Psicopata

21 Capítulo 21


Notas iniciais
Olá, há quanto tempo certo? Alguns devem ter pensado que Psicopata tinha sido abandonada ou esquecida, bem, não aconteceu nenhum dos dois, meu velho PC estragou e levou meus rascunhos de capítulos futuros com ele, e como consigo escrever decentemente somente no computador, fiquei sem postar por esses meses, então, por causa de toda essa demora, peço desculpas, sei como é esperar a atualização de uma história que nunca acontece e como é chato quando o autor não dá nenhuma explicação, lhe deixando no escuro. Pois bem, aqui estou, envergonhada por estar dando a explicação do meu sumiço depois de todo esse tempo. Espero que me perdoem e que continuem a acompanhar Psicopata que já entrou em sua reta final. Muito obrigada e até amanhã, pois postarei dois ou até quatro capítulos nessa semana. Beijos. ☻


A noite ainda caia pesada quando me levantei, as poucas horas de sono não aliviando o cansaço que pesava em meu ombros, empurrei a grossa coberta para o lado, deixando que o frio do quarto fizesse o seu trabalho de me acordar melhor, levantei-me, cambaleando um pouco para o lado, e fui até a janela que estava fechada, afastei a cortina e olhei para além do vidro embaçado, para a rua deserta e os prédios vizinhos à ela, estava tudo tão quieto que era possível escutar o zumbido dos postes de luzes acesos, estes que ofereciam uma fraca luz amarela que não iluminava os cantos mais afastados, metade da neve que havia caído durante a metade do dia já havia derretido e o restante estava no meio do processo, perto dos meios fios, ela se acumulava, marrom por causa da sujeira.

Afastei-me, voltando para a cama mas não me deitando nela, o sono que tardou a chegar não se demorou a ir embora, o descanso que ele devia ter me proporcionado veio pela metade e de má qualidade, bocejei, entortando a cabeça para os lados até escutar os audíveis estalos do pescoço, sentindo-me exausta à ponto de desabar no chão e não levantar nunca mais, dobrei e estiquei meus dedos, sentindo as queimaduras se repuxarem e arderem levemente, encarei as manchas vermelhas e meio amareladas que cobriam as palmas das minhas mãos, não estavam mais tão ruins, porém ainda era doloroso segurar alguma coisa com muita força, suspirei e as abaixei, querendo que o sono não tivesse me abandonado, talvez mais umas duas horas dormindo afastasse o torpor que sentia retardar meus movimentos e pensamentos, retirei a blusa que usava e troquei-a por uma limpa de mangas compridas que estava na mochila abandonada aos pés da cama, havia dormido com os jeans e agora estava cheia de marcas nas pernas por causa de suas costuras, peguei outro e dobrei de qualquer jeito a roupa usada, enfiando-a para o fundo da mochila.

Arrumei a cama. Peguei o coldre com a minha Beretta que estava em cima do criado mudo e o prendi em minha cintura, ignorei o quase conforto que senti com seu peso.

Fui até a porta e a abri, o corredor me saudou na penumbra, havia uma luz clara saindo por baixo da porta que era o escritório de Natsu, caminhei a passos leves e entrei no banheiro, fechando a porta devagar para não alertar o agente do meu despertar, acendi a luz, pisquei para desembaçar a visão e cheguei até a pia, abrindo a torneira, lavei o rosto na água fria, estremecendo quando um pouco dela escorregou pelo pescoço, apoiei os cotovelos nas laterais de mármore branco, esfreguei os olhos com delicadeza, a pele queimada não reagiria muito bem caso eu fosse grossa demais com ela, passei os dedos molhados em meus cabelos embaraçados, resmungando quando eles se engancharam nos fios, lavei a boca para tirar o gosto ruim, suspirei pesado e fechei a torneira, eu não deveria levantar o rosto para o espelho um pouco acima de mim, não, não me faria nada bem, no entanto respirei fundo, fiquei ereta e encarei o espelho à minha frente.

Havia uma mulher. De cabelos loiros bagunçados. Olhos castanhos com finas rugas de cansaço e tensão nos cantos, e escuras olheiras lhe acentuando o olhar indiferente. Nariz pequeno. Boca com lábios apertados em desgosto. A longa cicatriz no lado esquerdo do rosto não lhe era muito aparente na iluminação certa. A expressão de desprezo que surgiu lentamente em suas feições apagou qualquer tipo de beleza que ainda podia lhe restar. O que cintilou em seus olhos poucos segundos depois foi um sentimento feio de ódio por si mesma.

Afastei-me do espelho, tropeçando em minha pressa e quase caindo por cima do vaso.

Tremendo, apertei os punhos cobertos pelo pano macio da minha blusa em meu olhos, com força, para não permitir que nenhuma lágrima ousasse escapulir por eles, era por causa daquilo que evitava meu reflexo com tanto afinco, não queria ver o quanto havia mudado, o quanto a mulher que havia me tornado era horrorosa, balancei a cabeça e sai do banheiro, batendo a mão no interruptor para apagar a luz antes de fechar a porta, olhei brevemente para a porta do escritório, Natsu deveria estar lá, olhando para seus quadros desagradáveis ou dormindo em sua poltrona, passei reto e em silêncio, não querendo encontrar com o agente do jeito que estava agora, a sala conjunta com a cozinha estava no escuro, com cuidado para não topar o mindinho em alguma quina de móvel, passei a mão na pedra lisa da bancada, encontrando as chaves do carro de Natsu e seu celular, peguei-os, fui até a porta do apartamento, calcei meus tênis que havia largado mais cedo ali, peguei um casaco grosso de Natsu que estava jogado por cima de algumas botas pesadas do mesmo e destranquei a porta, saindo de fininho.

Desci as escadas aos saltos, colocando rapidamente o casaco e enfiando o celular em um de seus bolsos, a portaria do prédio estava vazia, o que era muito bom, já que a expressão do meu rosto poderia assustar o porteiro, empurrei a pesada porta de vidro e sai para a manhã escura e gelada.

O carro de Natsu estava estacionado do outro lado da rua, corri até ele, olhando por cima do ombro, para me certificar que o agente ainda não havia percebido minha fuga silenciosa, destravei o carro e saltei para o banco do motorista, passei o cinto e quando o motor ronronou ao ter sua chave virada em sua ignição, a porta do prédio se abriu e o agente, descalço e com somente um jeans largo, saiu de braços cruzados. Mesmo longe, tive certeza de que estava sorrindo seu sorriso de lobo.

— Está me roubando, parceira?! — exclamou, alto o bastante para os vizinhos que caíram da cama ouvirem.

Soltei uma risadinha. Dei lhe um aceno.

— Te vejo mais tarde, parceiro.

E sai cantando pneus.

***

Entrei na única loja de conveniência que estava aberta ás quatro e quarenta da manhã, era bem pequena e as três largas estantes abarrotadas de diversos produtos quase não deixavam espaço para uma locomoção distraída pelos estreitos corredores, o dono da loja, um velho raquítico de sorriso desdentado e olhos espertos, estava sentado atrás de um estreito balcão, quase sem espaço algum para acomodar o banco de pernas altas em que estava empoleirado, ele tirou os olhos da velha TV pendurada na parede e cumprimentou-me com um alegre bom dia que foi lhe retribuído com um fraco meu, caminhei até os fundos, atrás da máquina de café que encontrei apoiada entre a parede e um expositor, encostei-me na superfície fria do expositor, esperando que o café quente fosse despejado no maior copo que havia ali, suspirei, deixando meus olhos cansados se fecharem por alguns segundos.

Uma reunião havia sido marcada para hoje, às oito e meia da manhã. Não sabia se mais agentes do FBI haviam sido requisitados para esse caso e não sabia também se encontraria Gray por lá, estava um pouco inquieta pelo fato do moreno não ter entrado em contato comigo depois que saí do hospital, por mais furioso que ele poderia estar, a fúria não o faria me ignorar. Talvez por um tempo, o bastante para ela esfriar e sumir, o que demorava alguns minutos em uma carranca severa que lhe enrugava a testa.

Sorri internamente. Ligaria para ele mais tarde.

Eu tinha ao meu dispor algumas horas que utilizaria para investigar o passado do meu intrigante parceiro, usaria os computadores da delegacia, onde o acesso à arquivos confidenciais não era tão raro e que não levantaria suspeita de ninguém, principalmente do alvo da investigação.

Porém havia um problema.

Não seria nada fácil entrar nos bancos de dados do FBI sem ter permissão para tal, a segurança empregada em seus servidores eram as das melhores, o indivíduo que ousasse tentar hackeá-la seria rapidamente descoberto e poucos minutos mais tarde, receberia agentes não muito contentes em sua casa, porém, um hacker habilidoso, que possuísse maneiras de acessar conteúdos bem seguros, poderia coletar as informações que quisesse e jamais ser pego, eu não podia colocar as mãos nos dados que queria por minha conta própria mas conhecia alguém que poderia colocá-los nelas, só teria que usar um pouco de persuasão e talvez uma leve ameaça para obter cooperação.

— Hey, moça!

Abri os olhos, assustada por ser tirada de modo abrupto das minhas divagações, olhei para o balcão e vi o dono fazer gestos frenéticos para a máquina de café ao meu lado, olhei, o copo havia tido sua capacidade totalmente ocupada e o líquido fumegante se derramava por sua beirada, caindo no chão e formando uma poça cada vez maior.

— Ah. — foi tudo o que disse, automaticamente, desliguei a máquina e o café parou de ser desperdiçado. — Desculpe-me, estava distraída. — falei mais alto, tampando o copo cheio demais e envolvendo-o com uma tira de papel pardo para conseguir segurá-lo sem escaldar minhas mãos. — O senhor tem algum pano que possa me emprestar? Limparei essa bagunça aqui.

— Não, não precisa, filha. — disse, dando-me um gentil e quase banguelo sorriso. — Eu mesmo limpo, não a culpo por estar tão distraída, levando em conta o que esta passando, investigadora.

Franzi o cenho, confusa.

— Desculpe, mas o senhor me conhece?

Aproximei-me do balcão, pegando um pacote de pães de mel no caminho.

— Ora, quem não te conhecer depois de assistir pelo menos uns dois minutos do noticiário é ruim da cabeça. — soltou um riso rouco e apontou para a TV, a imagem estava granulada por causa do mal sinal que recebia porém foi bem fácil reconhecer a mulher em cima do capô de uma viatura. — Está em todos os noticiários de muitas emissoras. Deu uma ótima bronca, filha.

Coloquei o copo e o pacote no balcão. Balancei a cabeça, mais exausta do que nunca.

— Droga, não devia ter me deixado levar. — murmurei, olhando para a apresentadora que discursava algum texto escrito antes de ir ao ar, agradeci silenciosamente por a TV estar no mudo, suspirei pesado. — Isso vai dar muita dor de cabeça.

O velho me lançou um olhar solidário.

— Deve ser desgaste esse seu trabalho. — não foi uma pergunta mas mesmo assim assenti, busquei nos bolsos do casaco por algumas moedas perdidas para pagar o café e os pães, mas não encontrei nenhuma, percebendo minha expressão derrotada, o dono alargou mais seu sorriso. — Não precisa, é por conta da casa.

Dei-lhe um sorriso que torci para ser parecido com um e não com um esgar azedo.

— Não me trate com tanta gentileza, senhor, não a quero e nem a necessito.

O velho deixou o sorriso sumir mas sua expressão não pareceu nenhum pouco ofendida pelo o que lhe disse, ao invés disso, pareceu ainda mais gentil.

— Preste atenção, filha. — começou, esticando a mão magra para pousá-la em minha cabeça, o toque desconhecido foi um dos mais afáveis que já havia recebido, como o de um avô, acalmando sua neta que parecia prestes a chorar. Ou a se despedaçar. — Já vivi uns bons anos, até demais para o meu gosto, se você quer saber, então, sei reconhecer quando uma pessoa está prestes a mergulhar em um tipo de escuridão que não a deixará se emergir jamais. — fez um cafuné, seus olhos de um tom claro de castanho encarando-me com suavidade. — São todas diferentes, as escuridões, cada uma criada por algum tipo de sentimento corrosivo que cada ser humano carrega dentro de si e que o alimenta durante uma bom tempo. Quando está grande o bastante, ele os devora.

Tive vontade de afastar sua mão e lhe dizer para não se intrometer na minha vida. Que da minha escuridão cuidava eu. No entanto, não fiz isso.

O que ele disse, observando de um modo psicológico, era nada mais que um eufemismo para falar sobre depressão ou um distúrbio mental causado por um sentimento pesado de culpa, tristeza ou raiva. E muitos outros. Seres humanos são facilmente influenciados por emoções, por causa disso, se autodestroem quando alimentam um sentimento cáustico, alguns são levados ao isolamento, afastam-se de qualquer contato físico e se fecham para o mundo, quando isso acontece, o final sempre é o mesmo, o suicídio. Já outros são levados à fúria extrema, de tudo e de todos, culpam os que estão ao seu redor pelo sofrimento que lhes são afligidos, e isso também sempre leva ao mesmo final, eles se tornam homicidas.

O sentimento que alimentava era o de ódio. Por mim mesma. Por Zeref Bennett. Pelo Assassino das Cartas. Pelas pessoas que não se importavam com a vida dos seus semelhantes. Era um ódio grande, que crescia a cada dia que passava e que talvez não demoraria a me devorar.

Trinquei os dentes com violência. Afastei a mão do velho e lhe sorri.

— Não deixarei que ela me devore antes de fazer o que devo. — falei, a voz era fria mas o sorriso que sustentava nos lábios não. — Me desculpe novamente pelo chão. — peguei o copo e o pacote de pães. — Ficarei te devendo agora, mas não se preocupe, irei te pagar depois.

Afastei-me do balcão e sai da loja de conveniência, não olhando novamente para o rosto do velho que tinha certeza de estar melancólico.

***

A delegacia estava meio vazia às cinco e quinze da manhã, os poucos policiais que estavam por lá, exaustos pela longa jornada de trabalho sem descanso, acenaram para mim quando me viram, alguns sorriram e deram tapinhas amigáveis em meu ombro, nenhum falou sobre o que fiz ontem, não precisavam, lhes retribuí os sorrisos e os acenos da maneira mais sincera que pude e rapidamente me tranquei em uma sala desocupada aquela hora da manhã, resolvi não ficar em minha mesa para não correr o risco de ser flagrada enquanto baixava a ficha um criminoso que estava no banco de dados da polícia.

Desabei na cadeira não muito macia da sala que havia pegado emprestada, a mesinha que sustentava um computador de tela média era marrom e baixa, com duas gavetas estreitas em seu lado esquerdo, estiquei a mão para abrir as persianas que cobriam uma janela larga ao meu lado, sua vista dava para os fundo da delegacia que não tinha mais do que mato alto e árvores curvadas. Fora uma planta alta num canto da sala, provavelmente falsa, já que suas folhas brilhavam de um modo não muito natural, não havia mais nenhum enfeite naquele cômodo de paredes brancas.

Espreguicei-me e liguei o computador, enquanto esperava a tela acender, catei o celular de Natsu do bolso, a tela de bloqueio por números apareceu quando apertei o botão na sua lateral. Suspirei. Não era muito boa em descobrir senhas de celulares.

Resolvi tentar a senha universal que muitas pessoas usavam: 123456. E é claro que não era, franzi o cenho, poderia ser a data de seu nascimento, pensei um pouco mas logo descartei essa ideia, por dois motivos, isso não parecia combinar com o agente e eu não fazia a menor ideia de quando ele havia nascido, perceber que essa informação, simples até demais, me era desconhecida me fez franzir ainda mais o cenho, porquê, diabos, ainda não tinha investigado sobre Natsu? Não era do meu feitio trabalhar ao lado de uma pessoa que não conhecia.

Deixei isso de lado.

Havia uma possibilidade de ser os quatros primeiros ou últimos números de seu celular porém o mesmo havia se mostrado privado quando recebi sua chamada ao que parecia ser muito tempo atrás, mordisquei o canto dos lábios, a primeira coisa ao tentar descobrir uma senha era presumir qual a quantidade de números que ela teria, o mais seguro e mais complicado de se descobrir era com seis e oito, porém, os mais fáceis de se lembrar seria com quatro, matutei por alguns segundos e resolvi ficar com quatro números, não porquê achava que Natsu esqueceria de sua senha caso ela tivesse seis ou mais mas por que era a alternativa mais simples. Talvez eu estivesse dando um tiro no escuro.

Desviei minha atenção para a tela do computador, agora ligada, digitei a senha que era a mesma para todos os computadores da delegacia e observei a janela da área de trabalho aparecer, cliquei no ícone do Windows Explorer e deixei carregar as centenas de pastas com dados de criminosos.

Voltei a olhar para o celular em minhas mãos. Pensei em qualquer número que poderia significar algo para o agente porém isso deu em nada, se ele tivesse gravado números aleatórios para ser sua senha eu já podia desistir, seria trabalhoso demais tentar acertar as incontáveis combinações que poderia ter sido feita, apoiei a nuca no encosto da cadeira e fitei o teto, passei alguns minutos divagando até piscar e me sentar direito, poderia ser uma palavra? Um nome, talvez.

Senhas de celulares podiam ser criadas usando palavras, apertando o número que correspondesse a letra e assim por diante, animada, testei seu próprio nome mas parei antes de começar, 62878 seria os números correspondentes as letras de Natsu porém eram cinco e não se encaixavam no que eu havia pressuposto ser sua senha.

Rangi os dentes. Apertei o botão na lateral do celular e coloquei 5829, a tela de bloqueio desapareceu, descartei o desconforto que me cutucou com dedos frios e comecei a verificar o aparelho em mãos.

A agenda de contatos estava vazia. Chequei o histórico de chamadas efetuadas e recebidas, não havia nada. Olhei a caixa de mensagens, limpa. Fui em sua galeria, mas não havia fotos, músicas ou vídeos na memória. Não havia nem mesmo um pareamento de bluetooth.

Suspirei pesado, sentindo minha animação se esvair como água perto de um ralo.

Deixei o celular de lado e concentrei-me em procurar a pasta com o nome de Sam Fisher, um velho conhecido da policia que teve alguns anos reduzidos de seu encarceramento por fornecer informações cruciais em um caso antigo, estávamos atrás de um possível assassino em série, apelidado pela imprensa de o Usuário, ele escolhia suas vítimas por meio de uma rede de relacionamentos virtual, mantinha uma conversa com a escolhida e quando marcava um encontro, estuprava, matava e descartava o corpo em um açude nos limites de Magnólia, na época, dois corpos haviam sido encontrados e outros três ao longo da caçada ao assassino, Sam, preso por invadir o servidor de uma empresa e falsificar seus documentos, havia oferecido uma parceria em troca de um alívio em sua pena de 13 anos. No final, conseguimos prender o assassino graças aos conhecimentos de Fisher, que perseguiu o rastro deixado pelo Usuário e localizou o computador usado por ele, sua pena foi reduzida, cumpriu apenas cinco anos e foi solto por bom comportamento, sendo seriamente advertido há não invadir mais nenhum servidor particular, como um bom garoto, Sam estava se comportando ou se comportando o bastante para não ser pego de novo.

Achei sua pasta e procurando por alguns segundos em suas informações, anotei seu endereço e número de celular atual. Fechei a janela do Windows, desliguei o computador e catei o celular, enfiando-o no bolso.

Saí da sala, olhando para os lados, cautelosa e já com uma mentira formada caso alguém perguntasse porque estava saindo de uma sala que não me pertencia, não encontrei ninguém no corredor e agradecendo silenciosamente por isso, caminhei a passos rápidos, saindo da delegacia sem trombar com ninguém conhecido demais para me parar e conversar, corri até o carro de Natsu e entrei, dando a partida quase no mesmo segundo em que bati a porta. Olhei o painel do carro que mostrava as horas, eram seis e vinte, aliviada por ainda tem algumas horas de folga, acelerei rumo ao endereço de Sam.

***

Bati com os nós dos dedos na porta do apartamento n° 18 de um solitário prédio em meio a muitas casas baixas feitas de tijolos e pintadas com cores berrantes, o bairro onde Sam havia escolhido se instalar era conhecido por ser ocupado por hippies, então, fora uma agradável surpresa ser escoltada por crianças descalças, mesmo estando bem frio, e barulhentas até a portaria do prédio, ouvir canções, algumas desafinadas outras muito bem ensaiadas, cantadas por mulheres e homens de várias idades que se sentavam no jardim de suas casas e nas de seus vizinhos, o asfalto que deveria ser preto estava completamente tomado por pinturas tortas e incompreensíveis, fruto de crianças pequenas que seguravam pinceis que eram maiores que suas mãos, havia alguns idosos, acompanhados por jovens, sentados em cadeiras dobráveis e ocupados com artesanatos diversos, que iam de animais feitos de fios finos de metal, colares com pedras multicoloridas à bolsas trançadas, pulseiras intrincadas e filtros de sonhos.

Ouvi um som abafado do lado de dentro do apartamento e pisquei, notando um vulto no olho mágico da porta, suspirei.

— Não estou aqui para lhe prender, Sam. — falei alto, para que minha voz fosse ouvida por cima das cantorias e risadas altas na rua, mesmo sendo sete e pouca da manhã, aquelas pessoas já se encontravam em grande estado de animação.

Acho que eu deveria aprender com eles.

O som de uma corrente sendo puxada ecoou e logo a porta se abriu, apenas uma fresta, onde era possível ver metade do rosto desconfiado de Sam.

— Foi isso que disse da última vez, cara investigadora.

Abri-lhe um sorriso charmoso. Mesmo depois de oito anos, ele ainda não se esquecia do rosto que lhe sorriu antes de ser preso.

— Ora, naquele dia estava de serviço.

— E hoje? — perguntou, estreitando o olho que possuía um tom de verde escuro.

Meu sorriso aumentou e tão rápida quanto ele, botei meu pé entre a porta e o batente, impedindo-o de fechá-la na minha cara.

— Vamos lá, Sam, é somente um servicinho simples que não lhe roubará nem duas horas de seu tempo, se suas habilidades forem tão boas quanto sua ficha diz que é.

Soube no mesmo instante que atingi seu ego, com um resmungo, Sam soltou a correntinha e abriu mais a porta, oferecendo-me um sorriso sarcástico, fez um floreio com a mão.

— Queira entrar em minha humilde residência.

Entrei e percebi que de humilde não havia nada, com uma sala espaçosa e bem mobiliada, uma grande cozinha com armários embutidos e eletrodomésticos de aço inox e um corredor que deveria dar em um quarto, talvez um escritório também, e um banheiro muito bem construídos e preenchidos, o apartamento de Sam era de uma diferença gritante de quaisquer outros que o prédio tinha, retirei os tênis enquanto o dito cujo ia até sua cozinha.

— Espero que goste de chá... Ah! Notei que você não é chegada a coisas tão fracas quanto o velho e bom chá de camomila. — olhou-me por cima do ombro, enquanto erguia o bule e o balançava de modo zombeteiro — Deveria tomar um pouco, investigadora, ajuda acalmar os nervos e te fará pensar duas vezes antes de subir em cima do capô de alguma viatura e berrar para uma multidão em pavorosa.

Ignorei a alfinetada e me sentei em um dos três bancos altos que ficava atrás do balcão.

— Acho que vou aceitar, já que está me oferecendo com tanta gentileza.

Sam estalou a língua e encheu duas canecas, empurrou uma pra mim e se encostou na beirada da pia.

— Então? Qual é esse servicinho?

Tomei um gole cauteloso do chá, estava forte e bem quente, desceu pela garganta e aqueceu meu corpo frio por causa do tempo fechado do lado de fora. Observei Sam por cima da caneca, os cabelos castanhos já mostravam os primeiros fios grisalhos, apesar de ainda não ter chegado aos seus quarenta, havia rugas se formando nos cantos dos olhos verdes e uma barriguinha que se tornaria mais nítida ao decorrer dos anos.

— O que foi? — perguntou, grosso.

Engoli o chá.

— Estava pensando no porquê de não ter uma família, Sam. — falei levemente, encarando-o, em busca de algum desconforto.

— Eu tive e você sabe muito bem disso, investigadora. — respondeu, apertando a alça de sua xícara com força o bastante para seus nós dos dedos ficarem brancos. — E como aconteceu com você, arrancaram-na bruscamente de mim. — trincou os dentes. — Agora, fale o que quer se não pedirei que saia gentilmente.

Pousei a xícara. Arrependida por ter tocado em um assunto doloroso e chocada comigo por ter tido a maldade de falar sobre isso, engoli em seco.

— Desculpe-me, eu... — comecei mas fui cortada por um movimento brusco de sua mão, mordi os lábios. — Certo. Estou aqui porquê quero lhe pedir que investigue sobre meu parceiro.

Sam tomou um gole longo de seu chá, encarando-me com uma sobrancelha arqueada.

— O Agente Especial Natsu Dragneel. — comentou, estalando a língua. — Ah, grande incógnita é esse cara.

Foi minha vez de arquear a sobrancelha.

— Como?

Sam colocou a xícara na pia e deu a volta no balcão, pegou o notebook que estava em cima de uma mesinha de centro e veio se sentar ao meu lado.

— Como parte do meu ofício, se é que você me entende, sempre busco informações de policiais novos que chegam na Delegacia, e claro que não poderia deixar passar os dois agentes do FBI que vieram para Magnólia auxiliar no caso do Assassino das Cartas. — enquanto falava, abriu algumas pastas e inseriu senhas de oito números em uma velocidade que não me permitiu descobrir nem o primeiro da série. — Do passado de Gageel Redfox, descobri tudo, nasceu em 13 de Agosto de 1982, numa cidadezinha pequena, passou sua infância e inicio da adolescência nela e blá blá blá, não vou lhe contar o resto já que não é do passado dele que você está interessada. — virou a tela do notebook para mim. — Aí esta tudo que consegui encontrar de seu parceiro.

Li as seis linhas digitadas. Nascido em 7 de Janeiro de 1986, Natsu Dragneel não possuía os nomes dos pais na Certidão de Nascimento, órfão, foi criado no Orfanato das Irmãs de Deus, um lugar conhecido por sua severidade que beirava a crueldade, adotado aos dez anos, não se teve mais registros dos doze anos que passou com sua família adotiva até de súbito aparecer se formando em uma faculdade, passou três anos e meio à serviço de uma agência policial antes de ingressar na academia de formação de agentes, localizada em Quantico, Vírginia, desde então, depois de passar nos exaustivos treinamentos que duravam 20 semanas, tornou-se agente do FBI e possuía uma carreira estável que entraria em seu quinto ano.

E só. Não havia uma única informação sobre a família que o havia adotado, nada, era como se os doze anos que foi criado por ela, tivessem sido apagados. Nem mesmo algo sobre um possível parente estar envolvido em algo que o fez se exceder de alguma maneira não muito profissional.

— Não há nenhuma informação sobre algum parente dele? Nenhum que foi preso ou está nos bancos de dados criminais da policia? — indaguei, confusa.

— Nada. Eu faço meu trabalho com muito zelo, investigadora, quando tenho um alvo, pesquiso de modo muito meticuloso, não deixo nada passar nem mesmo o que pode ser considerado inútil. — olhou para a tela, com o cenho franzido. — Natsu Dragneel não possuí nenhum parente, bom, nenhum que possa ser encontrado com meios legais e ilegais.

Então o que Gageel sabia sobre Natsu era mentira? Ou ele havia mentido para mim de propósito? E se esse fosse o caso, porquê?

— Tem certeza que isso foi tudo o que conseguiu encontrar? — perguntei, depois de reler mais duas vezes.

Sam fechou o notebook e se encostou no balcão, esticando os braços compridos e suspirando, relaxado, quando os ossos destes estalaram.

— Eu já lhe disse com outras palavras, Lucy, eu sou muito bom no que faço. E não estou me vangloriando, se foi somente isso que leu sobre Natsu Dragneel, é somente isso que irá encontrar sobre ele.

Esfreguei os olhos. Aquilo nada me ajudaria a conhecer melhor meu parceiro, eram informações desconhecidas por mim, claro, mas não mudava o fato que Natsu ainda era um total estranho para mim.

Enfiei a mão no bolso do casaco e peguei o celular.

— Talvez você consiga mais alguma coisa com isso? — ofereci-lhe o aparelho.

Sam o pegou mas segurou minha mão antes que eu pudesse recolhê-la.

— Isso está bem feio. — comentou, tocando de leve as manchas irregulares de tons variados entre o vermelho e o amarelo. — Tenho uma pomada ótima para queimaduras, se você quiser...?

Puxei a mão, não com grosseria, mas com cansada irritação.

— Não se preocupe. — falei, cerrando a mão e escondendo-a dentro do bolso. — Não há nada na memória do celular, mas talvez você consiga resgatar o que foi excluído. Apesar de saber que vai descobrir rapidamente, a senha é 5829.

Sam arqueou uma sobrancelha de modo indagador, dei de ombros.

Tomei o resto do chá que já havia esfriado, levantei-me, sentindo o peso de uma noite mal dormida em meus ombros.

— Não que eu me importe... — começou Sam, colocando o celular no balcão e se levantando, me acompanhou até a porta. — Mas você está com uma aparência péssima.

Colocando os tênis, abri-lhe um sorriso.

— Você não é o primeiro a me dizer isso, pode ter certeza disso. — abri a porta, antes de sair, virei-me pra ele. — Se descobrir algo, me contate de alguma forma, parece que perdi meu celular. Só não...

— ... Fale com seu parceiro, é óbvio, investigadora, eu sou um profissional. — sorriu-me de verdade, estendeu a mão e eu a peguei, trocamos um aperto firme e curto. — Cuide-se melhor.

Fechei a porta.

— Vou tentar. — murmurei.

Desci as escadas com cuidado, em intervalos de dois e três degraus, havia brinquedos de madeira espalhados, pequenos cavalos marrons e soldadinhos vermelhos tornando-se verdadeiras armadilhas para um pé desavisado.

A rua estava ainda mais animada. Se isso era possível. Caminhei trançando pernas com crianças que corriam a minha volta e puxavam meu casaco, chamando-me para brincar, para ajudá-las a montar pulseiras de contas e aprender a tocar violão. Sendo cativada, acabei por seguir um garotinho que me apresentou para seus pais, avós e avôs, irmãos e irmãs, tios e tias, primas e primos, e sem conseguir dizer não a grande hospitalidade deles, me juntei a confecção de brinquedos, a aulas de violão e flauta, a furos de orelhas e risadas compartilhadas.