Prongs
8 Nada de bom acontece quando você mata aula
Notas iniciais
Capítulo 8
“Acho que Dumbledore talvez tivesse esperanças de que eu fosse capaz de exercer algum controle sobre os meus melhores amigos — disse Lupin. — Não preciso dizer que falhei miseravelmente." – Harry Potter e a Ordem da Fênix.
***
Níveis Ordinários em Mágia. Para McGonagall “tenha medo deles!”. Tivemos uma pancada de lições de casa logo na primeira semana de nosso quinto ano, e Peter precisou prometer a cada um de nós todos os tipos de coisas para que emprestássemos a ele nossas lições. Ele não estava dando conta. Continuou copiando a redação de Sirius mesmo quando estávamos na biblioteca para conhecermos mais sobre a Animagia.
Estávamos determinados em nos transformarmos. Tivemos uma aula especialmente esclarecedora sobre Animagos em Transfiguração e, antes da lua cheia, logo na terceira semana de Setembro, joguei minha capa por cima de nossas cabeças.
Não coubemos nela.
– Sirius, fica mais inclinado – eu disse, percebendo que ele estava uns dez centímetros mais alto que no ano anterior.
Foi realmente difícil sairmos de Hogwarts sem sermos vistos, mas demos um jeito. Fomos até a Floresta Proibida por uma das passagens secretas perto da sala do diretor Dumbledore e, na escuridão entre as árvores, acendemos nossas varinhas. Andamos em direção ao Salgueiro Lutador, ultrapassamos o túnel para chegar a Casa dos Gritos.
– Beleza... – eu disse quando entramos nela. Peter começou a ficar trêmulo. – Concentre-se, Peter... esqueça as lições. Vamos fazer isso hoje antes da lua cheia. Moony?
Ele assentiu. Estava segurando um grosso livro. Nós ficamos em círculo para encararmos um ao outro quando Moony começou a ler.
– Peguem suas varinhas. – Moony espiou por trás do livro. Já estávamos com as varinhas empunhadas. – Aqui fala para visualizarem cada partícula do corpo conectado ao seu espectro mais profundo. Fechem os olhos. Imagine-se fora de seu corpo... Não precisa se esforçar tanto, Peter, ou sujará as calças.
Sirius e eu rimos, enquanto Peter ficava vermelho. Nos dispersamos, mas rapidamente voltamos a nos concentrar em nosso objetivo.
– Quando estiverem prontos, o corpo relaxado, pensem no encantamento Animago.
Já praticávamos o encantamento desde o ano passado na Casa dos Gritos. O rendimento era lento. Sirius havia feito nascerem caninos enormes em sua boca, Peter um minúsculo rabicho no traseiro e eu, um par de hastes ramificadas no topo da minha cabeça que fez com que eu caísse pelo peso. Sirius tinha feito a piada de que eu estava um pouco pontudo.
Dessa vez, naquela noite, decidimos fazer melhor. De alguma forma, pensei em Remus passando quase cinco anos sozinho na lua cheia e eu não podia fazer nada para ajudá-lo a controlar os instintos de um lobo. Ele não precisava mais machucar nenhuma criatura da Floresta Proibida... se virássemos animagos, ajudaríamos ele. E também exploraríamos cada parte da Floresta Proibida, da maneira que sempre sonhei. Só de pensar nos segredos milenares que ela escondia... fazia meu corpo se contrair de...
Literalmente se contrair. Espere um pouco.
Moony deixou o livro cair. Seu rosto estava contraído em descrença e admiração. Ele, Sirius e Peter me olhavam como se eu fosse algum animal.
Eu, afinal de contas, era.
Ouvi Sirius exclamar:
– E todos os anos que eu te chamei de veado... quem diria!
Fui mandá-lo tomar naquele lugar, mas minha voz não saiu. Olhei para meus pés.
Patas!
Eu tinha conseguido.
Comecei a andar, mas fui interrompido ao sentir uma dor latejante na cabeça. Eu tinha socado o teto da casa com as galhadas. Era uma estrutura óssea completamente resistente, porque ao invés de quebrá-la com a pancada, na verdade o teto tremulou e várias cascas da parede começaram a cair.
Quando voltei em minha forma humana (era mais fácil do que se tornar animago), eu falei:
– Sou um animago, não quer dizer que fiquei surdo.
Sirius fez um sorrisinho ao pedir desculpas.
– Você foi o primeiro de nós a conseguir se transformar! – Peter exclamou com excitação. – Aquilo foi excelente. Então é possível...
– Obrigado, Peter. Sua vez, Sirius.
– Se você consegue – ele disse e, em seguida, fechou os olhos.
Descobrimos então que a forma animago de Sirius era um enorme cão de pelos pretos, bem semelhantes a cor de seu cabelo, porém mais espessos. Ele pareceu bastante confortável com sua forma. Podia se esticar, pular e andar por todos os cantos sem esbarrar ou bater em alguma coisa. Peter fez uma exclamação feliz e se aproximou dele para passar a mão nos pelos. Sirius deixou por um momento, mas depois que Peter o abraçou ele rosnou e voltou a forma humana.
Peter, por sua vez, precisou de mais alguns minutos de concentração e prática. Finalmente, prometendo que não sairíamos da caverna até ele se transformar em um animago, Peter se dedicou até desaparecer.
Desapareceu?
Mas era só impressão. Sua forma mudou tão rápido que mal reparamos no rato gordo que apareceu no chão. Provavelmente Peter ficou tão transtornado, admirado, excitado, animado, que começou a correr por todos os cantos, sem saber o que fazer agora, em sua forma animaga. Tentamos alcançá-lo para pegá-lo pelo rabo, mas ele era incrivelmente veloz. Perdendo a paciência com a brincadeira de Peter, Sirius voltou a se transformar no cão e, rosnando, inclinou-se bem em frente ao rato, com sua enorme estrutura.
Mostrou os caninos afiados.
Peter recuou, de fininho.
Depois voltou a ser o gorducho do Peter novamente, com os cabelos despenteados e as roupas amassadas. Não estava assustado pela primeira vez em sua vida. Na verdade, sorria bastante orgulhoso.
– Consegui! – gritou.
Sirius latiu, comemorando também.
– Conseguiram – Moony não parecia acreditar. – Agora quer dizer...
– Quer dizer que podemos acompanhá-lo essa noite, caro Moony – eu disse, sorrindo. Um movimento anunciou que Sirius voltou a ficar humano.
– Contraditório agora, não é? – comentou Sirius. – Você está empolgado para a lua cheia de hoje. Sei que eu estou. Ei, Prongs, uma corrida pela Floresta Proibida enquanto ele se prepara?
– Prongs?
– Você sabe, por causa dos seus cascos pontudos – explicou, colocando as mãos acima da testa ilustrando os cascos.
– Ei, vocês não podem ficar abusando disso – disse Moony. – Ainda precisam se acostumar ou é provável que não consigam voltar...
– Vai comer poeira, pulguento! – eu disse e então Sirius e eu corremos juntos para fora da casa, pegando o embalo.
– ESPEREM POR MIM! – gritou Peter atrás de nós.
– ... a forma humana! – a voz de Remus foi a última que eu escutei antes de me transformar. Uma enorme silhueta negra correu em disparada ao meu lado. Ele latia, sem conter a animação e a liberdade, quando saímos do Salgueiro Lutador e corremos pela floresta.
Não virávamos o animal, mas sim ganhávamos apenas a forma e as características. Eu ainda pensava como James, Sirius ainda pensava como Sirius e Peter como Peter. Diferente de Remus quando se tornava um lobo, nós ainda tínhamos controle sobre nossas ações.
A lua cheia foi anunciada uma hora depois e ouvimos o uivo do lobo, indicando que Remus já estava transformado. Mais morcegos disparavam pelo céu, fugindo da figura que apareceu naquela noite. Ainda em nossas formas animagas, aproximamos da gigante árvore, com expectativas.
Não ousamos entrar, mesmo assim. A verdade era que era bem provável que Remus nos atacasse, mesmo que fossemos animais.
Eu, sinceramente, esperava que não.
Seus olhos amarelos piscaram no breu do túnel. Vimos que o lobo era tão peludo quanto Sirius quando se revelou para nós, observando cada um de nossos movimentos, cada uma de nossas caras.
Nos reconheça, Moony.
Não tínhamos meio de comunicação. Era instinto, somente.
Moony deu um passo em nossa direção.
De alguma forma, só me encarou. Por muito tempo. Eu não me movi, e ele também não.
Mas com Sirius foi diferente.
Moony avançou contra ele.
Foi uma luta intensa. Não havia nada que eu pudesse fazer, mas percebi que eles não estavam brigando, pois não tiveram mordidas ou sangues. Moony derrubou Sirius como em uma disputa, mas antes que ele pudesse revidar, Moony correu, esperando que os seguíssemos.
Naquela noite, corremos por horas e horas. E não cansamos. Passamos ao lado de centauros e outras criaturas mágicas que os livros de Hogwarts provavelmente nem conheciam. Nós estávamos orgulhosos de nós mesmos. Que outros alunos tinham esse privilégio de conhecer as redondezas de Hogwarts e seus segredos sem que nada os atrapalhasse, sem barreiras? Que outros alunos conseguiram o nosso feito?
Eu achava que o melhor dia da minha vida foi quando ganhei meu primeiro jogo de Quadribol. Mas, para falar a verdade, a liberdade que tivemos naquela noite de lua cheia, ao lado de Moony, estava disputando com a satisfação de capturar um pomo de ouro e orgulhar a Grifinória.
Moony não precisou ir a ala hospitalar na manhã seguinte, pois não tinha tantos ferimentos. Ficamos ao seu lado a noite inteira, esperando até que deixasse de ser o lobo. Teríamos aula naquela manhã então imediatamente decidimos voltar a nossa forma humana dentro do Salgueiro Lutador. O encantamento para entrar no túnel de forma segura era o feitiço Immobilus.
Voltamos às pressas para o castelo, arrumando nossas capas e gravatas do uniforme, mas estávamos muito atrasados. A primeira aula foi de Poções. Alcançamos as masmorras, ultrapassamos o corredor e descemos as escadas para a sala de Slughorn. Quando abrimos a porta da sala, não adiantou entrar de fininho sendo que estávamos em quatro.
Slughorn estava anunciando alguns pontos pela “brilhante demonstração da srta. Evans” quando a classe inteira virou os rostos curiosos e nos viu entrando.
– Chegaram um pouco atrasados, senhores – disse Slughorn seriamente, enquanto outros alunos davam risadinhas. – Não precisavam nem se incomodar.
– Tchau, então – eu disse ao mesmo tempo que Sirius. Nós voltamos a pegar nossa mochila nas costas, mas Slughorn não deixou sair tão fácil assim.
– Façam para amanhã uma redação de cinquenta centímetros sobre o assunto que ensinei hoje. Cada um de vocês, inclusive o sr. Lupin.
Peter cochichou ao meu lado.
– Sabemos o assunto que ele ensinou hoje?
– Claro – eu disse, apurando meu olfato para o cheiro da poção. Observei os ingredientes em cima da mesa do professor e o modo como todas as meninas, e Frank Longbottom, estavam com as expressões estranhas e coradas. – Ensinou sobre a Amortentia hoje, professor. Pode deixar, tenho muito que escrever sobre ela.
Pisquei para Evans ao lado do professor Slughorn ao dizer isso, e ela girou os olhos, desviando sua atenção para seus materiais na mesa, mas vi que ficou corada. Seu cabelo ruivo estava preso em um coque frouxo e talvez fosse a essência dos ingredientes da Amortentia naquela sala, mas não pensei em alguma garota que pudesse estar mais bonita do que ela, mesmo que ela não se esforçasse para ser.
– Vamos logo, Prongs – Sirius agarrou meu braço porque não pude deixar de sorrir com McKinnon dizendo a Evans quando virei as costas para sair da sala:
– Aquela piscada foi para você, sabia?
– Pare.
Ficamos no corredor do terceiro andar, perto do jardim, azarando umas crianças sonserinas do primeiro ano que estavam perdidas pelo castelo e não conseguiam encontrar suas salas. McGonagall estava se aproximando de nós naquele instante. Achamos que ia brigar, mas estava distraída lendo o exemplar do Profeta Diário. Passou por nós quatro sem olhar, apenas dizendo:
– Bom dia.
– Bom dia, professora – dissemos em uníssono, educadamente.
Foi só dar mais um passo que finalmente percebeu. Parou, olhou para frente, girou os calcanhares e agora sim nos encarou.
– O que estão fazendo aqui em horário de aula?
– Chegamos atrasados e Slughorn nos dispensou – respondeu Sirius.
– E posso saber por que atrasariam? Aliás, estranhei que o café da manhã hoje foi muito tranquilo. Onde estavam?
– Peter estava passando mal no dormitório – respondi. – Ficamos lá para ajudar... só melhorou agora.
Peter fez um grunhido, sentado com a cabeça encostada na parede. Apertou a barriga e realmente pareceu que estava morrendo.
Ela olhou bem desconfiada para mim e para Sirius. Estávamos encostados a parede, despretensiosos e bastante relaxados, com nossas varinhas a pouco usadas para azarar dois calouros, escondidas em nossas costas.
– Sr. Lupin – ela o chamou e Moony tentava se esconder atrás de um livro. – É essa a hora perfeita para fazer um bom uso do seu distintivo, não acha?
Ele pigarreou, corando. McGonagall cruzou os braços e ficou para supervisionar Remus. Ele guardou o livro na mochila, fez um olhar suplicante para mim e para Sirius, e, então disse, como se estivesse programado para dizer:
– Voltem para a Sala Comunal e façam a redação que o professor Slughorn mandou. – McGonagall esperou mais um pouco. Moony apontou o dedo. – Ou vão perder dez pontos.
Não rimos porque tínhamos consideração por ele. Mas nossa vontade era de rolar no chão com gargalhadas. Até Moony estava tendo dificuldade em manter a cara séria.
– Claro, Moony – disse Sirius, sem discutir, com as mãos nos bolsos da calça ao começar a andar.
– Tudo por você, Moony – eu concordei, andando também. – Tenha um bom dia, professora.
– Obrigada, sr. Potter. A propósito, detenção em minha sala hoje à noite. O sr. Black pagará a dele com o professor Flitwick. Sr. Pettigrew, eu o acompanho até a ala hospitalar para tratarmos da sua dor de barriga e, sr. Lupin... ajude aquelas crianças a encontrarem o caminho de volta para a sala de Defesa Contra as Artes das Trevas, sim?
– Por que eu e Sirius temos sempre que ir a detenção? – perguntei estupefato. – E hoje a noite tenho treino!
– Pensasse nisso antes de modificar o nariz daquela garoto, Potter. Tenha paciência, estão em níveis de N.O.M.s e continuam matando aula para azarar os alunos. Cresçam um pouco, sim? Vamos, Pettigrew.
Mesmo não tendo dor de barriga alguma, ele foi.
– Sortudo – disse Sirius, quando McGonagall e Peter viraram o próximo corredor. – Agora aquele rabicho não vai precisar aturar a aula de História da Magia com a gente.
– Vamos matar essa também – sugeri.
– Não – disse Remus. Ele pareceu hesitante, mas dessa vez continuou com firmeza. – Não matem mais uma aula. É sério, eu preciso fazer alguma coisa por esse distintivo. Me ajudem aqui.
– Ajudamos bastante você, Moony – disse Sirius olhando para as unhas. – Passamos três anos estudando como virar animago e não deixá-lo sozinho na lua cheia.
– Sirius está certo, cara, é sua hora de nos recompensar.
– O que vou dizer ao professor...?
– Você é esperto, vai achar uma ótima história – disse Sirius sorrindo. – Vamos, Prongs, vamos criar um mapa para descobrir onde as gostosas do sétimo ano estão agora.
– Boa idéia, Padfoot.
– Gente! – Remus chamou quando viramos as costas. – Eu não posso ficar cobrindo vocês o tempo todo!
– Olha só o que temos aqui! Calouros perdidos? – disse Sirius para um grupo de garotos do primeiro ano, lufanos. Eles assentiram. – Não se preocupem, o Monitor Moony está aqui para ajudá-los. Vão até ele.
Remus não conseguiu mais nos impedir de matarmos aulas porque as quatro crianças se aproximaram desesperadamente, pedindo por informação de salas, horários, professores e matéria. Ele, atencioso e monitor, começou a ajudá-las e nos deixou por conta própria.
Sirius e eu fomos até uma passagem secreta dentro da cozinha de Hogwarts que nos levava para o Três Vassouras em Hogsmeade. Passamos aquela manhã batendo um papo com Rosmerta, a dona do bar. Gostávamos dela porque ela não se preocupava com nossas razões; apenas aproveitava nossa companhia. Fazíamos ela rir até lágrimas caírem dos olhos. E quando nos contou sobre uns homens estranhos que andavam aparecendo por ali constantemente, Sirius se inclinou no balcão com um leve sorriso.
– Quer que a gente te proteja?
Era seu tom de voz de flerte, e não passou despercebido pela mulher. Ela apenas deu um tapa no ombro dele.
– Para com isso, garoto. Sou bem mais velha.
– O que indica experiência, e, Rosmerta, você pode me ensinar algumas coisas.
Ela gargalhou. Depois se aproximou com o rosto bem perto dele, mordendo os lábios vermelhos e carnudos. O decote dela estava absolutamente tentador de se olhar. E nós dois olhamos. Sirius demorou um pouco mais.
– Peguem alguém do tamanho de vocês – ela disse, desarrumando nossos cabelos e, depois, se afastou para atender um viajante que acabara de entrar pela porta. Era um homem corpulento, com a capa de viagem cobrindo seu rosto. Sua voz era rouca, quase inaudível, como se tivesse engolido fumaça e o pulmão não sustentassem mais ar. Jogou um pedaço de jornal sobre o balcão.
Não teríamos dado atenção a isso se não quiséssemos apreciar a beleza de Rosmerta, mas acabamos ouvindo o homem perguntar:
– Viu o homem da foto?
– Hum – Rosmerta olhou pensativa atentamente para a foto. – Não sei, não estou o reconhecendo.
– Então me faz um uísque de fogo – mandou, guardando o pergaminho no bolso. Sentou-se no balcão e tirou o capuz do rosto, revelando-se um homem de aparência desgastada com a expressão hostil. Fez um gesto com a cabeça quando olhou para mim e para Sirius, em um modo de cumprimento, mas não pareceu amigável.
O Três Vassouras estava parcialmente vazio naquela manhã. Não era Natal, Páscoa ou qualquer outra ocasião especial. Mas mesmo assim, ainda tinha um ou dois fregueses caídos no chão, bêbados pelas festanças daquele fim de semana.
Rosmerta saiu para atender ao pedido do homem estranho, ficando alguns minutos dentro do estoque. O homem tirou a varinha do bolso e trancou a porta para que ela não saísse tão cedo.
Depois desdobrou as mangas até os cotovelos e se levantou para caminhar pelo bar, procurando por alguém. Tinha cicatrizes por todo o braço. Ele se aproximou de mim e de Sirius para dizer casualmente:
– Por que não voltam para Hogwarts agora, garotos?
– Claro, claro... – dissemos e levantamos, sem nem uma intenção de brigarmos com um cara que tinha um olho de vidro que girava dentro da cavidade ocular, fazendo-o captar todos os cantos do lugar sem que ele precisasse virar a cabeça.
Obviamente saímos do Três Vassouras, só para ele achar que tínhamos saído. Perto do beco ao lado do bar, entretanto, Sirius e eu vestimos a Capa de Invisibilidade para voltarmos e descobrir o que diabos esse cara ia aprontar. Além disso, não podíamos deixar Rosmerta sozinha.
– Levante, seu inútil estrume de hipogrifo – ouvimos a voz dele direcionada ao bruxo caído perto do banheiro.
Cutucou suas costas com o pé. Nesse momento, o bruxo girou o corpo e apenas deu tempo de ver um raio de luz verde saindo como um jato de sua varinha. Mas, para a minha surpresa e admiração, o cara com o olho mágico não foi atingido. Uma barreira invisível o protegeu do ataque, uma barreira que ele mesmo a conjurou, demonstrando um dos reflexos mais surpreendentes que já vi com meus próprios olhos.
Segundos depois, o bruxo aparentemente desacordado estava em pé, ágil, de olhos estreitos direcionado ao oponente, com um sorriso terrível no rosto.
– Então me encontrou, Alastor. Eu achei que não seria capaz.
– Tem metade dos aurores só procurando por você e aqueles idiotas, estrume. Vou confessar, estão me dando trabalho. Revele – Alastor exclamou um feitiço azul contra o tal de estrume. Aos poucos, a aparência foi mudando. Ele era mais jovem, mais corpulento e também mais bonito, com os cabelos curtos e pretos. Só que a expressão continuou a mesma. A expressão diabólica. – Passando noite e dia por aqui e assassinando cada maldito nascido-trouxa com poções e objetos das trevas enfeitiçados... sabe quantos anos isso significa em Azkaban, Dolohov?
– Alguns – admitiu. – Mas você sabe, não é, Alastorzinho... ah, sabe que os dementadores não trabalham mais para seu precioso quartel general. Eles trabalham para o Lorde das Trevas agora!
– Que bom que Azkaban não é o meu plano para um Comensal da Morte então.
Não tiveram palavras sibiladas para os feitiços que começaram a jorrar de ambas as varinhas. Sirius e eu andamos atrás do balcão para nos protegermos, pois os feitiços estavam acertando tudo ao redor. Percebendo que isso era a coisa mais covarde que eu poderia fazer, sussurrei a Sirius enquanto ouvia os sons e luzes de feitiços quebrando as mesas.
– Vamos ajudá-lo.
Sirius assentiu prontamente, apanhando a varinha.
Tiramos a capa. Exclamei Impedimenta ao me revelar por trás do balcão. O homem chamado Alastor não virou o rosto, mas eu sabia que seu olho captou meu movimento. Nessa fração de segundo, extremidades do corpo do Comensal da Morte começaram a se mover em uma lentidão agonizante, mas ainda assim mirando a varinha.
Sirius, do outro lado, proferiu rapidamente:
– Expelliarmus.
E a varinha do Comensal da Morte caiu há três metros de onde estava.
– Não sabia que precisava de ajuda de crianças, Alastor – Dolohov disse com sorriso. – Já foi melhor, hein?
Dolohov também era muito habilidoso. Ele tinha outra varinha no bolso e dessa vez acertou Alastor no peito, que não achou tempo para se proteger. Seu corpo foi arremessado contra a parede e ele caiu, desacordado. Sirius foi tentar revidar, mas Dolohov o desarmou.
Sirius foi pegar de volta a varinha, mas Dolohov o azarou. Sirius ficou duro como uma tábua, sob o efeito de Petrificus Totalis. Meu sangue ferveu de ódio quando Dolohov riu do meu amigo.
Eu odeio quando humilham meus amigos.
Dolohov girou seus olhos para mim então. Nós dois ainda tínhamos nossas varinhas.
– Tem coragem de duelar agora? Vamos ver do que é capaz... Fez um ótimo feitiço de Impedimenta agora há pouco. Que mais que sabe fazer?
Não pensei, só mostrei. A azaração não chegou atingi-lo, porque ele se defendia muito rápido, mas foi tentativa após tentativa, sem parar, sabendo que em algum momento eu o acertaria. Pensei em seu nome familiar que constantemente aparecia no Profeta Diário, anunciando massacres e assassinatos a sangue-frio contra trouxas, traidores e nascidos. Pensei em Alastor caído talvez possivelmente morto ali ao meu lado. Com uma fúria passando por todo o meu corpo, eu transmiti aquilo até a ponta da minha varinha e quando gritei “expelliarmus” ele não conseguiu armar a defesa. Foi arremessado para trás, as costas batendo contra uma mesa e ela se rachou ao meio.
– É habilidoso – comentou, levantando-se, sem sinais de machucado. – Conhece muito de feitiços. Mas sabe se defender?
Luzes jorraram em minha direção, uma atrás da outra. Defendi a primeira, por reflexo, defendi a segunda, por já estar esperando. A terceira, porém, veio mais rápido e me atingiu no braço direito, o qual eu empunhava a varinha.
O peso dos meus ossos fez com que eu soltasse a varinha e grunhisse de dor. Dolohov estava sorrindo.
– Quantos anos tem, garoto?
Eu costumava gostar de impressionar as pessoas. Mas não gostei que ele estivesse impressionado comigo. Ele parecia ter... intenções... e uma delas não era me matar. Era de...
– Ora, muito bem, talvez até tenha minha recomendação ao Lorde das Trevas...
– Nunca! – eu gritei, assustado com a convicção que eu tinha sobre isso. – Nunca vou me juntar ao seu bando de seguidores! Nunca vou fazer parte disso!
Queria atingi-lo com mais ataques, mas meu braço estava muito pesado.
– Diz isso agora. Sou bom em farejar sangue-ruins. E sei que não é um. É um sangue-puro, habilidoso em duelo e se recusa a pensar na possibilidade... Isso não é nada bom, sabia? Ser traidor de sangue é ainda pior do que ser um Sangue-Ruim.
Ergueu a varinha e era provável que estava mirando para matar, mas de repente ele começou a grunhir de dor como se algo em sua pele estivesse ardendo muito. Pousou a mão no pulso que continha a tatuagem de uma caveira com língua de cobra – a Marca Negra estava queimando sua pele.
– Espero que se alguma vez nos reencontrarmos, rapaz, já saiba quem realmente deve seguir.
Após dizer isso, aparatou. Sumiu. Desapareceu.
O silêncio reinou no Três Vassouras.
Olhei para Sirius e joguei o contrafeitiço. Ele voltou ao normal, com uma expressão de pura raiva e ódio no rosto.
– Precisamos chamar Dumbledore – Sirius disse. – Contar que havia um Comensal da Morte por aqui. Ele precisa saber.
– Ele já... sabe.
O auror estava abrindo os olhos lentamente, quando disse.
– O senhor está bem? – perguntei. – Podemos levá-lo a ala hospitalar se estiver machucado. Conhecemos um caminho curto até Hogwarts.
– Eu to bem, se afastem. O que deu em vocês? Acham que isso é uma brincadeira? Falei para saírem daqui! Se morressem, Dumbledore ia botar a culpa em mim, ainda.
Bateu com a base da mão na cabeça e, com aflição, vi que seu olho mágico voltou a ziguezaguear pela órbita. Resmungou alguma coisa como “olho idiota” e não precisou de ajuda para se levantar.
– Dolohov escapou, brilhante. E como é que duas crianças como vocês ainda estão vivos?
– Alastor!
A voz de Albus Dumbledore soou dentro do Três Vassouras quando ele entrou ao lado de Rosmerta e a professora McGonagall. Ambas com as expressões preocupadas, nervosas e ofegantes, indicando que estiveram andando a pressas. O motivo de Rosmerta era para com Alastor:
– Achou que me trancar em meu próprio bar faria alguma diferença para me proteger, Moody?
– Foi um modo de avisar que eu estava em missão sem chamar atenção de Dolohov – ele disse secamente. – E se você soubesse que ele estava disfarçado com Poção Polissuco aqui, teria saído aos prantos. Dumbledore, Dolohov escapou por um chamado de Voldemort e eu não tenho culpa que seus dois alunos tentaram bancar o herói e quase morreram por isso.
– Potter e Black serão castigados depois de eu ter certeza de que eles estão bem – disse McGonagall com firmeza. – O que houve com seu braço, Potter?
– Duelei com Dolohov – eu disse de forma bastante displicente.
– Não invente asneiras, Potter!
– Ele está falando a verdade, Minerva – disse o tal Alastor Moody com má vontade. – Dolohov testou as habilidades dele.
– Você viu tudo e não tentou impedir?! E se ele o matasse?
– A última coisa que ele faria era matá-lo, conheço a mente desses criminosos. Potter é um sangue-puro. Ele estava tentando persuadi-lo. E eu fiquei curioso para saber como é que ele ia resolver isso... é assim que seus alunos devem aprender Defesa Contra As Artes das Trevas, ou como espera que eles sobrevivam a tempos como esse?
– Naturalmente, Alastor, naturalmente – disse Dumbledore baixinho. – Voldemort tentará reunir o número máximo de sangue-puros para os seus planos, independente da idade. Se um bruxo tem certo talento, como o sr. Black e o sr. Potter demonstram que tem desde o primeiro ano, eles não desperdiçariam a chance de, claro, convidá-los para se unirem a ele.
– Nunca vou me unir a eles – eu disse, como se fizesse questão que Dumbledore soubesse disso.
– Eu também não – disse Sirius. – Aliás, estou com mais vontade de matar esses Comensais da Morte agora do que nunca.
– É reconfortante saber disso – falou Alastor. – Estão pensando em seguir que carreira depois de Hogwarts?
– Ainda não pensamos nisso – eu disse.
Estava deixando mais para o meio do ano, ainda faltaria meses até os N.O.M.s.
– Pois comecem a pensar. Se duela assim com essa idade, Potter, daria um bom Auror quando terminar Hogwarts. Ótimo feitiço de Impedimenta e eu não sou facilmente impressionável. Excelente desarmamento – virou-se para Black. – Acertou de primeira, jogou a varinha dele longe. Claro que Dolohov os mataria se ele não tivesse outra intenção, mas... Ser Auror requer um pouco de sorte também, e deu para notar que isso vocês tem.
Percebi que Sirius e eu estávamos sorrindo brilhantemente com os elogios.
– Está mesmo falando dos alunos que mais dão problema em Hogwarts? – perguntou McGonagall inconformada. – Eu acabei de vê-los, essa manhã, transformarem o nariz de um garoto do primeiro ano em cenoura. Eles só estão aqui porque mataram aula de História da Magia para ficarem tomando cerveja amanteigada... Bom, fico feliz que ninguém se feriu gravemente, de qualquer forma. Eu os levarei de volta ao castelo, diretor, se me permite.
– Claro, Minerva. Tenho assuntos a tratar com Alastor. Rosmerta, por favor, com o acompanhamento de uísque.
– É para já.
Caminhamos com a professora McGonagall até o castelo, deixando o auror e o diretor Dumbledore no Três Vassouras. Nossa professora de Transfiguração não disse nem uma palavra até que estivéssemos cara-a-cara com o porta-retrato da Mulher Gorda.
Ela ia começar o sermão, mas eu disse primeiro:
– Posso perguntar uma coisa, professora?
– Só uma, Potter.
– Se Dolohov estava disfarçado em Hogsmeade, como teremos certeza de que Hogwarts está segura? Qualquer um pode se infiltrar com Poção Polissuco...
– Potter... Black – ela disse olhando para nós dois. – Estamos em tempos difíceis. Por mais que Hogwarts ainda seja o lugar mais seguro para se viver, não há como saber quem tanto anda por este castelo.
– Então a senhora quer dizer...
– Sim. Não há ninguém seguro por aqui, sr. Potter. Por isso exijo dos meus alunos a total dedicação em aprender magia. Por isso, a partir de hoje, não quero vê-los matando nenhuma aula pelo resto de seus anos em Hogwarts. Vejo vocês na detenção hoje a noite.
Dizendo isso, girou os calcanhares e desceu as escadas para ir embora.
– E eu achando que eu ia ficar entediado nessa segunda-feira – sorriu Sirius ao entrarmos juntos para a Sala Comunal. Ele se jogou no sofá, exausto. – Qual a aula que temos depois de Historia da Magia?
Mas eu estava distraído, raciocinando os acontecimentos da última hora. Por alguma razão, fiquei inquietado com as últimas palavras de McGonagall. Sentei-me na poltrona com a testa franzida, sem escutar realmente as perguntas de Sirius.
– Ah, sim, Feitiços. Menos mal. Que foi, Prongs? Está com cara de quem viu a Evans.
Eu estava sorrindo, porque tive uma idéia brilhante.
Brilhante mesmo.
– E se déssemos um jeito?
– Um jeito no quê? Não ta pensando em jogar Amortentia na bebida dela, ta?
– Não, não é sobre Evans. Sobre o que McGonagall falou... sobre não ter como saber quem anda pelo castelo. Você sempre brinca falando que devíamos ter um mapa para acharmos as garotas do sétimo ano... e se criássemos esse mapa? Um jeito de sabermos o que cada pessoa de Hogwarts poderia estar fazendo nesse momento...
Sirius, que aparentemente estava buscando seu pergaminho para começar a redação de Slughorn, jogou tudo de volta na mochila e me olhou interessado.
– Vamos começar.
E eu sabia que, quando Sirius concordava com alguma idéia, nós faríamos. Daríamos início à construção do Mapa do Maroto, mas, naquele instante, estávamos apenas exaustos, com a idéia e o conceito apenas na mente... Despenquei no sofá, para dormir o que não dormi desde ontem, tendo sonhos que envolveram Comensais, Poção do Amor, Poção Polissuco, pegadas, cães, ratos, lobos e Evans.
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