09h31min

— Alves, está livre? – Santos se aproxima de Gabriela e Garfield enquanto eles caminham pela enfermaria.

— Sim, só estou levando o sr. Godsberry até a saída.

— Você sabe que não precisa fazer isso, não é? -Santos indaga, segurando o riso. – Nosso tempo aqui é crucial.

Gabriela a encara surpresa por ela estar falando daquela forma em frente ao paciente.

— Eu te disse. – Godsberry resmunga com um ar de sabido. – E mesmo se precisasse, eu já estive aqui tantas vezes que sei esse caminho de cor.

— Ok. – Gabriela murmura. Essa era a única coisa que ela não gostava sobre ser novata nos lugares: o conhecimento fino e a segurança que só se adquirem com o tempo. – O que precisa?

— Estou com uma sutura para fazer. Quer vir comigo? – Trinity para de caminhar e Gabriela se vê hesitante entre parar também ou continuar acompanhando Godsberry.

— Muito bom te conhecer, doutora, vá com sua colega. – O paciente acena com o braço livre antes que ela possa decidir acompanhá-lo e segue o caminho sem olhar para trás.

Gabriela junta as sobrancelhas, um tanto incomodada.

— Tenho uma paciente com um fragmento de vidro perfurando a face plantar. – Santos conta e as duas se direcionam até a sala 7. – Deixou um copo cair no chão e pisou em cima, descalça.

— O fragmento ainda está lá? – Gabriela quer saber.

— Sim, ela foi esperta em não remover. Parece um tanto profundo e não sabemos se perfurou alguma artéria, embora eu ache que não há esse risco, por causa da localização.

Elas entram na sala e há uma adolescente deitada na maca, ela apresenta tremores por todo o corpo. Em pé, ao lado dela, uma mulher mais velha segura sua mão.

— Já fiz a limpeza com soro fisiológico gelado e apliquei anestesia local. – Santos se aproxima do armarinho no canto da sala e retira um kit de sutura e alguns outros materiais das gavetas.

— Sou Gabriela Alves. Com licença. — Gabriela se apresenta e, após calçar luvas, apalpa o perímetro em volta da perfuração no pé esquerdo da garota. — Está sentindo algo aqui?

A jovem faz que não com a cabeça.

O corte está limpo, a pele em volta da abertura está pálida e há apenas uma pequena ponta do vidro visível. Gabriela encara a acompanhante ao ver que a jovem está ofegante e tem alguns espasmos similares a calafrios.

— Ela odeia hospitais. – A mulher mais velha justifica. – Sou Sarah Smith, mãe da Ava.

— Quantos anos você tem, Ava? – Gabriela pergunta e puxa uma cadeira para se sentar ao pé da maca, mantendo os olhos na altura da lesão.

Santos faz o mesmo, abrindo um campo com TNT azul na área dos pés da paciente.

— Dezesseis. – A menina responde. – Vai doer?

— Não. A anestesia já resolveu isso. – Santos responde, sem olhar em direção a Ava. Ela coloca uma cuba rim sob o pé perfurado e entrega a pinça anatômica à Gabriela. – Remova o fragmento, a cuba vai segurar o sangue, se sair muito.

— Eu vou puxar o caco que está no seu pé, se doer, você me diz, ok, Ava? – Gabriela avisa e pinça o pedaço de vidro.

Na primeira tentativa, a pinça se solta.

— Vai precisar de um pouco mais de força que isso. – Santos acha graça.

— Ela já está assustada, quero ir devagar. – Gabriela sussurra.

Em uma segunda tentativa, o pedaço de vidro é removido e uma fina linha de sangue escorre através da pele aberta. Gabriela descarta o fragmento e a pinça dentro da cuba após mostrá-lo de longe para a paciente, enquanto Santos esguicha soro sobre a ferida.

— Não foi grave. – Gabriela conta para as duas. – Você vai ficar bem, Ava, só precisa de alguns pontos.

Sarah suspira, aliviada e deposita um beijo sobre a mão da filha.

— Pontos simples interrompidos são o suficiente. – Santos explica e inicia o procedimento de sutura, pedindo para Gabriela cortar o nylon quando necessário. – Langdon te ajudou com o seu paciente?

Gabriela é pega de surpresa pela pergunta repentina. Ela se lembra da reação de Santos quando contou que tinha tido contato com Langdon e vê ali uma oportunidade para saber mais sobre a relação deles.

— Ajudou. Ele é muito bom. Parece ser uma pessoa legal para trabalhar junto. – Diz no tom mais casual possível.

Santos comprime os lábios e balança a cabeça positivamente.

— Às vezes – Santos se interrompe, mas continua, em seguida – Às vezes a primeira impressão não é toda a verdade, Alves.

Ela mantém a voz baixa o suficiente para que apenas Gabriela a ouça, mas não olha em direção a ela. Gabriela tenta não demonstrar curiosidade, embora o sentimento esteja cada vez maior dentro dela.

— Isso é verdade. – Ela concorda e decide aplicar a mesma técnica que usa quando precisa ouvir mais dos pacientes: Uma informação em troca de outra. – Já me dei mal no meu primeiro ano de residência no Brasil por confiar em quem não deveria.

Santos a encara, finalmente.

Por um segundo, parece que vai dizer mais.

Mas o plano não parece dar muito certo, pois ela se mantém em silêncio e Gabriela também não quer perguntar diretamente.

Talvez ela não queira saber nada negativo a respeito de Langdon, uma vez que tem gostado de estar perto dele até agora. O que de pior poderia ser? Nada muito grave, ela imagina, caso contrário, ele não estaria trabalhando ali.

— Tudo pronto. – Santos conclui o curativo no pé de Ava e Gabriela recolhe os materiais. – Vou prescrever um anti-inflamatório para a dor, antibiótico para prevenir infecção e em duas semanas você pode voltar para removermos os pontos.

— Obrigada, doutora. – Sarah agradece e Ava sorri, ainda com um olhar aflito.

— Nos primeiros dias, é bom que você evite colocar seu peso sobre esse pé, tudo bem? – Gabriela avisa e a Ava concorda com a cabeça. – Vou ver o próximo paciente.

— Valeu, Alves. – Santos murmura antes que ela saia da sala.

Gabriela segue até a recepção, ainda com uma sombra de curiosidade dentro de si.