Punklove

5 Sentindo falta


Quando eu cheguei em casa naquela mesma tarde, depois de ter conversado com Stiles sobre o que estava acontecendo comigo, eu não sabia nem o que pensar. A coisa mais estranha do mundo era imaginar que meus sentimentos estavam sendo controlados por um impulso do meu gene licantropo, e que eu não poderia fazer nada a respeito daquilo.

Como se fosse a coisa mais normal do mundo, no período de tempo até a próxima lua cheia eu estaria biologicamente apaixonado por Stiles. Eu iria sentir atração por ele, meu corpo iria querer se sentir próximo de Stiles e passar o maior tempo possível na companhia dele, ao mesmo tempo em que minha mente iria me obrigar a pensar no homem durante os dias e as noites — seja em devaneios ou pesadelos.

O pior de tudo, porém, é que eu sempre achei que existia um sentimento dentro de mim pelo Stiles. Certamente não paixão ou amor à primeira vista, mas eu sempre olhei para ele como um exemplo a seguir, como um amigo que eu adoraria ter — já que eu lembro de todo o tempo que ele passou na casa da minha mãe e como ele iria conversar comigo e ser um amigo querido.

Talvez fosse algo como aquela adoração heroica que alguns garotos têm por outros mais velhos, e que com o tempo passa. Quando eu achei que ela tinha passado, no entanto, eu acabei por me apaixonar por ele — só que dessa vez não era culpa minha. Ou melhor, era culpa minha.

Sei lá.

Tudo parece complicado demais para entender.

Eu acabei falando com a minha mãe sobre aquilo e ela me disse que era uma coisa normal para se acontecer, mesmo que não acontecesse com todos os lobos. Ela também me deu a mesma explicação que Stiles, também dizendo que era melhor que o próprio Stiles tivesse contado aquilo para mim, pois era comum os lobos não acreditarem no imprinting.

O sentimento era tão real, parecia tangível demais para ser algo que apenas duraria um tempo curto.

No final das contas eu acabei ficando os dias seguintes com a cabeça naquilo, tentando achar verdades dentro do meu corpo movimentado pelos hormônios. Eu pensei no Stiles e em tudo que eu sentia por ele, e por alguns momentos eu até achei que aquilo fosse mentira, mas em outros eu estava completamente apaixonado por ele. E aquilo parecia perfeito.

Mas daí alguns instantes depois eu iria perceber que ele não estava comigo e o meu lobo iria começar a choramingar.

E logo após aquilo eu iria me lembrar de que era tudo uma farsa e eu iria me sentir mal.

Não foi um final de semana dos melhores, tenho que admitir.

–--

Voltar às aulas na semana seguinte parecia ser a última coisa que Derek queria fazer. Na segunda-feira pela manhã, ao invés de ele se arrumar como sempre, Derek apenas colocou um dos kilts mais velhos que tinha, jogou no corpo uma das camisetas brancas e bem largas que tinha no guarda-roupa e saiu com os cabelos completamente desarrumados, decidindo por final atar toda aquela bagunça na cabeça dele.

O final de semana havia sido cansativo para o garoto com o corpo dele sentindo falta de Stiles e a mente dele querendo que esse período de tempo terminasse logo. Ele quase tinha saído de casa na madrugada do domingo para ir até a casa de Stiles, mas conseguiu controlar o lobo dele — já não bastava ele estar apaixonado por um homem que não sentia o mesmo por ele, Derek ainda tinha que sentir a falta dele e querer fugir de casa por causa disso.

Ao longo do domingo ele ouviu a mãe ao telefone com Stiles, falando sobre algumas coisas a respeito de Derek. Graças aos deuses ela levou o telefone para uma das salas com abafadores de som, então ele não precisou ouvir o que eles estavam discutindo, que provavelmente era sobre Derek.

Os próprios lobos dele tinham ficado estressados com ele, falando que os sentimentos de Derek estavam atrapalhando a vida dos outros — mas não tinha muito que o lobo pudesse fazer.

Na aula de Inglês, que ele tinha com Stiles, o animal dentro de Derek quase deu um salto quando ele viu o homem entrando na sala — e Derek quase gemeu quando Stiles sorriu para ele. Durante o período todo Stiles ficou falando com a turma, enquanto dava algumas olhadelas para Derek aqui e ali, o que fez o garoto quase correr para abraçar ele.

Essa coisa de imprinting parecia maluca mesmo.

Quando o período chegou ao final, para tristeza e alegria de Derek, ele conseguiu se concentrar um pouco mais para sofrer pelo resto da manhã com as outras disciplinas, já que sem Stiles em volta dele ele conseguia pensar com a cabeça mais limpa.

Na hora do almoço, porém, ele estava pronto para ir para sua mesa comum, quando Erica olhou para ele com a sobrancelha levantada.

“Professor Stiles pediu pra você ir almoçar com ele. Na sala dele.” A garota falou, trocando uma leve olhada com Isaac, que estava ao lado dela. Boyd já esperava por eles na mesa que eles sempre sentavam.

Derek até pensou em arguir com ela, mas acabou sentindo que o corpo inteiro dele queria ficar perto de Stiles.

E ele nem pensou muito, apenas foi.

–--

“Oi?” Disse Derek quando chegou na sala de Stiles. O homem comia sua refeição sentado à mesa dele. Stiles sorriu quando viu o garoto.

“Olá.” Ele falou, engolindo o resto de comida que tinha na boca. “Eu espero não ter te assustado muito ao te chamar aqui. Eu sabia que você precisava de um pouco de companhia, sua mãe…” Stiles ia continuar falando, mas mordeu os lábios ao ver a cara de Derek.

Óbvio que nenhum adolescente iria gostar de ter sua vida pessoal discutida pela mãe e pelo professor.

“Eu só achei que seria bom a gente passar um tempo junto. Acho que seu lobo vai se sentir melhor.” Stiles falou, tentando corrigir o que tinha dito.

Derek apenas assentiu, mesmo se sentindo um pouco desconfortável com tudo aquilo. Ele não sabia se era por causa do comentário sobre a mãe, se era por estar almoçando sozinho com um professor ou se era porque o lobo de Derek estava uivando feliz com a presença de Stiles.

“Pode vir sentar aqui, eu arrumei uma cadeira pra você.” Stiles apontou para uma cadeira do lado da dele. Derek foi até lá e sentou, com calma, mas sem falar nada.

Durante alguns minutos eles não conversaram, optando por apenas comer. Derek conseguia sentir o braço de Stiles roçando no dele, mandando arrepios para o corpo todo do garoto. O silêncio entre eles era bom, no entanto. Aos poucos o lobo dentro de Derek foi se assentando, relaxando com a companhia do homem — era quase como se houvesse um interruptor que ligasse alguma coisa quando Stiles chegava perto de Derek, fazendo-o sentir fisicamente as mudanças em seu corpo.

Os dois terminaram os seus lanches em silêncio.

Stiles atirou seu guardanapo ao longe, para acertar na lixeira. Quando o rolo de papel caiu dentro ele sorriu e jogou os braços para o alto.

“Cesta!”

Derek sorriu para Stiles, meio introspectivo ainda com o momento.

Ele achou fofo, no entanto.

Stiles respirou fundo, como se estivesse pensando em uma forma de puxar a conversa e sair do silêncio, já que como eles tinham terminado de comer não fazia muito sentido eles continuarem quietos.

“Então, como foi seu final de semana?” Stiles pediu, distraído.

“Eu, ah…” Derek começou a falar, mas só de lembrar-se dos dias que ele teve que parar.

Stiles percebeu aquilo.

“Ah, me desculpa a pergunta. Eu não faço ideia do que se passa na cabeça de um lobo que sofre com isso. E a sua mãe me disse que…” Stiles parou de novo, fechando os olhos e fazendo uma cara de dor, como se falar em Talia doesse nele. “Eu não quero ficar falando da sua mãe pra você.”

Derek bufou.

“Sei lá. Não tem muito problema.” O garoto falou.

“Eu sei. Mas é estranho ter os nossos pais discutindo a nossa vida privada. Eu sei que eu achava estranho quando o meu pai tentava conversar algo mais “privado” comigo.” Stiles falou.

Derek torceu o nariz.

“A gente mora em uma casa cheia de lobisomens, professor. É quase com cem por cento de certeza que eu te digo que todo mundo sabe sobre todo mundo.” O garoto falou.

Dessa vez foi Stiles que torceu o nariz.

“Nem tinha me tocado muito disso. Eu sempre convivi com lobisomens, mas nunca tive detalhes da vida de outra pessoa aparecendo nos meus ouvidos durante o dia, sem que eu quisesse. Deve ser estranho.” Ele falou.

Derek levantou os ombros.

“A gente acaba se acostumando. É como se tivesse um acordo tácito para ignorar as coisas que são de cada um e tudo mais.” O garoto explicou.

Stiles bufou.

“Eu imagino que deva ser horrível se masturbar em uma casa cheia de lobos.” Ele falou, balançando a cabeça antes de perceber o que tinha falado e olhar para Derek com os olhos arregalados. “Ah, me desculpa por ter falado isso, Derek. Eu tenho certeza que foi…”

“Não tem problema.” Derek disse, claramente desconfortável, mas tentando deixar Stiles mais à vontade.

“Claro que tem. Eu sou seu professor e não posso falar essas coisas.” O homem balançou a cabeça antes de sorrir, batendo com um punho na própria testa. “Se bem que com o que tá acontecendo agora, é quase certo que a gente vai ter que se aproximar de qualquer jeito mesmo.”

Derek quase se engasgou com o próprio ar.

“Não se aproximar daquele jeito, Derek. Eu nunca faria isso com você.” Stiles protestou.

Derek balançou a cabeça.

“Não, eu sei. Eu sei. Só misturei as coisas na cabeça.” O garoto tentou se explicar.

“Eu também tô com as coisas misturadas na cabeça, pode acreditar em mim.” Stiles completou.

Os dois ficaram calados por um instante.

O homem respirou e colocou uma de suas mãos na coxa de Derek, assim como no outro dia. O garoto não teve nem tempo de falar nada, seu lobo apenas relaxou naquele instante e Derek se se encostou à cadeira dele, fechando os olhos. Tudo involuntariamente. Ele quase sentiu o lobo ronronando dentro de si.

“Eu não sei exatamente como me portar com você, Derek. Eu não posso sair por aí te abraçando a toda hora porque a gente é professor e aluno, mas eu sei que você precisa de toque e conforto.” Stiles falou.

Derek apenas assentiu, ainda de olhos fechados. Um pequeno sorriso satisfeito se formava nos seus lábios.

“Sempre que você quiser alguma coisa, me diga. Eu não sei se vou poder fazer, mas eu posso ajudar. E por esse mês venha almoçar comigo. Pelo menos até isso tudo passar, certo?”

O garoto apenas assentiu mais uma vez, sorrindo. Ele não abriu os olhos.

Stiles apertou a coxa dele, chamando a atenção.

“Acho que você precisa se arrumar para a próxima aula, Derek.”

O garoto fez uma careta no momento em que Stiles falou aquilo, mas abriu os olhos mesmo assim. Era óbvio que tinha uma nota de desapontamento no rosto de Derek. Quando Stiles tirou a mão da coxa dele, então, o garoto quase começou a choramingar, respondendo ao lobo dentro de si.

“Eu sei que parece ruim agora. Logo você se acostuma, okay?” Stiles disse, colocando a mão que estava na coxa de Derek no ombro dele, apertando uma vez. “Você vai pra sua aula e amanhã a gente almoça junto e eu faço mais um pouco dessa mágica aqui.” O homem falou, abanando seus dedos.

Aquilo trouxe um sorriso para o rosto de Derek.

“Obrigado por estar fazendo isso por mim… Stiles.” Ele disse, tentativamente usando o nome do homem.

“Tudo bem Derek.” O professor respondeu. “Eu quero te ajudar a passar por tudo isso. E quando você vê, a próxima lua cheia chega e termina tudo.” Stiles sorriu para Derek. O garoto não conseguiu sorrir de volta com muito sucesso, mas pelo menos ele tentou.

Por alguns instantes Stiles ficou apenas olhando para Derek, um tanto transfigurado, com seus olhos perdidos em Derek. Se sentindo estranho, o garoto falou.

“O que foi?” Derek pediu. Assim como num passe de mágica, Stiles tremeu um pouco e voltou a olhar normalmente para Derek.

“Nada.” O professor falou, pigarreando.

“Sério?” Derek pediu outra vez.

“Sim, sim. Eu só olhei pra você e fiquei me lembrando de quando você era pequeno. Nas noites em que eu ia conversar com a sua mãe eu me lembro de sempre contar histórias para você — principalmente de tudo que acontecia aqui, já que você era novo demais para poder correr com os outros lobos.” Stiles falou.

Derek procurou na memória por aqueles momentos e fez eles aparecerem em sua cabeça, lembrando-se de tudo que ele fez junto com Stiles, quase dez anos atrás.

“Eu lembro um pouco.” O garoto disse.

Mais um tempo de silêncio ficou entre eles, dessa vez um pouco de estranheza também se instalou. Logo, Stiles divergiu tudo.

“Eu acho que você precisa ir para a aula. E eu também preciso me organizar.” O professor falou. “Amanhã na mesma hora?”

Derek ficou uns segundos apenas olhando para Stiles antes de assentir.

Stiles sorriu.

“Eu vejo você amanhã, então.” O homem falou.

“Até amanhã.” Derek respondeu, antes de se levantar da cadeira e sair da sala.