08h21min

Hospital é hospital em todos os lugares.

Brasil ou Estados Unidos. Faculdade ou residência.

É onde nos deparamos com a real fragilidade da nossa espécie. Esquecemos dos papéis que sustentamos no dia a dia. Ficamos frente a frente com nossa finitude, nossos medos, nossas contradições.

Gabriela gosta da sensação crua, desnuda, quase violenta de ser uma vida salvando outra em uma situação emergencial.

Respiração sobre respiração.

Corpo sobre corpo.

Carne sobre carne.

Separados apenas pelo que ainda não falhou...

— Está se virando bem, Alves? – Trinity Santos surge ao lado de Gabriela no balcão central e apoia os cotovelos sobre a bancada, observando as anotações que ela está fazendo.

— Meu primeiro paciente parece estar com uma luxação simples no ombro. O acompanhei até o raio-x e estamos aguardando o resultado. – Gabriela conta, animada e se vira para olhar a colega. – Agora vou chamar o próximo paciente.

— Entediante para um começo. -Santos dá de ombros e brinca com uma caneta que encontrou sobre a bancada. — Você precisa de ajuda para reduzir a luxação?

— O dr. Langdon disse para eu o chamar.

Santos arqueia as sobrancelhas, parecendo surpresa.

— Então você e o dr. Langdon estão trabalhando juntos? Quero dizer, você o conheceu?

— Pelo que entendi ele já tinha atendido meu paciente algumas vezes. Ele foi até a sala onde estávamos.

Ela observa a expressão no rosto de Santos por alguns segundos. Indecifrável. Aquilo seria o suficiente para despertar curiosidade sobre Langdon, se não fosse algo que já estivesse ali.

— Ele é legal? — Gabriela pergunta em tom casual, rabiscando seu bloco de anotações. -Para trabalhar junto, digo. O dr. Langdon.

Trinity abre a boca algumas vezes, indecisa entre o dizer e o não dizer.

— Minha opinião não importa muito. – Finalmente conclui com um sorriso apagado. – Enfim. Te vejo por aí, Alves.

Santos se afasta e Gabriela a observa, tomada pelo interesse em saber mais sobre a relação entre ela e Langdon.

— Alves, prepare-se. Em dois minutos vamos descer um paciente do heliponto. – Robby se aproxima dela no balcão. Ao lado dele está uma mulher de cabelos ondulados e olhar intrigante.

— Dra. Al-Hashimi. – A mulher sorri para Gabriela, que retribui o gesto.

— Gabriela Alves. Qual a situação?

— Mulher jovem, afogamento no Ohio River. Foi feita a RCP, mas continua inconsciente. – Robby explica e encaminha-se apressado para o elevador.

Gabriela e Al-Hashimi o acompanham.

Assim que a porta do elevador se abre já no terraço, o helicóptero está se aproximando do chão. Gabriela coloca os óculos de EPI para conseguir enxergar melhor em meio à ventania. Robby e Al-Hashimi fazem o mesmo.

— Você se lembra do procedimento em casos de afogamento seguido de perda de consciência? – A médica pergunta a ela tentando projetar a voz por cima do barulho da aeronave.

— ABC da vida! – Gabriela também fala alto. – Checamos as vias aéreas, respiração e circulação!

— Ótimo! – Robby exclama enquanto os três correm até a maca que está sendo retirada do helicóptero. – Você vai precisar trocar de lugar com o paramédico para manter a ventilação até que cheguemos na sala de trauma, Alves!

O paramédico em questão está posicionado atrás da maca, utilizando o ambu. Gabriela assume sua posição, ela mantém o queixo da mulher elevado e ventila a cada 6 segundos. Robby e Al-Hashimi agradecem os bombeiros com um aceno de cabeça, empurrando a maca até o elevador.

No caminho para a enfermaria, em uma das checagens de pulso, Gabriela não sente a pequena pressão típica do coração sob seu dedo.

— Entrou em PCR! – Ela exclama e passa rapidamente por trás de Robby, subindo na maca e se posicionando sobre o corpo da mulher inconsciente.

Com uma perna de cada lado sobre o quadril da paciente, Gabriela pressiona o esterno com força, alternando 30 compressões com 2 ventilações.

Não importa quantas reanimações cardiopulmonares ela faça, a adrenalina em meio a técnica sempre atinge o pico.

— Muito bem, Alves, continue. – Al-Hashimi elogia quando as portas do elevador se abrem e ela e Robby empurram a maca pela enfermaria, levando Gabriela em cima.

Os profissionais já parecem familiarizados, mas alguns pacientes param para observar a cena que se assemelha a um filme de ação.

— Sala 5 está livre! – Dana grita por trás do balcão, sinalizando para que levem a maca até lá.

Assim que adentram a sala, a paciente tosse alto, vomitando água em seguida. Gabriela é rápida em virar a cabeça da mulher para o lado, impedindo que ela aspire o líquido amarelado que é projetado para fora de sua boca.

— Afogamento? – A voz de Langdon é ouvida ele se aproxima da cabeceira da maca, calçando luvas de procedimento.

Gabriela faz que sim com a cabeça. Está suada e ofegante.

— Ainda há líquido na cavidade oral. Acho que precisamos aspirá-la. – Gabriela avisa, enxugando a testa com a costa de uma das mãos.

— É o que vamos fazer. – Robby posiciona a cabeça da paciente para que consiga colocar a cânula de aspiração em sua boca.

Al-Hashimi puxa para perto deles o monitor cardíaco, que dispara ao ser ligado à paciente.

— Taquicardíaca. Nesse cenário, é algo promissor. Parabéns pelo RCP rápido e eficiente, Alves. – A médica a elogia mais uma vez.

Gabriela sorri e o calor do reconhecimento irradia em seu peito.

— Saturação em 86%. – Al-Hashimi observa o monitor e em seguida se vira para Gabriela. – Como procedemos?

— Catéter de O2. 2 litros. — Ela responde prontamente.

— 3 litros, Alves. Por segurança. — Langdon fala devagar, atraindo a atenção da sala para si.

Ele mantém os olhos fixos em Gabriela. Há um quase-sorriso em seus lábios.

Ela pigarreia e concorda com um aceno de cabeça, muda.

Não consegue encontrar nada que gostaria de dizer.

— Já pode descer daí, Alves, você é mais útil no chão. – Robby brinca e ela percebe que ainda está sentada sobre a paciente.

— Desculpe. – Ri, sem graça.

— Aqui. – Langdon caminha para perto dela e estende a mão para que ela possa apoiar-se. – Subir é mais fácil do que descer.

Gabriela hesita por um segundo antes de segurar a mão dele.

Mesmo através da luva, há firmeza demais naquele toque. A pressão que ela exerce para pular para fora da maca não parece fazer diferença alguma para ele.

Ao pisar no chão, o corpo dela ainda responde à adrenalina.

— Tudo certo? – Langdon indaga.

Estando perto demais, Gabriela consegue sentir o perfume que ele está usando.

E é bom. O que não ajuda.

— Sim. Obrigada. – Agradece, encontrando o olhar dele novamente.

Ela agora não sabe dizer ao que se deve a sua respiração descompassada.