10h29min

Depois de resgatar outra vasilha de pera em sua bolsa no armário Gabriela está na copa da enfermaria encostada na bancada, espetando os pedaços da fruta com um palito de dentes. Ela definitivamente vai precisar se alimentar melhor se quiser aguentar quinze horas nesse ritmo.

— Ei.

Gabriela sequer precisa olhar na direção da voz para saber quem entrou na copa.

Langdon.

— Ei. – Ela devolve, mantendo sua atenção no pedaço meio murcho de pera que segura no meio do caminho entre o pote e sua boca.

Langdon passa por ela e, no final da bancada, abre o armário suspenso na parede para pegar uma xícara.

A ação dura poucos segundos, mas quando ele levanta o braço e o uniforme sobe, Gabriela, que agora o observa, consegue vislumbrar uma pequena área de pele exposta logo abaixo do umbigo.

Ela percebe tarde demais para onde está olhando quando ele questiona algo e ela não entende.

Ao alcançar os olhos de Langdon, tem certeza de que ele notou para onde ela olhava.

— O que disse? – Ela pigarreia, tentando eliminar a vergonha entalada na garganta.

— Perguntei se aceita café. – Ele levanta a chaleira. Os olhos azuis sobre os dela.

— Não, obrigada, dr. Langdon. – Ela recusa, desajeitada.

— Pode me chamar de Langdon. – Ele diz enquanto se serve do líquido escuro.

— Pode me chamar de Gabriela.

Langdon faz que sim com a cabeça e leva a xícara até a boca, encobrindo o indício do que parece ser um sorriso.

Decidida a não sair dali naquele momento, Gabriela se demora nos três últimos pedaços de fruta.

— O que tem aí? – Langdon a questiona depois de puxar uma cadeira para se sentar à mesa.

Ele está com o corpo virado em direção a Gabriela, as pernas afastadas e move distraidamente sua xícara sobre a mesa.

— Pera. – Ela tomba a abertura do pequeno pote para que ele possa ver. — Eu te ofereceria se não estivesse murcha. Esqueci de colocar na geladeira.

— É um costume brasileiro usar palito de dente como talher?

Ela abre a boca para se explicar, mas percebe o tom irônico dele a tempo.

— Sim. E meias como guardanapos.

Langdon arqueia as sobrancelhas e ri brevemente, parecendo surpreso com o fato de Gabriela compartilhar do seu humor.

— A paciente da sala 5 está consciente. – Ele conta.

— A que se afogou? Que bom! – Gabriela se entusiasma. – Vou checá-la daqui a pouco.

— Al-Hashimi me contou sobre sua agilidade na RCP. Será que você gosta de adrenalina tanto quanto eu?

— Eu diria que sim. – Ela confirma com uma porção de orgulho em sua voz.

Por poucos segundos, eles se encaram em silêncio, então Langdon recebe uma notificação em seu celular e o retira do bolso, voltando sua atenção para o aparelho em sua mão.

Gabriela, que ainda está encostada na bancada também alcança seu celular.

Ela abre o Whatsapp na conversa com Maria, acessa a câmera e tira uma foto de Langdon escondido.

“nada apropriado para dizer” Gabriela escreve na legenda e a envia para a amiga.

No mesmo instante, Langdon deposita do celular dele sobre a mesa com um pouco mais de força que o necessário e Gabriela se assusta com o gesto. Ele se inclina no assento da cadeira, apoiando os ombros sobre os joelhos e massageando os olhos num movimento auto pacificador.

— Está tudo bem? – Ela pergunta sem muita certeza de que deveria o fazer.

— Sim. – Ele responde automaticamente, sem esforço o suficiente para convencer a ele mesmo da resposta.

Quando Langdon finalmente recosta na cadeira e olha em direção a ela, ela desliza o celular para dentro do bolso da calça num receio paranoico de que ele possa desconfiar da foto que ela acabou de tirar.

— Se eu puder ajudar em algo... – Ela insiste.

— Não se preocupe com isso. – Ele diz e se levanta.

Langdon caminha em direção a bancada e para ao lado de Gabriela, depositando sua xícara dentro da pia para lavá-la.

Ele permanece em silêncio.

Agora ela já não olha para ele. Não assim, tão de perto.

A mente dela circula em busca de algo para dizer, mas, novamente, não encontra nada.

— Dá essa para mim. – Langdon estende a mão molhada em frente a Gabriela e ela o encara, finalmente.

Estão tão próximos que ela imagina conseguir calcular a profundidade do furo charmoso que ele tem no queixo.

Ou memorizar o desenho suave dos lábios dele.

Ou o contraste entre a sobrancelha escura e os olhos claros.

Ou...

Os olhos dela só deixam de passear pelo rosto de Langdon quando ela sente sua vasilha sendo puxada de suas mãos.

– Deixe que eu lavo para você. – Ele pede novamente, o tom mais leve agora.

Ela se desencosta da bancada e da alguns passos para o meio da copa, como se a distância pudesse abafar o som do coração que está se debatendo loucamente contra as suas costelas.

— Obrigada, não precisava.

— Você fica me devendo uma. – Langdon fala por cima do ombro.

Gabriela aperta as mãos uma na outra. A vontade é de voltar para perto dele.

A coragem é menor que isso.

O celular vibra no bolso dela. Pela tela de notificações, é possível ler a mensagem de Maria:

“O QUE É ISSO? me diz que aquilo na mão dele NÃO é uma aliança pelo amor de deus!”

Só então Gabriela se dá conta de que, até aquele momento, não tinha visto a aliança bem-posicionada na mão esquerda de Langdon.

Ou não quis ver.