Pulso Elevado (Frank Langdon)
4 07h25min
07h25min
Gabriela gosta da sensação que os primeiros dias causam nela porque ela sempre simpatizou com a incerteza do futuro.
A notícia da contemplação da bolsa para cursar o segundo ano de residência médica nos Estados Unidos, mesmo com todo o esforço e intenção aplicados, foi recebida como surpresa. Quando você se entrega para o mistério da vida, ela o presenteia com pequenas e boas surpresas aqui e ali. E, se você souber olhar para trás, verá que jamais poderia ter escrito a história exatamente da forma como aconteceu, ou como ainda está acontecendo. O nosso destino é mais criativo do que nós mesmos. E mais generoso, também.
— Dra. Alves! – Robby se aproxima do posto central da enfermaria espalhando álcool em gel entre as mãos e resgatando Gabriela dos próprios pensamentos.
— Pode me chamar de Gabriela. – Diz, animada.
— Antes de tudo, parabéns pela bolsa de estudos. – Ele elogia e caminha em direção a sala de espera. Gabriela o acompanha. Devido a diferença de altura entre eles, ela precisa apertar o passo para conseguir manter-se ao lado dele. – Sou o Dr. Michael Robbinavitch. Serei seu supervisor por aqui. Se tratando do atendimento de pacientes você deverá sempre consultar a mim ou a Dra. Al-Hashimi antes de realizar qualquer procedimento invasivo.
Gabriela concorda com um aceno de cabeça.
— Há também os residentes sêniores, como a Dra. Mohan e o... – Robby faz uma pausa e respira fundo antes de continuar. – E o Dr. Langdon. Você também pode consultá-los caso eu ou Al-Hashimi não estejamos disponíveis.
Eles passam pela mesma porta vai-e-vem que Gabriela entrou mais cedo e Robby observa o local atentamente:
— Os pacientes dão entrada aqui na recepção, uma enfermeira dá uma olhada rápida neles para ter certeza de que não estão morrendo. Se não estiverem em estado crítico, eles seguem para uma das duas salas de triagem, onde são verificados os sinais vitais e feito um exame rápido na cadeira, momento em que você já pode solicitar exames de laboratório e raios-X.
— Passei por aqui agora há pouco. – Ela também observa a sala — Está lotado hoje.
A sensação ali continua lenta, quente e úmida. Como lesmas em uma sauna.
— Está lotado sempre. – Robby corrige. — A maior parte da nossa enfermaria fica travada com pacientes internados que ainda não conseguiram leito lá em cima. Leitos são um recurso precioso, então seja rápida e eficiente nas suas avaliações. Metade dos seus casos vai receber alta direto das cadeiras.
Eles voltam para a enfermaria, ela seguindo os passos dele.
— Dr. Robby. Os sinais vitais do paciente na sala 7, estão estáveis há mais de quatro horas e os exames do laboratório estão dentro da normalidade, vou dar alta e pedir para que ele venha amanhã cedo para uma reavaliação.– Uma jovem asiática se junta aos dois. Seu ar é confiante e ela mantem as mãos nos bolsos do uniforme.
— Excelente, Dra. Santos, pode prosseguir desta forma. Estou apresentando o local para nossa nova colega, Dra. Alves. – Robby inclina levemente seu tronco em direção à Gabriela.
— Bem-vinda. – Santos dá um breve sorriso. – Preciso atualizar alguns prontuários.
A asiática se afasta ainda olhando em direção a Gabriela.
– Até mais. – Gabriela se despede de longe.
Robby encara o painel de pacientes na TV sobre o posto central por alguns segundos antes de retomar a apresentação — que ele deve ter feito um milhão de vezes, Gabriela imagina.
— Toda a informação que você precisa vai aparecer aqui nessa tela. Nosso sistema é integrado. Você tem o número da sala, um resumo dos sintomas, o médico responsável e os medicamentos e exames prescritos. Está tudo aqui.
— Eu acho que dou conta... – Gabriela diz esperançosa e aperta suas mãos uma na outra para aliviar a energia ansiosa que percorre seu corpo.
— Eu também acho que dá conta. – Dana surge atrás deles e entrega alguns papéis a Robby. – Resultados da paciente na sala 13. Não são muito positivos.
Robby examina os papeis com atenção. Sua mão livre vai de encontro a sua barba grisalha e ele levanta as sobrancelhas.
— Ok. – Ele comprime os lábios. – Uma última coisa antes de começar o seu primeiro dia oficialmente: A pessoa mais importante que você vai conhecer hoje é essa mulher aqui. – Robby coloca a mão sobre o ombro de Dana e ela exibe um sorriso que fica entre o lisonjeio e o chiste. — Dana é a nossa enfermeira-chefe. Ela é quem comanda esse circo. Faça o que ela disser, quando ela disser e tudo ficará bem.
— Entendido. – Gabriela ri sutilmente. Sua primeira impressão sobre Dana Evans estava certa. Ela é mesmo o eixo daquela enfermaria.
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