Pulsação

4 Sozinho em meu quarto,


Notas iniciais
... com as batidas do meu coração gritando //

Pôs-se a observar as flores na janela. Aquele lugar, aquelas cores, as pessoas. Era sempre a mesma coisa. Mas ele não sabia por que estava lá, nem o que fazer. Não se lembrava de mais nada...

Ainda faltavam algumas horas para que a enfermeira chegasse com os remédios e a comida. Como ele recusava-se a tomar os remédios, ela gentilmente misturava os dois, apesar dele sempre perceber o gosto do ácido no suco.

“Aquela maldita droga... – pensava –... eu sei, deve ser por isso que eu não me lembro de nada... Porque me mantem aqui?”

Aquelas flores eram as únicas coisas que o alegrava. Já havia tentado pular a janela, quebrar coisas contra a grade, mas foi inútil. Aquele hospital não tinha saída.

Sentia falta de alguns dedos delicados movendo-se contra as teclas de um piano, mas ele tinha a certeza de que nunca lembraria ao certo o rosto que amava. Ele não voltaria a vê-la, não sentiria seus dedos hábeis no piano outra vez. Nunca voltaria a ter aquele toque, aqueles lábios suaves se movendo contra os seus.

Mas ele não se lembrava... Porque acabou?

Encolheu-se sentado junto à janela, a neve estava caindo... Cobria de branco os pequenos pontinhos cor-de-rosa que oscilavam no ar.

Primavera se foi.

- Bom dia, querido! Que bom que já está acordado...!

- Porque não me chama pelo nome?

- Ah... Mas você com certeza não irá se lembrar...

Ela se aproximou. O vestido branco e justo mostrava as poucas curvas de seu corpo. As rugas de cansaço...

O Jovem levantou-se rápido quando ela se aproximou. Puxou-a para perto, segurando pela blusa, encarando-a furiosamente.

- Ah... Senhor! Senhor... Solte-me, por favor.

- Me diga... Diga agora. Fala tudo.

- Mas... Eu não sei de nada, juro! Senhor... Deixe-me! Eu não sei de nada, não sei não. Nós não sabemos nada a respeito dos pacientes, deixe-me!

As lágrimas de medo escorreram na pele da mulher pelas mãos do maior. Ao senti-las congelando em suas mãos, ele olhou para o rosto da enfermeira, um mais escuro, olhos cerrados de medo...

Ele a deixou, apanhando o pão do chão e colocando-o de volta na bandeja.

- Desculpe-me, senhora...

- Ah, não tem problema...

- Eu sempre faço isso?

- Sempre, sim.

- Eu já a machuquei alguma vez?

- Bem, isso não importa. O senhor sempre melhora depois que a sua amiga chega.

- Quem?

- A senhora Mayumi...

- Ah? Ela vem sempre?

- Sim, sim. Sempre. O senhor tem uma boa amiga...

- Desculpe-me por fazê-la limpar o chão. Eu não queria...

- Bem? Porque não toma um pouco de sol hoje? O senhor já está bem pálido...

- Eu não quero...

- Certo, vou buscar algo para você comer.

- Obrigado, senhora.

Ela sorriu paciente. Ao seu redor o chão sujo de suco, a cama bagunçada, as paredes e o lençol... Tudo branco.

A enfermeira saiu com a bandeja em mãos, caminhando devagar pelos corredores. Um enfermeiro alto, jovem, perguntou-a o que houve dessa vez.

- O de sempre...

- Porque ainda insiste em cuidar deste?

- Ah... Nenhuma outra enfermeira irá cuidar dele como eu. A senhora Mayumi não quer que ele seja maltratado. Ela merece isso, coitada. Já sofreu tanto...

- Poderia pagar e simplesmente não aparecer como muitos fazem, mas ela sempre o visita. Sempre cuidando dele.

- Mas ela o ama, sempre voltará.

- Assim espero...

xxx

- Bem, eu tenho que ir.

- Sim, depois passe na minha sala para deixar o relatório.

- Ele certamente estará melhor quando a Sra. Mayumi voltar.

- Bem, eu já vou... Não está voltando?

- Não. Ele jogou a comida no chão.

- Era de se esperar... Bem, tchau.

A mulher se retirou em passos leves até a cozinha. Olhou pelo vidro os outros pacientes comendo e conversando coisas que não faziam nenhum sentido. Alguns muito tristes, e outros delirantes. Aquele lugar lhe dava arrepios.

Ela pegou a bandeja com pão, suco e uma maçã. Com os mesmos passos leves voltou ao quarto em que estava o maior.

- Oi, eu voltei.

- Obrigado.

- Bom, de qualquer forma, anime-se! A senhora Mayumi logo chegará.

- Quem?

- A sua amiga...

- Ah...

- Pode comer agora.

Ele pegou a maçã e comeu, sorrindo. A enfermeira recolheu o que ele deixou de lado. Ele sentou-se no chão e terminou de comer a maçã. Ele voltou a olhar para a janela, aquelas flores oscilando... Que coisa bela.

Alguém bateu a porta e entrou devagar, mas ele não olhou. Ela hesitou entrar, arrumando o cabelo atrás da orelha, até que o maior virou os olhos para ela.

- Comeu?

- Um pouco...

- Sei. Ela sentou-se na cama, as longas pernas magras cruzadas. Mas uma vez, ele mal lhe dava atenção. Todos os cuidados que ela tomava com ele, eram em vão.

- O dia está belo.

- Sim...

- O que foi? – ele sentou ao seu lado, olhando para ela.

- Nada. Só fique um pouco aqui comigo, por favor.

Permaneceram em silêncio um pouco.

- Qual é o meu nome?

Ela sentiu uma faca atravessando o seu peito.

- Kyo...

- E quantos anos eu tenho?

- Vinte.

- Trabalho?

- Tem uma banda.

- Tenho família...?

- Sim, você tem a... — A mim? Ele pensou.

- Ah... E você, não é da família?

- É, algo assim. – Trapaceou – Digamos que uma boa amiga.

Ele fitou o anel nas mãos da mulher. De noivado.

- Eu sou casado?

- Sim...

- Qual o nome dela?

- Aoi.

- Ela costuma vir aqui?

- Hoje ela não pode.

Notas finais
bom, pediram pra escrever capítulos maiores, tá aqui XD faz alguns meses que eu não escrevo né? é porque eu tava passando por uns problemas pessoas, mas tô de volta *o* bom, espero que comentem pra que eu me inspire a continuar s2