08h02min

— Bom dia, sr...-

— Godsberry. – O paciente diz. – Sei que meu sobrenome é incomum, já estou acostumado.

— Então somos dois, porque eu sou brasileira e nenhum dos meus nomes é comum aqui. Sou a dra. Alves e vou te atender hoje, tudo bem?

Gabriela pegou sua primeira ficha na recepção e está ajudando Garfield Godsberry a se sentar na cadeira para avaliação antes de fechar a cortina privativa do espaço. Em seus anos de faculdade ela aprendeu que o segredo para um bom rapport com o paciente é fazer com que ele se sinta ouvido e se identifique em algum nível com o profissional à sua frente, e ela sempre obtém sucesso nessa parte.

— Brasileira, hum? Tenho um amigo que já viajou para o Brasil. – Garfield diz e faz uma careta de dor ao tentar se ajeitar na cadeira. Ele é um homem na casa dos 60 anos, um tanto magro e está vestindo roupas manchadas com algo que parece ser tinta. Seu braço direito está imóvel sobre sua barriga.

— Depois quero saber o que ele te contou, mas agora vou precisar que me fale um pouco sobre o senhor, com o que trabalha e o que aconteceu com esse braço aqui. – Gabriela pede gentilmente e se aproxima dele movendo a cadeira com rodinhas na qual está sentada.

— Bom, vocês devem ter minha ficha porque já estive aqui algumas vezes, eu sou pintor. Gosto de começar meu trabalho junto com o sol, mas choveu ontem e o andaime estava um pouco úmido –

A cortina privativa se move sem aviso e Gabriela se vira imediatamente.

— Godsberry! Li seu nome no painel e não pude deixar de vir dar uma olhada em você.

Doutor Frank Langdon.

É o que diz o crachá pendurado no bolso superior do uniforme preto.

— Dr. Langdon, eu não queria ter voltado tão cedo. – Garfield reclama.

— Não é o melhor lugar para reencontros, mas dá para o gasto. – Langdon sorri para o homem e se posiciona do outro lado da cadeira de Godsberry, de frente para Gabriela. Ele cruza os braços e aponta para ela em seguida. – Você é a residente que veio do Brasil. Alves, certo?

— Isso. Sim. Sou eu. – Gabriela tropeça nas palavras que saem rápido demais de sua boca.

— Legal. Sou o dr. Langdon.

Ela balança a cabeça em concordância e, por algum motivo, sua capacidade de comunicação parece sumir.

De repente, o silêncio é constrangedor. Gabriela se sente consciente demais de si mesma e suas mãos começam a suar. Ela se levanta em um ímpeto da cadeira que ocupava.

— E então? – A voz de Langdon soa como um estalar de dedos e atinge Gabriela como um pequeno choque faria. – O que você já tem de informação sobre a situação atual do nosso amigo Godsberry?

Só então ela volta para o prontuário.

Precisa reler a última linha antes de perceber que tinha parado de escrever.

— Hum... -Ela pigarreia. — Ele estava no meio do relato. Se o senhor puder continuar, por favor. O que aconteceu com o seu braço? – Ela encara o paciente e decide que não vai olhar para mais nenhuma outra direção ali naquela sala.

— Bom, como eu ia dizendo, o andaime estava um pouco úmido por causa da chuva de ontem, a tábua se moveu e eu caí em cima do braço. Não era muito alto, mas agora não consigo mexer.

— O senhor bateu a cabeça? — Gabriela e Langdon perguntam ao mesmo tempo.

Nesse momento ela olha em direção a Langdon e encontra os olhos dele já sobre os dela.

Olhos tão azuis que se tornam ainda mais claros sob a luz fria da sala.

— Não, a únicas coisas que estão doendo agora são o braço direito e a costela. — A voz do paciente surge ali no meio.

Langdon quebra o contato visual e se dirige a Godsberry.

— Consegue mover os dedos da mão?

O paciente abre e fecha a mão direita com pouco esforço.

— É só o ombro que não mexe. – Godsberry suspira, impaciente. – Será que está quebrado? Vou ter que ficar com gesso por quanto tempo?

— Podemos pedir um raio-x do braço e das costelas, por precaução, e se estiver apenas deslocado conseguiremos colocar o ombro no lugar novamente. – Gabriela diz e sorri para o paciente, encorajando-o.

— Faça a ausculta pulmonar e meça a saturação de O2 com o oxímetro. Se estiver tudo em ordem, não precisa do raio-x do tórax, apenas o do ombro. – Langdon orienta. – Quando estiver com o resultado, se não estiver quebrado, me chame para a redução da luxação.

— Certo. – Ela concorda e o encara rapidamente, voltando sua atenção para o paciente em seguida. – Vou pedir para o senhor respirar fundo algumas vezes tudo bem?

Gabriela remove o estetoscópio dos ombros e o posiciona na orelha, se aproximando de Godsberry.

Pela visão periférica é possível notar quando Langdon sai da sala e ela percebe que, de repente, ficou mais fácil respirar.