Fechou a cota de couro sobre o busto avantajado juntamente da saia que pendia até abaixo dos joelhos; amarrou as botas; posicionou e apertou a ombreira no ombro esquerdo; vestiu um par de luvas de gamo; atou um bracelete de aço em cada pulso e cobriu-se com um manto de zibelina. Seran dirigiu-se até a frente do espelho, que refletiu a beleza de uma mulher alta de orelhas longas e pontudas, olhos de esmeralda e cabelos prateados que se entornavam pelos ombros. Em torno do olho direito, tatuada de tinta vermelha, estava as pontas da marca da punição, e, na testa, havia a marca legítima escondida por trás das franjas, tendo-se o vislumbre de apenas duas das pontas do símbolo escuro.

Apesar da fama que levam, as evorianas não são como as elfas e fadas mencionadas nos livros. Não eram imortais e nem sempre nasciam belas. Assim como os humanos, poderiam se apresentar nas mais variadas feições.

Seran apalpou os dois lados da cintura, remexendo o casaco, e deu por falta de alguma coisa. Foi até um baú adornado perto da janela e retirou dali uma espécie de cilindro metálico enrolado por uma linha. Em um talho feito em sua forma podia-se ver um aglomerado de lâminas encolhidas. Com o objeto firme na mão, ela acionou um mecanismo escondido que terminou por dar vida ao objeto. Da base superior e inferior saltaram dois gumes afiados, cada um em uma direção. No final, se envergaram, desdobrando-se em vários segmentos, esticando a linha, até que formasse um arco. Tudo isso aconteceu em questão de dois segundos, ao giro de incontáveis engrenagens que trabalhavam em sincronia no interior da arma.

Por fim, ela retirou uma aljava orlada de flechas da parede e a pôs sobre as costas, prendendo-a por uma bandoleira.

De volta ao espelho, com seu instrumento de justiça firme nos dedos enluvados, Seran assentiu positivamente a si mesma, declarando-se pronta para o chamado de seu dever.

Ao fechar a porta, a paisagem da capital de Evori, conhecida por Remafe, é revelada mais uma vez aos olhos da evoriana branca. Seus pés se encontravam a trinta metros de altura, no alpendre de sua casa, de onde era possível ver casinhas sobre terra firme e outras erguidas em torno de algumas sequoias-nortenhas — assim como a sua —, que tinham as folhas amarronzadas pelo poder do outono.

Seran desceu a escadaria em espiral que contornava o tronco. Por ser uma evoriana branca, não era de sua natureza gostar de manter os pés tão distantes do chão. O quarto andar da árvore, onde ficava sua casa, já era satisfatório para ela. Era apenas mais um costume atípico de sua sub-raça — um não menos questionado por suas demais companheiras.

Evori, apesar de seu passado ser marcado por um povoado selvagem e feroz, hoje se tornava uma sociedade mais racional, por assim dizer. Ainda assim, certos costumes e tabus eram mantidos intactos ao longo de mais de dois mil anos. O temperamento explosivo das evorianas brancas também resistira ao tempo — o que não valia para Seran. Afinal, ela tinha tudo para ser uma sorrateira evoriana noturna — era o que diziam a seu respeito quando conheciam suas preferências e sua forma serena de lidar com as demais. Nem sua arma favorita era digna de uma legítima e bruta evoriana branca.

As ruas de Remafe eram trilhas de seixos que orientavam o caminho por sobre a relva e os arbustos floridos, interligando algumas sequoias, estabelecimentos e locais importantes ao longo da cumeada das altas colinas. O tráfego também se dava por extensas pontes de madeira que se uniam entre as árvores em diversas alturas, tendo espaço de sobra para as carroças e os gados transitarem pelo chão.

Em cada curva jazia uma placa de madeira identificando o local em evoriano. Os larosternas incas (um pássaro cinza e preto que possuía um par de bigodes em torno do bico alaranjado), sempre costumavam empoleirar-se ali com uma carta no bico, trinando o nome dos destinatários para que viessem buscá-las. Caso não houvesse alguém para receber a correspondência, eles voavam até o correio, que mais parecia um viveiro de pássaros, e deixavam a correspondência com uma evoriana que as recolhia. Foi um correio muito utilizado em todas as partes de Roughtop, embora hoje seja menos comum graças à invenção do telefone, algo que as evorianas ainda não se arriscaram a experimentar, entretanto algumas estudiosas se destacavam na busca de conhecer e reinventar a engenharia de Roughtop de forma a facilitar a vida do povoado sem destruir a natureza.

Ao trabalho braçal eram designadas as evorianas brancas, que cortavam cepos com um machado, puxavam cavalos carregados de mantimentos, construíam e reformavam casas e, não menos importante, brigavam até que acabassem por quebrar algum jarro de porcelana ou qualquer outra coisa que as fizessem preocupar com a reação da milícia.

Em seus 174 anos de vida, Seran observava sua sociedade e a comparava com o povoado que um dia fora.

A necessidade de se classificar uma evoriana como branca se devia pela coexistência das noturnas, que, como o próprio nome sugere, não gostavam muito de mostrar as caras azuis durante o dia. Não significava que não era possível vê-las — ocasionalmente — esgueirando-se pelo movimento da vila, ondeando uma longa cauda escura e azulada, da cor de suas peles.

No percurso de seu destino, Seran retribuiu os cumprimentos de suas demais companheiras orelhudas, que faziam menção de largar caixotes, jarros d’água e ferramentas apenas para saudá-la. Apesar de ser quase o inverso do que havia de ser, o respeito de Seran era notável. Ele deriva de sua honrosa descendência, que a caracteriza como uma guerreira ungida, a Imathal, ou, para outros, uma punidora.

Os raios de luz da manhã penetravam pela copa das árvores e refletiam ocasionalmente sobre o sedoso cabelo prateado de Seran. Ela fez seu caminho até a boca de uma caverna que se abria sobre um cume, um maior do que os demais, por onde sempre entrava uma evoriana segurando algum objeto de valor e saía de mãos vazias. As tochas do interior da caverna permitiam enxergar uma larga escadaria, por onde Seran desceu acompanhada do ecoar de seus passos, tendo o aspecto de suas longas orelhas sendo projetado nas paredes de pedra tosca.

Lá embaixo, as tochas eram dispensadas, pois havia uma luz magnífica sendo emanada de uma árvore frondosa de folhas cintilantes, cercada pelas águas de um lago sobre o qual mais de suas folhas flutuavam como vaga-lumes perdidos. Bem mais acima, no teto da caverna, havia um distante vão, por onde trespassavam os mais fortes raios de luz, dando vida a uma cortina de feixes luminosos. A caverna terminava ali naquele santuário, repleto de frondes, borboletas, cogumelos e mais uma trilha de seixos que serpeavam até as margens do lago, onde algumas evorianas atiravam oferendas aos espíritos que foram capazes de manter aquela árvore ao longo de muitos séculos e turbulências, os mesmos que zelaram pela prevalência de sua frágil raça.

Pairando a mão sobre as frondes do caminho, Seran se dirigiu até uma evoriana branca ruiva que se enxergava no reflexo da água do lago sagrado. Ela estava abaixada sobre a margem, tocando a água sutilmente na ponta dos dedos.

D’lailil, Katorak — saudou Seran por trás. Endireitou-se em mesura, bateu a mão direita fechada sobre o lado esquerdo do peito.

A evoriana ruiva deu uma estremecida e ergueu-se de pé logo em seguida, de frente para Seran. Digna de destaque, aquela era caracterizada pelo seu exuberante moicano ruivo que atravessava o centro da cabeça até se dividir em tranças que caíam pelas suas costas nuas. As tatuagens que se desenrolavam sobre seus braços, rosto e coxas também serviam como um sinal de que aquela era uma à qual devia se dirigir com o máximo de respeito. Trajava uma estola e uma saia talhada de couro.

D’lailil, Imathal — cumprimentou Lemúria, fitando Seran com os olhos brilhantes. — Sua vinda era esperada.

— Pois diga lá, Katorak. O que se passa?

— As ancestrais estão irrequietas. Despertaram-me duas vezes na alvorada de hoje. Fui tola em não atender ao primeiro chamado, me envergonho disto…

— Está exigindo mais que seu corpo pode suportar, Lemúria — suspirou Seran com um olhar condolente para sua líder.

— Não posso repousar enquanto meu dever para com Evori não for cumprido, irmã.

— O que só acontecerá no último dia de sua existência corpórea, creio eu.

— Não há tempo para isso — retrucou Lemúria, pálida pela noite mal dormida. — Ouça-me com atenção, Seran: na alvorada de hoje, as ancestrais me revelaram a localidade da Bússola!

A luz do santuário costumava deixar Seran sonolenta — e já estava ficando —, mas aquela notícia abriu seus olhos.

— A Bússola? Onde?

Lemúria virou-se para o lago e deu espaço para Seran ao seu lado. Ela apontava coisas e falava outras, mas Seran não conseguia enxergar nada além do reflexo da luz da árvore e algumas de suas folhas que ainda flutuavam com um brilho esmaecido. Isso a levava a se questionar sobre o merecimento de sua posição.

— Justamente como eu temia, ela se encontra sob domínio humano, e está sendo carregada por mãos erradas, posso sentir! — Lemúria perdia os olhares nas águas, enquanto Seran franzia as vistas. — Ratcher, as vozes ecoam. Ratcher…

— Ratcher? — Seran não precisou pensar muito. — É a cidade de Roughtop mais próxima daqui — Desistiu de tentar enxergar algo sobre a superfície do lago, recuando um passo e se concentrando em Lemuria.

— Sim, é o que as visões me ocorrem! — Lemúria sacudiu a cabeça, parecendo mais perturbada que o habitual. Virou-se mais uma vez para Seran. — Sabe o que há de ser feito. Precisa buscar a Bússola, do contrário, mais tempo será perdido, e mais próximo eles estarão de restaurar a Punidora Tirana. Isso, não, deve, acontecer! Não há homem que possa domar a ira de tal poder.

Seran assentiu gravemente.

— Devo resguardá-la comigo?

Lemúria apoiou as mãos sobre os ombros da evoriana e disse em admiração:

— És a Imathal! A última de nossas valquírias! A Bússola de nada servirá senão em suas mãos, minha irmã. Nenhuma de nós é capaz de manifestar o fenômeno como você.

Seran ponderou aquelas palavras, acometida por um leve sentimento misto de pressão e orgulho.

— Quando devo partir para Ratcher? — perguntou.

— O quanto antes, melhor.

Sair de seu confortável lar e enfunar em meio à neblina das indústrias do império humano, embora já tivesse feito inúmeras peregrinações do tipo, umas mais perigosas que a outra, Seran precisava confessar a si mesma que se sentia desanimada. Mas ela era a única punidora de seu povoado, e um punidor deve reunir os dois pedaços da Punidora Tirana e restaurá-los antes que um outro o fizesse. Isso a colocava em uma situação de importância e risco.

Daloruk’ Anieryl partirá ao seu lado na busca — disse Lemúria. — Ela estará apenas no aguardo de seu chamado.

— Mas… a Anie? — murmurou Seran em pleno descontentamento com sua líder, que já se mostrava impaciente com aquilo. — Não que ela não seja minha eterna ralukin, mas alguém que fala pelos cotovelos pode ser um problema em uma missão como essa, Katorak! — Seran viu sua líder corando de fúria por ter suas ordens questionadas, logo achou melhor, contragosto, mudar seu discurso. — Vou selar minha montaria e chamar a Anie…

Seran esboçou um sorriso e fez a cortesia evoriana, fechando as pernas e socando o punho direito contra o peito esquerdo mais uma vez. Assim que se virava para voltar por onde veio, Lemúria a puxou pela ombreira, voltando-a para si.

— Duvida de mim, Imathal? — perguntou a líder, em uma voz baixa e desafiadora.

Seran ficou hesitante por uns instantes e logo balançou a cabeça negativamente para sua líder, que a provocava com um olhar afiado.

— Me prometa que retornará — suplicou Lemúria, subitamente amistosa.

— Tem a minha palavra, Katorak — Seran abaixou a cabeça.

Lemúria então sorriu e acariciou Seran pelos seus cabelos. Afastou-se com um passo para trás e proferiu:

Par Rafmather, Imathal!

Par Rafmather — Seran repetiu sua cortesia. Deu-se de costas e finalmente se retirou do santuário.

De volta ao ar livre, a evoriana já se dirigia aos estábulos quando um vulto voou de um arbusto e agarrou-se em suas costas.

— Branquela! — jubilou Anieryl, presa às costas da amiga.

— Raios! — Seran tropeçou e por pouco não estatelou de cara no chão, na frente de outras evorianas que olhavam e gargalhavam da cena.

Anie soltou-se de suas costas, rindo de sua cara. Lá estava sua companhia de viagem: uma imprudente jovem de pele azul escura, cabelos ruivos e uma cauda agitada se chacoalhando atrás das costas. Ela carregava um mandolim a tiracolo.

— Qual foi a necessidade disso? — reclamou Seran após recuperar o fôlego que o susto lhe tirou.

Qul fui a nicissididi dissu — zombou a noturna, carinhosamente. — Pra você deixar de ser emburradinha e sorrir mais! — Ela meteu as mãos nas bochechas de Seran e as esticou. — Assim!

Seran deu um tapa nas mãos da amiga e abafou um riso.

— Chega disso. Lemúria falou com você?

Ry! Katorak me contou sobre a Bússola estar nas mãos dos homens malvados — disse Anieryl com sua voz grave e seu jeito dissimulado. — Mas nós estamos aqui para salvar a nossa geração, branquela! É hora de pôr o pé na estrada. Vamos!

Como ela não sente sono durante o dia?, questionava-se Seran sempre que se deparava com aquela afobação da amiga em pleno dia.

A noturna já corria pelo caminho do estábulo antes que Seran pudesse dizer uma única palavra; foi forçada a apertar o passo para acompanhar a tagarela.

Chegando lá, Seran encontrou seu corcel branco já selado por uma prestativa evoriana branca que transpirava ao calor do sol. A montaria de Anieryl, um garrano marrom, também já estava pronto para ser montado; mas, antes disso, a noturna fez questão de estalar um beijo no rosto da garota do estábulo em forma de agradecimento. Não, aquilo não era de costume das evorianas, era apenas o jeito excêntrico da companhia que Seran teria justamente questionado para a missão.

Depois de se abastecerem no armazém com um par de embornais em cada cavalo, as duas evorianas finalmente partiram em direção à saída da capital, onde tinha um portão de ferro entre duas rochas que serviam como um ponto de visão. Uma tocha queimava dia e noite em cada lado.

Antes de saírem, desceram suas montarias por um instante e, através de uma escada em vertical, subiram uma das rochas. No topo, ergueram-se de pé nas alturas de Evori, tendo as brisas do outono brincando com suas madeixas. Uma paisagem assustadora se alastrava pelo horizonte diante dos olhos das evorianas, tal que as fizessem esquecer o conforto do lar: o império de Roughtop. Um mar de prédios e fábricas que sopravam lentas fumaças céu acima, formando um negrume até onde os olhos alcançassem. Era possível ver até uma enorme e distante mancha azul escura onde se elevava o distrito do Topo. Era somente diante de paisagens como aquela em que Anieryl finalmente se aquietava, a língua e a cauda.

— Estão cada vez mais próximos de nós — murmurou Seran, apreensiva, observando a infinidade do império humano.

— Olha — suspirou Anie. —, eu não quero estar viva para ver o dia em que seremos sufocadas por esses monstros fumacentos. Tenho certeza de que a Katorak não se importaria em fazer uma guerra quando eles excedessem o limite.

— Eles já excederam desde que pisaram em Kimlat. E com quais guerreiras a Lemúria faria uma guerra?

A noturna fez suspense. Olhou para a amiga, usou seu sorriso esbranquiçado e disse de forma inesperada:

— Você!

Seran soltou um riso soprado.

— Você é uma graça mesmo, Anie. Mas não, eu não sou capaz de defender Evori sozinha contra os homens. Sem dizer que eles possuem a Excelência a favor deles.

— Nah! Que mané Excelência o quê! Além de ter a milícia ao seu favor, você é a branquela suprema de olhos verdes! Não há nada que possa te parar!

Seran lançou um contente e demorado olhar para sua amiga, mais admirada pela sua inocência do que pelo incentivo.

— Vamos andando — declarou, virando-se para descer pela escada.

— Cavalgando, você diz?

— Creio que me entendeu.

— Sim, mas o que você tem a dizer sobre o que eu acabei de falar? Eu não esqueci — Anieryl desceu logo depois, seguindo Seran.

— Tenho a dizer que você sonha muito alto. — As duas evorianas brancas sentinelas que vigiavam cada lado do portão com suas lanças e elmos de chifre o abriram para que Seran passasse montada em seu cavalo.

— Engano seu — Anieryl agitou a rédea assim que montou.

— São muitos, Anie, muitos. Não pode estar falando sério.

— Quantidade não gera qualidade — persistiu a noturna.

— Sem falar dos soldados normais, a Excelência tem vários punidores a favor do império — retrucou Seran, desanimada.

— Não, eu não quero nem saber disso! Você é a branquela suprema e ponto final, nada vai mudar isso!

Aquele diálogo rendeu muito mais; no entanto, ao se afastarem dos portões de Remafe, as vozes das evorianas aos poucos se perdiam nas brisas da colina. Anie era a que mais falava durante o distanciar, enquanto que de Seran só se ouviam uns baixos resmungos em resposta. Remafe ficava cada vez mais longe; o império de Roughtop se aproximava.

— Por que a Imathal não parte com uma companhia mais adequada? — questionou a sentinela, de guarda no portão. — É sempre a mesma barda tagarela.

— Se não fosse pela vontade da Katorak… — hesitou a outra. —, diria que são amantes.