Punklove

9 Tempo que voa


As palavras de Stiles ficaram na minha mente por todo aquele dia. Aquele cartão parecia tão simples, como se eu e ele estivéssemos saindo para um encontro naquela noite e ele estivesse tentando ser fofo e querido comigo, e ainda que eu quisesse negar, era exatamente aquilo que estava acontecendo. Claro, pro meu lobo tudo era perfeito, já que ele estava completamente apaixonado por Stiles. Por outro lado, minha cabeça continuava perdida com tudo aquilo e eu estava esperando pelo momento em que as coisas iriam acabar.

E acabar mal.

Eu sei que no final de tudo eu não ia mais me sentir apaixonado por ele. Mas o que eu iria sentir? Como eu ia olhar o Stiles no rosto, sabendo que eu me fiz de bobo pra ele? Como ia ser a nossa relação de professor e aluno depois que eu parasse de me sentir apaixonado por ele? O que eu ia ter em meu coração? Algum tipo de agradecimento? Uma paixão não correspondida? Apenas amizade? Nada?

Muitas perguntas e poucas respostas. Ou melhor, quase nenhuma resposta.

O jeito era esperar pelo futuro mesmo, enquanto eu tentava aproveitar o momento. Meu lobo não se importava em nada com o futuro, para ele o presente era a melhor coisa que poderia acontecer.

E a cada segundo eu achava mais e mais difícil de controlar a minha mente e não seguir o animal dentro de mim cegamente.

Mas enquanto o futuro não vinha, eu ainda tinha que fazer o tempo passar, junto com o meu sábado inteiro, para apenas então ir ao encontro com Stiles, o encontro planejado para tentar evitar que eu aparecesse nu no jardim dele outra vez.

Depois que meus amigos me acordaram com os presentes de Stiles, Isaac leu o cartão pra mim e Erica e Boyd encheram o saco por mais um tempo, nós todos saímos para nadar no lago durante a manhã. Era frio pra cacete e a água parecia mais gelada do que eu gostaria que fosse — o que no final das contas foi bom, já que eu consegui me preocupar um pouco mais com o frio do que com Stiles.

Mas ele voltava à minha mente de vez em quando — a cada meio minuto.

Quando nós voltamos para almoçar eu já estava com a cabeça meio perdida, mas ninguém percebeu muito. Ou se alguém percebeu não disse nada. O Tio Peter ainda olhou para mim de um modo estranho por alguns instantes antes de sair para um encontro secreto — e sério, ultimamente ele tinha saído mais vezes do que eu pra ir à escola, sempre voltando com sorrisos e frases meio abobadas. Até parecendo apaixonado.

Ou tendo o seu imprinting.

A mamãe, no entanto, disse que o Tio Peter já tinha passado por aquilo e que agora era provável que tudo era apenas culpa do vírus da paixão. Bem que eu queria que o que eu sentia fosse esse tal vírus da paixão ou qualquer outro vírus, não essa coisa chata e mentirosa de imprinting.

Eu já tava mais do que cansado de gostar do Stiles, mas saber que era de mentira. Eu queria gostar dele de verdade, mas eu sabia que assim que tudo passasse eu não iria mais sentir nada por ele — e como isso seria possível? Só de ver o professor na sala de aula eu já ficava todo quente, meu lobo uivando dentro de mim pra correr pra ele. Toda vez que eu ficava excitado, a primeira imagem que surgia na minha mente era ele me abraçando, me beijando ou fazendo amor comigo. E se não fosse loucura o bastante, eu ainda tinha um encontro com ele, só porque meu lobo precisava da companhia e o Stiles era uma pessoa boa demais pra me deixar no vácuo.

Mas e quando tudo se acabasse?

Eu realmente não queria pensar naquilo. Era como se eu nem soubesse o que iria sobrar de mim, desse sentimento.

E eu também não queria nem imaginar.

–--

Derek estava terminando de ajeitar o cabelo quando olhou para o relógio, checando a hora mais uma vez. Stiles tinha enviado uma mensagem para Derek para dizer como eles iriam sair, onde jantariam, como Derek deveria se vestir e coisas do gênero, todos os detalhes para que a noite deles fosse perfeita. E só de ler a mensagem o coração do garoto já batia forte e descontrolado.

A cada detalhe parecia mais e mais que Stiles estava fazendo tudo aquilo por Derek e só. E ele não tinha como não se sentir mais do que especial. O animal dentro dele uivava feliz e orgulhoso de ter alguém que se importasse com ele, que quisesse tomar conta do lobo.

E Derek não sabia nem como controlar todo o redemoinho de emoções dentro dele.

Era mais fácil olhar para o espelho, se arrumar e contar os minutos para sair do que pensar no resto.

Com uma calça jeans justa e com alguns rasgos na perna, uma camisa azul escuro antiga e uma bandana na cabeça, segurando os cabelos para trás, Derek se achava quase pronto para sair com Stiles. Seguindo as ordens de se vestir casualmente, pois eles iriam para um bar punk de algum lugar perto de Beacon Hills, o garoto ainda sentia falta de alguma coisa em seu corpo — e foi aí que ele notou o colar com o pingente que Stiles havia dado a ele deitado na sua mesa.

Derek pegou a corrente e colocou no pescoço, abrindo uns botões da camisa para poder deixar o peito à mostra com o pequeno talismã dos sentimentos deles dois — claro que aquilo tudo não se passava de um devaneio dos hormônios licantrópicos, mas Derek não conseguia não se deixar aproveitar aquela sensação de pertencer a alguma coisa. Pertencer a alguém.

Ele se sentia um pouco emocionado por dentro porque Stiles tinha pensado em uma noite para que Derek ficasse à vontade, dentro da comunidade a qual ele pertencia e fazendo as coisas que ele gostava de fazer. Stiles tinha até dito que eles poderiam ir com a moto de Derek, que seria melhor para ele ter o controle da hora que ele quisesse sair e não se sentir acuado. E com tudo aquilo, mais o pingente em seu peito, mais as flores e o cartão que Stiles havia o enviado, Derek se sentia completamente apaixonado por Stiles.

Ou pelo menos o seu lobo sentia aquilo, pois na cabeça do garoto os sentimentos eram completamente bagunçados.

–--

Ele chegou à casa de Stiles em sua moto e buzinou uma vez para anunciar a presença. Independente de ele ter sido criado para ser respeitoso e cumprimentar as pessoas, a ideia de ir até a porta da casa de Stiles e ter a chance de encontrar o pai dele lá dentro, ou pior, encontrar o Stiles em qualquer situação que fosse diferente da que ele esperava — tipo, nu só vestido em uma toalha — fez com que Derek esperasse por ele na garupa de sua moto, usando o capacete.

Derek não precisou esperar muito, no entanto. Em pouco tempo, Stiles saiu pela porta da casa, sorrindo.

A garganta de Derek se fechou e ele quase engasgou ao ver o homem indo na sua direção. Stiles vestia uma regata bem batida pelo tempo, mas aberta o bastante para poder mostrar todas as tatuagens coloridas cobrindo seu corpo. Nos pés ele vestia botinas de couro, que combinavam perfeitamente com o kilt preto que ele estava vestindo.

Stiles era perfeito daquele jeito.

E Derek não sabia nem em que mundo estava ao ver o homem assim.

Se o lobo já havia se rendido à Stiles apenas por ele ser do seu jeito, ele agora tinha personificado tudo que Derek achava perfeito. E se os sentimentos do animal eram óbvios, os de Derek tinham pirado completamente.

“Olá.” Disse Stiles ao chegar perto dele. O homem passou a mão pelos cabelos uma vez, sorrindo. Os seus piercings brilhavam com um pouco da luz do sol que ainda tinha no final da tarde.

“Oi.” Derek disse, quase sem fazer a voz sair.

Os dois ficaram se olhando por alguns instantes. O sorriso de Stiles não terminava. O nervosismo de Derek também.

“A gente pode ir?” O homem pediu, apontando para o capacete na mão de Derek. O garoto olhou para a própria mão, notou o capacete, olhou para Stiles uma vez e só então percebeu o que ele teria que fazer.

Assim que ele tinha o capacete em suas mãos, Stiles o colocou facilmente sobre a cabeça, e sem dar uma chance para Derek se mover ele subiu na moto e em segundos se colou em Derek, deitando sua cabeça nos ombros do garoto e abraçando ele com suas mãos. O tecido do kilt de Stiles cobriu quase todo o banco e um pouco das pernas de Derek. Em sua bunda o garoto pode sentir a pressão das coxas de Stiles e, se ele não estava errado, outras coisas também.

Ele não queria pensar naquilo, mas estava bem difícil.

“Vamos?” Stiles falou, sorriso em sua voz. “Se a gente for logo acho que dá tempo de achar uma mesa boa e ficar pra ouvir o que tiver de música por lá.” Ele apertou suas coxas contra as de Derek, como se estivesse fazendo um cavalo andar e riu.

Os tremores que correram pelo corpo do garoto foram engolidos pelos tremores da moto dando partida, pois Derek teve que fazer alguma coisa para não gozar ali na hora sem nem se tocar.

Logo os dois estavam a caminho do Punk.

Stiles apresentou o pequeno bar para Derek antes de ir à mesa que havia reservado. O lugar era um bar/restaurante que era cuidado por um velho colega de Stiles chamado Greenberg. Todas as comidas eram temáticas, mas simples. As bebidas eram de qualidade e a música sempre era bem alta.

Quando os dois se sentaram, prontos para esperar pelo pedido deles, Derek corria seus olhos pelo lugar, tentando evitar Stiles. Claro que o homem percebeu, e logo já tinha pegado na mão de Derek.

“O que foi?” Ele pediu, apertando os dedos do garoto.

Derek olhou para Stiles sem saber o que dizer.

“Nada demais.” Ele tentou responder mesmo assim.

“Você não gostou do lugar? Não gostou das flores?” Stiles pediu, uma nota triste em sua voz. Derek desfez um pouco da carranca em seu rosto para protestar.

“Não, não. Eu adorei tudo. As flores são lindas, o cartão foi muito legal e o lugar é maravilhoso.” Derek falou rapidamente. Um pequeno sorriso se abriu no rosto de Stiles. “Eu só estou confuso, sabe? Isso tudo é meio maluco pra mim.” Ele falou, tentando não entrar em detalhes.

“Eu não consigo nem imaginar, falando a verdade.” Stiles respondeu. “Mas eu acho que você poderia aproveitar a noite e tentar ignorar o resto. Porque se preocupar com o futuro se o agora parece ser bem legal? E eu falei que iria te ajudar até o final disso e a gente já tá na metade.”

Derek apenas assentiu às palavras de Stiles.

“E sinceramente, eu prefiro dividir um jantar com você do que ver a cara do meu pai ao te encontrar pelado no nosso jardim.” O homem falou, rindo. Derek não pode se segurar e riu também, tentando entender o tamanho do absurdo que era tudo aquilo.

Ele balançou a cabeça ao abaixá-la.

Stiles apertou na mão dele de novo, fazendo Derek olhar para ele outra vez.

“É isso que eu quero ver, Derek. Esse sorriso aí.” O homem disse. Derek sentiu seu rosto se aquecer. Stiles riu um pouco.

“Aproveite a comida e a música — eu tenho certeza que você vai se divertir quando ver quem vai tocar aqui. E tente esquecer um pouco do resto. Eu não te trouxe aqui pra ver você fechado e pensando no resto das coisas chatas da vida. Aproveita hoje pra viver as coisas legais, okay?” Stiles pediu e Derek apenas assentiu, sorrindo um pouco.

Poucos minutos depois a comida deles chegou. Yakisoba com carne em formato de guitarra e de sobremesa um monte de doces em formato de pregos. Derek achou tudo muito mais legal do que ele poderia ter imaginado e só de conversar com Stiles sobre a comida e o lugar já fez ele se esquecer de um pouco do resto. Quando ele se deu por si, a banda já estava se instalando no palco e o vocalista começou a cantar alguma coisa maluca e cheia de gritos.

Foi só na terceira música, quando o vocalista deu um berro para o dono do bar “Cala a boca, Greenberg!”, que Derek percebeu que a banda Lacrosse y La Sangre era comandada pelo Técnico Finstock, o cara que ficava gritando durante as aulas de Educação Física.

Ele apenas olhou para Stiles com seus olhos abertos e depois riu. Era impossível ele ter descoberto antes quem era o homem, já que Finstock estava com uma peruca e sem camisa, vestindo apenas uma calça apertada. O rosto estava cheio de maquiagem.

Ao longo do show ele foi relaxando cada vez mais e rindo também, até o momento em que a banda fez alguns covers do Ramones, fazendo com o que bar todo cantasse — até Stiles. Derek se perdeu com a atmosfera do lugar, nem percebendo que a mão de Stiles continuava na dele — e por baixo da mesa as pernas de Stiles estavam em volta de uma das dele, fazendo um carinho calmo e sem pressa.

Quando o show acabou, Stiles saiu da mesa para pagar a conta para eles — e Derek sentiu a falta do toque dele, mas nem conseguiu pensar em abrir a boca. Seu lobo amou saber que alguém estava tomando conta dele. Assim que Stiles voltou à mesa e pegou na mão de Derek para puxar ele para fora do bar, os dois se viram na rua escura.

“Muito obrigado pelo encontro.” Disse Stiles, sorrindo.

Derek só conseguiu assentir, incapaz de se concentrar com a atenção que Stiles estava dispensando para ele.

“Vamos embora, lobinho.” Stiles falou, pegando nas mãos de Derek e guiando ele para a moto. Sem nem perceber, Stiles pulou na parte da frente do banco e alcançou um dos capacetes para Derek, apontando para o banco de trás.

A viagem de volta, colado em Stiles foi incrível — mas Derek teve que desencostar um pouco dele, senão aquele problema de antes não seria mais um problema, senão uma realidade. E com uma calça como a dele, voltar todo melado pra casa não seria legal.

Antes de ele perceber, os dois tinham chegado de volta e Stiles beijava a bochecha de Derek para se despedir, indo para sua casa. Dali até a cama de Derek o tempo voou e quando ele percebeu ele já estava acordando no outro dia — com sorte, em sua própria cama, o que foi um alívio que ele não esperava ter sentido.

Aquilo significava que o encontro dele com Stiles tinha funcionado e ele não precisaria encontrar com o Xerife olhando para ele enquanto Derek tentava cobrir os seus documentos. Por outro lado, a noite passada tinha corrido de uma forma maluca, como se o tempo estivesse voando e Derek não pudesse parar ele e aproveitar os segundos. Ele se lembra de momentos do que aconteceu, mas parece que tudo foi só uma lembrança borrada e maluca no cérebro dele.

Mas pelo menos ele estava em sua cama.

O que ele não pode dizer na segunda-feira, já que Derek abriu os olhos na manhã do outro dia apenas para ver a cara do Xerife olhando para ele outra vez.

“Isso já está ficando sem graça.” O homem murmurou, alcançando uma manta para Derek se cobrir após acordar nu mais uma vez no pátio dos Stilinski.