Psicopata

20 Capítulo 20


Esfreguei os olhos com os nós dos dedos, afastando o cansaço que pesava minhas pálpebras, o cheiro de sangue no apartamento de Kevin parecia ter grudado em minhas roupas e estava relutante em se dissipar mesmo com o forte vento gelado que fazia os curiosos ao redor se encolherem em seus casacos, haviam se passado algumas horas desde que a rua havia sido interditada e nem os policiais nem o tempo severo afastava a multidão enxerida que aumentava a cada hora, a imprensa era uma massa compacta de repórteres com microfones berrando para cameramans que suportavam bravamente o peso de suas câmeras, os policiais que barravam a passagem daquelas pessoas mantinham a boca fechada com uma careta irritada sempre que algum repórter quase enfiava o microfone em seus rostos, nenhum dizia nada, mesmo que fossem bombardeados por perguntas afiadas e alguns comentários mordazes, trinquei os dentes, sufocando a vontade de arrancar os microfones de suas mãos e acertar as lentes das câmeras com eles, estava muito claro que uma boa porção daqueles curiosos estavam ali apenas para criticar o trabalho da polícia.

Queriam progresso, queriam que o assassino fosse preso. Porquê eram tão ineficientes em pegá-lo? Quanto tempo ainda pretendiam deixá-lo livre? Quantas pessoas mais deveriam morrer?

Olhei para cima, o céu estava negro e feio, as nuvens pareciam carregadas e prestes a derramar todo o seu peso sobre a terra, respirei fundo e caminhei a passos rápidos até um dos policias que afastava os vários microfones da frente do rosto. Uma garrafa plástica o acertou no peito, molhando a parte de cima de seu uniforme azul, por causa da massa de gente a sua frente, foi impossível saber quem havia a jogado. Trinquei os dentes.

— A população quer saber quando esse assassino será pego! — exclamava uma repórter que teve seu caprichado coque desfeito pelas cotoveladas dos repórteres de emissoras concorrentes.

— Quanto mais a polícia vai esconder que não é párea para esse assassino?! — berrou um homem de fartos bigodes.

— Como anda a investigação?! Qual é o progresso dela?! Nós exigimos saber! — o cara que berrou essas perguntas equilibrava o microfone por cima da cabeças das pessoas que estavam a sua frente.

— Vocês não prestam para nada! — trovejou a voz de uma mulher em meio a multidão.

— Estão deixando que matem nossos filhos, esposas e maridos! Parem de brincar! — outra voz em meio a centenas berrou e muitas a acompanharam.

Aquilo já havia passado dos limites.

— Como podem achar que estamos brincando?! — berrei, empurrando gentilmente o policial para o lado e tomando o lugar dele em frente a turba furiosa, encarei-os com dureza. — Vocês não tem ideia do quanto estamos trabalhando nesse caso! Não sabem como esses policiais que vocês chamam de imprestáveis estão cansados por não voltarem para casa! Estamos fazendo tudo que é possível para pegar esse assassino!

O silêncio surpreso durou apenas poucos segundos antes de vozes furiosas e curiosas começarem a berrar novamente, escutei perguntas de todas as direções, críticas ácidas e xingamentos dos mais baixos, aguentei tudo com a cabeça erguida e não me movi quando algumas pessoas mais alteradas tentaram furar o bloqueio e me agarrar, o policial ao meu lado teve que me empurrar para trás e chamar seus outros colegas de farda para controlaram a multidão.

— Isso não é o suficiente! — muitas vozes rugiram.

— Fazendo tudo que podem?! Não seja ridícula! Se estivessem fazendo isso, esse assassino já estaria atrás das grades!

— Investigadora Heartfilia é realmente verdade que foi afastada do caso?!

— O que tem a dizer sobre a fuga de Zeref Bennett?!

— A polícia não se importa com os cidadãos!

— O que está fazendo aqui, investigadora?! O FBI não tomou o caso de suas mãos?! O que acha sobre isso?!

— Você diz isso porquê não foi você que perdeu alguma pessoa importante!

Fechei as mãos em punhos, controlando a fúria que queimava em minhas veias por meio da dor que provoquei ficando minhas unhas nas palmas machucadas das minhas mãos, virei-me, dando as costas para as pessoas que continuavam a esbravejar em altas vozes, e fui a passos rápidos até a viatura mais próxima, curvei-me para dentro da janela aberta, encontrando o que eu procurava dentro do porta luvas, o megafone portátil que cada viatura possuía era pequeno e recarregável, não era muito poderoso mas bastaria, não me importando na repercussão do que eu faria causaria, subi no capô da viatura e dele para o teto, liguei o megafone.

— FIQUEM QUIETOS! — minha voz explodiu e calou todas as outras, olhei para os dois lados da rua, capturando olhares chocados e lentes de câmeras focadas em meu rosto, rangi os dentes. — ACHAM QUE TEM O DIREITO DE FAZER O QUE ESTÃO FAZENDO?! VOCÊS SÓ SABEM RECLAMAR! NOS XINGAM E DIZEM QUE SOMOS IMPRESTÁVEIS SEMPRE QUE FALHAMOS EM CAPTURAR UM CRIMINOSO RAPIDAMENTE! MAS QUANDO O FAZEMOS, TUDO O QUE VOCÊS TÊM A DIZER QUE NÃO É NADA MAIS QUE NOSSA OBRIGAÇÃO!

Minha respiração estava acelerada, tentei controlá-la mas a raiva não me permitia, apertei o peito quando senti uma pontada dolorosa. Era o dever da polícia proteger os cidadãos, sim, levar a justiça àqueles que provocavam o mal entre as pessoas boas, porém, a falta de agradecimento por parte daqueles que a policia protegia era o que mais me incomodava, muitos somente enxergavam os erros e ficavam cegos perante os acertos.

— TODOS ESSES POLICIAS AQUI ESTÃO DANDO O MÁXIMO DE SI! ISSO PODE NÃO PARECER O SUFICIENTE PARA VOCÊS MAS PARA MIM É! ELES SÃO OS MEUS COLEGAS E NÃO DEIXAREI QUE NENHUM DE VOCÊS OS TRATEM COMO LIXO!

Dei um passo para o lado, tonta, recuperei-me, não querendo demonstrar fraqueza diante daquelas pessoas e das câmeras, eu sabia que o que estava fazendo poderia prejudicar de algum modo a investigação, que geraria discussões, revoltas, possíveis processos e talvez uma demissão, mas não podia me calar diante de tão grande ingratidão. Eu conhecia cada um daqueles homens há muito tempo, sabia o quanto davam duro em seus trabalhos e tinha certeza que se não fosse por eles, Magnólia estaria afundada em crime.

— Mas que merda você está fazendo, Lucy?! — urrou uma voz bem conhecida.

Olhei para trás, para a entrada velha do prédio, e vi Natsu e Gageel saindo apressados de dentro dele, os dois vieram quase correndo na minha direção, suas expressões não eram as das mais legais e isso me fez abrir um sorrisinho arteiro, lambi os lábios secos, levando o megafone a eles mais uma vez.

— VOCÊS QUEREM ESSE ASSASSINO PRESO?! POIS É ISSO QUE TERÃO! NO ENTANTO NÃO PENSEM QUE ISSO É POR VOCÊS, É PELAS PESSOAS QUE PERDERAM SEUS ENTES QUERIDOS NAS MÃOS DESSE MONSTRO! OS QUE SABEM O QUÃO IMPIEDOSA É A DOR DA PERDA! — me interrompi por falta de ar, mesmo respirando tão rápido, parecia não ter oxigênio o suficiente para os meus pulmões e eles protestavam, curvei-me, colocando as mãos nos joelhos, meus ouvidos apitavam e meu peito doía, sabia que estava hiperventilando, mas não seria aquilo que me faria calar a boca, me endireitei. — NÃO SEJAM HIPÓCRITAS AO PONTO DE PENSAR QUE CONHECEM ESSA DOR! E NÃO OUSEM DIZER QUE EU NÃO A CONHEÇO TAMBÉM! ENTÃO, FAÇAM UM FAVOR ÀQUELES QUE ESTÃO TRABALHANDO DURO PARA PRENDER ESSE ASSASSINO...

Vacilei.

E calem a merda dessas bocas.

Meus pés encontraram o vazio atrás de mim e meu corpo os seguiu para uma queda que seria bem dolorosa se não fosse pelos braços que me pegaram na hora, ouvi o megafone virar pedaços ao meu lado.

— Mas que droga, parceira. — Natsu rosnou no meu ouvido, tentei rir mas estava a beira da inconsciência. — Lucy?

— Inferno, ela está hiperventilando! — a voz de Gageel pareceu vir de muito longe. — Coloque-a sentada no chão!

Fui posta no asfalto frio, minha visão estava escurecendo rapidamente por falta de oxigênio e meus braços ficaram dormentes, mãos apoiavam minhas costas e nuca, não deixando que eu caísse para trás, logo, outras tamparam minha boca e nariz, formando uma concha.

— Respire pelo nariz. — ordenou o agente Redfox. — Com calma, não se desespere.

Fiz o que me foi ordenado, respirando longa e profundamente por minutos que pareceram horas, quando enfim minha respiração voltou ao normal e a dormência abandonou meus braços, levei a mão e dei alguns tapinhas no braço de Gageel, ele afastou suas mãos do meu rosto, abri os olhos.

— Obrigado. — falei com a voz engasgada para o agente sentado ao meu lado.

Ele balançou a cabeça, estalando a língua audivelmente.

— Não cause mais problemas, investigadora. — murmurou, se levantando e afastando alguns policiais que vieram em meu auxílio. — Voltem para os seus lugares, ela está bem, vão, vão logo!

— Dessa vez você me assustou, parceira. — Natsu falou depois que Gageel se afastou, ele ainda mantinha suas mãos em minhas costas e nuca. — Não faça mais isso.

Tombei a cabeça para trás, seus olhos escuros me encararam com bastante seriedade e isso fez o sorriso que estava brotando nos meus lábios desaparecer, encolhi os ombros, como se ele estivesse me acusando de ter cometido um crime terrível.

— Não foi porquê eu quis, agente Dragneel. — retruquei, afastando-me dele, tentei me levantar mas ainda estava um pouco tonta.

Natsu se levantou e me puxou pelos pulsos, equilibrou-me em meus próprios pés.

— Uma das causas da Hiperventilação é o acumulo de estresse. — falou, fuzilando os repórteres que berravam perguntas em nossas direções. — Acho que não deveria ter lhe trago aqui, apesar de ser tão forte, ainda continua sendo humana e por ser uma, significa que em algum momento vai vacilar. — parou de falar por alguns segundos e olhou-me com um sorrisinho nos lábios. — Sabe, estava me perguntando se iria surtar novamente como daquela vez em seu apartamento depois que leu aquilo na parede, mas você fez melhor que isso.

Crispei os lábios e tirei meus pulsos de suas mãos, com passos imprecisos, fui até onde Gageel estava, ao lado de um perito de roupas brancas.

— Isso é interessante. — peguei-o dizendo antes de desviar a atenção para mim, franziu o cenho. — Deveria ir pra casa, está com uma cara péssima.

— Obrigada. — respondi-lhe azeda, parando em sua frente, olhei para o perito que me cumprimentou com um aceno de cabeça. — O que é interessante?

O agente suspirou e levantou um saquinho de prova, dentro, havia um pedaço do que parecia ser a parede do banheiro do apartamento, com uma impressão digital. Arregalei os olhos.

— Nosso assassino nos deixou um ótimo presente.

— Será realmente a dele? — Natsu perguntou chegando por trás de mim, sua mão segurou meu cotovelo quando fiz menção de me afastar. — Pode ser de alguma das vítimas.

— Estava bem abaixo das escritas, senhor. — o perito de manifestou, arrumando os óculos de aros finos que escorregava pelo nariz. — E não há nenhum indício de que alguma das duas vítimas teve oportunidade de ir ao banheiro, Kevin Bristow morreu exatamente onde foi encontrado, pois não há manchas de sangue que revelem ele ter se arrastado para lá, e ao que tudo indica, a mesma coisa para a segunda vítima.

Deixei minha mente divagar, encarando o chão e ouvindo apenas murmúrios ao meu redor, por algum motivo, aquela digital que talvez seria a solução para aquele maldito caso, não me parecia certa, era muito estranho que o psicopata fosse tão imprudente assim, depois de deixar todas as suas três cenas de crimes com nenhuma prova que levasse até ele, chega a essa e tcharam! Uma digital.

Não. Tinha algo errado ali.

Era claro à mim que Kevin havia sido um imprevisto mas o que não conseguia entender era o porquê do assassino ter voltado ao lugar onde cometeu seu primeiro assassinato, não era coincidência, óbvio que não, entretanto também não era por falta de planejamento, franzi a testa e puxei o braço do aperto de Natsu, ignorando quando fui chamada pelo mesmo, parei ao lado de uma viatura próxima e vasculhei todo o conteúdo de seu guarda luva, encontrando o mapa que ilustrava todas as estradinhas de terra, ruas asfaltadas e rodovias largas que Magnólia possuía amassado entre embalagens de salgadinhos, o abri em cima do capô da viatura.

— O que está fazendo? — Natsu perguntou, aproximando-se.

Não lhe respondi, concentrada em marcar o lugar em que cada assassinato ocorreu com a mente.

— Tome, acho que vai ficar mais fácil com isso. — Gageel, aparecendo do lado do outro agente, me ofereceu uma caneta.

A peguei e circulei a área em que se encontrava o prédio onde estávamos agora, segui uma estradinha de terra e circulei no topo dela a localização da casa abandonada, logo também marquei com um círculo o Parque Central, franzi o cenho e liguei os lugares marcados com uma linha.

— Tem algo faltando. — murmurei, mordiscando a tampa da caneta.

— Marque o lugar onde fica seu prédio. — Natsu disse, batendo o dedo em uma encruzilhada de linhas quase apagadas. — Vai fazer mais sentido.

Fiz o que ele disse e liguei as duas linhas sobressalentes ao círculo vermelho. O resultado foi um largo espaço entre os pontos marcados, abarcando metade do centro da cidade.

— Certo, vou lhes dizer o que estou pensando. — comecei, estudando o mapa com atenção. — Esses três pontos. — apontei para cada um deles no mapa. — São os lugares em que cada vítima foi encontrada, como podem perceber, são bem afastados um do outro então não têm como eles terem algo de especial, tirando o morro, os outros dois locais não são desertos, somente o prédio é habitado e tirando ele e o Parque, a casa do morro é o único lugar que não recebeu nenhuma visita antes do assassino.

Parei por alguns momentos.

— Certo... E o que há de novidade nisso? — Gageel inquiriu do meu lado, de braços cruzados. — Sabemos que nenhum desses lugares tem ligação, são somente locais de desova.

— Não exatamente. — falei, com a mente a todo vapor. — Fiquei confusa quando o assassino agiu novamente no mesmo lugar do que a primeira vez, sabe, não é normal para serial killers matar mais do que uma vítima em cada lugar, isso é um método para que não sejam encontrados rápidos demais, então, porquê esse nosso seria diferente? — encarei o agente, esperando que me interrompesse para responder aquela pergunta, ele maneou com a cabeça para que eu continuasse, voltei a olhar para o mapa. — É impossível ser uma coincidência e com certeza não é falta de planejamento, então, supus que talvez ele esteja tentando nos mostrar algo, querendo nos dar alguma localização.

Passei o dedo no quadrado criado pelos círculos e linhas em vermelho.

— Está bem, vamos seguir sua lógica por enquanto, porém me responda. — Gageel bateu o dedo onde estava o meu prédio. — Porquê o seu endereço?

— Porquê ele tem como alvo minha parceira, Gageel. — o tom de voz de Natsu deu a entender que aquilo era óbvio demais para que não tenha sido percebido pelo moreno, ele encarou o mapa com um sorriso calculista. — Ele nos deu uma área muito grande e nenhuma pista do que pode ser aquilo que devemos achar, esse cara já está me dando nos nervos.

Seu celular tocou e ele se afastou para atendê-lo, quando tive certeza que não me ouviria, me virei para Gageel, que observava atentamente o mapa.

— O que acha? — perguntei.

O moreno deu de ombros.

— Vamos ter que arranjar mandatos para poder vasculhar essa área e uma grande equipe para fazê-lo, se o que você disse está correto, talvez encontraremos o lugar onde o assassino está. — balancei a cabeça, mordendo os lábios. — O quê quer falar?

Arqueei uma sobrancelha.

— Porquê acha que quero falar alguma coisa?

Gageel bufou e puxou o zíper de seu agasalho mais para cima por conta do gelado vento.

— Apenas fale logo.

Suspirei e sentei no capô, empurrando o mapa para o lado.

— Aquela digital. — comecei, escolhendo cuidadosamente as palavras. — Você não acha nenhum pouco estranho a essa altura o assassino deixar tamanha prova?

— Como assim? — perguntou, franzindo a testa. — Em algum momento ele tinha que tropeçar, é sempre desse jeito, quando os criminosos dão bobeira, acabam por serem presos.

Suspirei e encarei minhas mãos enfaixadas.

— Certo, mas tente me acompanhar, o Assassino das Cartas é meticuloso à ponto de não deixar sequer um fio de cabelo seu na cena do crime, também não deixa pegadas no sangue do chão e nem mesmo uma fibra de suas roupas. — olhei para o lado, vendo as costas de Natsu há poucos metros. — Então, porquê de repente uma digital? Ele pode ter tido que matar mais uma pessoa, coisa que não estava em seus planos, mas deixar a digital? Não.

Gageel me fitou, os olhos rubros concentrados em meu rosto.

— Está supondo que ela foi deixada de propósito?

Pisquei, vendo em minha frente novamente as palavras de sangue. Afirmei.

— Não tenho nenhuma prova disso, claro, mas queria apenas compartilhar com alguém minha suspeita, e quem seria melhor do que você?

O agente esfregou a cabeça, bagunçando ainda mais os cabelos rebeldes.

— Sua mente funciona rápido demais para que eu possa acompanhar, Lucy. — suspirou e encostou no para-lama da viatura, logo ao meu lado. — Olhe, se o que você está dizendo for verdade, porquê o assassino faria isso? Porquê se dar ao trabalho sendo que não temos a menor suspeita de quem ele possa ser?

— Agora você me pegou, Gageel. Ainda não sei como responder essas perguntas.

Por hora, eu deveria aguardar o resultado da análise da digital e assim descobrir o dono dela, suspirei e cocei os olhos com os nós dos dedos, o cansaço parecia pesar como chumbo em meus ombros e a fome era como ácido a corroer meu estômago.

Dedos quentes tocaram minha têmpora.

— Está começando a ter febre novamente, investigadora. — o agente Redfox murmurou, encarando-me com um brilho tênue de preocupação no olhar, prendeu uma mecha de cabelo atrás da minha orelha. — Você saiu do hospital hoje, não está querendo voltar pra lá, certo?

Neguei com a cabeça, fazendo uma careta.

— Nem morta.

Gageel soltou uma risadinha que durou milésimos de segundos.

— Então deveria se cuidar melhor, não poderá estar na sua melhor forma quando eu precisar.

Afastei sua mão com um tapa amigável.

— Calado.

Senti algo gelado no topo da minha cabeça, levantei o rosto, pensando ser o inicio de uma tremenda tempestade, porém, ao invés de uma pesada gota d'água, foi um floco de neve que pousou em meus lábios e derreteu, o céu de um cinza macilento cuspia os flocos em abundância, muitos derretiam antes de chegar ao chão e os que chegavam sobreviviam por menos de um segundo.

— Ah. Neve. — deixei escapar um sorriso.

O agente ao meu lado olhou para o céu.

— Odeio neve. — disse, com a voz rabugenta.

Virei o rosto pra ele, chocada.

— Como pode dizer algo assim?! — exclamei e lhe dei um peteleco no nariz, ele me encarou surpreso e depois tossiu uma risada, senti minhas bochechas queimarem. — Desculpa, é que alguém dizer que odeia neve é a mesma coisa que dizer que odeia tudo que tem ela no meio.

Cocei a nuca, envergonhada, quando Gageel tossiu outra risada.

— Vocês parecerem estar se dando muito bem, em? — ergui os olhos para encontrar Natsu se aproximando com um sorriso torto nos lábios. — Ainda mais para quem você quase avançou naquela reunião, Gageel.

O moreno se empertigou e lhe ofereceu um sorriso vazio.

— Eu me deixei levar naquele dia, Natsu, não havia percebido ate então o quão divertida a investigadora Lucy pode ser. — bagunçou meus cabelos de maneira quase paternal. — Cuide-se, nos vemos na reunião de amanhã.

E se afastou, ignorando a imprensa que ainda continuava a tentar conseguir alguma notícia para suas respectivas emissoras, observei-o até que sumisse entre as pessoas, abrindo caminho a base de cotoveladas.

Voltei a olhar para Natsu, que me encarava com os lábios crispados.

— Do que estavam falando? — perguntou, chegando mais perto e segurando meu cotovelo quando ameacei tombar para o lado na hora que me levantei do capô.

— Nada demais. — dispensei sua mão.

O agente estalou a língua.

— Não parecia ser nada demais, porquê vocês dois parecem estar tão próximos ultimamente?

Virei o rosto para encará-lo mas não pude decifrar sua expressão.

— É normal, não? Estamos na mesma investigação.

— Claro. — murmurou e começou a andar até seu carro que estava estacionado com as duas rodas em cima do meio-fio. — Mas você deveria permanecer afastada dele, parceira.

Caminhando atrás dele, com as mãos afundadas no meu casaco, controlei minha voz para que saísse desinteressada.

— Porquê eu deveria?

Seus ombros cobertos pela camisa preta estremeceram quando ele soltou uma risadinha.

— Ora, você já deve ter percebido que nessa nossa investigação há algo errado, não? Como uma pessoa passando informações para o assassino ou uma pessoa ser o assassino.

Estanquei. Natsu olhou por cima do ombro e sorriu de maneira vil. Crispei os lábios e me forcei a ir até ele, que destrancou a porta do carro e a abriu para mim, parei ao lado dele, fitando-o com intensidade.

— Então seu aviso também deveria servir para você, não?

O agente se curvou na minha direção.

— Claro, mas não há jeito disso acontecer, certo? Você é a minha consultora, tem que ficar ao meu lado até que essa investigação chegue ao seu fim.

Apesar da investigadora em mim ansiar por perguntar sobre o que ele havia feito para ser transferido de departamento, quem era aquele parente que havia se envolvido com a polícia e tudo mais, mantive a boca fechada enquanto entrava dentro do carro e saltava para o meu banco, além do mais, existia a internet e os meios mais furtivos para se conseguir informações.