Pure Imagination

23 If I'm stupid and you're oblivious, then who is sailing this ship?


Notas iniciais
Heyyy!! Como vocês estão?? Eu sei que milhares de desculpas nunca serão capazes de compensar pela demora, mas mesmo assim eu me desculpo tremendamente. Eu fiquei preocupada com BB e então eu estava trabalhando em um projeto que não é Yullen e...é, terceiro ano, né? É difícil viver... Simulados valendo nota, provas infinitas, aulas a tarde, pré-iniciação científica...eu tento respirar hahaha -Eu revisei, mas eu não sou boa nisso. Erros sempre escapam, sintam-se livres para comentar, por favor. -Eu me esqueci de como é difícil escrever Pure...é que às vezes eu escrevo algo e depois tenho que reescrever milhares de vezes porque "não é desse jeito que alguém pensa!" "está formal demais!" e aqui estou haha - O próximo capítulo eu devo postar nesses próximos dias, porque na realidade não é exatamente um capítulo, ele é bem pequeno, minúsculo mesmo. -E suuuuuper agradecimentos a Ana Walker e Monkey D Emi pelas recomendações!!!! Muitíssimo obrigadíssima mesmo!!!!! Eu fiquei muitíssimo feliz (ainda estou!!)!!! -E, acho justo permitir finalmente haha, boa leitura o/

Mui tas vezes na vida, pensar que ignorar equivale a eliminar é o maior dos problemas. Nas outras partes da minha vida, o problema era que ignorar é muito mais fácil e compreensível.

Até eu entender que não dá para se eliminar algo assim, num simples toque da mente, tudo já havia se emaranhado. Problema com problema. Solução com fantasia. Por isso, ignorar o elefante no quarto parecia muito melhor que tentar agredi-lo com um bastão de beisebol. Ou com palavras espertas, no meu caso.

É. Palavras machucam, mas só aqueles que conhecem de cor e salteado o potencial delas. Então elas não são tão efetivas quanto um elefante e as presas de marfim e as patas pesadas e a tromba para grande parte da pessoas.

É. Deviam ter me avisado antes sobre isso.

Por muito tempo eu acreditei que uma língua afiada podia enfrentar um punho armado.

...talvez eu tenha me enganado....feio...

Não sei sobre um punho armado. Mas uma língua afiada não conseguiu impedir nem mesmo um punho sozinho de me arremessar contra a parede. E contra o chão. E contra um poste de luz.

Tipo...repetidas vezes. Repetidamente.

E, eu tenho que dizer, nem minha língua ficou intacta depois daquilo. Se o gosto de sangue e a ardência constante na boca me revelavam alguma coisa, era que algo ali dentro havia sido cortado e eu não tinha a menor vontade de verificar qual parte estava injuriada, para variar.

Pelo menos gosto de sangue tira um pouco o gosto de derrota da boca. Certo?

Certo. Claro.

E qual o melhor lugar para o qual se pode correr (com o máximo de velocidade possível, com um coração preguiçoso)?

A biblioteca.

Tudo bem. Talvez não fosse o melhor lugar, mas era perto o bastante no momento e eu duvido que qualquer um dos garotos que me perseguiam saberiam entrar em uma, ou teriam coragem o bastante, então era suficiente para pelo menos recuperar o fôlego. E esperar algum tempo antes de sair de novo e ir para casa.

Aí está. Nenhum dos perseguidores realmente tem a menor vontade de estar atrás de mim. Afinal, não vale a pena gastar uma tarde perseguindo um outro garoto quando se pode, sei lá, ir bater cabeça com outro cabeça dura. Eles cansam rapidamente (talvez não mais rápido que eu, mas é outro tipo de cansaço).

Porém, por precaução, é sempre bom enrolar o máximo possível. Aproveitar esse resquício de vida fácil que é unanimemente difícil de ter.

Ignorando os olhares estranhos que caíam sobre minha respiração quase asmática, era fácil achar algo para fazer. E quando eu mais penetrava o lugar, isolando-me dos leitores e estudantes e suas exaltações costumeiras de cochichos e canetas, mais eu me sentia protegido por ele. As estantes eram praticamente muros de um labirinto complexo, emaranhando-se ainda mais dependendo da profundidade. E, em algum lugar entre Antiguidade Clássica e Suspense Nacional, eu me instalei no chão como ele estava.

Não foi uma questão de preguiça apenas, apesar de ela sempre poder entrar na equação seja qual for ela, mas de poder escolher livros e lê-los ali mesmo para poder alcançar tudo o mais rápido e facilmente possível.

Ok. Talvez eu tivesse entrado naquele lugar na emoção do momento, uma ação de adrenalina e pensamentos rápidos, um surto dos neurônios desesperados para viver. Mas, ok, a biblioteca parecia um lugar legal para passar uma hora.

Principalmente por causa do ar condicionado.

Dali vinte ou trinta minutos, meu rosto já estaria mais normal, sem rubor ou suor demais, nem vida de menos, as pernas estariam descansadas e meu coração fora de perigo. Eu poderia pelo menos sentar em uma mesa, assim que tivesse algo bom e não muito longo para ler.

Por que eu nunca tinha entrado numa biblioteca antes?

O lugar parecia tão perfeito agora. Ignorando um idoso suspeito com revistas suspeitas e um rapaz com um monte de livros de seu tamanho que parecia à beira de um ataque, parecia perfeito. Coisas para fazer, lugares para fugir das pessoas, ar condicionado...

Vendo do ângulo de agora, tudo teria saído perfeitamente bem. Eu teria lido, saído descansado, de consciência leve, bom o bastante para meu pai e continuaria ignorando o fato de ser humano pelo resto da vida. Mas aí aquela pessoa aconteceu.

Quando as pessoas diziam que essas coisas não estão no plano, que eram impossíveis de se medir ou entender de primeira, eu ria. Parecia tão patético e inventado. Mas acontece que é a pura verdade de ser inevitável. E não era tão engraçado.

Depois de ler cinco capítulos de “O Desfiladeiro da Morte”, ficar me apoiando na estante começava a prejudicar a saúde de minhas costas. Vendo do ângulo de agora, poderia ser algo mau me cutucando minhas costas, porque se não o tivesse sentido, não teria me levantado.

E não teria decidido por me sentar numa mesa.

A única vazia. Uma das últimas, perto de uma janela, que com o sol batendo de frente não livrava as telas de computadores dos reflexos que iriam dançar em frente a trabalhos universitários de última hora.

Escorreguei na cadeira sem antes ver o casaco pendurado na a minha frente. Se eu soubesse que havia alguém ali, nem ao menos teria pisado perto.

Mas, enfim, eu pisei. Eu sentei. Eu estava ali.

Sabe? Quando eles diziam baboseiras sobre primeiro amor e qualquer coisa relacionada, para mim era sinal para me levantar e sair da sala, porque dali só sairiam besteiras transcendentais de coisas que não se vê, que se sente, que vem de algo além do corpo, inimaginável e inesquecível. Blá-blá.

Diziam que era como uma flecha, que era como sentir algo clicando em sua mente, algo que mais que o corpo quer e sabe. Você pressentiria. E também nunca esqueceria.

E eu também sabia que mulheres eram bonitas. Eu sabia que um dia me apaixonaria por uma e muito provavelmente ela não me amaria. E então me apaixonaria por outra e ela não me amaria. E nesse ciclo infinito, eu teria que arranjar muitos gatos para compensar o vazio.

Freud explica. Amor é uma ilusão forte e arrebatadora. Amor é uma doença, um fenômeno de sintomas patológicos como batimentos rápidos, sudorese, ansiedade e mal estar. Amor nunca acontece, assim fruto da vontade humana de preencher a lacuna de falta nessa mente estranha, de continuidade. De se fundir ao outro. Assim impossível, você não se funde a uma pessoa. Você é você. O outro é o outro. Não importe o quanto ame, no fim só resta a solidão. E a lacuna permanece vazia, não importa quantos gatos eu compre.

Você ama? Você está doente.

E eu explico: hormônios. Esses malditos.

Eu já estava me contentando com uma vida felina. Tudo estava bem até aquilo acontecer.

Se eu soubesse...

Se eu soubesse que a pessoa, dona do casaco, chegaria correndo, o coração na mão, a respiração pesada, um café na mão e os olhos negros risonhos no rosto, eu teria saído de lá antes.

Se eu soubesse que a pessoa começaria a rir espontaneamente de qualquer coisa e qualquer modo, antes mesmo de equilibrar inspiração e expiração, o som descontraído apesar de eu não ser lá uma boa presença, teria fugido.

Se eu soubesse que ela tinha todos os dentes alinhados, mãos compridas que viravam páginas quase lancinantemente, cabelos desalinhados macios, sorrisos companheiros que encontravam graça na conversa, teria aguentado as pontadas da estante.

Se eu soubesse do papo fácil que surgia, de como ela conseguia deixar meu rosto quente com uma palavra esperta, de como eu não queria desviar o olhar daquilo.

Se eu soubesse que ela tinha comentários audaciosos sobre cada coisa que vinha do livro que eu tinha em mãos e mais trezentos outros, se eu soubesse que eu poderia conversar e rir tanto em uma só conversa, que nem o ar condicionado salvava a quentura dali de dentro...

... eu nem teria entrado.

Porque não. Não. Não poderia ser.

Eu era um garoto albino, franzino e doente, com poucas relações fora a família e os idosos vizinhos, que não precisava de mais motivos para ser marginalizado do ciclo social de qualquer lugar. De quaisquer motivos para ser mais problemas para meu pai, além dos que eu já era. Uma concentração problemática de problemas problematizados, versão pequena e branca.

Mas não.

Poderia ser qualquer pessoa.

Mas eu tinha que gostar de um garoto.

–X-

oOo

–X-

Lavi não mentiu quando falou sobre quartos de casal.

Talvez por um ou dois segundos eu tivesse acreditado que quando ele repetia que eu e o Kanda vivíamos a cair em quartos juntos era uma brincadeira de mau gosto que vinha da vontade de preencher o silêncio que eu tentava instalar.

Eu devia saber que se ele estava rindo, era porque era verdade.

Kanda apareceu quase instantaneamente. Assim que eu e o Lavi entramos no hotel, não passaram nem ao menos dez minutos esperando o recepcionista chegar e o japonês entrou pela porta. Espada e raiva nas mãos. Ok, talvez apenas a raiva, mas a espada é algo figurativo para as sobrancelhas armadas. Sempre franzidas, como se você (significando qualquer um) tivesse pisado em sua unha encravada. Milhares de vezes. Repetidas vezes. Repetidamente.

O hotel, para ser sincero, era tão simples que dispensa descrições. Era normal e familiar, não ótimo nem péssimo. Apenas bom o bastante, confortável para quem praticamente não iria estar ali, a não ser para capotar após uma boa luta com demônios movidos a alma de pessoas mortas.

Coisa rotineira.

Lavi tocou a campainha, aproveitando meu momento de curiosidade em mexer em panfletos aleatórios, cortesia da espera. Pizzarias, temakerias e sorveterias e...aquilo era um estômago faminto vindo de mim?

Então Kanda chegou, fazendo o sino da porta tilintar completamente dessincronizado com seu humor corriqueiro estampado no rosto. Eu queria agradecer pela companhia segura, mas também queria jogar os ímãs grátis da companhia de gás em sua fuça por...bem, por ele ser. E estar.

Contentei-me em lançar olhares fortes em sua direção, algo que queria muito que mais parecesse ameaçador, porém, pelo seu rosto, desceu apenas o bastante para chegar ao desespero que eu tentava guardar ali dentro até conseguir privacidade para contar. Ele parou no lugar imediatamente e contribuiu para a conversa de olhares com uma sobrancelha expressiva.

Lancei os olhos para Lavi duas vezes, porque aparentemente exorcistas podiam ser treinados para deter monstros com o poder de uma substância divina, mas não para compreender a linguagem dos olhares significativos. Sério, para alguém que não faz muito uso da voz, Kanda tinha um péssimo conhecimento das linguagens silenciosas.

O que eu estava tentando dizer era algo como: “Seu maldito! Você me largou com o fósforo xereta para dar uma volta de crise sozinho e agora ele está começando a desconfiar de coisas que eu devia ter previsto, mas eu nunca pensei que... a gente precisa falar longe desse tocha humana o mais rápido possível”.

Ok, talvez exigir que ele entendesse isso fosse um pouco exagerado. Só um pouquinho.

Ele apertou os olhos em minha direção enquanto se aproximava. Eu estava tão firmado em fazê-lo entender sem ter que abrir a boca e arriscar balbuciar algo irresponsável que não percebi a chegada do recepcionista. Lavi, pelo outro lado, percebeu as duas coisas.

Pensando dessa forma, a culpa talvez fosse um pouco minha.

Kanda se encostou na bancada ao meu lado, virado em direção a porta. Se ele não estivesse ali para pegá-la, a chave voadora teria passado sem intermediação e quebrado um ou dois vasos. Era um chaveiro enorme de madeira com o número estampado. Ele balançou o metal na minha frente antes de enfiá-lo no bolso e dar meia volta. Eu quis gritar “Não me deixe sozinho com esse cara de novo!”, mas o que saiu foi um ofego desesperado antes de eu notar que, sim, eu não tinha uma chave. E, sim, eu era o único.

–Lavi, e o meu quarto?- perguntei, deixando momentaneamente escapar o sorriso esperto que ele tinha no rosto. Qualquer um acharia amigável, mas qualquer um que o conhecesse já estaria a dez metros de distância com um telefone discado a um advogado.

Ele não precisou fazer barulho para rir. Apenas o olho dele era o bastante para mostrar quando ele apontou um dedo para trás de mim e disse, tom alto e claro proposital:

–Está ali, na mão do Yuu.

Ouvi algo derrapar no chão e por um momento quis rir da cara de Kanda, as narinas flamejantes, até eu lembrar que, ah é, eu também estava ferrado.

O japonês olhou de mim para o Lavi, claramente pensando se era distância ou motivo a melhor vantagem para se escolher uma vítima de homicídio.

Eu apenas olhei para trás, fazendo minha melhor imitação do rosto de Kanda quando está extremamente bravo (para não escolher uma palavra mais inapropriada), algo ao qual Lavi estava totalmente acostumado porque só sorriu e piscou quando eu me afastei, lembrando que privacidade seria algo bom no momento, e corri ao lado do outro.

–Poderia ser pior- falei assim que alcancei a poça de fúria- alguém poderia ter caído com o Lavi e ferrado a vida do Universo inteiro.

Kanda grunhiu. Eu gostaria muito de saber que espécie de animal ele era. Mas sabia que era um que preferia ter arriscado a vida de um universo completo do que se ajustar a dividir um quarto com outro garoto.

O lugar não era de todo ruim. Para melhorar a situação, não era uma cama de casal (ainda bem, não precisa disso mais para deixar tudo ainda mais embaraçoso), mas duas de solteiro completamente normais lado a lado, o banheiro parecia limpo e funcional, o chuveiro quente e a janela destrancada. Talvez fosse um pouco sufocante, mas em cima da hora e em preço razoável, era melhor do que eu esperava.

Taquei a única bolsa que carregava na cama mais próxima a janela, a natural de toda missão, repleta de comida reserva e alguns golens de emergência, apesar de que a Ordem ficava apenas a alguns quilômetros de onde estávamos situados para recolher informações. Pensei em me jogar junto, mas sob o cheiro de ar condicionado era capaz de eu deitar a desmaiar.

Kanda nem ao menos olhou em minha direção ao jogar suas coisas (não sua espada, claro, essa ele calmamente deixou encostada ao lado do criado mudo, como se fosse feita de um material precioso...quer dizer, ela é, mas esse não é o ponto ao qual estou tentando chegar). Ele nem pensou duas vezes em checar os arredores (porque, é, foda-se “eu sou um exorcista frio e não preciso disso, minha espada tem dois empregos e um deles é cortar o fio do telefone que liga pro mundo”, ou algo do tipo que não seja tão ridículo quanto pensar nele falando nisso), Kanda deitou friamente na cama, cruzando os braços embaixo da cabeça e me largando desconfortável sob um clima terrível. E não era apenas por causa do ar condicionado ligado aos 17ºC.

Era difícil saber se ele estava de olhos fechados, mas assumi que eles estivessem, porque, é, acho que ele não gostaria de mantê-los abertos num ambiente fechado comigo.

E, enfim, não que estivesse fora dos cálculos diários, porém me deixar em silêncio em um lugar do qual não posso sair é o mesmo que pedir para que eu fale algo, por mais que não seja necessário. É o modo estranho que arranjei de tentar terminar situações estranhas que acaba, na verdade, estranhando ainda mais a cena inteira.

–Lavi disse que nós sempre ficamos em um mesmo quarto quando há missões.

Kanda, diferente do que achei que fosse fazer, apenas grunhiu uma afirmação que eu não sabia decifrar se era uma confirmação ou apenas uma nota de “eu ouvi”.

–Não, você não entendeu. Juntos. Em um quarto.

Ele grunhiu de novo. Pensei em deixar o assunto para lá e me contentar com as nuvens passando pela janela um pouco manchada de dedos, então Kanda, provavelmente não aguentando o nervosismo explosivo que emanava de mim, resolveu provar do dom da voz.

–O que quer dizer?

Eu me virei para ele, mesmo que ele não tivesse se mexido, antes de me resolver e deitar na cama também. Ele que estava certo, deitar fazia maravilhas a um corpo e mente assaltados.

–É complicado- pensei. Kanda bufou, algo humoroso que parecia um “e o que não é a esse ponto?”- mas...lembra quando eu disse que isso aqui era de um mangá que eu lia? Bem, o grande problema de ser uma história “fictícia” é que coisas estranhas acontecem e principalmente porque o autor precisa vender a história. Pensando bem, é um pouco ditatório, porque por mais que alguém queira escrever algo se sair muito da linha perde pontos e se ficar demais na linha também perde pontos que poderia ganhar com originalidade, mas é complicado, porque sobreviver disso significa necessitar ficar sem-

–Moyashi- ele rosnou- foco.

–Eu acho que Austin e Kanda era um casal a acontecer.

Nesse momento, e nele apenas, Kanda resolveu levantar. Seu cabelo comprido estava amassado ao mínimo de onde saía do travesseiro e os olhos antes fechados não abriram mais que para um cenho franzido.

– E se eu estou substituindo a Austin...- continuei, calmamente.

Kanda esfregou as mãos no rosto exaustivamente, mas lá elas ficaram.

–Você só pode estar brincando comigo.

–Não estou- respondi, no mesmo tom exasperado que ele mantinha- Lavi estava sempre jogando indiretas como se todos soubessem menos, é, nós. Eles. Vocês. Isso é confuso demais...

Kanda se jogou novamente na cama, dessa vez o braço cobria os olhos.

–E pelo menos ele sabe alguma coisa sobre Noahs?

–Creio que não. Eu tentei jogar coisas como “ei, não seria completamente plausível o Conde ter amigos além dos akumas?”, mas ele não parecia saber mesmo.

–Hm- ele resmungou, era como se a cada vez que ele falasse alguma coisa tivesse que compensar com o triplo de quietude estranha que geralmente usava.

Mordi o lábio, talvez pensando demais em como podia ter estragado tudo falando teorias desconfortáveis sobre relações que claramente não se aplicavam ao presente. Eu não me lembrava muito de qualquer coisa relacionada a aquilo (Austanda? Kandaustin? E agora seria o que? Kandallen? Yullen? Esses nomes são terríveis e me dão calafrios somente de pensar na possibilidade de coexistirem com a minha figura).

Já começava a lembrar que, claro, estávamos em uma missão e, espera, não devíamos estar andando por aí fazendo coisas missionárias de missão? Tipo, não sei, falar com estranhos, bater em alguns suspeitos, falar frases de impacto com olhar dramático de suspense, dar as costas para uma explosão. Então Kanda, como se além de tudo conseguisse ler mentes, tirou o braço do rosto e resolveu comentar.

–Eu fui procurar o espelho.

A expectativa de terminar aquilo tudo rapidamente e voltar a (quase) calmaria da Ordem, deu uma guinada rápida.

–Por favor, diga que conseguiu algo e que eu vou sair dessa situação o mais rápido possível, porque mais alguns segundos perto daquele cara e eu sou bem capaz de espirrar alguma coisa comprometedora pra cima dele.

Kanda bufou uma risada.

–Eu estou falando sério! É como se aquele único olho ficasse te perseguindo e tentasse provocar o vômito da verdade. Eu quase acabei contando o final do A Culpa é das Estrelas da última vez que ele me encarou seriamente.

Ele se sentou na cama, olhos agora abertos olhando pra mim. Não que fosse intenso ou demasiadamente forte, mas como na maioria do tempo ele tentava evitar olhar na minha direção, era estranho sentir o peso dos seus olhos em mim.

Claro que ele não se importava.

–Eu perguntei pela cidade- ele explicou- um vendedor disse que uma loja de antiguidade compra objetos usados e ele disse que mês passado chegou um caminhão cheio de coisas que ele nunca viu serem expostas.

–Uou, empolgante- eu disse, mesmo que em voz nem rosto nada fosse empolgante- então vamos lá o mais rápido possível, pegamos esse espelho, damos meia volta e vamos para a Ordem Negra traçar um plano de como consertar essa minha vida.

Kanda rolou os olhos, já cheio da minha existência. Infelizmente, se ele quisesse se livrar dela, teríamos que passar por isso antes.

–Vai- eu continuei- diz onde fica essa loja.

Ele olhou pelo canto dos olhos enquanto ajustava as botas do uniforme e disse como se não fosse importante:

–Lugar nenhum.

Eu paralisei, de repente não mais animado. Nem um tantinho empolgado.

–Hã?

–Não existe mais loja- ele disse- foi fechada há uma semana.

Respirei profundamente antes de expirar rapidamente.

–Mas...ainda deve estar lá dentro, certo?- vaguei, gestuando as mãos em excesso- Quer dizer, não faz tanto tempo.

–Pode ser que sim ou não- ele respondeu, quase como uma respiração- O inútil do Komui disse que ele muda de lugar.

Esfreguei as palmas no rosto, contendo a vontade plena de me afundar no colchão e ignorar a responsabilidade de (acho que posso falar assim) salvar o mundo.

Quer saber, eu deitei mesmo.

Eu não nasci para ser um super herói.

Kanda, por outro lado, nasceu somente para isso, porque já estava de pé, pegando sua espada na mão e testando seu peso apenas para matar o tempo. Ele se virou para os cacos de indivíduo que eu era e acenou a cabeça para a porta.

–Levante, moyashi-resmungou, não dando tempo antes de rumar para o outro lado do quarto- não era você que queria terminar isso rapidamente?

–Mais cinco minutos, por favor- gemi da cama macia. Tão macia...

–Tsc.

Mesmo que clicasse a língua, eu espreitei pelos dedos das mãos que cobriam meus olhos. Ele tinha um sorriso torto no rosto. Apenas um lado dos lábios um pouco levantado, debochando do magrelo companheiro de quarto, mas mesmo assim era uma mudança terrível em seu rosto. Terrível para mim.

Era tão raro vê-lo experimentar um sorriso, que aquilo foi quase uma facada no peito. Uma sensação de adrenalina rápida, porque tão logo o riso veio, ele se foi e foi substituído pela grosseria habitual que veio em forma de um sabonete na minha testa.

–Levante. Não vou pedir educadamente duas vezes.

–Se esse é seu educadamente- eu disse, esfregando a testa atingida, mas me levantando devagarzinho- eu sou um cavalheiro rotineiro.

–Moyashi- ele disse, tentando esconder o bom humor que eu não entendia- foco.

–Entendi, entendi- falei, indo para a porta com os braços para cima- vamos nessa arrombar uma loja de antiguidades.

–X-

oOo

–X-

–Porque paramos para perguntar tantas vezes? Pelo que eu vejo, era só seguirmos o cheiro de pó até aqui.

Parados em frente ao lugar, eu até entendia o significado de “antiguidade” de um modo melhor que os dicionários. Com destaque para o “antig”.

Aquele lugar estava caindo aos pedaços.

Uma parede enfurnada entre um Mc Donald’s (típico) e uma sorveteria há pouco inaugurada, eu me sentia uns cinquenta anos mais velhos, pronto para tomar um café amargo no bingo e conversar sobre minhas experiências na Segunda Guerra.

–Esse lugar parece o guarda roupa do Velho- Lavi completou, me fazendo bufar um riso pequeno de concordância.

–Parece o coração do Kanda- eu continuei debochando, sussurrando sem discrição- todo abandonado, cheio de teias de aranha e coisas arrepiantes.

Ele devolveu um tapa na cabeça que fez meu rosto colorir. Kanda, como sempre, andou na frente, o que pra mim, lembrando filmes de terror, seria algo bom desde que eu não ficasse totalmente atrás. Pelo menos, ele sendo indestrutível e ranzinza espantaria os fantasma antes mesmo de entrarmos.

Kanda é o tipo de pessoa que você quer levar para uma história de terror com você. Ou uma casa de terror. Imagine só: esqueletos de brinquedo caindo do teto e ele dilacerando plástico com a espada? Perfeito.

Aquele lugar, então, seria ainda mais perfeito como cenário. De detalhes antigos, paredes cinzas manchadas e, pelas janelinhas da frente eu via, muita madeira ali dentro, aquilo parecia algo entre um prédio que viu a Independência acontecer e a casa de um hobbit. Se ninguém me dissesse, eu adivinharia que era uma loja de antiguidade, se não mostrasse na porta uma placa de “passo o ponto” que eliminava a possibilidade de ser, bem, qualquer coisa no momento.

Apostado e ganho, o lugar não possuía sistema de segurança. Kanda abriu a porta da frente com um golpe mortal da espada (sério? Sem nem mesmo um “bom dia”?) e entrou primeiro. O sino que alertava a entrada ainda estava firme, forte e contente em anunciar os dribladores da lei que irromperam pelo lugar.

Minha primeira impressão? Um espirro. Depois outro. E outro.

–Moyashi, eu gostaria muito se você pudesse ser mais quieto- ele rosnou, espantando livros empilhados em uma mesinha ao lado das milhares estantes.

–Diferente de você, alguns ainda tem sangue nas veias e alergia a pó- constatei, coçando o nariz vermelho e irritado.

–Quer um papel, Allen?- Lavi perguntou, levantando nas mãos um papel qualquer amarelado que provavelmente havia tirado de alguns dos montes de documentos empilhados.

–Não, obrigado-respondi, sarcástico, sem tirar os olhos do papel enquanto Lavi o abaixava de volta a uma pilha com um riso- não quero nada com mais que o triplo da minha idade chegando perto do meu nariz.

–Então se eu chegar perto do seu nariz tudo bem?

–O que raios você iria fazer no meu nariz?

–Vocês dois me avisem quando quiserem falar como pessoas normais- Kanda resmungou, olhando pelas estantes e prateleiras bagunçadas. Boa parte estava vazia, mas parece que a limpeza ainda faltava, porque ainda havia objetos largados. Principalmente livros e enfeites de aparência suspeita.

–Diferente dos dois, tem gente que precisa terminar a missão.

–Não seja ciumento, Yuu- Lavi debochou- tem Lavi para todo mundo.

Kanda olhou por dois segundos para ele, nem um pouco impressionado, antes de tombar o olhar em minha direção e erguer uma sobrancelha que dizia mais que qualquer outra palavra. Dei de ombros e rolei os olhos para ele detrás do ruivo. Todos sabiam que Lavi seria Lavi e idiotas seriam idiotas.

–O mundo está em perigo então- ele bufou.

Ri baixo ao me virar em outra direção para mexer nas coisas ao redor. Lá não havia luz mais que os raios de pôr-do-sol que entravam pelas janelas empoeiradas, fazendo pontilhados no ar até firmarem-se no chão de madeira capenga. Havia de tudo ali. Vi poltronas de tecido velho, estátuas de pessoas e duendes, vasos muitos e livros estocados sem fim. Nenhum espelho.

Kanda estava verificando as paredes do fundo e Lavi, completamente fora da linha da missão, folheava alguns livros que encontrava nas estantes.

–Não achei nada.

–Sério?- o ruivo perguntou, sem tirar os olhos das páginas.

–É- eu disse, franzindo as sobrancelhas mesmo que ele não as visse- sério.

–Tsc. Ótimo.

–Talvez não esteja mais aqui.

Lavi fechou o livro e suspirou.

–Muita coisa não está mais aqui. Eles provavelmente já tiraram do lugar, principalmente se a loja não só fechou como vai mudar de lugar. Pode ser que nunca tenha chegado também. Ou podem ter vendido. Muita coisa pode ter acontecido. Ou não.

Esfreguei minha testa, tomando cuidado com o tecido costurado da luva que cobria minha Innocence. Lavi já passava para o próximo livro, nem contente nem descontente com a falta de informação, e Kanda encostou-se à estante mais próxima com o ombro, olhando para mim com aquele olhar de vigia.

A forma dele me fazia tremer.

Se o objetivo dele era me olhar era evitar qualquer perigo, isso não daria certo. O peso daquilo falhava minhas pernas e eu era bem capaz de tropeçar e abrir minha cachola.

Dois universos, duas mortes.

Criei coragem para levantar o olhar algum tempo depois apenas, crente de que seu olhar já havia se dissipado para outro lugar, mas continuava lá, nervoso. Engoli em seco, não certo de que sairia daquela troca vivo quando Kanda acenou com a cabeça para meu lado e eu olhei.

Lavi me espreitava pelo canto dos olhos e assim que correspondi o olhar ele voltou rapidamente para o livro e virou a página.

Como uma cobra eu atravessei o lugar até onde Kanda estava, pretendendo não arriscar a verdade tão facilmente assim. Encostei-me ao seu lado, tentando parecer destemido e natural. Pelo menos o máximo que eu conseguisse. Acho que destemido estava fora de mão.

Enviei o olhar para o lugar inteiro de novo, o abandono claro em cada canto repleto de velhice. Mesmo fechada há alguns dias, era óbvio que mesmo aberta ela não era muito cuidada, o que de um lado servia ao aspecto antigo das vendas, mas falhava ao serviço ao consumidor. Eu estava à beira de uma crise alérgica.

Localizei uma forma conhecida em uma estante quase vazia. Distanciei-me rapidamente para ir a seu encontro.

Não era à toa que me era reconhecível.

Era um pequeno enfeite feio de um lobo feito em metal. Detalhes de pelos cobertos de poeira nas dobras, dentes desgastados e um pedaço da cauda faltando. O animal parecia potente em seu lugar, mesmo que de fato não mantivesse nenhuma expressão má ou agressiva. Estava apenas ali, preso durante um passo de uma caminhada.

Bufei uma risada sem graça nem felicidade enquanto o pegava nas mãos. Eu não me lembrava de que era leve, talvez porque na época não fosse.

–O que é isso?- a voz me assustou um pouco, mas eu sabia que era Kanda então não me movi do enfeite, apenas alargando o sorriso.

–Um enfeite horrível de lobo- eu disse, o que não devia soar com o meu sorriso, porque Kanda ergueu uma sobrancelha duvidosa antes que eu explicasse- eu o tinha no outro universo- não tirei os olhos do animal metálico, apenas baixando a voz para evitar o Lavi do outro lado do lugar- eu e meu pai nos mudávamos muito de casa, mas poucas vezes nós viajávamos juntos. Porque...você sabe- gestuei meu corpo, certo de que parecia um pouco triste, mas pouco me importando- e um dia eu tinha acabado de chegar na escola, eu tinha saído cedo e...sabe? Meu rosto estava inteiro roxo, eu parecia um marshmallow sangrento e eu estava entrando devagarzinho pro Mana não me ver chegando. Ele estava na sala sentado na mesa e estava tremendo. Eu achei que ele estava com frio, mas não era. Eu...não fazia tanto tempo que eu tinha sido diagnosticado. Eu ia subir correndo, mas eu o ouvi soluçar e tinha um copo de bebida jogado na mesa e eu fiquei preocupado, então eu resolvi chegar perto. Eu quase nunca o via chorar, não importa o que acontecesse, ele sempre sorria o máximo que podia, mas depois que falaram que eu ia morrer, às vezes era só olhar pra mim que ele começava a chorar. Então...eu...eu não queria que ele chorasse, ok? Eu só...me distanciei, eu não queria que ele olhasse pra mim e ficasse miserável, eu queria que ele sorrisse mais. Ele merecia sorrir. E ele estava lá, com um copo de bebida alcoólica e eu não queria que ele fizesse nada de idiota. Ele só olhou pra mim, para aquele rosto roxo e fez aquele sorriso triste que eu odiava tanto. Ele olhou pra mim com uma expressão cansada, exausta, a mesa cheia de contas e vazia de dinheiro e disse que sentia minha falta. Como se eu nem estivesse ali. E aí ele me abraçou e eu vi que ele não estava assim por causa das milhares de contas que eu o fazia pagar nem nada. Ele estava com um papel meu nas mãos... Eu achava que era regra para quem vai morrer, fazer uma lista das coisas que precisa fazer? É, eu era uma dessas crianças. Eu só tinha preenchido alguns espaços, mas nenhum deles era meu. Tudo era para meu pai. O que eu tinha que fazer antes que eu o deixasse sozinho de novo- mordi o lábio, lembrando cada um dos tópicos que eu tinha escrito, o enjoo subindo pela garganta e então ri- vendo agora, não fiz todas as coisas de lá antes de... enfim. Ele jogou tudo pra cima e fomos viajar. Os dois juntos. Não fomos muito longe porque eu ainda estava em risco, mas foi divertido. Foi uma cidade de interior. Visitamos uma reserva onde eles cuidavam de lobos. Foi divertido. A gente comprou esse enfeite, mesmo que ele achasse horrível. Ele parecia tão pesado na minha mão quando eu era menor e nós sempre deixávamos na sala onde ficavam os porta-retratos...Eu sei que ele esperava que eu o animasse naquela viagem, eu sei que ele esperava que tudo ficasse melhor depois daquilo, que eu fosse fazê-lo feliz...- baixei o olhar, subitamente sentindo que, sim, aquele enfeite ainda era pesado e o deixei de volta na prateleira- bem, não aconteceu. Claramente.

Kanda nada disse enquanto eu arrumava o lobo na madeira. Durante aquela viagem inteira ele sorria para mim, mas era só eu desviar por um segundo que ele voltava a esvaziar, o olhar longínquo de quem não tem ideia do que fazer. Mesmo assim, mesmo eu sabendo que eu não conseguia me esforçar para isso, era muito mais fácil lembrar de como ele ria às vezes.

–Eu sinto tanta falta dele- murmurei, a voz morta e sem tom, quase quieta sob a pressão do mundo.

De repente, aquela ideia toda não parecia boa.

Mas eu precisava encontrá-lo. Tira-lo das mãos do Conde, dos Noahs, ou seja lá quem sejam eles que tem preso nas mãos o que eu tanto sinto. Eu precisava do Mana. Sempre preciso.

Limpei as quase lágrimas que ameaçavam meus olhos com a luva e funguei forte para que minha voz não ficasse pior. Chorar sob o olhar do Kanda não era meu melhor plano, mas a presença dele era segura de um modo estranho e eu podia até sentir um fundo de bem no modo como ele apenas ficava lá, o olhar compreensivo sobre mim.

Ele era uma boa pessoa, afinal. Apesar de tudo. Eu sabia disso.

Ele era o único que sabia. E eu sabia disso, uma sensação profunda que eu não conseguia simplesmente deixar para lá.

Kanda abriu a boca e eu pensei que ele fosse comentar algo, mas antes que pudesse uma voz cortante soou ao nosso lado. Desconhecida.

–O que estão fazendo aqui?

Era um tom frio e velho que eu podia jurar que vinha das paredes, mas ao me virar bruscamente o que encontrei, ainda bem, não foram estátuas se movimentando ou vasos mágicos transmitindo seus desejos. Era apenas um homem idoso, a face enrugada como se estivesse derretendo, fazendo os olhos que um dia, eu esperava, tinham vida, tristes e maculados do futuro. Após o susto inicial, tentei me recuperar sobre sua presença nervosa que nos encarava com o olhar forte e rígido de ameaças.

Meu olho não havia apitado, então eu sabia que não se tratava de um akuma. Mas mesmo assim a guarda não deveria ser abaixada.

Por outro lado, meu emocional já estava abalado e eu mais queria fechar os olhos e acreditar que tudo aquilo era uma verdade irreal. Um sonho. Que eu iria acordar com o despertador desligado, Mana fazendo carinhos nos meus cabelos até que eu despertasse para comer um café da manhã juntos.

Tudo que eu menos queria lidar era problema de exorcista.

Mesmo assim, seguro porque Kanda havia pisado mais para frente, cobrindo pouco da minha presença para o homem, eu fiquei firme ali do lado, tentando prestar atenção no eu estava acontecendo.

Lavi apareceu correndo, tropeçando na madeira frágil do piso, e parou do outro lado.

–Hã...quem é esse homem?- ele perguntou, cautelosamente, como se percebesse apenas assim, apenas agora que tinha sido deixado para trás e perdido muita coisa.

O velho nem se mexeu.

–Vocês não tem permissão para entrar aqui.

–Hã...-Lavi sorriu seu melhor sorriso malandro, aquele que ele usa para pedir comida extra ao Jeryy- nós temos a permissão do dono para entrar aqui e verificar os últimos produtos do catálogo.

–Eu sou dono desse lugar- o homem explicou, e eu não tinha certeza se ele estava realmente ameaçado por nós ou se como Kanda as sobrancelhas franzidas era uma posição natural do rosto- e vocês não tem permissão para entrar aqui.

–Hm...- eu resmunguei- talvez não. Mas nós temos distintivos de exorcistas e eles são tipo permissão para não ter permissão?

Ele se movimentou pela primeira vez e foi para mover seu olhar furioso para mim, restritamente. Encolhi-me de volta. Calado.

–E o que vocês querem de uma loja fechada?- e algo na voz dele me dizia que ele preferia que ela estivesse aberta, mas não havia modo de ser realizado.

–Nós estamos procurando um espelho?- Lavi disse, agora mais interessado, olhos e rosto sérios- É importante para o que nós precisamos fazer. A Igreja está atrás dele.

“E alguns demônios que podem nos explodir em cinzas e destruir o mundo” eu o ouvi completar na mente, mas não era algo muito legal de se falar quando se está perguntando por alguma coisa. Pode não parecer, mas as pessoas entravam em pânico.

O velho contorceu o rosto, claramente lutando internamente entre dizer ou não dizer. Eis a questão. Tudo bem, éramos três crianças que invadiram uma loja fechada de antiguidades e eu tinha chorado por causa de um enfeite de lobo. Mas éramos três crianças mais velhas que invadiram uma loja fechada de antiguidades por boas razões e eu tinha chorado lágrimas másculas por causa de um enfeite super emocionante de lobo.

Isso deveria ser considerado firmemente.

Lavi balançou o rose croix no uniforme exorcista à frente do homem e Kanda estava coçando a bainha da espada perigosamente, mas eu sabia o que ele precisava. E era muito fácil.

–Bonito lugar esse- eu disse, olhando ao redor como se só o visse agora-hã...combina bastante com tudo. Tem coisas aqui que parecem valer muito...emocionalmente.

Com certeza funcionou, poucas palavras abertas dando sopa no ar do diálogo. Ele abriu a boca, amolecido. Eu quase senti dó do modo como o rosto dele cresceu e então ruiu, quebrado de emoções que eu sabia que ele precisava liberar. Mas nós não tínhamos tempo nem função para isso e era uma pena.

–Meu filho escolheu o lugar- ele aquietou-se- ele sempre quis uma loja assim para eu administrar. Ele gostava de história e tudo que estivesse relacionado ao passado.

Tudo que eu pensava era “ Por favor, não me diga que ele morreu. Não me diga que ele morreu”, porque isso tinha tantos resultados que eram capazes de me arruinar por dentro, simples assim. Eu não queria, mas eu sabia que esquecer momentaneamente de Mana tinha que acontecer. Apenas um pouquinho.

–Desculpa por eles terem fechado- dessa vez, nenhuma palavra tinha um pingo de mentira, eu não conseguiria inventar nada nem que quisesse- eu tenho certeza de que era um lugar incrível.

O velho baixou a postura férrea de quem, agora era óbvio, não ataca, mas protege. Olhou-me de cima a baixo e para o enfeite de lobo que antes eu inspecionava com o coração, rosto de quem entende e eu sabia que ele também via de pessoal algo naquele objeto.

E em qualquer lugar daquele canto, para ser verdadeiro.

–Eu a fechei- ele disse e eu devo ter engasgado espontaneamente com o desentendimento, porque Lavi perguntou se eu gostaria de água o mais rápido possível. Eu recusei, eu tinha que entender aquilo.

–Como assim?

–Eu vi coisas naquele espelho- ele falou, um sussurro quase inaudível que se não fosse pela quietude simplista e inquietante do lugar, teria passado despercebido- pensei que era loucura e que era a idade chegando. Mas eu estava tão errado, porque ao invés da idade me levar, ela levou o meu filho.

Eu queria deixá-lo em paz, eliminar a voz cantante em minha cabeça, alerta ao pânico que podia com certeza se instalar se eu não prestasse atenção nos sinais. Mas eu precisava saber incondicionalmente.

Era importante.

Por Mana.

–O que você viu?

Ele olhou de onde inspecionava tão firmemente o piso, os olhos fundos e engrossados em tristeza. Eu podia desistir ali, mas...Mana.

–Antes ele estava, parecia extremamente saudável, mas a doença atacou rapidamente como ninguém antes havia visto acontecer. Mas eu tinha. Eu vi acontecer. Um mês antes, quando o espelho havia chegado, eu vi essa loja, vazia e poeirenta como agora eu noto e eu o vi tentando falar sob a dor de morrer e não conseguir. Eu devia tê-la fechado. Eu devia...um mês atrás. Se eu soubesse...

Engoli em seco.

–E ele não estava doente antes? Nenhum sinal?

–Nenhum.

–E onde está o espelho agora?- Lavi perguntou, para minha alegria de um garoto que não tinha mais palavras para usar.

O velho balançou a cabeça, retraindo uma tosse ardida com a mão na boca.

–Foi levado- respondeu- vendi muitas das coisas aqui para pagar tantos tratamentos, um funeral...

–Sabe dizer quem levou?

–Um homem errante- ele pensou- me parecia bem desafortunado, se me permite. Mas tinha uma grana pesada no bolso, aparências realmente confundem. Não havia muito de nome, mas tinha óculos fundos, uns cabelos mal penteados...uma pinta no rosto... Se me recordo, dizia que trabalhava na mina.

Como alguém consegue uma grana pesada em minas nesse estado, eu que o pergunto.

–Há quanto tempo ele veio?- Kanda perguntou, sua postura arregaçada me dizendo que era a questão final antes de mais uma debandada.

–Não muito. Um dia ou dois.

Recente demais. Ainda dá para pegar-se no encalço.

Mas isso pode ficar para depois.

–Muito obrigado- eu disse rapidamente e menos sensível que realmente queria- sinto muito. Por tudo.

E irrompi para fora do lugar como um raio, passos furtivos e nada espertos. Eu não me lembro de como saí, só me lembro de que estava fora. E fora eu estava seguro.

Ou então eu achava, até perceber que o som pesado eram meus passos no chão e a chuva que escorria pelo meu rosto era um tanto salgada demais.

Kanda estava no meu encalço. E tratei de enxugar novamente o que meus olhos faziam de triste, mas de nada serviu tentar quando o resultado continuava o mesmo. Só esperava, do fundo do meu coração que Lavi não estivesse por perto.

Não percebi também (olhe, como estava idiota) que Kanda me chamava até ele pegar meu braço e fazer meu corpo balançar perigosamente para frente e depois para trás. Meu cotovelo doía. Droga, como doía.

–Moyashi- ele rosnou, raiva misturada a...quem se importa com isso?-Aonde acha que vai?

Ri, sem me render e virar para olhá-lo. Porque, é, eu era corajoso assim.

O tão grandemente pequeno Allen Walker, caminhando para o lugar nenhum que ele tanto gostava. Eu pelo menos não precisava de plateia.

–Sei lá. Com sorte eu caio em um buraco de coelho e saio desse universo.

Kanda não disse nada e eu não tinha como ver seus olhos falarem estando de costas. Senti apenas o toque apertar em volta do meu pulso, não que eu tenha feito mais alguma coisa para escapar.

–Moyashi, pare com a besteira-ele respondeu, palavras cuspidas que eu não precisava ouvir e não seria obrigada a ouvir- Nós não temos tempo para isso. Não era você que queria fazer essa missão o mais rápido possível?!

–Você não entende!- eu gritei, tentando me desvencilhar. Tudo que eu menos precisava agora era Kanda e seu jeito rude, seu modo violento e sangrento de acabar com as coisas. Palavras ruins de pessoas das quais eu não podia nunca ouvi-las.

Ele apertou meu pulso fino e me senti inútil. Impotente. Diante daquilo, quem era esse menino idiota que se fingia de herói.

Os últimos resquícios de coragem eu usei para me virar. Eu não tinha mãos para limpar as lágrimas do outro lado do rosto, mas quão pior poderia ficar tudo isso? Como se lágrimas ou não fossem mudar alguma visão dele sobre qualquer aspecto meu.

–Eu causei isso, Kanda- eu expliquei- eu fiz isso com as pessoas.

Ele fechou o rosto. Como sempre fazia. Óbvio.

E por que eu ainda me deixava levar pelo que ele fazia?

–Como assim?

Engoli em seco, soprando os olhos para eliminar as lágrimas e agora restava apenas os olhos vermelhos e a dor na garganta.

–Isso não está seguindo a mesma linha, percebeu? Claro que não. Só eu posso perceber. Um mês atrás, ouviu? Ele disse um mês atrás... eu apareci aqui há não muito tempo, Kanda. Eu causei isso. Eu estou mudando o curso disso, eu não sei mais o que esperar. Talvez eu não seja mais necessário.

Puxei meu braço de volta, percebendo que Kanda tinha amolecido o toque completamente. Sequei as lágrimas das bochechas e respirei fundo, tentando me controlar, mas elas voltaram. Com força total.

–Droga- eu disse, rindo sem graça- eu não queria chorar.

Mas era a verdade. Não é algo que se ignora com palavras legais, ou um piscar dos olhos longo o bastante. Cedo ou tarde eu teria que perceber.

Talvez nenhum deles existisse se eu não tivesse vindo para cá, vidas, milhares delas circunstanciais. E do mesmo jeito que eu as dei, eu as tiro desse mesmo modo, nesse mesmo pique. Nessas mesmas mãos. Sujas.

Senti um toque no braço e levantei os olhos.

Kanda...

De longe qualquer um diria que ele estava o mesmo. Os olhos fincados, as sobrancelhas cerradas, a boca uma linha fina e desagradável. Porém, tinha algo naquilo...

...era como se entendesse alguma coisa. Algo nos dedos movendo-se por cima do meu uniforme, ou o queixo trincando. Algo nos olhos que, acho que pela primeira vez de verdade, olhavam dentro dos meus como ninguém além de Mana tinha se estreitado. Ou se arrependido.

Eu sei que eu devia dar um passo para trás e começar a andar, mas naquele momento tudo em que eu conseguia pensar era em como os olhos dele, na realidade, eram um azul mais claro que o escuro. E não eram nem de longe tão ruins quanto eu os imaginava.

–Moyashi-ele disse, a voz não exatamente sutil, mas singela o bastante para mim- isso não prova nada. Coincidências acontecem e nenhuma delas é sua culpa. Se quer me provar algo, coloque o universo num júri e peça um veredicto, porque para mim você só está falando coisas que não vão ajudá-lo. Agora... respire, porque você está ficando ainda mais branco. E não vai ser legal se você desmaiar aqui e agora.

Meu pulmão ia e vinha e eu não sentia o ar, como não havia percebido? Fechei os olhos e respirei fundo. Uma, duas, três e mais vezes, com o toque certo dele sobre meu ombro, acompanhando enquanto meu corpo subia e descia. Talvez só por isso eu tenha conseguido respirar.

Porque eu tinha um...amigo.

Não que eu ouse falar isso em voz alta.

Tossi quando me recuperei, apesar dos membros ainda continuarem molengas como gelatina molhada.

–Ataque de pânico- eu expliquei, me sentindo muito melhor mesmo ofegante- acontece de vez em quando.

Só não queria dizer que não era o único tipo de ataque e sim o menos preocupante. Acabou a hora da melancolia.

Kanda tirou a mão do meu ombro e eu quase me permiti ficar decepcionado com a falta de calor tão de repente.

Ele concordou com a cabeça, mais uma vez monossilábico como sempre, e enfiou os dedos no bolso.

O sol estava partindo e Lavi não estava em nenhum lugar visível. Logo, não haveria luz para ser usada e a noite estaria ali sobre nossas cabeças e por mais que eu ame a noite mais que qualquer dia que possa competir, aquelas foram horas cheias e eu não tinha certeza de que estava pronto para me submeter a mais delas.

Então Kanda começou a andar e fingir que eu não havia acabado de chorar e ficou quieto e eu não podia olhar para os olhos dele. De jeito nenhum. Com ele andando na frente, ficava muito mais fácil encarar quando eram apenas suas costas. Muito largas, a propósito.

–Alma tinha ataques de pânico às vezes- ele falou, de repente. Eu quase não via sua figura, porque o sol acabara de desaparecer.

Nada respondi, porque não queria espantar o que era tão raro e tão bom. Eu queria saber quem era Alma, eu precisava saber mais sobre Kanda nem que ele odiasse.

–Alma é...era um garoto- Kanda disse- éramos os dois exorcistas na Ordem Asiática... Nós...eu não sou exatamente o que sou. Eu vim de um buraco no chão, nós temos mentes de exorcistas mortos implantados para assumirmos sua innocence, apesar de que ela não escolhe somente a mente- ele apertou a mugen com força, eu não precisava ver para ouvir ou sentir- Nós somos artificiais. Éramos. Tsc-ele rosnou- Você quer falar de culpa? Eu matei Alma.

Ele claramente esperava uma resposta dessa vez, porque quando eu continuei quieto ele parou e girou os calcanhares para olhar para mim. Ele parecia furioso, mas nem tanto. Eu sabia que ele não estava. Ou não tinha medo.

–Não vai falar nada?- ele desafiou, como se eu devesse pelo bem da minha existência- Não é você quem lia histórias de super-heróis? Que achava que todo mundo podia ser salvo?

Baixei o olhar por um momento antes de recuperar o poder da fala. E não foi só isso que recuperei.

–Você matou Alma porque ele matou todos eles- não foi uma pergunta. Eu afirmei. Tudo parecia tão claro. Crianças dormindo em buracos no chão, testes doloridos de innocences que nada queriam, sangue, tatuagens, visões, amizade forte. E assassinato. Assassinatos. Tantos deles.

Ele franziu os olhos e depois pode ter se lembrado de que eu, sim, conhecia tudo desse mundo em algum lugar do que eu chamo de cérebro. E, sim, às vezes eu me lembrava.

Só de me lembrar, de pensar que essa pessoa estava na minha frente, eu tive uma pequena vontade necessária de liberar novamente as lágrimas. E de pensar que enquanto lia, no conforto pleno da minha família e do meu quarto, eu havia pensado no quão criativo aquilo parecia, criar Segundos Exorcistas, que aquilo era apenas uma história boa em um papel.

Eu queria abraçá-lo. É. Aquele parecia o clima perfeito para aquilo. Mas, não? Não, talvez não fosse.

Eu tenho um senso de auto-preservação.

–Você fez o que achava correto- eu disse- é errado deixar sobre uma criança a responsabilidade de algo tão grande. O mundo é errado.

Eu vi algo, uma sombra de um sorriso pequeno, que podia ser um deboche tanto quanto sincero, mas não me dediquei a decifrar algo tão próximo de uma miragem.

–Agora você sabe- ele disse, quietamente.

Eu ri. Não porque era engraçado, mas porque era confortável. E eu podia rir.

Aquela tinha sido de longe, a melhor conversa que eu já havia tido. Uma que não tinha sido com Mana.

Kanda era uma boa pessoa. Eu tinha certeza.

Não importa que personagem ele tenha que interpretar.

Pensei que ele talvez tivesse rido um pouco também. E eu queria agradecer, eu queria dizer que ele era mais que eu tinha imaginado e que ninguém possuía culpa e que, por favor, não me odiasse porque ele era uma boa pessoa e que eu nunca pensei que ele pudesse deixar de me jogar nas coisas e me espancar.

Mas eu tropecei. E caí.

Ainda bem, caí de joelhos e meu rosto miserável estava salvo.

Talvez eu tivesse pisado no meu próprio pé (porque, sim, isso acontece frequentemente, não haja como se fosse mentira) ou fosse um buraco mesclado ao escuro. Eu fiquei tão assustado que fiquei parado por um grande tempo.

–Moyashi?- Kanda notou o falta de passos e parou para olhar para trás. Ele queria rir, eu via isso nos olhos dele, aquele sádico, mas merecia um prêmio por conseguir manter o rosto enraivecido de sempre.

–Eu estou bem.

–Eu não perguntei nada.

–Muito engraçado.

Levantei, não sentindo nada fora do lugar nem machucado demais e limpei a terra que fincou no tecido dos joelhos (tecido grudento esse também).

Foi quando eu vi o portão.

Negro, férreo, detalhado, entre muros enormes e longos. Palavras de cumprimento entalhadas em cima como se fosse algo bom. E estava aberto, cheirando a frio e terror. Lá dentro, uma selva de caixas de pedra e estátuas mal encaradas.

Como se eu reconhecesse o tropeço, eu disse:

–Ah, merda.

Porque eu reconheceria aquele cemitério em qualquer lugar.

Notas finais
Gostaram? Não?? Reviews please?? Lembrando que o próximo é curtinho e rápido e deve sair logo. Meu tumblr para quem precisa falar comigo: monstersinyourbedroom.tumblr.com Por falar nisso, eu falei em BB, mas uma pessoa me mandou uma mensagem aqui e eu não consigo respondê-la. Só estou falando porque vai que a pessoa me bloqueou sem querer e está aqui e eu queria dizer que eu ia responder, mas não consigo. Se você me bloqueou por querer, poque não gosta de receber respostas, por mim tudo bem, sem problemas :) é só que caso você esteja esperando resposta, é para você saber que eu não tenho como dar uma enquanto estiver bloqueada e que eu não estou te ignorando. Até! o/