Punklove
1 A primeira aula
Há uns dez anos, eu não tenho certeza exata do tempo, Beacon Hills enfrentou um monte de ocorrências sobrenaturais que mudaram o destino de boa parte das pessoas desse lugar. Eu era apenas uma criança de oito anos, por isso não consigo me lembrar de tudo que aconteceu, mas na minha mente eu tenho imagens vivas que remetem àquele tempo.
Só que elas não são boas imagens.
Eu consigo ver alguns corpos, ver o sangue. Lembro-me do medo das pessoas em descobrir a existência de criaturas que os livros diziam que eram de mentira, que eram apenas fantasia. Lembro-me de ouvir os gritos e lamentos que vinham dos hospitais e os gemidos de medo de crianças que eram da mesma turma que eu na escola.
Beacon Hills perdeu muitos moradores naquela época. Pessoas se mudaram daqui depois que viram os lobisomens aparecendo pela cidade, fugiram para lugares onde elas achavam que nunca seriam mais encontradas pelas criaturas que corriam à noite pela floresta. Essas pessoas achavam que longe daqui elas nunca mais teriam que ver isso — o que era uma farsa, já que lobisomens existiram em qualquer lugar desde o início dos tempos.
Não que todos os humanos soubessem disso, no entanto.
Em 2012, Beacon Hills se tornou a primeira cidade no mundo a admitir a existência de criaturas sobrenaturais — não que o resto do mundo ficasse sabendo, pra falar bem a verdade. Foi naquela época que um grupo de adolescentes se encontrou no meio de uma disputa de forças entre lobos e caçadores, entre bandos de lobisomens de vários lugares, Alfas poderosos e druidas malucos. Aqueles jovens fizeram a diferença ao tentar manter a cidade protegida, e muitos anos se passaram até eles conseguirem criar uma atmosfera de paz — e se formar no Ensino Médio sem perder uma parte do corpo ou morrer pelo meio do caminho.
Eu me lembro de alguns deles.
Scott foi mordido numa floresta e se tornou um lobisomem. Com a ajuda do seu melhor amigo, Stiles, eles descobriram esse mundo dos lobos e tudo mais. Minha mãe me conta que ela também ajudou Scott e Stiles a descobrirem o mundo da licantropia. Eles eram os principais do bando, mas não estavam sozinhos. Lydia Martin foi mordida também e descobriu seus poderes de banshee — criatura sobrenatural que gritava quando a morte se aproximava dela. E como ela gritou. Junto com ela tinha Jackson Whittemore, namorado idiota dela que foi mordido também e virou um kanima — só pra ser morto e logo depois salvo pela força do amor verdadeiro e virar um lobisomem também.
Não que esses detalhes nos importem muito.
Enfim, além desses quatro que eu falei acima, havia mais uma pessoa nesse bando. Alguém que trouxe mais drama para a história — Allison Argent. Ela capturou o coração de Scott, e assim como Romeu e Julieta, onde os dois eram de lados opostos da história — Allison caçava lobisomens e Scott era um deles — o amor deles foi complicado do começo ao fim. E também como na história de Shakespeare, os dois viveram um romance que acabou em tragédia — a garota morrendo nos braços do seu primeiro amor.
Tudo foi bastante triste na cidade por um bom tempo, pelo que me lembro e pelas coisas que minha mãe me conta.
Boa parte da razão de Beacon Hills ser pacífica hoje vem do fato de Allison ter morrido — os caçadores deixaram a cidade e se mudaram para outro lugar. Criou-se uma aliança entre as criaturas sobrenaturais da cidade, jurando se proteger das ameaças de fora e manter todos em segurança.
No fim de tudo, quando as mortes acabaram e só sobraram as cicatrizes, Scott se mudou para Nova York com a mãe dele, buscando uma nova vida. Stiles se mudou para Chicago para estudar. Lydia e Jackson moram em Londres hoje, e dificilmente voltarão para Beacon Hills. Todos os caçadores saíram da cidade, com Chris Argent, pai de Allison e líder dos caçadores, jurando deixar a cidade fora do mapa das batalhas deles.
Alan Deaton, o druida que cuidava da cidade e John Stilinski, o Xerife da polícia municipal e pai de Stiles, foram os únicos que ficaram em Beacon Hills daquela época.
E dez anos se passaram desde então.
Ah, mas a minha família também ficou pela cidade também, não fugimos do sobrenatural, tanto porque todos somos lobisomens. Minha mãe é a Alfa de todas as terras em volta daqui e nosso bando corre livre por toda a floresta, cuidando do nosso território e da nossa cidade. Os Hales são os guardiões originais de Beacon Hills, e está na minha herança fazer parte desse lugar.
Claro, eu ainda tenho apenas dezessete anos e estou começando o último ano do Ensino Médio, ao mesmo tempo em que meu treinamento para ser uma parte importante do nosso bando continua. Eu ainda não tenho um lugar certo entre os lobos da minha família, mas meus pais dizem que eu tenho tempo para decidir o que fazer da minha vida. Eles falam que eu posso até sair um dia para estudar e voltar quando quiser.
Eu só não sei se quero deixar essa cidade, eu amo demais esse lugar para sair daqui.
Mas e quem sou eu? Você deve estar pensando quem é essa pessoa contando como nós chegamos até esses dias.
Eu sou um adolescente, um lobisomem beta e um garoto que adora jogar basquete.
Meu nome?
Derek Hale.
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Derek estava sentado em sua classe. O sinal tinha acabado de tocar e outros alunos se amontoavam pela porta para conseguir entrar na sala antes do novo professor chegar. A maior parte dos estudantes do último ano do Ensino Médio sabia que havia um novo professor de Inglês, já que Beacon Hills High era a escola que mais trocava de professores dessa matéria em particular. Dessa vez, no entanto, o professor não seria uma pessoa desconhecida.
A história do grupo de jovens que havia salvado a cidade em várias ocasiões no passado não era desconhecida de ninguém e costumava até ser contada como uma lenda urbana em festas. Um bando formado por humanos, lobisomens e outras criaturas sobrenaturais que, enquanto vivia sua vida escolar, tinha que passar as noites correndo pela floresta para salvar a vida dos inocentes, era uma das histórias que já eram folclore em Beacon Hills.
Daquele bando original não restava mais ninguém na cidade.
Pelo menos até o momento em que o novo professor de Inglês entrou na sala de aula para se apresentar.
Stiles Stilinski.
Imagens do passado inundaram a mente de Derek ao ver o homem à frente dele. Derek não era mais do que uma criança quando via Stiles vagar pela Reserva com seu bando de amigos. Ele ainda se lembra dos momentos em que viu Stiles na sala da casa dele, discutindo as possibilidades de proteger a cidade com a mãe de Derek, Talia Hale. Ele se lembra das longas noites de planejamento e depois as horas em que Derek ficava à beira da sua janela, olhando para a floresta à noite e tentando ouvir todos os sons que se propagam pelo ar enquanto a sua mãe, seu pai e seus tios lutavam para salvar a cidade.
Ele se lembra do medo e dos gritos. Das coisas ruins e dos momentos de pânico e dor. Contudo, ele também se lembra de como eles conseguiram a paz. Derek se lembra de como ele era só um garoto, mas os seus pequenos olhos brilhavam ao ver um bando que se completava tão bem quanto aqueles jovens. Ele se lembra de como os lobisomens e os humanos conviviam muito bem, como todos se ajudavam, como as coisas funcionavam.
Derek se lembra perfeitamente de como Stiles era incrível. Para um humano ele era corajoso, valente, um pouco idiota de vez em quando, mas seus planos sempre davam certo. Ele não se importava com todo mundo, mas quem o garoto guardava no coração sempre iria sair vivo. Derek tem na memória os momentos ruins que Stiles passou e como ele superou tudo aqui. E mais do que tudo, Derek se lembra de como Stiles ia chegar na casa dele, visitando Talia, e iria sorrir para Derek, bagunçar os cabelos dele, dar dicas sobre beisebol e basquete para o garotinho de oito anos que mal tinha descoberto seus poderes.
Derek se lembra de tudo.
Por isso mesmo, quando Stiles entrou na sala, quando ele deu seus passos para se tornar o professor de Inglês, Derek parou de respirar.
Chocado.
O que ele viu na frente dele não lembrava em nada o garoto inquieto de dez anos atrás, cabelos curtos, roupas coloridas e jeito estranho. Na frente dele, um homem de vinte e sete anos, roupas escuras se moldando ao corpo, cabelos levemente compridos, bagunçados. O rosto ainda tinha as mesmas feições de antigamente, que agora eram completadas por dois piercings, um no nariz, uma pequena argola, e outro pequeno anel no lábio. Quase imperceptíveis, mas que pareciam completar a obra.
Porém nada daquilo era tão pertinente quanto a miríade colorida de tatuagens cobrindo o corpo de Stiles. O contraste das cores e dos tons escuros com a claridade da pele do homem era fantástico. A turma toda parecia transfigurada ao ver o homem entrando — era possível ouvir sussurros e suspiros pela sala se aquietando, até um silêncio descer por sobre todos.
Tudo aquilo antes de Stiles falar alguma coisa.
“Bom dia, classe.” Ele disse assim que chegou ao centro da sala. O sorriso era simples, mas era o de uma pessoa que sabia muito bem o que estava causando.
Poucas pessoas responderam ao cumprimento do professor — Derek sendo uma delas. Por esse mesmo motivo, Stiles riu abertamente, o que fez a turma silenciar ainda mais, como se fosse possível.
“Assim que você terminarem de me analisar eu digo meu cumprimento outra vez e daí vocês respondem.” Ele falou, sorrindo.
A turma estava em silêncio absoluto.
Stiles olhou para todos por um instante, passando por cada carinha concentrada nele. Derek sentiu um pequeno arrepio quando o olhar de Stiles passou por ele — e Derek pode jurar que ele viu uma pontinha de reconhecimento no olhar de Stiles.
Bom, assim como Stiles não era o mesmo garoto de dez anos atrás, Derek definitivamente não era o mesmo. Ao invés de um cabelo fofo e o rosto de criança que ele tinha aos oito anos, agora Derek já era um homem. Mas ele tinha um estilo um pouco diferente do habitual, pra se falar o mínimo. Ao invés de jeans, All-Star e uma camiseta famosa, Derek vestia botas de couro, camiseta branca e um kilt preto — sua roupa não variava muito nas cores, mas ele sempre trocava entre o kilt escocês, as bermudas rasgadas ou as calças mais rasgadas ainda.
E claro, pra completar, segurando o cabelo emaranhado, que não era comprido o bastante para amarrar, mas não era curto o bastante para ficar sozinho, Derek usava uma pequena coroa de flores secas em um cordão, segurando os cabelos para não cair nos olhos.
Ele sabia que toda a sua aparência punk, com uma influência flowerchild, era pouco usual, mas ele adorava aquilo.
E se Stiles não tirasse o seu olhar da direção de Derek ele iria suspeitar que o professor compartilhava da mesma opinião.
“Bom dia.” Stiles falou novamente, ainda olhando para Derek, logo antes de direcionar seu olhar para outro lugar. A turma respondeu dessa vez, mas Derek ficou em silêncio, apenas olhando para Stiles, ainda sentindo o olhar do homem nele. “Eu sou Stiles Stilinski, mas pelo jeito vocês já me conhecem.”
Stiles parou por um tempo e ficou olhando para a turma.
“Eu vim de Chicago para cá e planejo me instalar pela cidade outra vez. Como eu era um professor por lá, eu decidi saber se haveria alguma vaga para Beacon Hills, e fiquei muito surpreso com a chance de trabalhar com vocês.” Ele disse. “Mas eu tenho certeza que ninguém quer saber muito sobre mim, afinal vocês vão se formar esse ano e então a gente precisa trabalhar todo o conteúdo e liberar vocês pra cada um seguir seu futuro, certo?” A voz de Stiles era calma e decidida, ao mesmo tempo em que parecia amigável, próxima dos alunos.
Em instantes ele tinha começado a escrever coisas no quadro sobre o que seria trabalhado durante o ano, as leituras que cada um poderia ir adiantando, o que eles precisariam saber para seguir na vida e algumas outras dicas de livros e materiais que atrairiam aos alunos. Tudo foi feito com bastante humor, ainda que a turma continuasse em silêncio.
No final da explicação, Stiles se virou para a turma com o olhar mais calmo, já que durante o tempo em que ele falou sobre a disciplina o humor de Stiles estava mais centrado nas explicações.
“Eu sei que isso parece novo — principalmente porque eu não sou o habitual professor de Inglês. Eu espero que vocês se acostumem logo. E se sintam à vontade para qualquer pergunta, agora ou no futuro.” Assim que ele terminou de falar, um pequeno sorriso se abriu nos lábios de Stiles, que virou a cabeça para olhar para Derek outra vez.
Derek desviou os olhos que tinham se fixado ao rosto de Stiles, tentando não cruzar seu olhar com o do professor, e viu no braço de Stiles uma tatuagem que ele não tinha notado antes.
Triskele.
O sangue nas veias de Derek começou a correr loucamente, bombeado por um coração acelerado. A respiração ficou rápida e ele sentiu que seus olhos queriam brilhar em azul para todo mundo ver.
As linhas sinuosas, tão conhecidas pela família Hale, não passaram despercebidas pelos olhos de Derek. O lobo dentro dele uivou, querendo se libertar da prisão e correr para o homem à frente da classe. O sentimento apareceu num ímpeto e Derek teve que respirar fundo para controlar aquilo, agarrar a classe com as duas mãos, quase ao ponto de enfiar suas garras na madeira. Era como se aquelas lendas de estrelas se alinhando e almas-gêmeas se encontrando fizesse sentido — ainda que nada realmente fizesse sentido naquele momento.
Bom, nada a não ser o fato de que o lobo dentro de Derek queria Stiles para si e só para si.
E Derek não fazia ideia do que aquilo significava.
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