Punklove

16 Felicidade no rosto de um pai


Notas iniciais
Como eu disse, a gente ia trocar o POV da história. E cá estamos. Obrigado a todos os meus leitores por aparecerem pra comentar - e pra quem não aparece, meu obrigado também, já que eu não posso responder a vocês pessoalmente.

Depois de tantas coisas diferentes, tantos momentos estranhos nesse mês que se passou, finalmente cada coisa está no seu devido lugar. Ou pelo menos parece estar. O Derek voltou a ser apenas um aluno meu, e não mais o meu falso-namorado, eu não encontro mais lobos ou garotos pelados no meu pátio e também não preciso mais me mudar para a casa do dito falso-namorado — se bem que os cookies do pai do Derek são maravilhosos, então eu nem me importava muito.

Tudo voltou ao normal, eu falei, não?

Pois é, tudo voltou quase ao normal. Excetuando a parte em que eu estou um pouco obcecado com aquele garoto, meus pensamentos volta e meia ficam imaginando ele apenas com o seu kilt na cintura, sorrindo para mim. Lembro dele pulando em árvores para buscar a bola de beisebol, lembro dos pequenos toques das mãos dele em mim e fico imaginando onde será que está o colar que eu dei para ele — se ele ainda o usa ou o guardou.

Chego até a pensar que eu possa estar gostando dele.

E eu não faço ideia de como isso aconteceu.

Ou melhor, acho que eu sei. A gente ficou esse mês inteiro juntos, almoçando no mesmo lugar, olhando um pro outro, sorrindo e conversando, e eu sei que eu não devia estar pensando nele desse jeito, mas eu sei lá. Não tive escolha. Parece que dei um pedaço de mim por ele e ele reciprocou do mesmo jeito. Eu achei que não iria sentir nada, eu até consegui mascarar os meus sentimentos para ele não perceber muito e me senti mal por ter que mentir.

Mas eu menti, mesmo sabendo que agora não era uma boa hora pra deixar o meu coração pirar dentro do meu peito — principalmente por causa da minha história com o amor.

Não somos muito chegados, pra falar bem a verdade.

Meus relacionamentos sempre foram coisas rápidas e sem sentimento. Nunca consegui ficar com uma pessoa por muito tempo, confiar em alguém pra entregar meu coração. Quando finalmente eu encontrei alguém, esse namorado decidiu ser um filho da puta. Ele me traiu na nossa própria cama e eu tive que fugir de Chicago o mais rápido que pude. Ainda bem que eu consegui um emprego aqui em Beacon Hills, não que eu estivesse mesmo querendo voltar pra cá assim tão logo.

Eu saí da cidade por bons motivos — Nemeton, lobos descontrolados, o bando de Alfas, espíritos japoneses invadindo pessoas, sem falar em todas as criaturas sobrenaturais que eu tive matar durante os meus anos de escola. Eu não estava nenhum pouco preparado para tudo que aconteceu por aqui, por isso mesmo, eu fugi no momento em que tive a chance. E todo mundo fez o mesmo. Beacon Hills iria ser cuidada pela família Hale e eu tinha certeza que eles poderiam manter a cidade salva enquanto o nosso pequeno bando fugia para um lugar melhor. Eles tinham experiência nisso, eles tinham uma vida toda regulada pelo instinto selvagem.

A gente não.

Ninguém estava preparado pro que teve que fazer naquele tempo. Eu nem sabia dos meus poderes até o Scott ser mordido, ainda que a minha mãe tenha sempre falado algumas coisas sobre magia. Mas eu nunca acreditei muito naquilo, até eu descobrir a força que eu tinha por trás dos meus dedos e do meu pensamento. Não que eu seja um mago poderoso. No começo eu era apenas uma faísca, uma pequena força mágica que tinha a possibilidade de descobrir o que poderia ser, de se tornar mais forte, mais poderosa.

Eu consegui isso em Chicago. Conheci magos por lá, aventurei-me numa viagem para descobrir os meus poderes e durante quase dez anos eu estudei para me tornar uma pessoa que soubesse o que estava fazendo. Conheci as mais loucas criaturas que alguém possa imaginar, viajei por boa parte do mundo para ajudar outras pessoas e aprender um pouco mais, entrei em novos bandos, tentei me tornar parte deles e crescer como um emissário.

Em Chicago eu conheci meu antigo namorado, um lobisomem, e entrei para o bando dele. Óbvio que aquilo não deu tão certo quando ele parou de se sentir apaixonado por mim e eu não poderia mais ser o emissário de um bando que eu não me sentia bem-vindo. Eles tentaram me manter por lá, e eu quase fiquei, mas ter que olhar para a cara dele…

Então eu me vi por aqui, de volta. Beacon Hills tem seu próprio emissário de plantão, o Deaton, por isso mesmo eu achei que seria bom eu passar um tempo longe de tudo isso. Minha vida, claro, não queria a mesma coisa, já que na primeira semana de volta às aulas eu me liguei a um lobo. E eu vi muita coisa, mas um imprinting foi a primeira vez. Nem sabia que esse troço existia.

Enfim, voltando ao fato de eu estar me apaixonando por um lobo menor de idade, eu não faço ideia do que vou fazer daqui pra frente. Dar um tempo pras coisas se colocarem no devido lugar, já que o Derek não vai mais precisar passar tantos dias comigo, é uma prioridade. E eu tenho quase certeza que esse sentimento é só residual do tempo que passamos juntos, e ele vai se ir também.

Sem falar no fato de eu não estar nada preparado para me apaixonar de novo. Eu já tive meu coração quebrado uma vez, e ainda não chorei por aquele cara. Tenho certeza que a qualquer hora eu vou parar no meio da rua e começar a chorar do nada. Se bem que aí aquilo passa também.

O jeito, por agora, é me concentrar nas aulas, tentar deixar os lobos se entenderem e viver a minha vida. Com o tempo eu acredito que possa encontrar novas coisas a fazer, novas aventuras que eu queira viver e pessoas que vão fazer parte da minha vida. Tenho que se concentrar em mim e apenas em mim.

Mas o Derek é tão fofo que eu quase não consigo tirar ele da minha cabeça.

Tanto por um punk tatuado, hein?

(e quem disse que os punks não se apaixonam?)

–--

Stiles passou os dias depois do final do imprinting apenas tentando retornar à sua vida. Já que a presença dele não era mais requerida na residência dos Hale, ele voltou pra casa do pai e organizou o quarto dele. Tudo já estava em seu devido lugar no final de semana, a não ser os sentimentos dele, que estavam completamente fora de órbita.

Ele não parou pra pensar muito naquilo.

Quando ele acordou no domingo, o pai estava fazendo café na cozinha.

“Então, tudo voltou ao normal?” John perguntou. Stiles olhou para ele, sem expressar nada e se sentou à mesa.

Ele bocejou antes de falar.

“Eu acho…” Stiles mentiu, não querendo deixar o pai preocupado.

“Ele está mentindo, John.” Uma voz estranha chamou a atenção de Stiles e ele se virou para trás para ver Peter aparecendo na cozinha, cabelos molhados pelo banho. O homem estava sorrindo como se…

“Ugh.” Stiles fez uma cara de nojo ao olhar do pai para Peter. E depois olhar de volta. “Vão pra lá com essa felicidade de vocês. E eu definitivamente não preciso ficar vendo esses sorrisos cheios de malícia.”

Peter riu. John ficou com um pouco de vergonha, mas não disse nada.

“Você acha que só os jovens podem se amar, Stiles? Saiba que o seu pai aqui é um campeão, mesmo já estando longe de ser um jovem.” Peter abriu um sorriso ainda maior.

Stiles fez sons de vômito.

“Tá muito cedo pra mim ficar sabendo sobre a vida sexual do meu pai.” E ele fingiu vomitar mais uma vez. “Eu não quero saber disso. Não quero. Só me avisem quando vocês ficarem por aqui que eu prometo ouvir música bem alta nos meus fones de ouvido.”

John assentiu, um pouco envergonhado com tudo. Peter trabalhou como porta-voz.

“Pode deixar, Stiles. Se eu estiver aqui você vai saber.” E lá se foi mais um sorriso malicioso. E também a vontade de Stiles comer.

Peter se sentou à mesa e John colocou uma xícara na frente dele. Depois, o pai se sentou ao lado do homem e os dois começaram a comer. John se sentava bem ereto na cadeira, enquanto Peter pendia um pouco para o lado do pai do Stiles. Era bastante interessante ver um quarentão punk, com um piercing na língua, ao lado do Xerife da cidade.

Stiles, no entanto, não poderia dizer que não via a felicidade no rosto do pai. Ele não percebeu no começo, mas assim que entendeu tudo que estava acontecendo foi possível ver como o pai havia se tornado outro homem.

Muito tempo atrás, ainda quando Melissa estava em Beacon Hills, Scott e Stiles tinham tentado juntar os dois. Infelizmente os pais deles não conseguiam sentir nada além de amizade um pelo outro, e no final das contas eles desistiram. Então Melissa e Scott foram embora para o outro lado do país e John ficou sozinho por muitos anos. Stiles tinha certeza que o homem sequer tinha tentado alguma coisa desde que ele havia perdido a mulher. Quando ele viu Peter como um lobo se esfregando nas pernas de John, ele conseguiu entender tudo. Ele não sabia há quanto tempo os dois estavam em volta um do outro, mas Stiles estava feliz. Claro, não queria saber muita da possível vida sexual do pai dele — e aquele refluxo até apareceu de novo — mas ele queria o pai feliz.

“Você não disse o motivo de estar mentindo antes, Stiles.” Peter perguntou, tirando ele dos seus pensamentos.

“Mentindo sobre o que?” Stiles pediu de volta, sem se lembrar.

“Sei pai perguntou se as coisas haviam retornado ao normal. Você disse que sim, mas eu consegui ouvir os seus batimentos falhando naquele segundo.” Peter respondeu. John apenas olhou de um homem para o outro, deixando seu olhar em Stiles.

Ele suspirou.

“A maior parte das coisas voltou ao normal. Mas eu não posso dizer que tudo está bem.” Stiles falava lentamente, mas olhava para qualquer lugar a não ser os dois homens. “Infelizmente eu vim pra cá com os meus sentimentos meio frágeis e do nada apareceu um namorado de mentira na minha vida. Acho que eu sou autorizado a ter sentimentos de vez em quando.” Ele se sentiu um pouco zangado ao terminar aquela frase.

Peter levantou as duas mãos, tentando provar inocência. John apenas rolou os olhos para ele.

“Stiles, você está autorizado a ter sentimentos de vez em quando, sim. Nem eu e nem o Peter estamos impedindo isso. Mas você sabe que também não precisa mentir pra mim. Se você precisa se entender sozinho, tudo bem, mas se quiser fala comigo, eu tô aqui. Sou seu pai.” John disse. Stiles sentiu o coração dele se aquecer um pouco, e pode até ver o pequeno sorriso nos lábios de Peter.

É, ele conseguia ver o amor entre eles.

“Todo esse mês de namoro de mentira mexeu comigo. Eu queria fugir de um relacionamento ruim e acabei em outro.” Stiles falou.

“Bom, dizem por aí que a receita pra esquecer um homem é pular pra cima de outro…” Peter falou. John olhou para ele com uma cara feia antes de rolar os olhos de novo — e Stiles pode ver que o pai deu um beliscão na coxa de Peter, que fingiu não sentir nada.

Stiles teve que rir por dentro.

“Isso tudo foi inesperado, eu sei, filho. Acho que você tem que se dar um tempo pra pensar e ver o que vai acontecer daqui pra frente, né? Se esses sentimentos ainda estiverem por aí daqui um tempo, acho que não seria uma coisa horrível você agir de acordo com eles. Claro, esperar o Derek completar dezoito anos é bom, afinal eu sou o Xerife.”

Peter e Stiles sorriram.

“Eu sei, pai. O negócio é que eu não queria ter que pensar nisso agora. Eu só queria dar aulas aqui em Beacon Hills, deixar o passado para trás e começar uma nova fase na minha vida. Em nenhum momento eu pensei que alguém iria aparecer pra roubar os meus planos.”

John olhou com uma cara um pouco triste para Stiles, mas foi Peter quem falou.

“Stiles, eu sei que o imprinting é uma coisa diferente para todos os lobos — aqueles que passam por isso, claro. Não poso esquecer, no entanto, que tudo é possível. Alguns lobos deixam desses sentimentos no passado, outros ficam com aquela pessoa pra sempre. Eu tive imprinting com uma pessoa, mas não faço ideia de onde ela está hoje. E agora eu tenho sentimentos pelo seu pai.” Ele sorriu para John naquele momento. “Se é pra acontecer, acontece. Se não for…”

John olhou com carinho para Peter também, e Stiles até se surpreendeu com o bom conselho do homem. Ele suspirou.

“Eu sei. Tenho que dar tempo e aproveitar um pouco da vida.” Seu pai e Peter assentiram às palavras dele. “Acho que por agora eu tenho que pensar em mim e na minha cabeça.” Ele falou.

John sorriu para Stiles.

“E lembrar de usar fones de ouvido quando eu estiver aqui.” Completou Peter.

Stiles grunhiu.

John apenas deu um tapa no braço de Peter, antes dos dois se olharem e chegarem bem perto para selar os lábios.

Stiles teve que fingir o vômito mais uma vez, ainda que ele se sentisse feliz ao ver o sorriso nos lábios do pai.