Psicopata

22 Capítulo 22


O clima na Delegacia era tenso, como um fio desencapado deixando curtas ondas de energia escapar, o ar estava carregado, pesado com preocupação e cansaço de todos ali presentes, deixei a porta de vidro se fechar vagarosamente atrás de mim, os policiais que ali estavam, ocupados com seus serviços e papeladas, lançavam olhares ligeiros para o corredor onde a sala de reuniões ficava sempre que tinham oportunidade, ansiosos demais para se concentrarem no que estavam fazendo, passei os dedos no cabelo, retirando alguns flocos de neve que não haviam derretido, bati os pés no tapete marrom e parei de perder tempo, já estava dez minutos atrasada, a cativante família hippie havia me feito esquecer de meus deveres e preocupações até o momento que a realidade da minha vida bateu em minha cara e me mandou correndo de volta para o carro.

Suspirei. Eu nem ao menos me despedi.

Caminhei a passos pesados até a sala, devolvendo acenos de cabeças para os meus colegas nervosos. A sala de reuniões era a última porta de um comprido corredor, os poucos segundos que levou até que eu parasse a sua frente, foram ocupados por inspirações profundas e expirações longas, havia uma certeza óbvia que a reunião não abordaria somente a investigação sem sucesso no caso do Assassino das Cartas, mas também minha conduta irresponsável de ontem, eu havia atiçado ainda mais a imprensa e sabia que por causa disso haveria consequências severas.

Respirei fundo pela última vez e bati duas vezes no vidro da porta. Recebendo permissão para entrar, abri e fui recebida por rostos conhecidos sérios e um novo, ele pertencia a uma mulher alta, de longos cabelos ruivos amarrados em um alto rabo de cavalo, seu terninho escuro, seus olhos castanhos de ferro e sua postura ereta me deram as pistas que precisava para saber que aquela mulher era a superior dos agentes.

— Peço perdão pelo atraso. — falei, comedida, sendo intimidada pelo olhar avaliador da ruiva.

Makarov sinalizou para uma das duas cadeiras vazias, ele não sorriu nem me olhou nos olhos, sentei-me ao lado de Levy que tentou sorrir pra mim, sem sucesso, sentindo meu pescoço esquentar de vergonha, olhei para o tampo da mesa coberto de papeis e fotos, Makarov estava desapontado comigo, mesmo não demonstrando nada, eu o conhecia a muito tempo, sabia reconhecer quando algo o incomodava, o irritava, o desapontava.

Afastei-me desses pensamentos, eles não me ajudariam em nada. Endireitei a postura, tirando o casaco e o pendurando no encosto da cadeira, levantei a cabeça, estudando a atmosfera que permeava a sala, Natsu e Gageel estavam sentados do lado da mulher ruiva, seus ombros estavam tensos e não pareciam muito confortáveis, meus olhos se encontraram com os do agente Dragneel e ele não sorriu torto para mim, apenas continuou me fitando até que eu quebrasse o contato visual, fora Levy sentada ao meu lado, Makarov ao lado desta, faltava somente Gray, sua cadeira vazia me incomodava e a ponta de uma preocupação cutucou a lateral do meu corpo. Onde estava ele? Não podia ter sido afastado, podia? Estava muito envolvido, quem quer que aquela mulher ruiva fosse, era inteligente o bastante para não deixar de usar qualquer um envolvido naquele caso de fora dele, esfreguei os dedos, nervosa, não me importando com o ardor que isso provocou neles, eu deveria arranjar um jeito de ligar para o moreno quando houvesse uma pausa naquela reunião.

Makarov estava falando, forcei-me a concentrar no aqui e agora.

— Não podemos esperar mais, creio que o policial Gray não nos acompanhará hoje. — o velho franziu o cenho, ele conhecia muito bem o moreno e sabia que o mesmo não era de faltar em algo tão importante quanto aquela reunião, voltou a falar. — Por conta da maneira como essa investigação está indo, tivemos que ceder esse caso, agora ele pertence ao FBI e terá continuidade com seus agentes, porém, as pessoas que estiveram envolvidas nele desde o início farão parte da equipe e ajudará a pôr um fim nesse caso de uma vez por todas. — olhou por alguns instantes para cada rosto ali presente, seu olhar quase saltou o meu, quase torci para que saltasse mas ele acabou por me fitar com seriedade. — Lucy, seu afastamento foi abolido, será novamente a investigadora oficial do caso e seguirá não mais minhas ordens, pelo tempo que essa investigação durará, estará sob as ordens da Inspetora-Chefe Erza Scarlet.

A mulher ruiva se colocou de pé e quando me encarou, fiquei admirada com a força que seu olhar exibia, ali estava uma pessoa que não cederia a qualquer tipo de ameaça, que não seria intimidada por qualquer perigo que se deparasse e que não se acovardaria mesmo que o cano de uma arma estivesse apontado direto entre seus olhos. Não a conhecia e talvez nem chegasse a conhecê-la direito, mas no instante que um sorriso apareceu em seus lábios, suavizando a força mas não a apagando, comecei a respeitá-la.

Erza Scarlet era uma mulher que havia enfrentado dificuldades desconhecidas para mim mas que não se tornavam leves só por causa disso, possuía cicatrizes internas mas não deixou que elas fragmentassem quem era de verdade, não permitiu que a transformassem em algo falso e forçado. Ao invés disso, ela tornou-se forte em uma base fraca e machucada.

Ela havia conseguido algo que eu jamais conseguiria.

— Como o Chefe Makarov disse, a partir de hoje até o fim desse caso, serei eu a quem você reportará. — curvou-se e estendeu a mão.

Não me demorei a levantar e aceitar seu comprimento. O aperto foi firme e seu sorriso tornou-se mais afável, não lhe devolvi o sorriso por temer assustá-la com o quão artificial ele era, apenas assenti com a cabeça e sentei-me de novo.

— Certo, com isso resolvido, iremos aos pontos importantes dessa reunião. — Makarov disse e abrangeu o conteúdo da mesa, acrescentado aos papeis e fotos e cópias de cartas dos três primeiros corpos estava os novos do quarto corpo. — Temos a identidade da quarta vítima. — continuou, selecionando uma das dezenas de cópias das fotos que foram tiradas. — Alex Harris, 27 anos, trabalhava na área de Enfermagem do Hospital Geral de Magnólia, a família não contatou a polícia para informar seu desaparecimento a dois dias atrás, pelo que sua mãe relatou ao policial que enviamos à sua casa, Abbel Harris, Alex havia lhe dito que passaria alguns dias na casa de sua amiga, no entanto, quando entramos em contato com Sheila, ela disse que Alex nunca apareceu, isso faz com que surja algumas perguntas que devemos tentar responder aqui.

Ele olhou para o lado e sinalizou para que Levy continuasse, o garota arrumou os óculos.

— Alex realmente pretendia ir a casa de sua amiga Sheila ou isso foi somente uma desculpa para que fosse a outro lugar sem seus parentes saberem? Onde e como Alex foi pega pelo assassino? — ela parou por alguns segundos, deixando espaço para pensar, antes que voltasse a falar, ergui a mão. — Sim, investigadora Lucy.

— Quero ter certeza que todos sabem qual a arma foi usada para incapacitar as vítimas. — falei, olhando para Natsu e Gajeel, ambos balançaram a cabeça, negando que haviam compartilhado aquela informação, franzi o cenho. Ergui-me. — Posso atualizar esse caso para que esclareça algumas de suas partes? — perguntei, olhando para Makarov e depois para Erza.

— Vá em frente. — permitiu a ruiva.

Olhei para a mesa, procurando e pegando as fotos do corpo de Alex e uma que nos foi fornecida pela sua família, estudei seu rosto magro, cabelos loiros presos em um rabo de cavalo curto e olhos castanhos. Era dois anos mais nova mas havia algumas semelhanças. Desviei os olhos, puxando a cópia do laudo do legista.

— Todas as vítimas. — comecei, observando as fotos a procura da pequena queimadura, encontrei-a na base das costas, bati o dedo nela. — Possuem a marca de uma queimadura, feita por uma arma de eletrochoque, como todos aqui sabemos, a voltagem para essas armas são baixas, suficientes somente para paralisar por alguns minutos um adulto, mas caso ela fosse alta, acima do que a lei exige, seria potente o bastante para provocar a lesão na pele e incapacitar a vítima por horas que facilitariam sua locomoção para outro lugar. — dei uma pausa, deixando aqueles que não sabiam digerir o que eu havia falado, passei os olhos no laudo, lendo-o rápido. — Isso explica o método...

De repente a sala começou a girar. Dei um passo para trás e tentei me segurar no encosto da cadeira, porém ela tombou junto à mim quando meus joelhos trêmulos cederam. Não senti o impacto, apenas a tontura furiosa que fazia meu estômago dar nós horríveis. Vozes abafadas chegaram à mim de muito longe e mãos colocaram-me sentada, meu corpo mole foi apoiado por outro firme e alguns tapinhas foram dados em minhas bochechas.

Alheia a isso tudo, minha mente se recusava a parar de reler a frase no laudo do legista.

Alex Harris estava grávida de trinta dias. Trinta dias. A mesma quantidade de dias que eu estava antes de perder meu bebê e meu noivo. Tive vontade de me encolher em mim mesma e definhar até a morte. O assassino o havia arrancado do corpo vivo da mãe, a havia feito assistir seu filho morrer antes de lhe decepar a cabeça? Mesmo tendo tão pouco tempo de vida, ainda em fase de crescimento, estaria formado o bastante para Alex o ver e reconhecê-lo como o seu pequenino filho. Senti vontade de vomitar. Quando estive na cena do crime, não vi nada que fosse ao menos parecido com um feto, também não havia vestígio do cordão umbilical. Teria o assassino levado e descartado o corpo em algum outro lugar? Meu estômago retorceu ao imaginar uma segunda opção para o que teria acontecido realmente.

Eu queria muito chorar. Por Alex e seu bebê. Por mim e por meu bebê. Por Loki. Chorar até toda água do meu corpo secar. Mas eu não ia. Não agora. E talvez não depois também.

Abri os olhos, sentindo a tontura desaparecer aos poucos, o rosto de Erza foi o primeiro que vi me encarar de cima, era o seu corpo que sustentava o meu e talvez tivessem sido suas mãos que estapearam minhas bochechas, mesmo eles tendo sido fracos eu as sentia arder, os outros estavam ao redor, olhando por cima do ombro da ruiva, pisquei lentamente e respirei fundo algumas vezes, recuperando uma falsa calma.

Abri um sorriso tão grande e falso que me doeu os cantos da boca.

— Desculpem-me. — pedi com a voz trêmula, engoli em seco, sentei-me, conseguindo me sustentar por conta própria e não necessitando mais do apoio de Erza que se afastou, tirei alguns fios de cabelo que estavam grudados em minha testa, prendendo-os atrás da orelha. — Não dormi direito essa noite.

A ruiva ao meu lado estreitou os olhos levemente antes de abrir um sorriso cauteloso.

— Você deveria descansar por alguns minutos, pegue alguma sala desocupada e vá. — ela se colocou de pé, estendeu a mão e eu aceitei sua ajuda para me levantar, cambaleei um pouco, mas me firmei rapidamente.

— Eu a acompanho. — Natsu chegou ao meu lado, sério, envolvendo meu cotovelo com a mão.

Erza crispou os lábios.

— Você fica aqui, Dragneel, não é você que precisa de uma pausa. — disse. — Temos uma reunião importante com a qual devemos continuar, Lucy vai se ausentar somente por um tempo para se recuperar e voltará assim que estiver melhor.

O agente trincou os dentes, apertando meu cotovelo, se afastou para se sentar novamente em seu lugar, seus olhos escuros estavam sombrios quando olharam de relance para a Inspetora-Chefe.

Arqueei a sobrancelha, por acaso era antagonismo que eu via faiscar entre aqueles dois? Olhei para Gageel, que se sentava ao lado do agente, ele recebeu meu olhar com um discreto manear de cabeça. Oh. Interessante. Guardei aquela informação para analisar melhor mais tarde e direcionei minha atenção para os papeis na mesa.

— Quero dar mais uma revisada e ler melhor o laudo de Alex Harris, Inspetora Erza, posso pegar algumas cópias? Talvez mais uma olhada ajude-me a encontrar alguma pista que nos dê algo para perseguir.

Erza assentiu e fui até mesa, recolhi o que queria e arrumei tudo em uma das várias pastas vazias que estavam empilhadas no canto da mesa.

— O agente Redfox me informou que você fez ligações entre os pontos de desovas do assassino em um mapa. — falou em tom de voz baixo quando cheguei perto da porta, havia uma mesinha de pernas compridas encostada na parede ao lado desta, em cima dela, garrafas de café, copos descartáveis e um cesto com biscoitos, a ruiva colocou alguns cubos de açúcar dentro do copo que havia acabado de encher de café quente, mexeu devagar com uma colherzinha e me olhou por cima do copo quando o levou até a boca.

— Sim. Não é nenhuma coincidência o assassino matar sua quarta vítima no mesmo lugar que a primeira. — falei também em tom de voz baixo, franzi o cenho e encarei a madeira escura da porta. — Me diga, acha que ele iria se descuidar dessa maneira?

— Não, ele já se mostrou muito inteligente para fazer algo que não estivesse de acordo com seus planos. — respondeu, estalando a língua de modo irritado. — Esse caso está se tornando uma grande dor de cabeça, o povo pressiona o governo em busca de justiça e como se já não estivéssemos cambaleando por causa dos pesos em nossos ombros, nossos superiores nos pressiona, exigindo resultados que nos levem a captura desse maldito. — suspirou pesado, balançando o copo com seu resto de café. — Você vai descobrir exatamente o lugar que ele está querendo que você encontre, isso é apenas uma questão de tempo, e então, vai finalmente prendê-lo.

Olhei para Erza e ela encontrou meu olhar, uma expressão de agressiva convicção firmava os traços da incrível força que possuía, pensei em lhe perguntar o porquê de estar tão certa de que eu encontraria esse lugar mas não fiz isso, dessa vez, o sorriso que apareceu em meus lábios foi rápido e pequeno mas não foi falso.

— Você não deveria estar me repreendendo por causa da minha conduta na noite de ontem na frente da imprensa? — perguntei, abrindo a porta.

Erza jogou o copo na lixeira e puxou as mangas de seu terninho preto até os cotovelos. Me encarou séria.

— Teremos tempo para isso quando terminarmos com esse caso. Vá agora e volte quando não estiver a beira de um colapso.

E me enxotou pra fora da sala com um abano de mão.

***

O som de disparos e o calor pegajoso de sangue em minhas mãos se desvaneceu quando abri os olhos e fitei o teto. Levantei e deixei o desconforto que aquele pesadelo decorrente se esvair aos poucos do meu corpo, estalei o pescoço, esfreguei os olhos com as pontas dos dedos e catei os papeis que haviam se espalhado pelo chão quando me sentei, eu tinha caído no sono enquanto os lia e não fazia ideia por quanto tempo havia dormido, talvez por alguns minutos ou até mesmo horas, coloquei os papeis em cima da mesa da sala que havia pegado emprestada para descansar e olhei para a janela, o tempo continuava escuro mas não parecia ser um início de tarde ou até mesmo da noite.

Ignorando a vontade de sair e voltar para reunião que talvez ainda estivesse ocorrendo, deixei minha mente um pouco descansada pelo cochilo se concentrar nos laudos de Alex e Kevin, li-os atentamente, absorvendo cada palavra.

O revólver usado para ceifar violentamente a vida de Kevin fora um RT 444, para ser mais precisa, uma Magnum .44, de calibre pesado o bastante para fazer a destruição que fora encontrada em seu corpo, aquele tipo de arma não era incomum, apesar de ser restrita e ser bem difícil civis conseguirem autorização para portá-la. Ela é usada mais como uma arma secundária para caçadas de animais de grande porte, como búfalos e ursos, e são adquiridas também para fazerem parte de coleções.

Era uma escolha bem surpreedente para um assassino cauteloso, já que a Magnum .44 não era conhecida só por seu absurdo poder de fogo mas como também pelo seu estrondoso disparo.

Rasguei uma folha de um bloco de notas e rabisquei nela, os vizinhos escutaram o disparo, qualquer um naquele prédio teria escutado, no entanto, a polícia não foi acionada.

Descansei a caneta na folha e continuei a analisar os laudos, Kevin havia morrido na hora, a bala havia se estilhaçado e arregaçado metade de seu rosto, mas o velho não teria vivido muito se não tivesse sido assassinado, seu câncer estava no último estágio, tinha se espalhado pelos ossos e sangue e sua morte teria sido bem mais lenta e dolorosa. Olhei para a folha onde estava listado todos os objetos encontrados no apartamento de Bristow, ele não ia se deixar definhar até a morte, antes que isso acontecesse, daria um tiro na boca com sua pistola .40 que fora encontrada em saco plástico dentro da gaveta do congelador.

Deixei de lado seu laudo e li novamente o de Alex. A razão de sua morte fora perda intensa de sangue, uma Hemorragia Interna causada pelo rompimento de várias veias, os golpes pesados que havia sofrido por algum tipo de objeto, uma marreta era a opção que mais se encaixava, havia fraturado sua clavícula, escápula, costelas, esterno e a parte inferior de sua coluna vertebral, os fragmentos desses ossos foram os que causaram o rompimento das veias. Fora uma morte muito dolorosa. Hemorragias não matavam rápido, você sangrava em abundância, sofrendo, até finalmente morrer.

Rabisquei mais algumas linhas na folha, batuquei a ponta da caneta na mesa e comecei a arrumar em ordem cronológica as fotos, os laudos e outros documentos.

Tony Braxton. Roberto Sylvia. Oliver Moron. Kevin Bristow. Alex Harris. Cinco assassinatos sendo que um não fora planejado. Tombei a cabeça para o lado e reli as palavras dos vários papeis à minha frente mais uma centena de vez, o que o assassino queria me mostrar? A única ligação entre as quatro vítimas era por elas terem algo de parecido comigo, fora isso, nada mais havia, talvez a escolha delas fosse mais aleatória do que eu estava supondo? Talvez o assassino não se importasse com o sexo ou a diferença de idade. Cinco pessoas. Parei de batucar a mesa. Foram seis disparos. Seis que quase mataram Zeref Bennett, deixando-o na UTI por meses até que se recuperasse e fosse mandado para a prisão.

Não era possível, era?

Dei a volta na mesa e me sentei na cadeira com as pernas bambas. Eu não quero que isso seja verdade, porém, caso a teoria que está se reforçando em minha cabeça se mostre verdadeira, a quantidade de pessoas sendo mortas pelo Assassino das Cartas talvez seja a mesma quantidade de tiros que Zeref levou, se realmente for isso, se o assassino contar a morte errada de Kevin, só mais uma pessoa seria assassinada antes que ele viesse atrás de mim?

— Eu estou supondo demais. — resmunguei.

Mas eu não descartaria aquela teoria. Se Zeref fosse o assassino, aquela seria uma brilhante e doentia vingança contra mim, mataria seis pessoas de modo mais cruel e doloroso possível, para mostrar o quanto sofreu quando fora alvejado, escolhendo as vítimas que cada vez mais se pareciam comigo, até que no fim, ele viesse e terminaria com seu alvo de vez.

Encostei a cabeça no encosto da cadeira. Fechei os olhos. Se a digital encontrada no apartamento de Kevin fosse do assassino, eu teria a comprovação daquela teoria formada por suposições. Fiquei por algum tempo de olhos fechados e a mente completamente vazia até que abri vagarosamente os olhos, fitando, aflita, o teto.

A sexta vítima deveria ser a mais parecida comigo mas e se a morte de Bristow tivesse destruído completamente seu plano de vingança? Tornado-o inútil? Zeref odiaria isso. Largaria o plano e partiria para a escolha de sua última vítima. E se ela fosse alguém mais próximo? Alguém cuja a perda me destruiria?

Levantei-me de supetão, derrubando a cadeira que provocou um alto barulho quando atingiu o chão, todos aqueles e se's estavam me deixando paranoica.

Gray era um policial treinado, possuía anos de carreira e era ótimo em defesa pessoal, sabia se proteger quando preciso e pedir reforços quando percebia que não poderia lidar com algo sozinho. O Assassino das Cartas era inteligente mas não iria pegar o moreno de guarda baixa, não mesmo, mas e se... Trincando os dentes com força, bati o pé na perna grossa da mesa, a dor da pancada fez lágrimas borrarem minha visão e palavrões escaparem da minha boca, manquei pela sala, minha profissão era descobrir a verdade, não supor e fazer conjecturas que só piorariam o já terrível caso. Sentei no sofá e retirei o tênis, massageei os dedos doloridos, talvez eu tenha exagerado um pouco na força do chute, ai.

Porém uma coisa eu não podia deixar passar, havia quase dois dias que não tive contato com Gray, há essa hora, ele já devia ter me encontrado e me dado uma bronca gigantesca por ter saído do hospital sem avisá-lo, de estar no caso que fui afastada e mais uma monte de outras coisas. Mordi os lábios, calcei o tênis e fui até a mesa novamente, peguei o telefone de gancho e disquei para o celular do moreno. Chamou por sete vezes seguidas antes de cair na caixa postal. Coloquei a cadeira de volta sob seus pés e me sentei nela, discando mais uma vez, e outra, mais uma e várias outras vezes até bater o telefone no gancho.

Gray jamais deixava de atender uma chamada. Não importava onde estava na hora ou se era no meio da noite.

Dessa vez levantei-me com o coração apertado dentro do peito. Algo havia acontecido, tinha certeza agora disso. Catei os papeis na mesa e joguei-os de qualquer jeito dentro da pasta que não se fechou direito, fui até a porta e quando a abri, quase trombei em Makarov que estava com a mão levantada prestes a bater, sua expressão geralmente séria e severa, estava inquieta, isso fez o alarme em minha cabeça soar de maneira estrondosa.

— A reunião foi interrompida. — disse.

Minha boca secou.

— Mais uma vítima? — perguntei, sufocada.

O velho negou e o aperto em meu coração se afrouxou um pouco. Porém Makarov continuava com aquela expressão que não combinava com seu rosto.

— A digital encontrada na cena do crime foi identificada.

Abri um sorriso mecânico.

— Isso é ótimo! Agora temos a identidade do assassino. — dei a volta nele. — Antes de continuar, você conseguiu entrar em contato com o Gray? Liguei várias vezes pra ele e a chamada só cai na caixa postal.

Olhei para trás quando Makarov não me respondeu, parei de andar e me senti solidificar por dentro.

— Lucy...

Eu não conseguia respirar direito. Deixei a pasta cair e dezenas de papeis flutuaram e se espalharam pelo corredor.

Não. Isso está errado.— cuspi as palavras para o velho que não me encarava nos olhos. — Houve algum erro.

Makarov respirou fundo e levantou a cabeça, me encarou com intensidade, seu olhar se desculpando antecipadamente por suas palavras.

— Não existe erro nenhum, Lucy. A digital pertence a Gray Fullbuster.

Pela segunda vez o mundo girou ao meu redor. Tentei manter-me em pé, intacta e reagir àquelas palavras com a força que Erza Scarlet possuía, mas, quem eu queria enganar? A mim mesma? Aos outros ao meu redor?

Quão estúpida eu sou.