Punklove
8 Acônito
Notas iniciais
Quando o Stiles me levou para casa — depois de eu ter acordado pelado na grama da casa dele, ter encontrado com o Xerife, pego roupas emprestadas do Stiles, tomado café com os dois, recebido uns olhares estranhos de John e ainda ganhado uma lição sobre imprinting de graça, já que o pai de Stiles tinha passado por aquilo — eu encontrei com a minha família de braços abertos esperando por mim na varanda da nossa casa.
E confesso que me senti como uma criança voltando de uma viagem longa, pois apesar de eu me sentir feliz com Stiles ao meu lado, eu também queria a minha casa, minha família, minhas coisas ao redor de mim.
O imprinting me deixa sem chão e eu preciso usar alguma coisa como uma muleta para seguir em frente. E ainda tinha o fato de que os momentos após uma corrida na floresta, mesmo que não fosse à lua cheia, sempre deixavam um lobo cansado e precisando de seu bando. No meu caso era mais importante ainda estar com eles já que eu havia me transformado completamente e perdido a noção das coisas, acordando em um lugar desconhecido — quase desconhecido nesse momento.
Minha mãe me deu um bom café da manhã, junto com os outros membros da nossa alcateia, e depois me mandou dormir. Eu já tinha comido junto com os Stilinski, mas minha mãe me disse que eu precisava de bastante comida, precisava refazer as minhas forças e depois ir repousar.
Dormir, no entanto, não foi a coisa mais fácil naquele momento.
Minha cabeça continuava piscando com imagens de Stiles das mais diferentes formas. Era como se o meu lobo estivesse tomando conta do meu cérebro e mostrando apenas as melhores qualidades que Stiles tinha. Ele mostrava imagens que provavam que o homem iria ser importante na minha vida, que poderia ser um bom companheiro para mim. Eu conseguia ver os sorrisos, as boas ações, os poucos toques dele em mim.
Sem falar no momento em que quase no beijamos na mesa do café.
A cada dia uma vontade maior de estar com Stiles cresce dentro de mim. No começo eu apenas tinha esses sentimentos estranhos por ele, um amor que parecia real e imaginário ao mesmo tempo. Depois de algum tempo eu comecei a sentir essa necessidade de ficar próximo dele, de chegar mais perto, de passar algum tempo com ele durante o dia. Então eu comecei a ver ele na minha cabeça, minhas fantasias acabam ficando borradas e se transformando nas tatuagens que pintam o corpo de Stiles ou nas partes do corpo dele que eu lembro mais facilmente.
Depois dessa noite, no entanto, eu comecei a ver o Stiles por completo na minha cabeça.
Eu não conseguia dormir porque eu o via tocando o meu corpo, quase sentia a boca dele beijando a minha, a pele dele colada na minha. Era como se eu estivesse do lado dele, pronto para largar todas as minhas defesas e pular pra dentro desse sentimento maluco.
E o meu corpo reagia muito bem àquelas imagens.
Confesso que a segunda semana do imprinting foi cheia de momentos bastante, bom, bastante duros — se você entende o que eu estou falando. Fora aquilo, a semana passou sem nenhum problema maior — graças aos deuses lupinos. No entanto eu tenho que confessar que almoçar junto com o Stiles quando eu tinha imagens dele nu na minha cabeça era bastante complicado.
Ainda bem que eu era o lobo e não ele, pois o meu coração batia loucamente, eu me sentia excitado a quase todo o tempo e minhas emoções estavam completamente descontroladas.
Depois de uma semana descobrindo aos poucos o que tudo isso significava, tendo almoços com Stiles e tentando controlar o lobo dentro de mim, eu apenas tive aquele pequeno incidente no final de semana, aparecendo pelado na casa dos Stilinski. E eu digo que foi apenas um incidente porque as minhas emoções estavam tão magnificadas que eu tinha certeza que poderia fazer algo muito pior.
Mas e à medida que o tempo ia passando, o imprinting também iria piorar?
Eu não fazia ideia de que aquele tipo de coisa poderia acontecer com mais um monte de dias dessa coisa maluca. Se no final da primeira semana eu estava aparecendo nu na casa do Stiles, o que iria acontecer mais pra frente?
Eu não fazia ideia. Mas tinha medo.
Até o final da segunda semana eu consegui me controlar, mas já nos dias que antecediam o sábado e o domingo eu tinha essa sensação de que alguma coisa iria acontecer. O meu lobo parecia estressado, enchendo o meu saco a todo o tempo, grunhindo ou choramingando na minha cabeça, como se ele precisasse de Stiles. Eu não conseguia entender muito bem, já que nós continuávamos com a mesma rotina que havia funcionado na primeira semana.
Será que o meu lobo precisava de mais?
E o que seria mais do que aquilo?
Eu sei que nós quase havíamos nos beijado na mesa do café dele, mas aquilo não iria acontecer, né? Stiles já tinha seus vinte e sete anos e não iria se interessar por um adolescente como eu. Sem falar que os sentimentos que eu tinha dentro de mim nem eram assim verdadeiros.
Mas eu não poderia negar que queria beijar ele.
Não poderia mesmo.
Só de imaginar o corpo tatuado de Stiles se esfregando no meu, os lábios dele percorrendo meu corpo, aqueles dedos finos esfregando em mim e no meu...
Eu acho que não posso pensar nisso. Não é exatamente muito saudável eu ficar imaginando fantasias sobre uma coisa que não é verdade, principalmente porque eu ainda tenho que ficar na presença do Stiles por mais duas semanas e não iria ficar bem eu continuar imaginando o corpo dele junto ao meu, imaginar o corpo tatuado dele se esfregando no meu e meu levando à loucura…
E eu realmente preciso de mais banhos frios.
E acho que toda essa tensão tem que sair por algum lugar — o que poderia ser bem fácil se eu não aparecesse pelado na casa do Stiles a cada vez que fosse me transformar em lobo.
Que dilema.
–--
O almoço com Stiles na sexta-feira estava por começar. Derek já tinha deixado seus amigos na cafeteria e partido pelos corredores da escola até a sala do seu professor. Ele ainda não tinha visto Stiles naquela manhã, então ele já sentia um pouco de falta do homem — coisa que deixava Derek maluco.
Aquela coisa toda de imprinting estava deixando ele sem saber o que pensar. Mesmo que Derek soubesse que tudo iria passar, que tudo era só uma coisa da cabeça dele e que no final das contas tudo iria ser apenas uma lembrança engraçada no passado dele, Derek queria que tudo terminasse logo para ele poder viver a vida normal dele de adolescente, poder sentir as paixonites normais e não se perder em sentimentos que nem ele entendia.
Claro que a vida de punk que Derek tinha não atraía muitas pessoas para perto dele, mas ele preferia daquele jeito. Derek não gostava de ter que lidar com muitas pessoas fora do bando dele — e agora tendo que entender o sentimento que ele tinha por Stiles era uma coisa complicada por demais pra o garoto.
Chegando com seus dedos à porta para bater fazia o coração dele saltar. Só a ideia de estar na presença de Stiles o deixava com as emoções à flor da pele.
“Pode entrar!” Stiles disse lá de dentro.
O garoto respirou fundo antes de puxar a porta.
“Oi?” Ele disse, entrando devagar na sala do homem.
Stiles tinha seu lanche na mesa, pronto para ser comido. O homem bateu carinhosamente na cadeira que já estava o seu lado, lugar onde Derek faria sua refeição. Os dois seguiram basicamente a mesma mecânica das outras vezes em que dividiram o almoço. Derek iria chegar e colocar sua bandeja ao lado de Stiles, os dois iriam comer devagar, trocando algumas palavras enquanto estavam um ao lado do outro.
Só a presença já era o bastante para o lobo dentro de Derek se acalmar.
Ou pelo menos era o que deveria ser, mas naquele dia o garoto sentia algumas coisas diferentes enquanto comia. Mesmo com Stiles ao lado dele, roçando seu braço com o de Derek, o lobo dentro dele continuava inquieto, queria algo mais. Ainda não era nada incontrolável, nada que o garoto não pudesse domar dentro de si próprio — mas se Derek já estava assim à presença de Stiles, imagine só como ele iria estar durante o final de semana?
E Stiles conseguia sentir essa mudança em Derek.
“Alguma coisa aconteceu?” Pediu Stiles, terminando o seu almoço e colocando a bandeja dele de lado. Derek respirou fundo ao interpretar a pergunta de Stiles, já que ele não sabia se o homem estava pedindo sobre o imprinting ou sobre outra coisa — mas era mais óbvio que ele iria perguntar sobre a única coisa que eles tinham em comum.
“Eu acho que o meu lobo tá ficando mais estressado com tudo isso. Eu não sei, é o que eu sinto.” Ele falou, notando o olhar de Stiles. O homem tinha um semblante que misturava calma e preocupação. Calma pra controlar a situação, mas ainda assim um pouco de preocupação com tudo que estava acontecendo com Derek — o que não ajudava muito o garoto a não sentir nada mais pelo homem.
“Você acha que a gente precisa achar mais coisas para fazer juntos? Eu sei que o café que a gente tomou junto no domingo passado fez bem pro seu lobo. E o meu pai também disse que na medida em que o imprinting avança o lobo quer mais contato com a pessoa que ele imprintou.” Stiles falou, antes de completar. “E a gente não quer que a mesma coisa que aconteceu no final de semana passado se repita. A não ser que você prefira assim.”
Enquanto Stiles riu um pouco o rosto de Derek se pintou com uma cor vermelha de vergonha. O homem pegou na mão de Derek e não deixou ele sentir muito daquilo, no entanto.
“Você sabe que não é nenhum problema você estar passando por isso, não sabe?” Stiles disse, tentando fazer Derek olhar para ele sem sentir receio. “Eu nunca passei exatamente por isso, afinal grande parte dos lobos que eu conheci foram mordidos, mas eu acho que a gente pode superar isso sem problemas maiores. A gente já andou metade do caminho, o resto não deve ser tão difícil, né?” Stiles perguntou retoricamente.
Derek apenas assentiu.
Os dois ficaram alguns instantes em silêncio, com Stiles segurando na mão de Derek.
Eles voltaram para suas salas sem ter combinado nada para fazer no final de semana, mas Stiles tinha prometido que ele iria pensar em alguma coisa e ligar para Derek.
–--
“Acorda, lobinho-do-sol!” A voz estridente de Erica junto com as batidas de um travesseiro na cara dele não eram a forma mais boa de ser acordado — mas só de perceber rapidamente que ele estava na própria cama, dentro de sua casa, já fez com que Derek tivesse mais vontade de levantar.
Ele grunhiu mesmo assim.
“A gente vai sair hoje de manhã para nadar no lago.” Boyd falou de algum lugar do quarto. Derek não fazia ideia onde, no entanto. “Depois a gente volta pra almoçar e você pode ir se arrumar pro seu encontro.” O garoto falou, mudando a voz na última parte da frase.
Erica e Isaac riram, Boyd se juntando a eles.
Derek abriu os olhos rapidamente e se levantou, olhando para os três.
“Encontro?” Ele pediu, voz ainda rouca pela noite de sono. Derek viu o enorme sorriso na boca de Erica, o riso escrito na cara de Isaac e a cara fechada de Boyd, a não ser por uma sobrancelha se levantando.
A outra coisa que ele viu foi o ramalhete de flores na ponta da cama dele.
Um ramo de flores azuis. Acônito.
“Essas não são…” Derek começou a falar.
“Venenosas para lobisomens?” Erica perguntou. “Aparentemente o seu pretendente achou um lugar que venda uma espécie que só tem a beleza das flores, mas nada do veneno. Eu não faço ideia de como ele conseguiu isso, mas Der-Der, um homem que faça isso por você deve ser um partidão.” Ela falava com uma alegria contagiante — pena que Derek não conseguia sentir aquilo.
Isaac tinha o cartão que veio junto com as flores em sua mão.
“E parece que ele é uma pessoa boa, também. O cartão parece bem fofo.” O garoto falou. Derek até pensou em levantar da cama e arrancar tudo aquilo das mãos dele, mas não iria adiantar muito mesmo. Lobos não tinham segredos um com o outro.
“E o que diz?” Derek pediu, chegando mais perto para cheirar as flores e percebendo que elas apenas tinham um cheiro leve, simples. Nada venenoso.
A voz de Isaac o fez olhar para o garoto de novo.
“Espero que as flores possam alegrar você e seu lobo. E o nosso jantar de hoje à noite também. Stiles.” Isaac terminou de ler e olhou para Derek com a expectativa pulando pra fora de seu rosto de tão grande. Erica também parecia excitada.
Boyd foi o único que falou.
“Quem vê até parece que o professor tá apaixonadinho.”
Por uns instantes o coração de Derek até bateu mais forte, pensando em como aquilo poderia ser verdade, mas então as gargalhadas de sua gangue soaram pelo ar e o sentimento murchou como um bolo solando. Era óbvio que Stiles estava fazendo questão de ajudar Derek com tudo que estava acontecendo, mas não seria nada mais do que um favor.
Um favor que Derek nem sabia como pagar.
As risadas de seus amigos não pararam por um bom tempo.
Pelo menos ele poderia imaginar nas fantasias dele que aquilo poderia ser um encontro de verdade.
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