Pulso Elevado (Frank Langdon)
2 HORA ZERO
6H22MIN
“gabila, quero saber tudo.”
“tudo, mesmo.”
“me atualiza nos intervalos!”
A tela do celular sobre a bancada do banheiro se acende e a vibração da notificação o faz escorregar para dentro da pia molhada.
— Merda! – Gabriela geme enquanto tira a presilha da boca e a prende firme no cabelo.
O aparelho vibra mais uma vez com a chegada de outra mensagem. Ela o pega da pia e o esfrega rapidamente contra a toalha úmida que está pendurada no box.
“quero fotos de todos os médicos americanos gostosos.”
Gabriela acha graça e escreve de volta para a amiga.
“residência médica em uma emergência que eu descobri que, por algum motivo, chamam de ‘o poço’, qual a chance de eu ter tempo pra reparar em homem, maria?”
Minutos depois, o celular vibra mais algumas vezes e Gabriela já não percebe porque o colocou dentro da mochila e está descendo as escadas do seu prédio às pressas. O prédio é antigo, não há um elevador e o apartamento fica no terceiro andar. O lado positivo é que o aluguel é relativamente barato e a bolsa da faculdade cobre os custos com uma certa folga.
Assim que entra no Uber e coloca o cinto de segurança, ela retira da mochila uma pequena vasilha contendo alguns pedaços picados de pera. Esse vai ser o seu café da manhã até que crie coragem para acordar um pouco mais cedo e preparar algo decente.
Quarenta minutos depois, Gabriela é recebida na sala de espera do Pittsburgh Trauma Medical Center por uma temperatura mais alta do que a da rua, sons indelicados, uma iluminação um tanto amarelada e a mistura de odores típicos de um hospital lotado.
Ela para ainda na entrada e escaneia o ambiente em busca de alguma ideia de qual direção tomar.
O local emite uma sinfonia desajeitada composta por tosses persistentes, vozes baixas demais para serem conversas e altas demais para serem silêncio, presas em algum lugar entre a lamúria e a irritação. O ar da sala é espesso. Quente. Uma dança esquisita entre perfume barato, camadas de suor, álcool em gel e café velho.
Enfileirados nas cadeiras desgastadas, não há um paciente com expressão amigável no rosto. Alguns a encaram por um breve período e quando o olhar dela cruza com o deles, é palpável a falta de esperança de terem suas queixas atendidas na próxima hora.
A televisão ultrapassada no alto da parede transmite notícias para ninguém.
O lugar parece não permitir que as pessoas respirem fundo. O impulso de qualquer um que não seja acostumado com aquilo é o de fugir dali enquanto as paredes parecem se aproximar a cada segundo que passa.
Embora as vezes precise recorrer a alguma sala vazia para recuperar o fôlego, Gabriela aprendeu a driblar bem a sensação esmagadora do hospital em seu primeiro ano de residência no Brasil. Neste momento, em seu primeiro dia de R2 em um novo país, tudo o que ela sabe é que deve se apresentar ao Doutor Robinavitch, o médico chefe do plantão diurno.
— Bom dia, oi. – Gabriela finalmente se aproxima do balcão de atendimentos no canto da sala e bate o dedo no vidro para chamar a atenção da atendente. -Eu sou R2, acabei de chegar, preciso falar com-
Sem tirar os olhos da tela do computador a sua frente, a mulher aponta com o indicador para uma porta vai-e-vem no canto à direita de si. Gabriela não se surpreende com a falta de atenção da atendente e a agradece baixinho enquanto segue na direção indicada.
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