Notas iniciais
Sim. É exatamente isso que vocês leram.

Era difícil tirar as imagens de Stiles da minha cabeça. Eu me lembro do corpo dele junto ao meu, do cheiro que ele exalava, dos toques dele na minha pele e o jeito que meu lobo se perdeu todo ao entrar em contato com ele. Não acho que isso seja a coisa mais fácil de se entender, mas eu nunca senti que estava perdido até me encontrar em Stiles.

E isso me assusta.

Não que eu tenha medo dos sentimentos que estão brotando, mas eu simplesmente não sei como controlar eles. Eu olho para Stiles e eu sinto um calor dentro do meu peito, uma vontade de jogar minha armadura pro alto e deixar o meu lobo correr livre ao encontro dele.

Nunca senti isso antes.

Ali parado na frente da escola eu mal conseguia prestar atenção na conversa do meu pequeno bando. Eu sabia que eles queriam descobrir mais sobre Stiles, mas eu mal conseguia formar palavras para dizer. Eu só o vi do outro lado do estacionamento e a minha mente parou, congelada no mesmo pensamento. Se eles não estivessem ali, se eu não soubesse que muitas pessoas estavam à nossa volta, se eu não tivesse sido ensinado que, por mais que as pessoas saibam dos lobisomens em Beacon Hills, eu não deveria me transformar, se eu não tivesse certeza que eu não deveria em hipótese alguma deixar meu lobo correr livre durante o dia em um lugar público, eu tenho certeza que eu não teria ficado segundos ao lado da minha moto.

Se eu pudesse eu estaria me jogando em Stiles.

Mas eu não posso.

Eu conseguia sentir o cheiro dele, tanto presente no colar em volta do meu pescoço como no ar à minha volta. Eu conseguia ouvir o coração dele, a respiração saindo pelo nariz, os órgãos do corpo dele em funcionamento. Conseguia quase ouvir os pensamentos dentro da cabeça dele — e eu não fazia ideia do quanto meu corpo estava sintonizado em Stiles.

–--

O sinal havia soado para mais um dia de aulas. O bando de Derek já tinha achado seu lugar na sala de Inglês e, assim como os outros alunos, estavam apenas esperando por Stiles aparecer na porta. Isaac e Erica tinham sido avisados para deixarem os olhares indiscretos a um mínimo, e Boyd até disse que iria cuidar de Erica, mas Derek não confiava muito neles.

Quando Stiles entrou, sorrindo para a turma, todos os outros alunos em volta dele deram seu cumprimento matinal da mesma forma. Derek não conseguiu dizer nada, apenas sentiu seu coração se acelerar mais uma vez. Ele sabia que tinha a atenção total de seus lobos, mas tentou se concentrar no homem à frente da turma.

“Hoje nós vamos começar a nossa leitura da obra de Faulkner. Todos vocês já completaram O som e a fúria?” Stiles pediu, se virando para dar uma olhada para todos. Derek virou seu rosto para o caderno, tentando ignorar o olhar de Stiles.

Alguns alunos responderam a ele. Outros nem prestaram atenção. De qualquer forma, logo o professor estava a explicar sobre as características sensacionalistas da obra e o fluxo de consciência do texto. Alguns alunos estavam interessados. Outros nem tanto.

Derek não fazia ideia do que saía da boca de Stiles.

Ainda bem que ele havia lido Faulkner desde os dez anos, só por prazer. Ao invés de ouvir a voz de Stiles falando sobre a obra, Derek se perdia nas vibrações que o som fazia ao percorrer a sala. Vez ou outra ele se permitia olhar para Stiles e fixar-se nas formas coloridas desenhadas na pele do homem, como se fossem tinta fresca. Se ele não estava olhando para Stiles, as mãos de Derek se perdiam correndo pelas linhas do tartan do kilt de Derek. Era melhor ele marcar as direções do quadriculado do que se perder olhando para Stiles e nem perceber onde estava.

Ainda que ele não olhasse para o homem, no entanto, Derek sentia que Stiles estava em frente a ele, parecia que o cheiro e a presença do homem estavam impregnando cada célula do corpo de Derek. O garoto até tentava se concentrar no texto que Stiles passou para eles lerem durante a aula, pelo menos tentando.

A cabeça dele não queria aquilo, no entanto.

Ele suspirou, puxando os punhos de sua mão para dentro dos olhos, tentando relaxar.

Uma mão apertou o ombro dele, acariciando lentamente. Derek quase pulou da cadeira, surpreso. Ele conseguiu se controlar por pouco.

“Tudo bem, Derek?” Stiles perguntou, ali ao lado dele. A voz do homem carregava preocupação.

Derek engoliu o nó em sua garganta, tentando falar. Ele não havia nem percebido a presença do professor chegando perto dele, mesmo que a mente de Derek não parasse de pensar em Stiles. Ele também não conseguia fazer as palavras saírem, mas pelo menos mexer a cabeça assentindo foi possível.

“Se você estiver com alguma problema é só me pedir.” Stiles falou, correndo os olhos pelo rosto de Derek, vendo se ele estava bem, antes de ir direcionando o olhar mais para baixo até…

O colar.

Os olhos de Stiles param e se fixaram no pingente no pescoço de Derek. O mesmo pingente que ele havia dado para Derek na noite anterior, mas como ele era apenas um lobo, Stiles não fazia ideia para quem ele havia dado.

Bom, agora ele sabia.

Stiles respirou fundo, olhando para dentro dos olhos de Derek mais uma vez, antes de fechar as pálpebras. A respiração de Derek vinha curta e o coração dele parecia bater loucamente no peito. Os lobos deviam estar ouvindo tudo aquilo.

“Eu acho que você poderia vir me ver no período do almoço.” Stiles disse, soltando um sorriso simples.

Mais uma vez Derek não conseguiu falar, apenas assentiu.

Stiles apertou o ombro dele mais uma vez, deixando sua palma acariciar Derek um pouco mais do que deveria, antes do homem ir para frente da sala e continuar conversando com outros alunos.

A aula terminou e Stiles se foi. Outros professores vieram e Derek nem se lembra do que ele viu naquelas outras matérias. Os lobos pediam constantemente se alguma coisa havia acontecido, mas Derek não sabia dizer nada.

A única coisa que ele sentia era o calor da mão de Stiles apertando o ombro dele.

–--

“Você pediu pra me ver?” A voz de Derek quase não saiu da garganta, mas ele manejou a fazer funcionar. Aparecer por ali na sala de Stiles sozinho não tinha sido fácil. Erica e Isaac queriam saber como ele estava e quase tinham ido atrás de Stiles, culpando ele por Derek ter perdido parte dos seus sentidos. Boyd tentou segurar eles, falando que Derek tinha que cuidar disso sozinho, mas os lobos não queriam deixar.

Ele teve que fugir então.

Stiles olhou para Derek assim que ele entrou na sala. Ele estava sentado à sua mesa, pequeno sanduíche na mão e expectativa nos olhos. Stiles engoliu o que tinha na boca e colocou a comida em suas mãos em um pequeno prato, apontando para Derek se sentar em uma das carteiras da sala.

O garoto assentiu e caminhou em silêncio para uma das classes em frente a Stiles, que ainda não havia falado nada.

O professor terminou de limpar os dentes com a língua antes de falar.

“Então você é o lobo que apareceu lá em casa?” A voz de Stiles vinha devagar e cuidadosa, mas era possível perceber um calor por trás dela. Pequeno sorriso se abriu no rosto dele.

Derek sentiu o mesmo calor dentro de seu corpo. Ele pegou o pingente entre dois dedos e mostrou para Stiles.

“Acho que sou sim.” Ele disse.

Stiles sorriu.

“Pelo que eu saiba, lobisomens se lembram do que fazem quando se transformam, então eu gostaria de um pouco mais de certeza para saber que você não sacrificou aquele lobo fofinho que apareceu no meu pátio ontem para roubar o colar dele.” Derek olhou para Stiles com os olhos arregalados depois que ele disse aquelas palavras.

“Eu… eu não… quer dizer…” Derek começou a gaguejar uma resposta até Stiles gargalhar.

Se fosse qualquer outra pessoa rindo dele, Derek teria colocado as garras diretamente na garganta, pronto para acabar com essa pessoa. Mas dessa vez, a risada de Stiles não parecia uma coisa ruim. Pelo contrário, a risada de Stiles fazia o calor dentro de Derek só aumentar.

“Eu estou brincando com você, Derek.” Stiles disse, respirando fundo para tomar fôlego depois de rir. “Eu tenho certeza que você é o lobo que eu vi ontem. Muito bonito por sinal.” As palavras vinham com normalidade da boca de Stiles, como se fosse assim simples elogiar alguém.

Derek sentiu suas bochechas ficarem vermelhas, e para um punk todo vestido a caráter, ele se sentia bastante sem coragem ou espírito de fúria naquele momento.

“Obrigado.” O garoto respondeu.

“De nada.” Stiles disse.

Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes. Derek continuava brincando com o pingente em seus dedos, tentando não olhar diretamente para Stiles, que por sua vez provavelmente estava concentrado em Derek com todo seu olhar.

O homem se levantou da cadeira subitamente e caminhou até Derek. O garoto olhou para ele e viu um sorriso nos lábios de Stiles, que logo se abaixou ao chão e se sentou, batendo com sua mão ao lado dele para mostrar o que Derek teria que fazer.

E ele não teve escolha senão sentar ao lado de Stiles.

Arrumando o seu kilt em volta dele, tentando não mostrar sua cueca, Derek viu com o canto do olho o pequeno sorriso nos lábios de Stiles.

“O que?” Ele pediu, confuso.

“Nada demais.” Stiles falou, sorrindo. “Eu não sou acostumado a ver mais pessoas se vestindo como punks. Como eu, não que eu use kilts.” Ele completou.

Derek sentiu uma ponta de vergonha em seu peito. Ela não durou muito.

“Hey.” Stiles chamou a atenção dele, colocando uma mão na coxa de Derek, por cima do kilt. “Isso não foi uma ofensa, okay? Você fica muito bonito de kilt.” Ele disse.

Derek sentiu o calor em seu peito se expandir.

Stiles apertou a coxa de Derek uma vez antes de soltar ele.

“Você não fala muito, né?” O homem pediu.

Derek balançou um ombro.

“Eu não sei muito que dizer. Pelo menos não agora.” Ele respondeu.

“Eu confesso que também não sei muito o que fazer agora.” Stiles disse.

Derek olhou para ele.

“Seria uma ideia legal tentar explicar o que está acontecendo.” Derek pediu. “Minha mãe disse que você saberia o que dizer.”

Stiles assentiu.

“Eu sei sim. Pelo menos eu tenho uma boa ideia do que aconteceu.” Stiles começou a falar, deixando Derek ansioso. O homem suspirou, como se estivesse ponderando as palavras antes de falar. “O que aconteceu entre você é chamado de imprinting. Comumentemente conhecido também como amor à primeira vista.

As palavras vinham como um balde de água fria em Derek. Assim como tudo aquilo parecia tão bonito, a voz de Stiles não reagia as palavras. Havia um calor dentro dele, mas não relacionado ao amor, ou coisa parecida. Ele só estava falando aquelas coisas para Derek sem sentir elas.

“É mais ou menos uma coisa como o que acontece em Crepúsculo.” Stiles continuou, não percebendo o que acontecia com Derek. “A única diferença aqui é que isso não é pra vida toda. Mais precisamente, dura apenas um mês. O tempo entre uma lua cheia e outra.” Stiles completou.

Derek ficou em silêncio.

A mão de Stiles apareceu na perna dele outra vez.

“Eu sei que isso parece meio ruim assim ao ouvir. Mas eu garanto que em um mês tudo vai ter terminado e você volta ao normal. E é bom você saber a verdade para não se machucar quando a próxima lua cheia chegar.” Stiles disse.

Derek ainda não falou nada, apenas deixando aquelas palavras fazerem sentido em sua mente. Ele não queria voltar ao normal. Era uma loucura. Como ele iria parar de sentir aquilo por Stiles depois da próxima lua cheia?

Ele estava confuso.

“Quer dizer que isso que eu sinto dentro de mim é só uma mentira?” Derek pediu, voz pequena.

“Não exatamente. Eu diria que tem mais a ver com uma fantasia. Ou alguma coisa que relacione com você. É comum acontecer entre os dezesseis e dezoito anos, e geralmente ocorre uma ou duas vezes na vida de cada lobo — principalmente os que nasceram desse jeito. Você vê alguma coisa que tem a ver com você nessa outra pessoa, um pouco antes de lua cheia chegar, e você se liga nela, sem saber. É meio mágico e desconhecido, ninguém sabe ao certo porque acontece, mas é real. E aconteceu com você.”

O garoto ficou olhando para um ponto fixo no chão, apenas assentindo e tentando entender o que estava acontecendo.

“E porque a minha mãe não quis falar isso pra mim?” Derek pediu. Stiles sorriu para a pergunta dele.

“Talvez porque você provavelmente não fosse acreditar nela.” O professor falou. “Nós não gostamos de ser impedidos de gostar de alguém, principalmente pelos nossos pais. Ah, e eu liguei pra sua mãe um pouco antes do almoço pra falar com ela, também.” À menção da própria mãe, Derek arregalou os olhos para Stiles. “Nada de ruim. Eu só disse para ela que eu teria a conversa sobre isso com você e que seria bom ela preparar a sua sobremesa favorita quando você chegasse em casa.”

Derek olhou para Stiles com confusão nos olhos.

“Acredite em mim, você vai querer se afogar em doces pelo próximo mês.” Stiles disse, sorrindo.

Derek até tentou achar engraçado, mas não conseguiu. Ele se sentia meio usado pelos próprios sentimentos, mentido pela própria natureza. Era um sentimento bastante estranho.

“Hey.” Stiles chamou a atenção dele, colocando a mão na perna de Derek outra vez. “Eu sei que isso deve parecer estranho, mas é uma coisa que vai passar. E é totalmente normal. Eu não tenho problema nenhum em te ajudar durante esse mês pra que você passe esse tempo sem problemas.”

“Problemas?” Derek pediu.

Stiles torceu o nariz.

“Você não pode passar longos períodos longe da pessoa que você imprintou. Não que tenha que ver ela todos os dias, mas pelo menos algumas vezes na semana. Também precisa conversar com ela, trocar histórias, receber alguns toques…” E Stiles pontuou aquilo ao tocar a perna de Derek outra vez. O lobo já sentia seu próprio corpo se moldando ao de Stiles.

Derek suspirou.

“E se eu não fizer isso, o que acontece?”

Stiles ponderou.

“Perda de concentração e memória. Dificuldade para controlar a transformação. Dores no corpo, como se fosse uma gripe horrível. Dificuldade de respirar, se você chegar a ficar dias longe da pessoa. E em alguns casos mais graves, quando elas não podem ficar juntas, diz a lenda que os lobos podem chegar a um estágio de quase morte.”

Derek arregalou os olhos com as palavras de Stiles.

“Mas não se preocupe.” Stiles emendou. “Não tem nada que vá nos separar por esse mês. Pode ficar tranquilo. Eu vou ser o melhor companheiro de imprinting que existe.” O homem apertou a perna de Derek outra vez.

Naquele momento parecia até que Stiles falava com Derek como se ele fosse um amigo, alguém próximo. Só de se lembrar da palavra imprinting, no entanto, Derek sentia um gosto ruim na boca. Era complicado a cabeça dele entender que todos aqueles sentimentos iriam terminar do nada na próxima lua cheia. Como se nunca tivessem sequer existido.

E era pior ainda imaginar que ele nunca teria a chance de ter Stiles junto com ele.