Puncture
14 Do you think you can tell?
Notas iniciais
24 de dezembro de 2009
Como senti falta da neve e do frio! Era por isso que amava Nova York, entre outras coisas. O inverno era meio parecido com o lá de casa. Com mais sol, é claro, como quase qualquer outra cidade fora da Inglaterra, mas parecia um inverno e não um outono igual era em Los Angeles. E é, já faz quase um ano que eu vim pros Estados Unidos. E quatro meses que estava aqui. O tempo voa.
Nesses quatro meses, virei referência da fotografia nova-iorquina. Não entendia exatamente como, porque nunca me achei uma fotógrafa esplêndida, porém pelo visto as outras pessoas pensavam assim.
De qualquer jeito, era véspera de Natal, pouca gente estava trabalhando e Chris acabara de quebrar a quinta xícara só hoje. Ele vem estado assim esses últimos dias.
“Ei, Lou”, sussurrei deslizando a cadeira de rodinhas até o cubículo dela, “Você sabe por que o Harrison está tão avoado?”
“Acontece que eu sei”, respondeu no mesmo tom, “A namorada terminou com ele e a coisa foi bem feia pelo que ouvi. Só sei até aí. É, eu também fiquei com pena dele por ter terminado perto dos Feriados”, disse vendo minha expressão, “E ainda ouvi que eles iam completar dois anos juntos...”
Coitado. Este aí foi pior que eu.
“Lou, ele tem família aqui?”
“Não, eles são do sul. Por quê?”
“Ele bem que poderia ir jantar lá em casa hoje, né? Acredito que tenhamos comida o suficiente para três”, sugeri. Seria meu primeiro Natal sozinha com Lou, mas Chris seria muito bem vindo.
“Ótima ideia!”, sorriu, “Quer que eu pergunte para ele?”
Assenti e ela foi. Observei-a enquanto falava com ele e logo ela estava de volta, ainda sorrindo, e me disse que ele aceitara.
Às nove horas em ponto, Chris toca a campainha. Atendi, pois Louise estava ocupada demais com o peru. Abri a porta e o vi sorrindo e com dois pacotes nas mãos.
“Olá, Chris”, sorri para ele.
“Oi, Liz. Feliz Natal!”
“Feliz Natal”, respondi da mesma forma. Se alguém não soubesse o que acontecera, não diria que ele havia passado por um término tão, hum, violento. Uma coisa meio eu, entende? “Entre, o jantar já está quase pronto.”
“Ótimo!”, abriu mais seu sorriso, “Trouxe uma coisinha para vocês. Não é muita coisa e só ia entregar para vocês segunda, mas...”
“Não precisava, Chris. Sério. Veja, eu nem comprei nada pra você! Desculpa!”, ri.
“Nem se incomode então, Liz. Mesmo.”
Se dependesse de nós, isso de “não precisa!” e não sei o que ia até o próximo Natal. Por fim, Louise entrou para cumprimentar Chris e paramos com aquilo.
Fomos os três para a cozinha e terminamos de preparar o jantar, mas não faltava muita coisa. Não muito depois nós já estávamos comendo. Apesar de não termos preparado tanta coisa, já passava das onze quando acabamos de comer.
“Já que não vou estar aqui de manhã... Bom, peguem. Feliz Natal”, estendeu os pacotes que trouxe para nós. Peguei o que ele estendeu em minha direção. Louise pegou o seu e já foi abrindo. Era um livro, o qual não vi o título. Sorriu e agradeceu.
Fiz o mesmo e desembrulhei o meu. Era um cd. O “Favorite Worst Nightmare” do Arctic Monkeys.
“Nossa, obrigada, Chris!”, agradeci, “Foi por isso que Louise me perguntou se eu tinha algum cd deles?”
“Na verdade, foi sim! Ela foi minha cúmplice nessa história”, falou, “Bom, meninas, está ficando tarde. Tenho que ir para casa. Até-”
“Não, não, fique! Deve estar a maior nevasca lá fora; você não vai conseguir dirigir direito. E é praticamente Natal, não vá ficar sozinho. Durma aí”, Lou o interrompeu.
“É”, concordei, “É, durma aqui essa noite. Podemos te arranjar uns cobertores e você pode ficar bem confortável no sofá.”
Chris pensou um pouco antes de responder.
“Tudo bem”, cedeu, “Mas não quero abusar da hospitalidade, ok?”, sorriu.
“Tudo ótimo!”, continuei, “Já que não temos compromissos amanhã, vamos tomar alguma coisa, estrear meu cd... Mas ah, antes que me esqueça”, me dirigi até o pé da árvore de natal montada num canto da sala e peguei um dos pacotes que estavam ali, “Louise, Feliz Natal”, entreguei-a o presente e ela o pegou sorrindo. Desembrulhou-o.
“Muito obrigada, Liz!”, agradeceu ao ver o que era. Uma bolsa que ela estava namorando pelas vitrines há um tempinho. Foi para onde peguei o pacote e pegou outro. “Feliz Natal pra você também, Elizabeth.”
Peguei o pacote que me estendeu para mim. Logo já não tinha mais papel nenhum o envolvendo e dei um largo sorriso. Era o livro Em Chamas, o segundo da trilogia Jogos Vorazes. Tinha lido o primeiro livro pouco antes de sair de Londres e estava morrendo pelo segundo. Lou sabia disso, e, com o lançamento dele, comprou-o para mim. Abracei-a em agradecimento.
“Certo, agora que já acabamos a troca de presentes, vocês querem um chá, um café ou sei lá? Digam antes que mude de ideia e desista de ser prestativa”, disse rindo.
“Aceito um café, obrigada, Liz”, respondeu Chris.
“Eu também, Liz”, aquiesceu Lou. Por razões estranhas e desconhecidas, ela era uma das poucas inglesas que conhecia que não gostava de chá.
Segui com os dois até meu quarto, onde ficaríamos antes de dormir, coloquei cuidadosamente meus presentes em cima da cama e fui à cozinha. Entrei na onda dos dois e preparei um café para mim também, totalizando três xícaras de café. Levei as duas até Lou e Chris e voltei para pegar a minha.
Peguei meu cd novo e sentei-me perto de meu aparelho de som. Chris estava ali ao lado também. Louise estava sentada na minha cama. Tirei o cd da caixinha e coloquei pra tocar. A primeira era Brianstorm.
Continuamos conversando, tomando café e ouvindo o cd. O café acabava e ia fazer outro. O cd acabava e colocava outro. E assim foi pela noite.
Perto das três da manhã, quando já tínhamos passado para os vinis, Louise foi arrumar o sofá para Chris dormir e depois foi para seu quarto. Eu e Chris ouvíamos agora o “Wish You Were Here” do Pink Floyd.
“Welcome to the Machine” acabou e me virei para trocar o lado do vinil. Agora tocava “Have a Cigar”, uma das minhas preferidas do Pink Floyd. Pelo visto, de Chris também, porque ele cantou a letra toda junto comigo.
E agora era “Wish You Were Here”...
“Liz, foi você que teve a ideia de me chamar pra cá hoje, né?”, sussurrou e concordei com a cabeça, “Foi porque você soube da Raven? A minha, uh, ex...”, completou amargamente quando viu que não reconheci o nome. Concordei com a cabeça de novo. “Por quê?”
“Não sei...”, disse sinceramente, com um suspiro, “Talvez porque você e a Lou fizeram isso quando... quando eu terminei com Josh.”
“Isso...?”
“Isso de, sei lá, nos juntarmos para nos divertirmos... Esquecer-se das preocupações... Sabe?”
“Sei...”, encarou por alguns segundos sua xícara. Aí se virou para mim e começou a me olhar profundamente. Ergui os olhos pois estava encarando o nada e passei a observá-lo da mesma forma.
How I wish, how I wish you were here...
Nem percebi que estávamos ficando cada vez mais próximos...
We’re just two lost souls
Swimming in a fish bowl
Year after year
Como eu desejava que Josh estivesse aqui...
Running over the same old ground
What have we found?
The same old fears
Wish you were here.
E por um segundo, vi o rosto de Josh realmente perto do meu. Fechei os olhos e pensei no quanto sentia a falta dele, do toque dele, dos lábios dele. Não me controlei e terminei com qualquer distância que houve entre nós. Foi um beijo calmo... Mas estava diferente...
Diferente?
A realidade me atingiu quando Chris se afastou rapidamente. Não era Josh quem eu acabara de beijar, e sim Chris. Josh ainda estava longe de mim. Não o tinha de volta, não agora.
“Desculpa, Liz”, ele disse balançando a cabeça, “Desculpa mesmo. Eu comecei pensar na Raven demais... E aí você me beijou...”
“Não, não, Chris... Desculpe-me... Eu também... Eu vi Josh...”
Olhei para ele e ele olhou para mim. Aí rimos, e no mesmo instante, Louise apareceu, dizendo que a “cama” de Chris já estava pronta. Ele se levantou e disse boa noite e respondi da mesma forma. Louise foi com ele e fiquei sozinha no quarto.
Por mais algum tempo fiquei sentada no mesmo lugar, pensando no que acontecera. Eu ainda amava Josh e nunca tive dúvidas disso. O problema era saber se ele ainda sentia o mesmo, como descobrir isso e arranjar um jeito de tê-lo de volta.
Eu me sentia confiante por alguma razão. Algo me dizia que eu o veria logo. Fui dormir e esperei que esse “logo” não fosse apenas em meus sonhos e sim em carne e osso.
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