Pulso Elevado (Frank Langdon)
19 13h38min
13h38min
— O que está acontecendo lá fora?
Gabriela é parada por Javadi assim que passa da recepção para dentro da enfermaria. Ela vira o corpo como se para olhar de volta para as portas por onde acabou de entrar e esfrega os olhos. Não quer que a outra perceba que esteve chorando.
— Só uma confusão entre um paciente e um visitante, já estão resolvendo. – Ela se vira novamente para encarar a menina.
— Eu ouvi latidos. – Javadi dá uma risadinha. – Tem um cachorro aqui?
Gabriela faz que sim com a cabeça e os olhos de Javadi se arregalam.
. – Eu preciso resolver uma coisa. – Gabriela diz rápido, tentando se desvencilhar de mais perguntas enquanto volta a caminhar em direção à copa.
Javadi continua parada ali, visivelmente indecisa entre ceder ou não à curiosidade de checar o burburinho.
Gabriela acelera o passo, mantendo o olhar no chão até chegar na copa.
Alívio percorre seu corpo quando vê que não há pessoas ali dentro.
Não quer conversar com ninguém sobre isso.
Não quer responder às perguntas.
Não quer que tenham pena dela.
Não quer que tentem salvá-la.
A única vontade que circula forte por seu corpo é a de voltar até a recepção e encher a cara do MAGA de socos e gritos.
Sente raiva de si também por vir mesmo para a copa depois de Langdon praticamente ordenar.
Ela não precisa de descanso e pode ir para onde quiser.
Ele não manda nela.
Dor irradia pela mão esquerda quando ela alcança um copo no armário suspenso. Agora que o susto está passando, os pontos atingidos na queda estão dando as caras.
Ao levar o copo de água até a boca, o líquido treme dentro do vidro. A respiração acelerada compete com cada gole.
Gabriela deposita o copo sobre a bancada e caminha de um lado para o outro, chacoalhando as mãos. As extremidades dos seus braços e pernas estão pesados, formigando.
Mais lágrimas teimosas descem por seu rosto e ela as limpa com raiva.
— Filho da puta. — Xinga sozinha- Maldito.
Tem que dar tudo de si para não voltar lá e piorar ainda mais a situação.
Está se sentindo humilhada e impotente.
É muito diferente reagir a esse tipo de violência quando acontece na realidade e com você. Não é como militar na internet, é amedrontador e paralisante.
Principalmente em outro país, onde corre o risco de perder uma bolsa de estágio.
Se envolverem a polícia ela provavelmente precisará prestar depoimentos.
A cabeça dela dói pulsante.
Talvez Langdon tenha razão.
Talvez ela precise de meia hora.
Ela apaga a luz da copa e vai até a parede mais afastada da entrada, deslizando pela parede até estar sentada no chão.
A única iluminação vem do lado de fora, pelos vãos da porta, branca e forte o suficiente para deixar o ambiente numa penumbra agradável.
O barulho monótono e estável do motor da geladeira abafa os pensamentos barulhentos dela.
Ela encosta a cabeça na parede e fecha os olhos.
Respira fundo algumas vezes, desacelerando.
Gabriela não sabe ao certo quanto tempo passa até que, de repente, tudo fica muito claro.
Alguém entrou e acendeu a luz.
Ela xinga mentalmente antes de abrir os olhos devagar e ver Langdon parado na porta.
— Minha cabeça começou a doer e o escuro me ajuda. – Ela responde ao ponto de interrogação no rosto dele.
— Ok. – Ele dá de ombros, apagando a luz novamente e caminhando até ela.
Langdon se senta no chão do lado direito dela e encosta na parede, esticando as pernas.
Gabriela ajeita a própria postura.
Ela não olha para ele.
Principalmente porque sente que ele a observa.
Em vez disso, ela encosta a cabeça na parede e fecha os olhos novamente.
— Você está bem? – A voz dele é suave.
— Uhum.
Gabriela não sabe o porquê, mas sente uma leve irritação por ele estar ali. Tão perto. Com os olhos tão azuis e tão fixos nela pela milésima vez no dia.
Ela cruza os braços sobre o peito.
— Está sentindo dor em mais algum lugar além da cabeça?
— Meu quadril. E minha mão. – Ela responde meio a contragosto, ainda de olhos fechados.
A irritação aumenta.
Gabriela abre os olhos assustada quando sente Langdon lentamente puxando seu braço direito . Ele segura a mão dela entre as dele e a apoia sobre a própria perna, checando os ligamentos e articulações dos dedos.
Ela sequer pisca.
Inferno.
O toque dele é quente, quase carinhoso.
Ela se pergunta se os pacientes que dele o sentem da mesma forma.
Ao encará-lo, ele está completamente concentrado na mão dela.
Na mão errada.
Não é nem aquela que está doendo.
Mas ele não precisa saber disso.
— Seu pulso está elevado. – Ele murmura. -Muita dor?
O olhar deles finalmente se encontra e ela quase puxa o braço de volta, mas não o faz.
Não é por isso que está elevado, idiota.
— Não por causa disso. – Ela deixa escapar.
Meio por acidente.
Meio de propósito.
— Não entendi? – Langdon indaga.
A mão ainda sobre a dela. Os olhos ainda sobre os dela.
Gabriela respira fundo.
Merda.
Merda.
Merda.
- Não faz isso. – Ela pede sob a respiração faltante.
— O que? – Ele para os movimentos que estava fazendo . – Está doendo tanto assim? Podemos fazer um raio-x.
Estão tão próximos que é possível sentir o calor que emana dele.
Gabriela puxa a mão de volta para si com um pouco mais de força do que o necessário e as sobrancelhas de Langdon se arqueiam.
— Não é nem essa mão que está doendo, Langdon.
— Você vai precisar ser mais específica para eu conseguir te ajudar, Gabriela. – Ele diz, imitando o tom dela. Há uma ponta de ressentimento ali.
— Quer mesmo me ajudar? – Ela soa mais irônica do que pretendia.
Langdon abre a boca sem saber o que responder. Há confusão em seu rosto.
– Por que parece que você está irritada comigo?
- Porque- Ela começa rápido e se cala na mesma velocidade.
Langdon se desencosta da parede e vira o corpo totalmente para ela.
Gabriela o encara rapidamente antes de voltar o olhar para o próprio colo.
— O que aconteceu na recepção foi horrível, mas-
— Não é nada disso.
— Fale comigo. – Ele pede e ela o encara.
Ela quer rir e chorar ao mesmo tempo. É como estar indo lentamente ao encontro de uma crise de pânico, porque seu corpo prevê o que está por vir.
Arriscando o que quer que seja, Gabriela se inclina e beija Langdon.
Assim que os lábios dela se chocam com os dele, pegando-o de surpresa, ele recua minimamente.
Ela abre os olhos, mas não se afasta.
A respiração dele se mistura com a dela.
Tudo fica suspenso à beira de um precipício por um longo segundo.
Então ele a beija de volta.
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