09h08min

— Alves, aonde está indo? – Dana chama assim que Gabriela e Emma passam pelo posto central.

Elas se aproximam da enfermeira chefe.

— Vou iniciar mais um atendimento. – Gabriela diz.

— Godsberry é seu paciente?

— Sim. Aconteceu alguma coisa? – Ela olha automaticamente em direção à porta da sala de espera.

— O resultado do raio-x chegou há algum tempo. – Danna estende alguns papéis em direção a ela. – Sei que estava com Robby e Al-Hashimi na sala 5, mas sempre que pedir exames, fique atenta ao retorno dos resultados para não fazer o paciente esperar mais tempo do que o necessário, ok?

— Não vai mais acontecer, Danna.

Gabriela sente a frustração pesando em seu estômago e respira fundo para dissipá-la. Para ela, era mais fácil lidar com um comentário grosseiro do que com uma correção branda.

— Todos nós estamos em constante aprendizagem. – Dana a tranquiliza– Não é, Emma?

— É, sim. – Emma concorda.

Gabriela sorri para as duas e se volta para a análise do raio-x de Godsberry.

Luxação anterior do ombro, de fato.

Ela se lembra do pedido de Langdon para que o chamasse se fosse esse o caso.

Seus dedos apertam os papéis com um pouco mais de força perante o reconhecimento de que, por algum motivo, ela ansiava por esse resultado.

— Vou finalizar esse caso. – Avisa e caminha em direção à sala de espera.

Godsberry parece aliviado ao ouvir seu nome na recepção.

Os pacientes que ainda aguardam serem chamados encaram Gabriela com a convicção de que, se os médicos quisessem mesmo, atenderiam todo mundo dentro da próxima hora.

— Peço desculpas pela demora, precisei atender um caso de vida ou morte. – Ela explica à Garfield, o guiando para a mesma sala que estiveram antes.

— Já estou acostumado, doutora. Quando tenho que vir para cá, sei que vou ficar por um bom tempo. – A chateação na voz dele não está exatamente direcionada a ela.

— A boa notícia é que não há ossos quebrados ou trincados. Seu ombro apenas saiu do lugar.

Gabriela mostra a ele o raio-x e ele o observa sem muito interesse.

— Vou poder voltar a trabalhar hoje?

— Infelizmente, não. – Antes que Garfield possa fazer mais perguntas, ela coloca os papéis sobre um armarinho no canto da sala. – Vou chamar o outro médico, aguarde aqui um instante.

Fechando a cortina da sala atrás de si, Gabriela caminha até o centro da enfermaria em busca de Langdon. Ela o avista na parede oposta, conversando com um dos residentes. Parece atento ao que ele está dizendo.

Gabriela se força a dar os primeiros passos em direção a ele e sente como se o caminho estivesse ficando mais longo.

É só um rostinho bonito.” O pensamento ecoa em sua mente assim que ela autoriza sua existência.

— Dr. Langdon, estou com os resultados do raio-x de Godsberry e acredito que vai ser possível dar redução. — Gabriela titubeia. — Dar alta após a redução, quero dizer.

— Ótimo. – Langdon balança a cabeça uma vez, em gesto afirmativo. – Esse é o Dr. Whitaker.

O rapaz mais novo sorri para ela e Gabriela retribui.

— Estamos na mesma sala de antes? – Langdon questiona, encaminhando-se para o local onde Godsberry se encontra.

Gabriela confirma e o acompanha em silêncio, Whitaker parte em outra direção.

Na sala de avaliação, após cumprimentar o paciente, Langdon pega os resultados do raio-x e os examina.

— Luxação anterior. – Ele confirma em alguns segundos. – Certo, Godsberry. Vamos resolver isso em dois minutos!

— Sua colega disse que não vou poder trabalhar hoje, doutor.

— Nem se você pudesse iria conseguir. Vamos te colocar em uma tipoia por alguns dias.

— Vocês nunca facilitam minha vida. – Garfield reclama e Langdon acha graça.

— Sr. Godsberry, vamos precisar remover sua camiseta, tudo bem? – Gabriela avisa.

Ela se aproxima do paciente e o ajuda a se despir com cuidado. Enquanto isso, Langdon dobra um lençol que pega no armarinho da sala.

— Redução de tração e contra tração? – Gabriela questiona ao observar o que ele está fazendo.

— Exatamente. Você pode anestesiar o local com Lidocaína a 2% e em seguida faço as manobras.

Ela assente e explica o procedimento à Godsberry, que concorda sem ânimo.

Com o paciente posicionado e anestesiado, Langdon inicia a intervenção.

Gabriela o observa com um interesse particularmente acentuado.

Langdon se concentra em Godsberry. Está em pé ao lado da cadeira, manuseando o ombro afetado. O cabelo escuro cai sobre sua testa e ele ajusta o lábio inferior com a língua. Gabriela deixa seus olhos passearem pelos braços dele, que neste momento estão flexionados, os músculos marcados se movendo sob a pele branca. Gabriela percebe para onde está olhando e não faz questão de corrigir.

— Você vai sentir um incômodo. – Langdon diz ao paciente, tirando-a de seu pequeno delírio.

Sem esperar resposta de Godsberry, ele coloca o ombro de volta no lugar e um estalo é ouvido.

— Puta que pariu. – Godsberry geme.

— Culpado. – Langdon levanta as mãos em ato de rendição. – Mas está novo de novo, me agradeça depois.

— Não quero te ver tão cedo. – O paciente grunhe. – Mas obrigado, já sinto o alívio.

— Seu maior desafio vai ser ficar duas semanas de molho. – Gabriela o ajuda vestir a camiseta. – Pense nesse período como as férias que eu tenho certeza de que você não tira há anos.

— Acho que vou para o Brasil aproveitar todos esses dias. – Godsberry ironiza e ela ri.

— Não é uma má ideia. – Langdon afirma enquanto coloca a tipoia no braço do homem e Gabriela reprime um sorriso.

A cortina é movida e Whitaker coloca a cabeça para dentro da sala.

— Dr. Langdon, com licença, uma ajudinha sua?

— Agora. -Langdon responde de prontidão. – Alves, você finaliza com Godsberry?

Ela concorda com um “Uhum” antes de ele sair da sala, deixando-a se perguntando quando vai precisar dele de novo.