Punklove

17 Balas artesanais


Notas iniciais
Uh, mistério chegando. =D

Então, a minha vida parecia estar encaminhando-se para um lugar melhor. Não que eu tivesse esperado algo de muito diferente quando voltei pra cá — “cá” sendo Beacon Hills — mas eu não achei que iria me fazer confortável e quase feliz nesse lugar de novo. E eu estou quase confortável e quase quase feliz. É uma coisa quase boa.

Seria melhor se fosse por completo, mas a gente não pode ter tudo, não?

Estando de volta à Beacon Hills High eu conseguia entrar em contato com uma parte de mim que eu tinha quase esquecido, aquele Stiles do Ensino Médio que era um bostinha, mas tentava fazer de tudo para manter seu grupo de amigos intacto. Eu me lembrava de como eu era horrível com os professores, e o Finstock veio falar comigo sobre isso algumas vezes na sala dos professores. Também me lembro do quanto eu aprontei de peripécias e quantas vezes meu pai teve que aparecer por aqui pra puxar a minha orelha.

A cada corredor que passo eu me lembro de histórias diferentes.

Os troféus guardados ainda mostram o ano em que ganhamos o Campeonato Estadual de Lacrosse, com uma foto de eu, Scott, Jackson e Danny nos apertando para aparecer pra câmera. Também tem as marcas no corredor do ginásio, quando Scott e Jackson tiveram uma briga idiota, tem a biblioteca que nós quase destruímos durante o segundo ano, quando o Harris nos colocou na detenção. Sem falar nos vestiários, que me trazem ótimas memórias de algumas tardes em que eu e Danny nos escondíamos lá pra descobrir um pouco mais sobre nossos corpos.

Tudo isso me traz um sorriso ao rosto e boas sensações pro meu coração. Meus anos naquele colégio me fizeram a pessoa que eu sou hoje, e me sinto feliz por tudo que eu passei ali — ainda que os problemas fossem muitos, sobrevivemos no final.

Sinto falta dos meus amigos, no entanto. Entendo que eles queiram continuar com suas vidas longe daqui e sei muito bem os motivos pra isso, ainda assim eu queria ter eles por perto. Posso ir visitar cada um, algum dia, mas não tenho esperanças de ter eles aqui em Beacon Hills de volta.

E eu nem tinha percebido, mas nesse último mês a minha cabeça acabou se interessando por essa ideia de criar raízes aqui na cidade, voltar a viver aqui de verdade. Não que eu tenha muito a fazer por aqui ou que eu esteja tão interessado em ser um professor de inglês pelo resto da vida. O salário não é ruim e nós temos férias também, mas será que eu estou pronto para ser um adulto estável e sem possibilidades de sair em mais aventuras?

Não sei. Não faço nem ideia se eu estou pronto para viver para sempre no mesmo lugar, afinal que chances eu tenho de encontrar alguém pra mim aqui em Beacon Hills? Nem me fale sobre Derek, que está na minha mente e não quer sair, mas será que ele poderia ser essa pessoa a me fazer ficar por aqui?

Lobos tendem a ficar no mesmo lugar em que nasceram, pelo menos os lobos que já nasceram lobos. Mas será que eu estou pronto para me tornar um homem compromissado desse jeito? E o Derek nem gosta de mim, como que eu posso contar com essa fantasia para se tornar realidade?

Acho que eu não faço nem ideia do que esperar do futuro.

–--

Stiles tinha chegado à escola há poucos minutos. Um dos primeiros a se instalar na sala dos professores, para poder interagir com eles antes de ir para a própria sala, Stiles arrumou o café na cafeteira para que os demais pudessem tomar uma xícara também.

Ele se sentou a uma das mesas e ficou lendo o jornal, ouvindo os professores chegando um a um e apenas levantando os olhos para cumprimentar eles. Depois de um tempo uma figura se sentou ao lado dele, no entanto, chamando a atenção de Stiles.

A mulher sorriu para ele.

“Olá?” Ela falou, simpática. Os cabelos louros caíam por sobre os ombros e ela estava vestida com uma calça jeans e uma camiseta simples. Parecia bonita e atraente, mesmo que um pouco mais velha que o Stiles.

“Olá.” Ele respondeu. “Eu não te vi por aqui ainda. Professora nova?” Stiles falou, colocando o jornal na mesa.

Ela sorriu mais um pouco.

“Ah, sim. Eu entrei aqui há apenas uns dias atrás. Estou ainda me arrumando e entendendo o lugar.” Ela falou. “Meu nome é Kate. Kate Argent.”

Stiles estendeu a mão para cumprimentar ela, fitando a mulher com um olhar curioso.

“Alguma relação com Chris Argent?” Stiles pediu. Uma sensação diferente passou pelo olhar dela durante alguns segundos, mas logo Kate voltou a sorrir abertamente.

“Meu irmão.” Ela disse.

“Você é tia da Allison? Ela era minha amiga na escola.” Stiles falou, feliz em ter encontrado alguém da família de um dos seus amigos. Ao mesmo tempo ele ficou pensando no quanto Kate sabia sobre a situação de Beacon Hills e como Allison fazia parte de um bando de lobisomens uma vez — afinal os Argents eram caçadores de lobos pelo mundo todo.

“Ah, sim. Allison querida. Nós não vemos faz tempo, metade da família acabou ficando na França a outra metade espalhada por aqui. Mas ela sempre foi bastante próxima ao meu coração.” Kate disse. Ela parecia verdadeira o bastante nos sentimentos dela, mas acabou mudando de assunto mesmo assim. “Não imaginei que eles contratariam professores assim novos pra cá.” Ela falou, dando uma curta risada.

Stiles riu junto, sacudindo a cabeça.

“Eu não sou tão jovem assim, vinte e sete anos já. Mas eu sei que minha cara parou de amadurecer no Ensino Médio e eu sempre me sinto preso por lá. Acredite se quiser, ainda perguntam minha identidade em alguns bares.” Stiles disse, tentando seguir com o assunto, ainda que ele sentisse essa troca de temas bastante rápida.

“Mesmo com essa montanha de tatuagens aparecendo?” A mulher pediu, lançando um olhar mais sedutor para Stiles. Ele se sentiu um pouco desconfortável com a atenção, afinal ele não tinha pensado na mulher em outras maneiras.

Ele esfregou os braços.

“Ah sim, eles nem prestam muita atenção. Acho que é o piercing que dá essa sensação de adolescência tardia e tal.” Ele riu, tentando fazer uma força mental para Kate deixar de olhar para ele daquele jeito. A mulher percebeu o desconforto dele e direcionou o olhar dela para o outro lado da sala.

Por alguns segundos ela ficou em silêncio, antes de se virar para ele com um sorriso.

“Foi bom conhecer você. Acho que eu vou ali pegar um café e vou ir pra minha sala.” Ela falou, já se levantando.

“Boa aula pra você.” Stiles falou, ainda não entendendo a mudança de humores e assuntos assim rápida. Mas a mulher parecia agradável o bastante.

“Ah, pra você também, Stiles.” A professora respondeu antes de se virar e seguir seu caminho.

Enquanto caminhava para a própria sala, minutos depois, Stiles se encontrava um pouco desconfortado com a conversa com Kate. Ele não conseguia entender direito o que tinha sentido nas energias da mulher. Quem sabe ele só estava meio perdido com tudo o que havia acontecido e até os poderes dele estava descontrolados. Ainda assim ele demorou um tempo para perceber o que o fez se sentir tão estranho.

Kate sabia o nome dele.

E Stiles não tinha dito o nome pra ela.

Bom, quem sabe os outros professores haviam falado alguma coisa. Não havia porque achar que havia algo fora do comum em falar quem eram quais professores na escola. Sem falar que Stiles nem se apresentou pra ela, o que era uma falta de respeito. Ele só se sentiu meio estranho em volta dela, sem saber muito o que fazer.

Provavelmente era culpa do imprinting mesmo, deixando ele meio fora da própria cabeça.

Ou a paixonite aguda atingindo os sentidos do Stiles.

Ainda assim ele se prometeu prestar atenção na presença da mulher, mesmo que fosse só por precaução.

–--

“Então, Stiles, o que você vai querer pro jantar hoje?” Peter perguntou, segundos depois de Stiles entrar pela porta de casa. O homem estava na cozinha, vestindo um avental e segurando um pano de prato na mão.

Por pouco Stiles não começou a rir, assumindo estar assustado demais para conseguir aquilo. Ele continuou o caminho para seu quarto, sacudindo a cabeça, com Peter indo atrás dele.

“Você vai se mudar pra cá, então?” Ele pediu.

Peter fez uma careta ao não receber a resposta de Stiles.

“Eu não vou me mudar pra cá, mas você trabalha o dia todo, John trabalha o dia todo e eu só trabalho nos finais de semana. Não vejo motivos pra eu não aparecer por aqui e fazer comida pro meu homem e pro filho dele.” Peter disse, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.

Stiles parou no último degrau da escada, olhando para Peter perto dele.

“Você nunca namorou alguém de verdade, não é?” Stiles falou. O homem olhou para ele com um pouco de curiosidade, interesse no olhar, mas se manteve em silêncio. “Pra quem viveu uma vida punk cheia de namoradas e namorados, você parece bastante interessado na vida calma de um homem casado.”

Peter mordeu o lábio. Ele suspirou.

“Parece isso, não?” Peter perguntou mais para si mesmo do que para Stiles.

“Parece.” Stiles respondeu.

“Eu nunca fiz nada assim. Acho que nunca senti nada assim também. Não quero perder essa chance.” Peter falou. Naquele instante até parecia que ele era um adolescente indeciso, muito diferente do homem que Derek tinha dito ser um lobisomem livre e maluco.

Quem sabe os Stilinski tinham um charme especial? Pena que Derek não tinha percebido aquilo.

Stiles sacudiu a cabeça para deixar de pensar em Derek.

“Eu não vou te dar conselhos pra namorar o meu pai. Acho que você tá indo bem, se o velho ainda não te chutou pra fora daqui. Só se lembra de que ele nunca namorou ninguém antes, então eu nem sei o que ele está esperando disso.” Stiles disse, apontando para Peter e mencionando o relacionamento deles.

O homem apenas assentiu para Stiles.

“Eu vou tirar esse avental e seguir com o jantar.” Peter falou.

Stiles torceu o lábio.

“Pode deixar o avental, Peter. Não tem problema. Mas eu acho que é bom você conversar com meu pai e decidir o que vocês querem de tudo isso. Não vou ser eu que vai fazer alguma diferença pra esse relacionamento de vocês.” Stiles viu Peter apenas assentindo antes de se virar para descer as escadas e ir para a cozinha.

Ele subiu para o quarto, pronto para tomar banho, se perdendo embaixo da água.

Quando desceu de volta o pai já estava na cozinha conversando com Peter. Parecia que os dois estavam se acertando, por isso mesmo Stiles optou por ir para a sala de casa e ligar a TV para não atrapalhar eles. Um telejornal estava passando no canal em que a TV se ligou. Umas notícias não eram tão interessantes para Stiles, por isso ele só prestou atenção nelas com um pouco de sua mente.

Alguns minutos depois, no entanto, uma manchete o fez olhar atentamente para a tela.

“Dois lobos foram encontrados mortos nas estradas da região do condado de Beacon. A polícia não sabe informar de onde os animais vieram, já que lobos são raros pela Califórnia, mas especula-se que eles tenham descido do Oregon pelas florestas. Os dois animais foram mortos por caçadores não autorizados, já que as balas encontradas na carcaça dos animais foram feitas artesanalmente.”

Stiles prestou atenção às palavras da mulher na TV. Ele refletiu por um instante nas palavras dela. Lobos mortos na estrada, nada muito anormal, afinal era possível que alguns animais descessem do norte para as florestas verdes de Beacon Hills. Agora, caçadores não autorizados com balas artesanais? Que tipo de balas eram aquelas? Será que poderiam ser…

Ele coçou a cabeça por um instante, levantando do sofá para ir até a cozinha.

“Peter?” Stiles pediu, esperando o homem se virar do fogão para ele. O pai de Stiles deveria ter ido para o banheiro tomar o seu banho antes da janta.

“Sim?” O homem respondeu.

“Todas as balas com acônito não feitas artesanalmente, não?” Ele pediu. Peter olhou confuso para ele por um instante, pego de surpresa pela pergunta.

“Eu acredito que sim.” O homem disse.

“Você ficou sabendo sobre lobos mortos nas florestas daqui de perto?” Stiles pediu.

Peter sacudiu a cabeça.

“Não.”

“Dois lobos foram mortos. Com balas artesanais.” Stiles falou logo depois que Peter respondeu a ele. “Não que isso seja um sinal de alguém caçando lobisomens, mas aparições de lobos são raras por aqui. E justamente quando dois aparecem pelas florestas da região, do nada, são mortos com balas artesanais. É possível que haja caçadores por aqui?”

Peter esperou por um momento, pensando.

“Não faço ideia. O tratado feito com os Argents foi selado há anos. E nada mais aconteceu.” Peter disse.

Stiles respirou fundo por um minuto, lembrando-se da manhã dele.

“A irmã de Chris voltou pra cá. Kate. Kate Argent.” Stiles falou. Ele viu o rosto de Peter se contrair, tensão aparecendo nos olhos dele. “Existe a possibilidade de…”

“De ela ser uma caçadora?” Peter completou. “O pai de Chris sempre disse que Kate era a melhor caçadora na família. Pelo menos era o que ele dizia antes de morrer.”

Os dois ficaram se olhando por um segundo, sem nem saber o que dizer.

“O jantar está pronto?” John perguntou, aparecendo pela cozinha. Peter sorriu, mesmo que um pouco falso, despistando o assunto da conversa dele com Stiles, que tentou sorrir um pouco também.

“Tudo pronto.” Disse Peter. John foi até ele e deu um beijo no rosto de Peter, que olhou diretamente para Stiles, transmitindo com seus olhos o que eles não poderiam dizer.

Falaremos mais sobre isso, Stiles.

Stiles apenas assentiu para o homem.