse.

Ele tinha um senso para culpados e mistérios. E eu era os dois.

Ok. Agora estar sozinho com Lavi não parecia nem de longe uma boa ideia.

–Então...-comecei, tentando livrar os pensamentos sobre a possibilidade de ser descoberto e massacrado estar enormemente possível- vamos nessa?

–É-Lavi levantou sua sobrancelha à mostra- e é exatamente o que estamos fazendo.

Amassei os lábios em uma linha reta e complicada.

É. Falar não era uma boa ideia.

Lavi caminhou pela frente, pedindo para que os passos fossem mais rápidos por pura pressa de garantir vaga antes que a noite chegasse.

E o silêncio não era uma boa ideia também. Ele me instigava a preenchê-lo o mais rápido possível.

Ele sempre sai na frente e larga os outros para trás?, quase me escapou. Ele não sabe falar como uma pessoa normal?, Ele dorme em um hotel diferente?, Todos ficamos em um quarto?, Como se resolve uma missão de um jeito normal e nem um pouco suspeito?, Eu pareço Austin Brooke?, Que tipo de receita vocês comem para ficarem todos como capas de revista?

–Allen, fique quieto- Lavi ria, se debruçando sobre mim com o olho firme em me ter sob confisco.

Por um momento temi ter falado tudo em voz alta, o que considerando meu costume de falar com qualquer coisa inanimada ou não existente era algo plausível. Mas não havia como. Eu ainda não havia chegado a esse ponto de loucura naquele dia.

–Mas...eu estou quieto- não estou?

–Sua boca está- ele confirmou, apertando minha bochecha como se fosse algo agradável mutuamente. Não é- mas o seu rosto me diz que sua mente está falando como se não houvesse amanhã. Fala aí. O que é?

Ferrou.

–Hã...nada-dei de ombros, já sentindo a voz começando a gaguejar a procura de respostas rápidas (mas não tão rápidas) e convincentes (mas não tão elaboradas).

–Allen, mentes não falam alto se não há nada. Principalmente a sua. Ela geralmente é bem quieta.

–Ei!

–Mas eu sei que você tem essa mania de ficar pensando demais sozinho, principalmente quando envolve fazer coisas perigosas por si só. Fala aí.

Péssima hora, Lavi. Péssima hora para ser um amigo atencioso.

Austin Brooke e sua mania idiota de ser uma mártir com pensamentos profundos!

–Hã...Hm...-desviei o olhar, com certeza aparentando uma hesitação dada por sentimentos conflitantes, mas na verdade eram meus olhos buscando qualquer desculpa que pudesse saltar nos meus olhos a qualquer momento. Era puro desespero.

Quer saber? Agora seria uma boa hora para um ataque de akumas?

Cadê eles quando se precisa?

–Hã...só...pensando em como é difícil ir em missões com o Kanda- comecei, cautelosamente como falar com um dragão adormecido. À falta de sinais perigosos no rosto do ruivo, pensei que estava tomando o rumo certo- Quer dizer, estamos nessa missão em trio. Tipo, um trio. De três. E mesmo assim ele sai sem mais nem menos para rodar sozinho como se fosse um adolescente em crise. Preciso de tempo sozinho para ser depressivo. Esse tipo de adolescente em crise. O tipo. Do Kanda. Nos deixando em dupla. Sozinhos. Para ir para algum lugar. Que eu não sei.

Ah,meu Deus. Pare de falar.

–É- o som da risada do Lavi tirou todo o meu fôlego e ansiedade de uma só vez- Acho que esse é o Yuu.

Ri por alívio, mesclando o som com a risada dele para não soar tão óbvio quanto soava na minha mente.

–Mas é nessas horas que eu fico grato por ele não conseguir ficar em um ambiente com humanos por muito tempo- ele suspirou, sempre na ponta cômica que perseguia sua voz tanto quanto o tom malévolo que me deixava com a nuca arrepiada- quer dizer, a tensão sexual estava me sufocando.

Por pouco o enrosco entre meus pés não me levou para uma viagem dolorosa até o chão.

Aquilo era uma coisa nova. Meu rosto estava começando a ficar quente. E considerando que ele não possui cor normalmente, podia ser um efeito perigoso e totalmente óbvio.

Desviei por pouco de uma idosa carregando sacolas cheias como se fossem apenas poucas plumas, decidido a não tentar mais cobrir meu rosto com as mãos para evitar algum acidente grave. O que era bem possível, considerando o meu nível de controle sobre o corpo.

O grande problema era que agora eu estava me sentindo um intruso. Minha garganta coçava e o meu peito se entrelaçava com a minha mente confusa.

–Ah...-desconsiderei as tentativas de não parecer desconfortável, porque além de inúteis, me pareciam ridículas- você...e o...Kanda...?

Lavi pareceu horrorizado com alguma coisa. Algo entre o descrente e hilariante que mesmo me deixando com certeza com um rosto nem um pouco apreciativo, caía bem em como sua presença de cabelos ruivos apocalípticos e olhos brilhantes. Lavi é o tipo de pessoa cuja diversão te faz querer ter cuidado.

Muito cuidado.

Ou seja, eu o adoro.

–Eu?- ele riu. Não, gargalhou. Assustou as crianças que voltavam correndo do parquinho da praça (cinzenta demais) com seu escândalo sinistro. Era para eu rir também?

–Ai, caramba- ele limpou uma lágrima que escorregou insistentemente do seu complexo esverdeado embaçado- Eu. Psst. Cara, eram vocês dois pegando no pé um do outro. Todas as referências. Todas as palavras. Cara, a tensão sexual me mata. Todas as vezes que colocam vocês juntos é a mesma coisa. Qualquer um sente.

Embolei-me entre um passo e outro como uma lesma que acaba de ganhar pernas, mas esquece dos nervos para poder usá-las. Se ele não tivesse me impedido de continuar caindo, eu estaria com um nariz e uma dignidade a menos. Porém como seus reflexos funcionavam melhor que os meus, eu tive tempo para tomar pânico sobre o que ele falava.

Quem estava sentindo uma tensão sexual? Eu com certeza não estava.

Aquilo era uma briga. Uma discussão como todas as outras que nós sempre tivemos. E temos. E vamos continuar tendo.

Casais não se chamam de moyashi. Ou de idiota. Ou pirralho.

Casais se amam. Casais não gritam um com o outro por que um deles foi o infortunado que tem que cuidar do outro.

Nem ameaçam cortar a garganta um do outro a casa frase de um diálogo!

Havia um número vasto de coisas erradas nessas poucas palavras dele que eu mal queria trazer à tona. Como o fato de que eu e o Kanda não nos conhecíamos a mais que alguns dias (os quais foram regados em ameaças, socos e xingamentos). Ou que todas as lembranças que Lavi tinha do que fazíamos ou falávamos desde que “eu” havia entrado na Ordem Negra, não eram sobre mim, mas sobre a heroína original: Austin Brooke.

Que, por um acaso, é uma garota.

Merda.

Merda. Merda. Merda.

–Acho que você quis dizer tensão mortal –especifiquei, parando a minha mente de continuar a trabalhar na pesquisa própria.

–Hm...claro- ele podia ter confirmado, mas o sorriso não enganava ninguém. Bem , talvez algumas pessoas muito distraídas com dentes brancos e alinhados, mas não a mim.

Não tive tempo nem precisão para desmentir o assunto o mais rápido possível. Foram dez passos que contei até que Lavi parasse de andar. Por segundos pensei que fosse continuar o tópico com ainda mais força e talvez realidade (coisa que eu não estava em necessidade no momento). Ou que, pior (?), tivesse trombado com Kanda no meio do caminho e íamos ter que compartilhar um momento longo de vergonha até chegar ao hotel.

Porém, ele só indicou uma placa em um hotel com o tamanho de uma casa normal. Nada ali parecia anormal, nem assombroso ou decadente, o bastante para até me deixar com uma pulga na orelha (porque desde quando as coisas não dão errado?). As paredes não estavam rachadas e o local parecia em um bom estado. Nenhuma velhinha fazendo premonições de demônios na fachada, nenhuma mancha de sangue e nenhuma placa de “Venha conhecer o hotel com maior número de suicídios misteriosos por ano!”. Só a placa generosa escrita à mão de “Temos vagas” e um cachorro vira lata roubando sobras.

Parecia um estabelecimento regido por uma família. Daqueles que rendem filmes felizes e românticos.

É. Acho que eu posso lidar com coisas felizes de vez em quando.

–Finalmente -murmurei- meus pés estavam doendo depois de descer a montanha. Espero que já tenham algo pra comer.

–Fracote.

–Ei! Pessoas com o dobro do meu tamanho não ganham o direito de falar. Então você e o Kanda: shiu!

Lavi riu. Claramente desacreditando minhas ordens.

–Vamos ver se eles tem três quartos- o segui enquanto entrávamos no lugar com o som da campainha de aviso- bem, eles não devem ter. Já que misteriosamente você e o Kanda sempre acabam ficando em um quarto único nas missões, certo?

Eu deveria ter previsto isso.

Ah, merda.

Essa vai ser uma missão complicada.

Notas finais
Gostaram? Não? Reviews??? O próximo é de BB, então. Ah, obrigada a quem me deu dicas de fics para ler hahaha eu gostei de saber do que vocês gostam (e ainda descobri coisas em comum que nem esperava!). Bem, eu nem sei o que mais dizer. Obrigada por lerem!! Até o/