Punklove
6 Caçada nua
Notas iniciais
A primeira semana do meu imprinting passou sem maiores problemas. Não que o caso de eu ter imprintado em alguém já não fosse problema o bastante, mas além daquilo eu consegui sobreviver sem contratempos.
Desde a segunda-feira eu tinha passado os períodos do almoço junto com Stiles, o que tinha ajudado bastante o meu lobo a se assentar. Eu nem sabia direito o que iria sentir se não estivesse passando aquele tempo com Stiles, já que eu não fazia ideia do que se passava com alguém que estava com a mesma coisa que eu. Felizmente, a sexta-feira chegou e passou, levando consigo um pouco da minha indignação com tudo que estava acontecendo.
Ainda faltavam mais três semanas até a próxima lua cheia, e eu ainda teria que lidar com aquilo, mas se dependesse da minha primeira semana, tudo iria ficar bem.
Durante os almoços nós começamos a conversar sobre coisas simples. Stiles iria me contar sobre algum caso interessante do tempo dele em Beacon Hills, todos aqueles anos atrás — curiosamente, optando por não falar nada da sua vida em Chicago, antes dele voltar para cá. Eu não pedi nada, claro, mas não pude negar que havia uma curiosidade dentro de mim para saber o que havia acontecido com ele para Stiles vir para a cidade de volta.
Durante as conversas eu também falei algumas coisas que eu lembrava sobre a minha infância durante as batalhas sobrenaturais, pedindo sobre quais criaturas tinham sobrevivido, quais tinham sido presas, o que aconteceu com cada um e tudo mais, revivendo as aventuras que eu acompanhei de perto quando criança. O bando de Beacon Hills na época, uma junção entre a minha família e o bando de Scott, tinha salvado a cidade várias vezes, resultando em vários casos que Stiles foi contando para mim.
No começo as coisas ainda pareciam meio estranhas, já que o nosso relacionamento de professor e aluno estava sendo comprometida por uma atração maluca entre nós dois, coisa que não era verdade, já que essa atração era fruto apenas de uma disfunção hormonal que todos os lobos enfrentavam. E Stiles não deveria sentir nada por mim — mas ele também não deixava nada claro, provavelmente não querendo machucar o meu lobo.
Eu não sabia muito bem o que pensar sobre aquilo.
Ainda bem que o meu imprinting não tinha nada que ver com as ideias da Stephenie Meyer. Imagine só se as coisas fossem assim como em Crepúsculo, em que você pode se apaixonar por alguém e perder o mundo se não consegue aquela pessoa para você? Ou tem que esperar uma vida inteira para poder ficar com a pessoa?
Sei lá, pra mim é estranho. Ainda bem que essa coisa toda não iria durar muito tempo.
Enfim, eu estava pronto para mais um final de semana de relaxamento, já tinha até combinado em ir acampar com meus lobos em algum lugar da floresta, pegar uma garrafa de vodka do meu pai e um pouco de acônito pra ver se a gente poderia ficar bêbado — e tentar esquecer essa coisa toda e imprinting por algum tempo, já que na segunda-feira eu teria que retornar aos meus almoços com Stiles.
Não que fosse uma coisa ruim, mas eu não queria ser um empecilho para ele, por mais que ele parecesse feliz em me ajudar. Ainda bem que os almoços eram tudo que ele teria que fazer por mim pelas próximas três semanas, era muito melhor do que ter que implorar por qualquer outra coisa de Stiles.
Bom, pelo menos era o que eu achava…
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Erica e Isaac tinham terminado de montar a segunda barraca enquanto Boyd saíra para procurar por lenha. Era comum eles se dividirem em duas barracas para a noite — e Boyd e Erica sempre prometiam que não iriam fazer nada demais na barraca deles. Derek, por sua vez, até acompanhou os dois lobos por alguns momentos, antes de sair correndo pela floresta para caçar o jantar deles.
Era comum o pequeno bando fazer essas noites mais selvagens de vez em quando, tentando se soltar um pouco mais e aproveitar o lado selvagem dentro de cada um. Eles caçavam, faziam uma fogueira, assavam um animal, riam, bebiam e então saíam correndo pela floresta — antes de voltarem para suas barracas para dormir por horas a fio.
Derek era sempre o responsável pela caçada, se eles queriam comer algo maior. Não que os outros lobos não soubessem caçar também, mas eles tinham menos sorte para pegar veados ou qualquer coisa maior que alguns coelhos. O Alfa, em contraste, conseguia pegar até alguns dos maiores cervos que vagavam pela floresta.
Dessa vez, o primeiro cheiro que surgiu no nariz de Derek foi o de um javali, que parecia bom o bastante para aquela noite. Respirando fundo e deixando os instintos se liberarem, Derek começou a correr pela floresta, meio lobo, meio homem, sentindo o cheiro do animal selvagem o guiando por entre as árvores.
Minutos de corrida rápida iam fazendo ele se aproximar da presa, até ele finalmente ver o animal preto fuçando em uns troncos de árvores ao chão. Derek aumentou ainda mais o seu passo, tentando aproveitar o momento de surpresa para pular no javali e morder ele na garganta, o lugar perfeito para o animal sangrar com mais rapidez e morrer logo.
Os gritos estridentes do animal foram ouvidos na floresta, mas Derek logo terminou o trabalho ao pegar uma pedra e bater na cabeça do javali, matando ele rapidamente.
Um pequeno sorriso apareceu nos lábios do lobo, feliz com a caçada.
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“Ele parece que se alimenta bem aqui pela floresta.” Erica falou, mordendo um pedaço da carne.
Depois da caçada, Derek limpou o javali em um riacho e seguiu para o acampamento deles para assar o animal. Horas mais tarde os quatro sentavam ao redor da fogueira, já noite adentro, comendo pedaços de carne assada.
“Bom, é provável que ele tenha mais sorte caçando do que vocês três juntos, então ele não deve passar fome.” Derek falou, rindo para si mesmo. Os outros três lobos não falaram nada, voltando a comer.
Era engraçado ver os quatro membros da gangue punk ali na floresta. Isaac vestia uma bermuda jeans toda rasgada, junto com uma camiseta preta e suas botinas escuras. Boyd e Erica vestiam calças jeans, ele sem camisa e ela um top de couro. Derek apenas vestia o seu kilt, preferindo ficar sem camisa também. Mesmo com toda a influência das roupas escuras e o humor punk que rolava na família, nada daquilo impedia eles de sair e entrar em contato com a floresta.
Muito pelo contrário, acho que ainda dava até uma ligação maior entre eles e o meio ambiente.
Quando os jovens finalmente terminaram de comer o javali, atirando os ossos no fogo, Erica e Boyd foram os primeiros a tirarem suas roupas para correr pela floresta, o que fez Isaac torcer o nariz, já que ele sabia muito bem o que eles iriam fazer ao correr primeiro para o meio das árvores no escuro, já que os dois não teriam privacidade depois.
Derek sorriu para si mesmo.
“Você sabe que um dia você vai fazer a mesma coisa que eles estão fazendo agora, né?” Ele falou para Isaac.
O garoto suspirou.
“Eu sei. Só queria que a Cora quisesse sair mais com a gente pra eu não ficar assim sozinho.”
Dessa vez foi Derek quem torceu o nariz.
“Você sabe que ainda vai demorar pelo menos um ano pra mamãe deixar ela vir com a gente. E não pense que ela não sabe do que acontece entre vocês dois.” Derek disse, tentando deixar um pouco de ameaça aparecer em sua voz.
“Não acontece nada demais. Eu sei que ela tem só quinze anos.” Isaac respondeu, levantando as mãos para o alto, mostrando inocência. “E eu não faria ela fazer nada contra a vontade. Eu só quero ficar com ela.”
“Eu sei, Isaac.” Derek disse, bufando ar pelo nariz. “Pelo menos eu imagino o que deva ser isso, com tudo o que tá acontecendo agora.”
O Alfa do pequeno bando se sentou, olhando para o fogo mais uma vez. Isaac veio e sentou ao lado dele.
“Como estão as coisas entre você e o Stiles? O que que tá acontecendo?” Ele pediu.
Derek suspirou.
“Eu acho que tá tudo bem.” Ele levantou os ombros ao responder. “Eu sinto uma coisa dentro do peito, como se fosse saudade dele, sabe? Mas é estranho, pois eu sei que esses sentimentos não são de verdade, e uma vez que a próxima lua cheia chegue eles vão se ir. Mas isso tudo não faz com que eu não sinta falta dele.”
Isaac apenas assentiu.
“Eu não faço ideia de como isso deve ser… diferente.” O garoto falou para Derek.
“É bem diferente. É como se a gente amasse alguém, sabe? Assim como você gosta de Cora. Parece real, mas eu sei que não é. O Stiles me disse, minha mãe me disse. E eu sei que essa coisa toda não parece normal. É como se fosse amor à primeira vista, mas esse tipo de coisa não existe.”
Isaac não disse nada.
“Não vejo a hora de eu poder acordar um dia sem sentir essa coisa no meu peito. Um aperto estranho, sei lá.” Derek sacudiu a cabeça.
“Acho que uma noite correndo pela floresta vai te fazer bem, então.” Isaac falou, se levantando e tirando a camisa. “Deixar o lobo se libertar um pouco sempre faz bem.”
Derek sorriu para ele.
“Acho que sim.” Derek ainda viu Isaac sorrindo para ele antes do garoto se despir rapidamente e sair correndo pela floresta, uivando para a pequena lua no céu.
Derek conseguia sentir o puxão que a luz lunar obrigava ele a perceber, mesmo que fosse bem mais fraco do que ele sentia quando a lua estava cheia. Ainda assim, aquele sentimento era menor do que o aperto que ele sentia no peito por causa de Stiles.
Durante o dia todo ele conseguiu quase se esquecer do professor, acordando tarde, ajudando a mãe a fazer almoço em casa e depois organizando as coisas para o acampamento deles. A viagem até a floresta foi de moto e ele se divertiu apostando corrida com os outros lobos. E depois veio a caçada e o jantar, que deixaram ele com a cabeça ocupada até agora.
A conversa com Isaac fez ele se lembrar da voz de Stiles, do modo como ele havia acariciado Derek como lobo e depois como ele havia acariciado Derek como humano. Dentro do garoto havia esse sentimento de nostalgia pelo toque, uma vontade de querer ficar com aquilo para sempre ao mesmo tempo em que parecia que fazia anos desde a última vez em que ele vira Stiles. Tudo o confundia.
Passar um tempo ao lado da pessoa que ele gostava parecia ser perfeito, principalmente quando Stiles sorria para Derek, quando ele mostrava um pouco de si para o lobo, não só aquela imagem que ele queria passar para proteger Derek. Ao mesmo tempo, tudo parecia difícil, como se o garoto fosse se perder dentro daquele sentimento que ele tinha em seu peito.
Alcançando o pescoço, Derek pegou o colar com o pingente que Stiles havia dado a ele. O pingente que tinha a marca da família Hale, e que Derek não sabia o motivo de Stiles ter um. Bom, não era algo secreto que mais ninguém poderia ter, mas também não parecia ser alguma coisa assim tão normal para qualquer pessoa ter um.
No entanto, para Derek, Stiles não era qualquer pessoa.
Aquela noite não era para ele pensar em Stiles, contudo.
Derek queria esquecer-se de tudo.
Tendo ficado por último no acampamento, ele fechou as barracas e colocou mais uns pedaços de lenha no fogo para deixar algumas brasas ainda vivas para quando eles voltassem, e também para fazer com que outros animais não chegassem perto das coisas deles.
Se despir foi rápido. Segundos depois ele já estava correndo por entre as árvores, uivando para a lua e para seus lobos, que respondiam a ele do mesmo jeito.
A noite estava só começando para o lobo dentro de Derek, e ele deixou o mundo à volta dele se desmanchar para o apenas o lobo sobrar.
O lobo e a floresta.
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O sentimento de ter corrido milhas e milhas sem fim era bom no corpo dele. Derek se sentia como se tivesse atravessado a Califórnia inteira e o animal dentro do seu corpo estava cansado e satisfeito.
E extremamente calmo.
Ainda sem abrir os olhos ele se espreguiçou, esticando cada parte do corpo. O esfregar da grama em suas gostas era uma sensação boa, o fazendo ficar em contato direto com o chão ao mesmo tempo em que sentia a energia de seu corpo ser drenada para a terra, deixando ele equilibrado.
Grama?
Derek abriu os olhos rapidamente para se ver deitado em um pátio, completamente nu. Uma olhada breve por sobre seu ombro mostrava a casa de Stiles ao fundo.
“Bom dia, Derek Hale.” Soou pelo ar, ao mesmo tempo em que ele levantou do chão como se um raio tivesse atingido ele. Suas mãos voaram para a virilha, cobrindo seu sexo e tentando recuperar o pouco de dignidade que ele ainda tinha.
Derek estava em frente do Xerife da cidade.
Completamente nu.
“Bom… dia?” Ele falou, nervoso.
O homem balançou a cabeça e fechou os olhos, incrédulo.
“O Stiles foi preparar o café.” O homem falou, jogando uma pequena manta para Derek se cobrir. “Você pode vir pra dentro que ele vai te arrumar uma roupa.” O Xerife disse, antes de se virar para entra na casa, passos vagarosos o guiando para dentro.
Derek mal se moveu para seguir o homem. Ele estava completamente travado no lugar sem sabe o que fazer.
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