Punidores - O Punidor Selvagem
3 A Excelência
Nós somos a ordem; a ordem prevalece. Com esse lema, a Excelência ostentou uma reputação de respeito e temor, pois era esse o nome do exército guarnecido dos soldados punidores mais bem treinados e bem equipados de Kimlat. Tão hábeis que os mais supersticiosos chegavam a questionar suas naturezas, semeando a ideia de que os primeiros fundadores teriam concretizado um pacto com o que acreditavam ser a entidade mais impura do mundo: Senes. Quem seria capaz de comprovar tal teoria?
Apesar do temor que espalha pelas terras até além de Kimlat, a Excelência foi responsável por grandes feitos, destacando-se, entre eles, a extirpação da organização terrorista mais odiada da década passada, conhecida por TERREMOTO. As pessoas tremiam só de ouvir o nome, principalmente os moradores da cidade de Donya, que sofreram a maior carga de seus atos, como o Incidente de Moonterry, onde cento e cinquenta pessoas perderam a vida em um incêndio que aconteceu durante uma apresentação teatral no Hall Moonterry. Todavia, uma semana depois, no dia em que os soldados da Excelência amanheceram na praça do distrito com TODOS os integrantes do grupo terrorista enforcados, o medo mudou de endereço. Desde então, é raro ouvir falar de algum atentado no império do vapor.
Mas havia um problema que nunca estava resolvido por completo. Um problema sobre-humano que a Excelência conhecia como sua maior rivalidade: os umbras. Aqueles que, segundo os ignorantes, foram definitivamente exterminados após a Segunda Guerra.
— Onde foram encontrados? — indagou Relven, andando pelos corredores, ladeado de outro oficial trajado na mesma longa sobrecasaca azul escura de botões dourados.
— No Distrito Inferior — respondeu o soldado, vasculhando um chaveiro e contando o número das celas pelas quais passavam.
Logo os soldados estavam diante de dois homens atrás das grades, cada um com as mãos algemadas sobre os braços das cadeiras, de cabeças baixas, apenas esperando a hora do interrogatório que antecedia a provável execução. Ao destrancar e abrir a porta da cela, o oficial deu espaço para Relven, olhando-o com preocupação quando entrou calmamente.
— O que temos aqui? — observou Relven, parando à frente dos dois homens cabisbaixos, ambos de cabeça raspada e trajados em uma túnica escura desbotada. A primeira coisa que o chamou a atenção foi o símbolo da punição na testa do primeiro. O segundo, aparentando ser um gêmeo, se diferenciava apenas pela palidez de sua pele e a ausência da marca na testa. — Um punidor e um… penumbra.
Em ambos os homens, Relven enxergava um fluxo de fumaças avermelhadas subindo pelos seus corpos. Chamados de Sinais de Culpa, aquele era um fenômeno captado apenas pelos punidores, sendo que, quanto mais experiente, mais precisa era sua percepção.
Eles percorreram o soldado dos pés à cabeça com os olhos, erguendo o rosto lentamente. O primeiro, embora fosse um punidor, continuava sendo apenas um humano, enquanto seu companheiro se destacava pelo brilho vermelho que ardia em seus olhos. Um brilho que, com um lampejo, resgatou a pior memória de Relven, entretanto sem fazer transparecer uma emoção sequer.
— Isso é novo. Matriz e penumbra juntos — suspirou ele, esboçando um sorriso quase imperceptível. Olhou para o soldado que mantinha um olhar curioso através da cela e fez um breve gesto de cabeça para que ele se retirasse, fechando a porta logo em seguida. — É uma pena que Tiranur não esteja aqui para contemplar tal cena — prosseguiu Relven, voltando aos dois. — Contem-me mais sobre isso, talvez eu possa considerar libertá-los depois.
— Idiota… pensa que eu vou acreditar nisso? — rezingou o penumbra com uma careta odiosa. — O mundo inteiro já sabe o que os cães do exército fazem!
— Mas parece que certas coisas ainda não estão muito claras, não é mesmo? — Relven tirou um relógio do bolso e anunciou: — Em dez minutos, se eu achar que não ouvi o bastante, os dois ganharão uma passagem só de ida para Vellsihel.
Os prisioneiros se entreolharam, e Relven percebeu um ligeiro traço de aflição percorrer o rosto do homem, logo concluindo que aquele era o mais apto a expor as informações pelas quais procurava, enquanto o penumbra, parecendo ter percebido a mesma coisa, concedeu-lhe uma expressão repreendedora.
— Antes de qualquer coisa, se não for doer demais, gostaria de saber como foi que você se libertou — Relven observou o penumbra.
— Se você fosse esperto, perceberia que, pelo fato de ele estar vivo, não poderia haver outra forma de eu me libertar sem que fosse através do ritual Sacriferum — respondeu o penumbra, a voz áspera como lixa. Indicou o parceiro com a cabeça e acrescentou: — A irmã dele se sacrificou.
Relven assentiu.
— Sacriferum também? — Fez uma pausa. — Aconteceu o mesmo comigo, porém a vítima foi a minha mãe…
— Não existem vítimas de Sacriferum — retrucou o umbra.
Relven ignorou aquilo.
— Tudo começou quando eu tinha meus quatorze anos. Comecei a ter pesadelos com aquela mulher nua e deformada que tinha o rosto e os seios escondidos por trás daquele dossel de cabelos negros. Aqueles braços torcidos e os dedos descarnados… Sim, creio que hoje não haja alguém que a desconheça. — Relven colocou as mãos para trás e se pôs a andar lentamente pela cela, contornando os prisioneiros, aproveitando para dar uma olhada nos equipamentos de tortura que se dispunham numa mesa manchada de sangue logo atrás das cadeiras. — É claro que eu não escapei. Ninguém escapa. Ela me beijou, e eu só entendi o significado disso algumas semanas depois, quando vi a minha forma maligna se materializar na porta da minha casa. Era o meu penumbra. Ele clamava pela própria liberdade, dizendo Murebil, vindo na minha direção, quando a minha mãe se interpôs em seu caminho, pedindo para que eu fugisse para Ratcher e lá encontrasse o meu pai. Mas eu não podia simplesmente largá-la ali, embora fosse eu quem a minha sombra queria.
O homem e o penumbra permaneceram quietos. Provavelmente, estavam pouco se importando com a vida do jovem soldado, todavia, mesmo tendo noção disso, Relven continuou a contar.
— A minha reação foi correr para destruir a caixa que meu pai escondia de mim, onde, há muito tempo, estava trancada a minha punidora. Desaparecido há uma semana, ele não pôde me impedir. Então eu a toquei, e a marca da punição ardeu em minha testa. Embora não fizesse parte dos meus planos, é por isso que eu estou aqui agora, na Excelência. Mas eu falhei em salvar a minha mãe naquele dia. Quando voltei à sala, meu penumbra não estava mais lá. Havia apenas o meu irmão mais novo chorando e tentando acordá-la inutilmente de seu sono profundo. Ela se sacrificou.
Os passos de Relven pararam à frente do penumbra de cabeça raspada, que não se importou em lhe conceder um sínico esticar de sobrancelha.
— Foi assim que os últimos laços da minha família se romperam: por causa de um bastardo cinzento igual a você — terminou Relven.
— Vai pro inferno, cara… Eu nem te conheço, tampouco tenho alguma coisa a ver com a morte da sua mãezinha. Se sente tanta saudade dela assim, por que não se junta a ela, hein? — O penumbra entortou a cabeça com o murro de Relven. — Isso te deixa mais feliz? — zombou ele, forçando um sorriso, enquanto uma mancha de sangue preto começava a escorrer do canto da boca onde foi golpeado.
— Você não sabe o quanto. — Relven massageou o punho. — Poderia ficar fazendo isso o dia inteiro, mas o nosso tempo está acabando. Diga onde os ratos da Ordem Sombria estão se escondendo.
— Achou mesmo que ia ser tão fácil?
Na verdade, não. Relven só queria um bom motivo para torturar o penumbra e, com isso, amedrontar o homem ao seu lado, tornando-o mais apto a dar-lhe repostas. Indo até a mesa onde os equipamentos de tortura estavam dispostos, Relven levou um tempo para decidir qual seria o mais adequado para a ocasião, imaginando o medo crescer às suas costas a cada segundo. Ironicamente, ele escolheu a pera da angústia.
— Eu não esperava pela sua cooperação — Relven retornou ao penumbra e enfiou-lhe a pera metálica na boca, impedindo-o de falar ou gritar. Com um olhar insinuante para o homem ao lado, começou a girar a chave da pera bem lentamente, fazendo-a expandir as faces no interior da boca do penumbra, que, a julgar pela inquietação e os grunhidos, estava finalmente temendo sua punição. —, mas o seu querido amigo talvez se inspire diante da sua situação.
— Por que você precisa fazer isso? — o homem finalmente falou, olhando assustado para a pera na boca do amigo. — Por que não nos mata com dignidade?!
— Dignidade? — as sobrancelhas de Relven se estreitaram. Naquela hora ele não soube se dava um riso ou se lamentava pelo homem. — Os umbras não são mais do que um vírus. É como pedir para um médico ter piedade de uma doença.
— Médicos não tiram a vida de uns para salvar outros!
Relven girou a chave da pera um pouco mais, aumentando a agonia do penumbra, esperando ouvir algo que o agradasse.
— Chega! — berrou o homem quando ouviu o maxilar do penumbra estralar. — Fala a merda que você quer ouvir!
— Diga o próximo movimento da Ordem Sombria. Se eu perceber que está mentindo, seu amigo sofrerá as consequências primeiro que você.
Antes de falar qualquer coisa, Relven percebeu que o penumbra detinha um olhar ameaçador no amigo, ofegando pelo nariz e grunhindo. Estava disposto a sofrer qualquer tipo de tortura apenas para manter sigilo sobre sua organização? Relven duvidava que houvesse algum ideal empregado pela Ordem Sombria que fizesse valer a pena a dor daquela punição. Quando menos percebeu, o homem já estava falando tudo.
— A Ordem Sombria está recrutando os homens de Roughtop a se juntarem a causa dos umbras! Eles pretendem restaurar a Punidora Tirana para…
— Para?
— Entregá-la a Tiranur! — terminou o homem, parecendo ter perdido um dente ao dizer aquilo.
Por um instante, Relven se conteve, assimilando as palavras que acabaram de entrar ligeiras pelos seus ouvidos.
— Tiranur foi banido há mais de um milênio — alegou.
— Você estava vivo há mais de um milênio para saber? — contrapôs o homem.
— Bom argumento, mas acho que você não pode comprovar o que diz, pode?
— Se você não acredita em mim, não deveria me pedir para falar nada.
— Certo de novo — assentiu Relven, satisfeito. — Prossiga.
— É tudo que eu sei, juro.
Em resposta, Relven ameaçou girar a chave mais uma vez, e o penumbra grunhiu como um louco, forçando o amigo a vomitar a primeira palavra que viesse em mente.
— Eu juro! O líder não compartilha mais do que isso com a gente! — exclamou.
— Onde se escondem?
— Eu vou morrer se eu disser!
— Vai morrer mais rápido se não disser.
Houve um silêncio. O homem e o penumbra voltaram a trocar olhares, e Relven, já com a mão na chave da pera, ameaçava girá-la pelo que ele estimava ser a última vez antes de causar uma lesão dolorosa.
— Você sente alguma compaixão pela sua sombra? Ou isso tudo é medo de ser caçado pelos umbras? — indagou Relven.
— Ambos — tremulou o homem.
— Sua irmã fez um gesto de amor para livrá-lo deste canalha. Imagine como ela estaria numa hora dessas ao saber que você e ele se tornaram grandes amigos e juntos estão servindo a Vadia do Medo.
— Será que você não entende? Ele já está livre! Eu não tenho mais motivos para cultivar esse remorso, sendo que ele sequer escolheu para nascer e depender de uma morte para garantir a própria vida.
— Isso não me importa — Relven fechou os olhos e respirou fundo. — Diga onde a Ordem Sombria se esconde.
O homem, depois de muita relutância, abaixou a cabeça com um suspiro pesaroso, dizendo:
— Mate-nos.
Houve um silêncio.
Relven não queria admitir que precisaria torturar o penumbra ainda mais, por mais que conservasse um ódio pessoal contra aquela raça; em vez disso, girou a chave da pera para contraí-la e depois recolhe-la da boca do penumbra, cuja respiração desatou desregulada. Porém, antes de deixar a expectativa crescer no homem, Relven foi até a mesa e trocou a pera por uma navalha comprida.
— Eu gostaria que fosse diferente, mas vocês não me deixam outra escolha — suspirou, dirigindo-se às costas do penumbra, concedendo-lhe a chance de dizer sua última palavra.
— Senes perecerá — murmurou o penumbra. Relven ficou surpreso em ouvir aquilo, chegando a pensar em perguntar se teria ouvido certo, mas decidiu permanecer calado. Era hora de dar um fim naquilo.
Sem mais dor, o penumbra tombou a cabeça com um filete de sangue preto escorrendo do pescoço para o corpo, os olhos revirados depois do corte rápido. Relven foi até o homem, que recitou as mesmas palavras, e o executou da mesma maneira, sentindo que matá-lo foi mais difícil, porém mais rápido.
Mas o penumbra ainda não estava morto. Seus lábios mexiam, o peito subia e descia, os olhos rubros ainda brilhavam. Foi quando Relven se lembrou de que os umbras não tinham órgãos vitais. O jeito mais rápido e limpo de terminar com a vida de um era decapitando-o, ou atravessando o metal de uma punidora em seu coração. Quase decidindo pela segunda opção, Relven repensou a ideia e decidiu que seria melhor decapitá-lo, pois os cirurgiões do exército estavam engajados em autópsias umbrais para melhor entender o funcionamento enigmático de seus organismos, e, quanto menos danificado o corpo, melhor.
Apanhou um cilindro metálico adornado da cintura e o acionou, fazendo uma sequência de três lâminas se estenderem em uma velocidade perigosa, formando uma espada. Mas ele escolheu usar apenas um gume, o que era possível através de uma rosca no topo da empunhadura, que permitia alterar as modalidades da arma. Com o modo florete, escolhido por Relven, os dois gumes laterais eram recolhidos, deixando apenas a lâmina central. Então, num movimento ágil e preciso, a lâmina zuniu; dois segundos depois, a cabeça raspada do penumbra caiu no chão com um baque surdo, derramando o que parecia ser petróleo.
— A ordem prevalece — recitou Relven, recolhendo os gumes e guardando sua punidora. Lançou um último olhar aos dois mortos e se retirou da cela.
Enquanto subia pelo elevador, deixando a masmorra, Relven ficou remoendo aquela frase mutuamente citada pelos dois seguidores da Ordem Sombria. Se Senes era a responsável pelo despertar dos penumbras, por que diriam uma coisa daquelas?
Quando a porta gradeada do elevador se abriu, anunciando seu retorno ao andar térreo da torre da Excelência, ele topou com a enorme figura do general Russel e seu charuto no canto da boca e a boina azul na cabeça. Em sua testa estava a marca da punição.
— Camarada Kytsam! — saudou ele com sua voz retumbante. — O que o senhor estava fazendo na masmorra, hm?
— Não ficou sabendo?
— Oh… — Russel pensou um pouco e acabou por se lembrar, tendo o rosto clareado por um sorriso amarelado. — Je! Mas é claro, como eu poderia me esquecer?
Os dois se puseram a andar durante o desenrolar da conversa, fazendo um caminho natural até a fachada da torre, onde havia uma larga escadaria de granito, com degraus rasos, acompanhada por fileiras de blocos ocos feitos do mesmo material em cada lado, todos abrigando plantas decorativas em seu interior. A vista da fachada dava para um jardim gramado, enfeitado com arbustos de folhas amarelas e bem cuidadas. No centro erguia-se a figura angelical de uma mulher alada que segurava um jarro, do qual águas cristalinas despejavam-se dentro da fonte circular que cercava a estátua. Conhecida por Spem, a anja simbolizava a esperança da qual a primeira geração tanto precisou, embora, mais tarde, ela viesse a se materializar em Ladwin, o primeiro filho de Tiranur. Ainda que não fosse comprovada a existência da entidade, ela continua sendo um símbolo agradável aos olhos dos homens.
Depois do jardim, de um dos lados, havia um armazém com paredes de tijolos, forrado por um telhado de alumínio, onde sempre havia um ou mais comboios parados na porta. Do outro lado estava um estacionamento de carros e triciclos a vapor. Em dias de sol, raramente sobrava uma vaga sob a sombra do carvalho, mas, agora que as brisas do outono derrubava suas folhas, evitavam deixar o veículo por perto.
As dependências do exército eram cercadas por um muro espesso de pedra talhada, dividido pelo portão de ferro escuro, gradeado e adornado que dava acesso à estrada até a vizinhança introversa de Darkclay: edifícios e casas cobertos de neblina, aglomerados em torno da península. Sempre havia um guarda inerte em cada lado do portão, do lado de fora, vigiando o caminho como duas placas com rifles pendurados. Os incumbidos de serviços como aquele não eram punidores, pois seria um desperdício de talento, como o próprio marechal dissera durante uma conferência.
Russel sempre conseguia estender conversas breves e sempre gostou disso. Ele e Relven contiveram os passos quando chegaram ao final da escadaria da fachada, a conversa, por outro lado, não havia acabado.
— Desde o início eu pensei que isso seria uma mão com açúcar pra você — dizia Russel, observando Relven com orgulho.
— Mamão com açúcar? — Relven tentou corrigir o general sem ofendê-lo. — Razoavelmente, eu diria.
— Pois diga-me! O que conseguiu daqueles dois sukas?
— Não consegui tudo que eu queria, mas descobri coisas intrigantes — respondeu Relven. — Um era penumbra do outro, e ambos pareciam trabalhar em harmonia, justamente como o alucinado do Tiranur pretendia fazer com o mundo há mil e quinhentos anos. O que me deixa intrigado é o fato de zelarem pelo retorno de Tiranur e prezarem pela queda de Senes. Isso não soa irônico?
Russel colocou a mão no queixo.
— Conseguiu a localidade do esconderijo deles? — perguntou.
— Não — suspirou Relven, desejando que sua descoberta não tivesse passado em branco da forma como pareceu.
— Dar'met — Russel xingou e deu um tapa na perna.
— Podem não ser os membros mais devotados do mundo, mas são o suficiente para oferecer a vida em troca da localidade dos demais companheiros.
— Leve-os ao limite da dor e verá a devoção!
— Quis dizer de torturá-los? Óbvio que eu tentei. Tanto fisicamente, quanto psicologicamente.
— Não o suficiente, pelo que vejo — retrucou Russel, frustrado. — Vou logo dar uma olhada nesses dois.
— É tarde demais — a voz de Relven interrompeu os passos de Russel, que já se dirigia escada acima. — Eu os matei — alegou.
— O quê?! — Russel olhou incrédulo. Tirou o charuto da boca. — Matou os dois criminosos da Ordem Sombria sem conseguir arrancar um lixo de informação útil?!
— ESCUTE! — gritou Relven, ousando calar o general. — Por favor, eu não terminei de dizer. A Ordem Sombria está se reabastecendo do povo de Roughtop! Vai me dizer que isso também não é um lixo de informação útil?!
A cara vermelha de Russel esfriou um pouco ao ouvir aquilo, dando lugar ao que Relven percebeu ser finalmente a preocupação que gostaria de ver. Russel recuou alguns passos, e os dois permaneceram se encarando por vários segundos.
— Ainda assim, você não deveria tê-los matado antes de descobrir a localidade do esconderijo, entendeu? — prosseguiu Russel, tentando voltar à sua posição. — Você fez merda desta vez, camarada. Faça melhor da próxima.
Depois de perder o olhar no horizonte por alguns segundos, o general deu as costas mais uma vez e fez o caminho de volta para a torre, parando no patamar da escadaria, de onde olhou para Relven e gritou pela última vez:
— Sugiro que compareça à sala do Dmitry, ele mal pode esperar para ouvir sua marmelada, senhor Kytsam! — Então, sumiu em direção ao pórtico.
Relven abaixou a cabeça e removeu seu quepe azul, dando liberdade para sua franja negra e sedosa inclinar-se sobre cada sobrancelha. Ficou parado observando o emblema da flor-de-lis do quepe com os olhos prateados semicerrados. A Excelência impusera o uso daqueles quepes de aba negra para sombrear o rosto dos soldados, dando a impressão de que jamais demonstravam emoções. Lembrando-se do que fez na masmorra, Relven acreditava que aquilo já não lhe servia de muita utilidade.
Ergueu a cabeça acima, vislumbrando o cume da torre de concreto escuro, onde mais acima era possível notar alguns pequenos dirigíveis furando as nuvens: uns carregados de suprimentos; outros, de soldados. No topo, em seu escritório, o Supremo Comandante o aguardava, e Relven apenas imaginava qual seria sua reação ao ouvir sobre sua marmelada.
Dali era possível ouvir um pouco dos gritos dos soldados treinando no pavilhão de treinamento que havia atrás da torre. Era dia do treinamento de esgrimas. Ele desejou ir até lá para descontar sua frustração em alguns bonecos de combate e outros alvos de madeira, ou, quem sabe, uma justa contra outro soldado; mas se dependesse disso, acabaria por afundar o pavilhão em mil pedaços.
Hora do punidor ser punido?, pensou ele.
Subindo pelo interminável elevador, dentro de um túnel de janelas, Relven lidava com uma paisagem vertiginosa da qual era possível ver a península de Darkclay inteira — o distrito regido pela Excelência — e o que havia do outro lado dela, depois do istmo que dava acesso à Roughtop: a silhueta do que parecia ser toneladas de fábricas aglomeradas em uma só, um monstro negro gigantesco que se alastrava até onde a visão não alcançava, onde as nuvens eram negras e carregadas.
No percurso até a sala do marechal, Relven foi cumprimentado por alguns soldados e até pela única mulher da torre, a filha do general, retribuindo com acenos de cabeça para cada um.
— Saudações, Excelência — Relven parou em continência atrás de seu superior, que se encontrava pensativo adiante as paredes de vidro de seu aconchegante escritório.
Dmitry Maktovich se virou para Relven com as mãos para trás e foi até ele, andando devagar. O marechal tinha um capim no canto da boca, os olhos calmos e sempre cheios de paciência.
— Novidades, Kröis? — perguntou ele entre os dentes, olhando Relven com um temperamento oposto ao do general.
— Vim reportar o resultado da interrogação.
— Está certo. Sente-se — Maktovich puxou uma cadeira para Relven se assentar e dirigiu-se até a sua, atrás de uma escrivaninha. — Mas antes: como vai sua vida, Relven?
Relven estranhou a pergunta.
— Estável, senhor.
— Estável — repetiu o marechal, acenando com a cabeça. — Você parece abatido. Algo de errado?
Sim, senhor, eu posso ter ferrado com uma boa parcela do seu plano, pensou Relven, trovejante.
— É sobre isso que eu vim falar.
Seja lá o quanto doesse, Relven decidiu passar pela turbulência de uma vez, pois a iminência já estava quase o sufocando. Explicou tudo ao marechal, do início ao fim, sem deixar escapar um único detalhe e sem contar uma única calúnia. Então, surpreendeu-se.
— Bom trabalho?! — Relven nem percebeu sua voz sair.
— Sim, Kröis. Você pensou ter feito uma marmelada, mas não; então acalme seus nervos, pois, considerando os seus resultados, agora temos outro assunto a tratar.
Ainda surpreso, Relven aguardava as instruções, estranhando o fato trivial de o marechal ter mencionado a mesma palavra — marmelada — que Russel disse há minutos atrás.
— Nós partiremos para Roughtop amanhã. Recebi uma ligação do primeiro-ministro requisitando nossos serviços. Precisaremos adiar a busca pela Punidora Tirana, pois os umbras parecem estar tirando vantagem dessa nossa concentração, o que é mau.
— A Punidora Tirana é mesmo o único jeito de eliminar essa entidade anormal que comanda eles? — perguntou Relven, desejando ir direto e destruir Senes em vez de ficar se ocupando com seus lacaios.
— Sim, Relven. Ela, assim como Ladwin, é uma criatura sobre-humana, conforme-se com isso. Aliás, considerando as informações que você arrancou dos criminosos, é de se esperar que ela não seja o coração da Ordem Sombria como pensávamos. — Estranho era ouvir um líder militar falando daquela forma. — Até lá, sugiro que…
A voz do marechal se interrompeu. Antes que Relven perguntasse, três segundos depois, um telefone elegante de madeira que jazia na beirada da escrivaninha começara a tocar.
— Supremo Comandante da Excelência, qual é a situação? — atendeu Maktovich, fazendo uma pausa para ouvir. — A senhora tem ce… — ele foi abruptamente calado por uns instantes e continuou em seguida. — Senhorita… como queira. Diga-me seu endereço, a Excelência estará aí em breve. Nós passaremos para certificar. Sim. Compreendo. — Segurou o telefone no ouvido com o ombro enquanto a mão se ocupava rabiscando um endereço no papel. — Já disse, nós nos certificaremos disso. Tenha uma boa tarde — Maktovich devolveu o telefone ao gancho e dirigiu a atenção a Relven, que olhava com curiosidade. — Parece que temos um motivo extra para ir até Roughtop.
— Como se não bastasse… O que era?
— Descobriram um Punidor Selvagem no distrito do Topo.
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