Em volta da grande mesa da sala de jantar da minha casa o bando todo se reunia para mais um jantar antes da lua cheia. Era comum ver a família toda no mesmo lugar para as celebrações da noite em que nós, lobisomens, poderíamos correr livres pela floresta — coisa que só acontecia graças aos jovens que salvaram Beacon Hills anos atrás.

Antes deles os lobos eram apenas um segredo. Agora nós éramos quase uma lenda viva, um tesouro.

Eu ia comendo minha comida com calma, escutando a conversa entre a minha irmã, Laura, e Isaac. A maior parte das coisas que eles conversavam voava por cima da minha cabeça. Mesmo eu estando na mesma turma que ele, Isaac sempre foi bem mais inteligente que o resto de nós, por isso mesmo ele sempre combinava perfeitamente com Laura, já formada na faculdade e advogando em Beacon Hills.

Perto de mim, Erica contava alguma coisa nova para Boyd, que apenas assentia para ela sem falar nada. A ação era bem comum entre eles, já que Boyd era o calmo e concentrado, e Erica era o fogo em pessoa. Depois que os dois finalmente viraram parte do nosso bando e assumiram o tentativo romance, era impossível separar os dois — mas eu confesso que o cheiro do amor, quando não é docemente enjoativo, é bom de sentir.

Minha outra irmã, Cora, e meu pai, Willian, conversavam sobre a escola e os últimos trabalhos dela, que não tinham muito a ver comigo já que a Cora ainda estava estudando em uma classe mais nova do que eu, Isaac, Boyd e Erica. E ela também ocupava o lugar de caçula da família, coisa que não me causava ciúmes, afinal os lobos adoram encher o saco dos mais novos.

Talia, minha mãe, e o tio Peter trocavam insultos na ponta da mesa, atitude bem comum à lua cheia, quando os ânimos de todo mundo estavam exaltados. Não que eles não ficassem um xingando o outro nos dias normais, da mesma forma como eu, Cora e Laura acabávamos sempre brigando de vez em quando. Coisa normal em uma família de lobisomens.

Mais comum ainda em uma família de punks.

Não que nós não respeitássemos uns aos outros, muito pelo contrário. Nossas brigas eram a forma de mostrar o carinho e amor que rolava entre todos nós — e elas sempre terminavam em um abraço, beijo ou amasso, de uma forma ou outra. O amor é essa cola que nos mantém unidos, mas a missão de uma família como a nossa é testar o quanto essa cola pode nos segurar enquanto a gente enche o saco um do outro.

Eu falei em uma família de punks, no entanto, não falei? Pois bem, o meu estilo alternativo não é tão diferente assim e nem rebelde — pelo menos não pra minha família. Eu cresci ouvindo rock desde que eu era bem criança, já que os Hale tinham uma banda de música experimental quando eram mais jovens, e foi como a minha mãe conheceu o meu pai.

A família Hale, da minha mãe, ainda morava em Nevada quando uma briga fez parte deles se separarem. Minha mãe me disse que Peter tinha se apaixonado por uma caçadora de lobisomens e que a família tinha ficado contra ele. Mesmo brigando um monte, minha mãe sempre amou Peter, afinal eles eram só em dois irmãos, então ela foi atrás dele e deixou a família pra trás. O pai e a mãe dos dois até ficaram tristes, mas eles não poderiam largar o bando deles pelo tio Peter e pela mamãe, por isso os dois irmãos se mudaram para a Califórnia para viverem como Ômegas, até que um dia encontrassem um lugar para os dois.

Pra ganhar dinheiro eles começaram a tocar em bares de beira de estrada e todo o lugar que aceitasse os dois, afinal eles tinham que comer. Com o tempo eles foram descobrindo o gosto pelo rock e um amor pelo punk — já que depois que eles ouviram Ramones os dois não conseguiram mais parar de escutar aquilo.

Enfim, num bar por aí eles conheceram meu pai, um cara sozinho, que não tinha mais família e nem lugar pra ir, mas que sabia tocar baixo muito bem. Peter sempre tocou guitarra e minha mãe, acredite se quiser, é uma maluca tocando bateria. E deu tudo certo. No ano de 1995 nasceu a banda California Wolf.

Dois anos depois de eles terem essa banda, já com meu pai e a minha mãe sendo um casal e o tio Peter pegando todo mundo que andava em duas pernas, minha mãe recebeu os poderes de Alfa. Numa noite qualquer, enquanto ela dormia, papai me conta que ela começou a uivar e os olhos dela ficaram vermelhos, sinalizando que alguém na família tinha passado os poderes para ela.

Mais tarde eles descobriram que a família que ficou em Nevada havia sido estraçalhada por caçadores que não seguiam o código, todos morrendo. Peter e Talia foram os últimos Hale que sobraram, com minha mãe virando um Alfa, Peter o principal Beta dela e Willian descobrindo que lobisomens eram de verdade — coisa que ele ainda não sabia, mas aceitou como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Quando eles chegaram a Beacon Hills para um show, eles se apaixonaram pelo lugar. Vendo que a cidade era pequena e que tinha uma floresta enorme em volta dela, meu tio, mamãe e meu pai juntaram o dinheiro que eles tinham conseguido com os shows e compraram um terreno perto da floresta, construindo a Casa Hale, uma mansão enorme — pra uma banda de punk, eles conseguiram guardar um monte de dinheiro. Sem falar no tio Peter que sempre aparecia com quantias enormes de dinheiro, mas mamãe nunca perguntou o motivo daquilo.

Logo veio Laura, depois eu e por último, Cora, todos criados nessa casa cheia de música e barbas e roupas pretas — e kilts! Mamãe e papai agora eram donos de uma das maiores gravadores de punk dos Estados Unidos, que ganhou o mesmo nome da banda deles. Eles trabalhavam um monte, mas tinham a sorte de poder voltar para casa todos os dias e ainda ficar junto de todos nós. Laura era uma advogada com seu próprio escritório na cidade e eu e Cora ainda íamos pra escola.

Peter vivia correndo o mundo, fazendo participações em shows de punk e criando eventos pra comunidade. Sem falar em quebrando corações a torto e direito, já que nenhum homem ou mulher que ele “pegava” seria a pessoa certa, pois Peter não acreditava naquilo.

Eu, por outro lado, ainda estava esperando pela minha alma-gêmea.

Bom, eu não estava realmente esperando pela minha outra metade, já que mamãe sempre disse que lobisomens escolhem uma pessoa para a vida toda e eu, algum dia, iria encontrar essa pessoa.

Eu não tinha pressa, mas então Stiles apareceu e o meu mundo virou de cabeça pra baixo.

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Assim que o jantar terminou e todos ajudaram nos preparativos para a corrida sob a lua, o bando todo se colocou para fora da residência dos Hale. Todos os lobos tinham que tirar suas roupas, ou ficar com o menos possível em seu corpo, para poder correr. A única pessoa que ficaria em casa seria Willian, o único humano do bando todo.

Derek tinha tirado sua camisa e ficado apenas com uma calça de moletom, que iria tirar apenas na hora de correr. A maior parte dos outros tinha feito o mesmo, ficando com peças de roupas fáceis para tirar.

Assim que a lua despontou firme no céu, Talia uivou com força e foi a primeira a se transformar, mostrando-se em um lobo negro e grande. Aos poucos os outros foram fazendo a troca também, tirando as roupas e caindo ao chão em quatro patas e peludos, lobos prontos para correr.

A mãe de Derek uivou mais uma vez e começou a trotear para a floresta, Peter logo atrás dela. Laura e Cora foram seguindo a mãe. Isaac, Erica e Boyd ficaram olhando para Derek, esperando por ele.

Esperando pelo seu próprio Alfa.

Não que Derek já fosse um, mas ele seria o escolhido para ganhar os poderes da mãe. Laura era a mais velha, mas ela tinha dito que não se interessava em comandar um bando, passando o poder para Derek. Ele ainda nem sabia se queria aquilo mesmo, mas ele já tinha ganhado um pequeno grupo de lobos só para ele. Foi Derek quem deu a oportunidade de uma vida melhor para seus três amigos, vendo que eles não tinham mais ninguém para dividir a vida deles.

Depois de ganhar três lobos que o seguiam, Derek decidiu que seria uma boa ideia, quem sabe, virar um Alfa algum dia.

Ele rosnou baixo para os lobos e indicou a floresta como caminho livre para eles correrem. Os lobos obedeceram a Derek e se lançaram para a escuridão da floresta, deixando ele sozinho ali. Passos se aproximaram de Derek e ele virou sua cabeça para ver o pai vindo em sua direção.

“Alguma coisa está diferente hoje, não?” Willian perguntou. Derek não sabia exatamente o que era, mas ele se aproximou do pai. O homem esticou sua mão e acariciou a cabeça do lobo a seus pés.

Derek choramingou ao sentir o toque do pai, sentando em seus calcanhares.

“Eu vi você olhando para todos durante o jantar, mas seus olhos estavam meio vazios. E também percebi que você estava mais silencioso do que o habitual, Derek.” A voz do pai era boa nos ouvidos do lobo. “Eu sei que você não pode me falar nada agora, mas eu quero que você saiba que você pode nos contar qualquer coisa. Nós, lobisomens, precisamos ficar um do lado do outro.”

Era diferente ouvir o pai dele, um humano, se chamando de lobisomem. Mas ao mesmo tempo ele também podia perceber como tudo aquilo era importante para o pai, como ser parte de um bando fazia de você a mesma coisa. Um lobo, uma só família.

Ele encostou sua cabeça na perna do pai, acariciando-se nela antes de se afastar.

“Vá correr, Derek.” O pai dele disse antes de sorrir.

O lobo apenas assentiu e saiu correndo pela floresta, uivando em direção ao céu.

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O cansaço já podia ser sentido pelas pernas de Derek, mas ele continuava correndo. O lobo precisava seguir alguma coisa, algo que nem ele sabia o que era. Os instintos falavam mais alto e Derek, o humano, apenas seguia. A maior parte dos outros lobisomens do bando deveria estar voltando para casa, já calmos. Derek não podia nem imaginar aquilo.

Ele precisava correr.

Ele precisava de alguma coisa...

Alguns momentos ele ainda conseguia saber onde estava, mas em outros o lobo dele tomava conta completamente, deixando Derek à mercê de seu inconsciente. O corpo nem sentia nada, ele apenas podia correr.

Um espaço entre as árvores começou a se abrir e Derek viu luzes aparecendo ao longe. Os metros finais de floresta se abriram para o pátio dos fundos de uma casa e Derek diminuiu seu ritmo.

Ele ainda seguia os instintos do lobo, indo com seus passos até ser impedido de continuar, sentindo alguma força maior parando os passos dele bruscamente. Ele tentou ir para frente de novo, mas havia alguma coisa parando ele.

Derek choramingou uma vez, vendo que o corpo dele não podia ultrapassar uma espécie de linha, já que ele conseguia ir para os lados, mas não poderia avançar. O lobo dele se sentia aprisionado, tentando cruzar aquele muro que separava Derek do que o instinto dele queria alcançar.

O coração de Derek batia forte e o lobo se sentia mergulhado em adrenalina pura à luz da lua.

O cheiro de algo conhecido foi a primeira coisa que Derek reconheceu.

O riso foi a segunda.

Ao longe, por trás da linha invisível, a porta da casa se abriu, mostrando a figura de um homem. Derek não precisava nem ver de perto para saber quem era, ele só sentiu o cheiro, ouviu a risada curta e a imagem de Stiles apareceu na cabeça dele.

Depois do primeiro dia de aula, com o lobo de Derek demonstrando um interesse diferente pelo homem, ele não viu mais Stiles em lugar nenhum. Ele não teve aulas com ele nos dias seguintes e também não cruzou com ele nos corredores do colégio. Agora, na noite de lua cheia, o lobo de Derek tinha trazido ele para a porta da casa de Stiles, sem Derek nem perceber.

O homem veio ao encontro dele, do outro lado da linha.

“O que você está fazendo aqui?” Stiles pediu, sem medo algum de estar falando com um lobo que ele não conhecia. “Eu sei que é lua cheia, mas a casa do meu pai é protegida contra qualquer perigo que possa correr por aí. E bom, você provavelmente descobriu isso já que você não consegue cruzar a linha de cinzas da montanha.” A voz de Stiles tinha uma ponta de humor.

Derek choramingou mais uma vez. Ele não sabia se estava triste por ficar longe de Stiles, se estava com medo de estar ali ou com medo por Stiles estar à luz da lua. Ele não sabia. Os instintos dele apenas o fizeram chorar por Stiles, de alguma forma.

O homem apenas sorriu.

“Eu vejo que você parece ser um lobo bem novinho, ainda.” Ele falou, dando mais uns passos na direção de Stiles, agachando-se ao chão bem perto dele.

Foi aí que Derek entendeu o choro do lobo dele. Ele queria tocar Stiles. Os instintos dele gritavam para ele atravessar a linha e se atirar no homem.

Stiles percebeu aquilo, sorrindo de novo.

“O que que tá acontecendo aqui, lobinho? Você fugiu do seu bando pra vir até na minha casa?” Stiles falou com seu sorriso nos lábios. Sem nem olhar para Derek ele desfez a linha de cinza da montanha. Como num passe de mágica, Derek pulou em cima dele e Stiles deu uma gargalhada.

A língua de Derek começou a lamber o rosto de Stiles por entre os risos.

A lua ainda brilhava forte no céu.

O lobo de Derek finalmente tinha se acalmado.