Pulso Elevado (Frank Langdon)
20 13h38min (parte 2)
Então ele a beija de volta.
A resposta começa pequena, quase indistinguível do choque. Um movimento mínimo dos lábios dele contra os dela, como se Langdon ainda estivesse decidindo se aquilo está realmente acontecendo ou se Gabriela bateu a cabeça com mais força do que imaginavam.
Então alguma coisa cede.
Ele inclina o rosto e aprofunda o beijo.
Gabriela sente o ar fugir de seus pulmões. Não de susto, nem de medo, nem por causa da queda. É uma falta de ar diferente, quente, que nasce no centro do peito e se espalha pelo corpo inteiro quando a mão de Langdon alcança seu rosto.
Os dedos dele se encaixam sob sua mandíbula. O polegar pressiona levemente a pele abaixo de sua orelha e a aliança roça sua bochecha.
Fria.
Impossível de ignorar.
Ainda assim, Gabriela não se afasta.
O corpo dela se vira completamente na direção dele, uma das pernas dobrando entre os dois. Sua mão direita encontra a nuca de Langdon e os fios escuros e macios do cabelo dele passam por entre seus dedos. Ele solta o ar contra a boca dela, um som baixo, contido, e isso é o suficiente para fazer Gabriela avançar um pouco mais.
Por algumas horas, ela se perguntou como seria beijá-lo.
Agora percebe que sua imaginação não chegou nem perto.
Langdon beija como trabalha: seguro, concentrado, como se soubesse exatamente o que está fazendo mesmo quando tudo ao redor está desmoronando.
A diferença é que, dessa vez, Gabriela consegue sentir o esforço necessário para que ele mantenha o controle.
E quer acabar com ele.
Ela suga levemente o lábio inferior dele entre os dela e a mão em sua nuca se fecha com um pouco mais de força. Langdon reage inclinando-se sobre ela.
A mão dele que não está em seu rosto se apoia no chão, ao lado de sua coxa.
Perto.
Muito perto.
Ela só consegue querer mais.
Gabriela desliza os dedos da nuca dele até a gola do scrub preto, puxando-o minimamente. O movimento parece despertá-lo de alguma coisa.
Langdon interrompe o beijo.
Não se afasta por completo. A boca dele permanece a poucos centímetros da dela, a respiração quente tocando seus lábios. Gabriela continua com os olhos fechados por um instante, esperando que ele volte.
Quando percebe que isso não vai acontecer, abre-os lentamente.
Langdon a encara.
Há desejo ali, evidente o suficiente para destruir qualquer possibilidade de Gabriela acreditar que interpretou tudo errado.
Há outra coisa também.
Pânico.
- Não. – Ele murmura. – Não. Não...
Gabriela pisca algumas vezes. A mão dela que ainda segurava o uniforme dele se solta dali, mas ela não recua.
‘Não’ costuma vir antes da parte em que você beija alguém de volta. Ela pensa.
Langdon fecha os olhos e abaixa a cabeça. Por um segundo, a testa dele quase toca a dela.
- Gabriela...
É a primeira vez que ela ouve o próprio nome na voz dele daquele jeito.
Baixo. Rouco. Quase uma reclamação.
Gabriela não sabe o que está por vir, mas não parece bom.
- Era isso que você queria que eu entendesse? – Langdon pergunta.
Ela engole em seco.
- Você entendeu?
Ele abre os olhos.
- Entendi.
- Então, sim...
Os dois permanecem em silêncio.
O motor da geladeira continua trabalhando ao lado deles, alheio à catástrofe. Do lado de fora, alguém passa pelo corredor empurrando alguma coisa com uma roda defeituosa. O ruído se aproxima, atravessa a porta e desaparece.
A enfermaria continua viva.
Ninguém percebe que, dentro da copa escura, Gabriela acaba de beijar um dos seus superiores.
Ninguém percebe que ele correspondeu.
Ninguém percebe que ele parece arrependido e que ela está começando a sentir medo das consequências.
- Esse é o problema. – Langdon diz.
- Não pareceu um problema...
- Você acabou de ser agredida, Alves.
A frase, o sobrenome, a atingem como um balde de água fria.
Gabriela sente irritação nascer no lugar onde, segundos antes, havia apenas desejo.
- O que isso tem a ver?
- Você está abalada. Seu corpo está cheio de adrenalina. Pode não estar pensando direito.
Gabriela solta uma risada curta, sem humor.
- Então essa é a explicação?
- Não estou tentando explicar.
- Está, sim. – Ela se afasta e ajeita a postura. – Está tentando transformar isso em algum tipo de reação desorientada porque eu fui empurrada.
- Não foi o que eu disse.
- Eu queria te beijar muito antes daquele homem encostar em mim...
Langdon se cala.
O maxilar dele se contrai e seus olhos abandonam o rosto dela, caindo sobre o copo de água esquecido na bancada.
Gabriela sente uma satisfação pequena e amarga.
- Na verdade, eu queria te beijar antes de saber que você era casado. – Continua. – E continuei querendo depois.
O olhar dele retorna imediatamente.
- Eu ainda sou casado.
Mais um balde de água fria.
- Eu sei. – Ela franze as sobrancelhas, o arrependimento ameaçando tomar conta dela.
- Você não sabe nada sobre o meu casamento.
- Porque você não me contou.
- Porque te conheci hoje.
- Isso não te impediu de me contar sobre os medicamentos.
Langdon inspira fundo, como se precisasse impedir uma resposta agressiva de sair.
Gabriela reconhece que está sendo injusta assim que termina a frase.
A revelação dele não foi um convite. Não foi uma moeda de troca nem uma intimidade criada para seduzi-la. Langdon contou porque ela viu algo que não deveria e ele preferiu lhe entregar a verdade antes que ela a escutasse de outra pessoa.
- Desculpa. – Ela murmura. – Não deveria ter usado isso.
- Não deveria.
A resposta seca pesa entre os dois.
Gabriela desvia o olhar.
- Mas não estou confusa sobre o beijo...
Langdon passa a mão pelos cabelos, jogando os fios para trás.
- Eu sou um dos seus supervisores, Alves.
- E eu sou adulta.
- Isso não torna uma boa ideia.
- Eu nunca disse que era.
Por um instante, ele parece prestes a rir.
Os lábios quase cedem, mas Langdon consegue impedir. A expressão séria retorna e ele balança a cabeça negativamente, mais para si mesmo do que para ela.
- Você é inacreditável.
- Faz seis horas que você me conhece, Langdon.
- Foram suficientes.
Gabriela sente o canto da própria boca subir.
- Para quê?
Os olhos dele descem até os lábios dela.
Dessa vez, nenhum dos dois consegue fingir que não aconteceu.
- Para saber que isso vai dar problema.
O estômago de Gabriela se aperta.
Ela não sabe se a frase é uma recusa ou uma promessa.
Antes que possa perguntar, um som agudo atravessa o ambiente. Langdon leva a mão ao bolso e retira o pager. A luz fraca da tela ilumina seu rosto enquanto ele lê a mensagem.
A realidade o alcança primeiro.
- Preciso voltar.
É claro que precisa.
Gabriela concorda com a cabeça e olha para a porta, esperando que ele se levante.
Langdon não se move.
Os olhos dele percorrem o rosto dela mais uma vez e descem até suas mãos.
- Qual delas está doendo?
- O quê?
- Você disse que sua mão estava doendo. Qual?
Gabriela olha para as próprias mãos apoiadas no colo.
- A esquerda.
Ele a encara, incrédulo.
- Você me deixou examinar a direita.
- Eu estava distraída.
- Percebi.
Langdon estende a mão, esperando.
Gabriela deposita a esquerda sobre a palma dele e quando ele a toca, ela sente cada ponto de contato. As pontas dos dedos dele, o calor da palma e a aliança pressionando a lateral de sua mão.
Langdon examina seu punho com cuidado. Pressiona a base do polegar, os pequenos ossos e as articulações.
Gabriela contrai o rosto quando ele alcança um ponto dolorido.
- Aqui?
- Um pouco.
Ele movimenta o punho dela para os lados.
- E aqui?
- Menos.
- Consegue fechar a mão?
Gabriela obedece, formando um punho. Há dor, mas nada que a impeça.
- Não parece fraturada. – Langdon conclui. – Mas você deveria colocar gelo e fazer um raio-X se continuar doendo.
- Posso sobreviver.
- Não falei que vai morrer.
- Você costuma ser mais tranquilizador com os pacientes?
Langdon levanta os olhos para ela.
- Você não é minha paciente.
A frase permanece no espaço entre eles.
Gabriela retira a mão devagar.
- Acho que isso já ficou claro.
Os olhos dele descem novamente até sua boca.
O pager emite outro som.
Dessa vez, Langdon se levanta rapidamente.
Gabriela acompanha o movimento do corpo dele até que esteja totalmente em pé. Por um segundo, ele parece grande demais naquela sala pequena. Ela continua sentada no chão, consciente da posição em que se encontra e de como ele a observa lá de cima.
Langdon estende a mão para ajudá-la.
Gabriela hesita antes de segurar a mão dele.
Langdon a puxa com facilidade eles acaba perto demais outra vez. Seu corpo toca o dele rapidamente, peito contra peito, antes que consiga encontrar equilíbrio. As mãos dele alcançam sua cintura e ela sente a pele queimar sob o tecido quandoos dedos dele apertam o scrub.
Inferno.
Ela sente a respiração falhar.
- Coloque gelo na mão, Alves. – Ele diz e a solta.
- Sim, doutor.
Ele aperta o maxilar ao ouvir o título.
Gabriela sorri.
Langdon caminha até a porta, mas para antes de abri-la.
Ele olha por cima do ombro.
Há um milhão de coisas que poderia dizer: “Isso não pode acontecer novamente.” Ou “Não conte a ninguém.” Ou “Me desculpe.” Ou “Não me siga.”
Em vez disso, Langdon apenas sustenta o olhar dela por alguns segundos e sem dizer nada, ele abre a porta e retorna para a enfermaria.
A luz fria do corredor invade a copa antes que a porta se feche novamente, deixando Gabriela sozinha na penumbra.
Ela permanece parada.
Seu coração ainda se debate contra as costelas e os lábios parecem sensíveis, pulsando discretamente com a lembrança da boca dele.
- Puta que pariu. – Sussurra, sozinha.
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