Prongs

9 Dedicado ao nariz anormalmente grande e bisbilhoteiro do sr. Snape


Notas iniciais
E esse capítulo é maior do que o nariz do Ranhoso. ( passar o tempo na mente de James Potter não é uma boa influência! HIUHAIUHA) Um dos fatos mais importantes que conhecemos dessa geração é que James salvou a vida do Snape. E esse capítulo é a minha versão de como teria acontecido.

Capítulo 9

Eu detestaria que você saísse por aí com uma idéia falsa sobre seu pai, Potter. Será que você andou imaginando um glorioso ato de heroísmo? Então me dê licença para corrigi-lo: seu santo paizinho e seus amigos me pregaram uma peça muito divertida que teria provocado a minha morte se o seu pai não tivesse se acovardado no último instante. Não houve coragem alguma no que ele fez.” Severus Snape – Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

***

Não, Potter.

– Você nem pensou para responder. Vou dar outra chance...

Lily Evans estava andando apressada pelo corredor cheio de alunos no período da tarde, alguns dias antes do Halloween – tinha aula de Aritmancia. Ela era baixinha, então três passos dela equivaliam a um longo passo meu, o que tornava bem fácil alcançá-la. Sem olhar para mim, me cortou quando tomei outro fôlego para fazer a pergunta:

– Não preciso pensar para decidir se quero ou não assistir ao seu treino. Não me interesso em ver você se exibindo na sua vassoura estúpida.

– Não diga isso. Eu sei que você fica toda animada quando faço a Grifinória ganhar um jogo. Torce como todo grifinório. E agora está dizendo que não se interessa em me ver...

– Pelo que eu entendi de Quadribol, não tem só um jogador no time.

– O mais importante é o apanhador, claro.

– Eu discordo. Se um batedor não for bom para protegê-lo, é provável que a cabeça do apanhador, no caso a sua, exploda em pleno ar por causa da gole. Vou confessar, gostaria de ver isso acontecendo com você às vezes.

– Você? Eu duvido. Brigou com Sirius quando o viu matando uma formiga com o dedo.

– Para de me seguir, Potter, estou atrasada.

Não parei. Principalmente depois de vê-la falando sobre Quadribol daquele jeito. A maioria das garotas que não se interessavam pelo esporte nem tinham a curiosidade de entender o jogo. Mas Evans sabia dos nomes. Balaço, batedor...

– Ah, só para saber. Goles na verdade são para marcar os pontos, mas eu te perdôo por se confundir... Você fica linda quando fala de-

Tropecei em alguma coisa e me apoiei em um garoto do primeiro ano, levando-o junto comigo para o chão quando caí. O pessoal por perto não sabia se ria ou ajudava.

– Ai meu Merlin, você está bem, James?

Por dois breves segundos eu achei que era Evans se aproximando para me ajudar, com toda a atenção e simpatia que ela tinha, mas na verdade foi Prudence Cooper, do sétimo ano, que estava por perto e largou os livros de lado para ver a minha situação. Evans continuou seu caminho e eu juro que vi que ela saiu dando risadinhas.

Cooper tinha a expressão mais preocupada do mundo ao se agachar perto de mim e segurar meus ombros.

– To ótimo. Oi, Cooper. Foi mal aí, calouro – eu disse ao garoto que tinha caído comigo e foi nele que eu me apoiei também para voltar a me levantar. – Não vi por onde andava.

Minha visão estava embaçada. Foi quando Prudence Cooper ficou a minha frente e colocou meus óculos no rosto, delicadamente. Vi seu rosto nítido, bonito e sorridente. Fácil de encarar, fácil de corresponder ao sorriso.

– Parece que nunca troca a armação dos seus óculos, James – falou, divertida.

Estiquei meu pescoço para ver se encontrava Evans em algum lugar, mas ela tinha desaparecido de vista. Então voltei a olhar para Prudence.

– Eu troco sim, mas todas as armações que tenho são iguais.

Ela riu, realmente achando o comentário engraçado.

– É sério. Tenho um armário inteiro só com esses óculos.

Ela riu mais ainda. Franzi a testa, eu nem estava tentando ser tão engraçado. Mas quem eu era para reclamar de uma garota curtindo o que eu falava?

– Então... James. To ouvindo umas histórias que você e Black mataram um Comensal da Morte em Hogsmeade. É verdade isso?

– Não chegamos a matá-lo... mas eu duelei com ele – confessei.

– E ele te machucou? Disseram que você tinha perdido o braço.

Eu adorava como a fofoca rolava por Hogwarts.

– Achei que eu ia perder, mas a Madame Promfrey fez um ótimo trabalho em recuperá-lo – afiei a mentira, divertindo-me com sua expressão.

– Se eu soubesse... – ela se aproximou de mim, tirando o cabelo loiro dos olhos. Roçou os dedos pela minha gravata. – Você deve ter sido tão corajoso. Você salvou um auror, ouvi dizer também.

– É, acho que fiz isso também – sorri brilhantemente.

– Nos vemos mais tarde então, James. Boa sorte no jogo amanhã! Estou louca pra vê-lo capturar o pomo.

– Ok! – eu disse bem patético, acenando.

Lembrei do que me disseram caso eu virasse um grande apanhador. Todas vão querer dormir com você. Disseram que só iam ser grifinórias, mas aparentemente lufanas também. E, quem sabe, as corvinais eram as mais belas de Hogwarts.

Então, meio que pensando nisso, demonstrei um belo show ao capturar o pomo no primeiro jogo depois do Halloween, naquele ano. A Grifinória já sentia a Taça de Quadribol nas mãos, antecipadamente. As festas de comemorações estavam ficando cada vez mais populares na Sala Comunal, principalmente porque Sirius e eu bancávamos os aperitivos que roubávamos da cozinha de Hogwarts com a Capa da Invisibilidade.

E isso também tinha seu lado negativo – mais uma vez, acordei na minha cama sem ter a menor lembrança dos detalhes da festa, por causa do uísque de fogo. O pior era que dessa vez até Sirius se juntou a mim. Remus ficou bêbado pela primeira vez – e última. Tinha capturado Dorcas no meio do salão comunal e lascado um beijo absolutamente brilhante na garota. Por um momento nós achamos que ela ia dar um tapa na cara dele, mas acho que ela esperou tantos anos para isso, para a iniciativa dele, que o pegou pela mão e saíram da festa para aproveitarem sozinhos.

Mas eles brigaram no dia seguinte.

– Você só fez isso porque bebeu! – gritava do outro lado do corredor. – E não porque era o Remus que eu conheço! Você anda com James e Sirius e os dois são completamente irresponsáveis e idiotas e está se tornando como um deles!

– Mas Dorcas...

Sirius e eu estávamos atrás deles na discussão do corredor. Só ouvindo, dando apoio moral.

Defenda suas atitudes, Moony!

Então ele disse:

– Mas eles são meus melhores amigos. Não sou como eles, mas sou um deles. E se você tiver problema com isso, então, então...

Nós te amamos, Moony!

– Então o quê?

– Então... acho que teremos um problema também.

Ela tinha os olhos aguados quando pediu a ele:

– Não venha me procurar depois então, ok?

Remus havia feito uma garota chorar. Chorar!

Fomos abraçar o coitado do Moony quando Dorcas foi embora. Ele nunca tinha a intenção de magoar garota alguma, mas ele nos defendeu com garras e dentes, foi um verdadeiro lobo.

– Foi tão lindo o que disse! – eu fingi tirar uma lágrima dos olhos.

– Preferiu nos defender a um dia ter a chance de comer ela, Moony! Estou tão orgulhoso!

Depois arrancamos o livro de sua mão, para mostrarmos que estávamos zangados, e não orgulhosos.

– O que diabos você tava pensando, cara? – perguntei.

– Ela gosta de você! – exclamou Sirius. – Ela quer você! Dane-se a gente, seu besta, e vai atrás dela.

Depois disso, Remus saiu assustado, e correu para alcançar Dorcas pelo corredor pedindo desculpas desesperadamente.

Nos estiramos na grama quando alcançamos o Jardim durante o período livre entre Transfiguração e Advinhação. Sirius deitou para dar uma cochilada e Peter precisava ficar em dia com as matérias então estava jogando tudo o que tinha para fora da mochila. Remus ainda estava tentando arrumar as coisas com Dorcas.

Comecei a olhar um grupo de meninas perto do lago, com suas capas do uniforme jogadas e os livros abertos ao redor delas. Marlene, Alice e Emmeline estavam sorrindo, todas risonhas, olhando para Lily Evans como se ela estivesse contando algo muito divertido sobre O’Connor.

Depois mudaram de assunto, talvez envolvendo Alice, já que a garota tampou o rosto com a mão com algo que Emmeline perguntou a ela. Riam, animadas, felizes. Provavelmente falavam sobre Longbottom agora.

Afrouxei minha gravata do colarinho, abri alguns botões da camisa e despenteei meu cabelo pela nuca. Em algum momento da conversa delas, Lily ficou concentrada em tirar o laço que apertava os cabelos ruivos para soltá-los despretensiosamente pelos ombros. Sorri com a maneira como ela não tinha a mínima idéia de que, quando passava a mão neles, isso era absolutamente hipnotizante.

Sempre tive algo com aquele cabelo ruivo, nunca soube explicar o motivo e talvez o motivo não importasse para um garoto de 15 anos. Desde o meu primeiro ano, eu me via muitas vezes olhando para ele. Mas acho que nada, nada mesmo em Lily Evans era mais sensacional do que aqueles olhos verdes. Não existia outra pessoa com olhos tão peculiares, tão bonitos, tão fortes. Impacientes quando me via aprontando, ou sutil, doce, sincero para as amigas. E se isso já não fosse o suficiente, ela tinha uma risada que me causava a vontade de fazê-la rir o tempo todo.

Embora não fosse nada fácil.

Lily ajeitou a saia em suas coxas e, junto com as amigas, havia tirado as meias. Estava um pouco calor naquela tarde, então tirou a gravata e abriu dois botões da camisa do uniforme. Ela cruzou as pernas esticadas e pegou um rolo de pergaminho da bolsa. Achei que começaria a fazer a enorme redação sobre as origens de gigantes para História da Magia, mas acabou se dispersando e tirou a varinha da bolsa.

Eu adorava esse momento; quando ela brincava com feitiços. Nada para praticar, apenas para passar o tempo. Reparei que ela não precisava mais proferir os encanamentos pela quantidade de vezes que os usavam. Fazia feitiços não-verbais e nem havíamos feito N.O.M’s.

Eu gostava quando ela deixava várias borboletinhas de papel sobrevoarem por sua cabeça. Duas meninas do primeiro ano estavam observando o feitiço, encantadas, há uma distância de dois metros. Lily reparou nisso. Ao invés de ignorá-las e mandá-las pastarem, com um movimento na varinha fez as inúmeras borboletas de papel voarem acima das cabeças delas. Elas riram e tentaram caçar algumas. A mais alta se aproximou de Lily para devolver a borboleta de papel.

– Gostam de ver Transfiguração? – perguntou a elas.

– Sim. Mas a gente ainda não consegue transformar muita coisa...

– Tem que praticar bastante. Faço isso desde o meu primeiro ano – contou. – Olhem só.

Pediu para a menina continuar segurando a borboleta. Com a ponta da varinha direcionada ao papel dobrado nas mãos da garota, Lily fez um encantamento.

De longe parecia a transfiguração mais fácil de ser feita. Mas, aos olhos daquelas duas garotas, ver a borboleta de papel se transformar em uma borboleta de verdade, era a coisa mais linda que tinham visto.

Por um bom tempo as duas meninas tentaram o feitiço, mas não conseguiram.

– Tudo bem, só continuem praticando – disse Lily sorrindo, antes de começar a guardar os livros, as bolsas, e se levantar. Deixando suas borboletas e as garotinhas para trás, começou a caminhar na minha direção.

Um monte de pensamento começou a jorrar na minha cabeça.

Ela está vindo, ela está vindo, ela está vindo.

Seu cabelo está ótimo, James, quando não está?

Fala oi para ela, qualquer coisa, seja engraçado. Seja incrível. Seja você, é claro.

Quando dei por mim, eu estava tentando achar uma posição atraente para me deitar.

Assim parece modelo de revista.

Assim o sol fica na cara.

Porra, apenas sente.

E comecei a falar para Peter com a voz particularmente alta, olhando de esguelha para Lily passando por nós:

– A redação que a McGonagall pediu foi bem tranquila, não acharam? Ela me deu “O”, que significa Ótimo nos N.O.M’s. Acho que vou me sair bem. Quanto você tirou, Padfoot?

Foi com grande desespero que a vi passar diretamente, sem dar sinal da minha existência ou de que percebeu que estive observando ela o tempo todo naquele jardim.

Ela terminou com O’Connor em uma discussão em Hogsmeade, alguns dias depois. Pelo que deu para entender, o cara tinha falado umas mentiras sobre ela aos amigos. O rapaz não estava concordando em terminarem, mas Lily foi muito decidida ao sair da mesa dele.

Fiquei ainda mais furioso com O’Connor quando o vi flertando com outra menina do sexto ano, dias depois daquela discussão, como se o tempo que tivesse ficado com Lily não foi nada para ele. Como alguém que teve Lily Evans por quase um ano pudesse desvalorizar isso?

Ano passado lembro que Marlene e Alice estavam todas assim com ela:

“O’Connor é tão inteligente, bonito e educado, devia dar uma chance!”

“E, Lily, ele gosta de você. Sai com ele!”

Em novembro de 1975, um ano depois, as duas estavam assim na Sala Comunal, onde O’Connor estava beijando outra menina em um canto longe delas:

– Lily, ele é um idiota. Um completo idiota, não presta! Não te merece!

– Não sei por que me escutou e quis sair com ele, Lily.

– Deixa pra lá, gente – Lily disse definitivamente. Decidiu mudar de assunto entre elas, tentando, mas falhando, ao soar animada. – Então Frank finalmente te pediu em namoro, Alice? Como é que foi?

No instante seguinte, O’Connor tinha soltado a garota do sexto ano que estava beijando. A menina deu um gritinho assustado e fugiu depressa, enojada, por causa da enorme língua rosa pendurada para fora da boca dele. Com desespero, tentou gritar alguma coisa.

Todo mundo da sala começou a rir, com aflição e divertimento.

Hein hennhein nhinho?

Girando a varinha entre meus dois dedos, busquei meu olhar com Evans. Não olhou para mim, ainda, então pigarreei e disse na direção de O’Connor:

– Aproveite que pelo menos a língua é grande, O’Connor!

Mais risadas. Levantei-me do sofá e me aproximei dele. A língua estava quase encostando ao chão. Ele não ousava se mexer.

– Está pesado aí? E se nós a enrolássemos um pouquinho?

Com um movimento na varinha, a ponta da língua dele começou a enrolar cada centímetro de comprimento, recolhendo-se. A língua dele estava parecendo um rabo de camaleão. Teve uma semelhança muito parecida, então mudei a cor rosada de sua língua para uma cor mais... esverdeada.

As gargalhadas estavam aumentando, o que me fez continuar:

– Quem é que vai ser linguarudo agora? Falando mentiras por aí... quem sabe aprende um pouco a lição, O’Connor.

Fui sorrir para Evans, mas ela não estava mais lá. Devia ter voltado para o dormitório. Ela nunca gostava de ver azarações, independente da pessoa... Escondendo minha decepção por não tê-la mais na audiência, desfiz os feitiços em O’Connor e voltei a trabalhar com Sirius, Remus e Peter as primeiras ideias do Mapa do Maroto no outro lado da sala. Eles me encaravam com as sobrancelhas erguidas. Eu nunca tinha feito uma azaração sozinho, sem Sirius ou qualquer um deles. No silêncio que se formou entre a gente, eu achei melhor confessar:

– Estou afim da Evans. E aí, conseguiu descobrir o feitiço, Remus?

Peter derrubou o tubo de tinta. Sirius engasgou. Remus murmurou um “eu sabia”. Mas não falamos sobre isso.

Estava com uma louca vontade de dar uma volta pelo céu de Hogwarts com a vassoura de corrida mais rápida do mundo, quando me dei conta de que eu, definitivamente, estava afim da Evans.

Não queria outra.

Na manhã seguinte, na aula de Herbologia, a professora Sprout deu atividades individuais para cuidarmos de uma planta que espirrava substâncias gosmentas se cortássemos as raízes sem o cuidado necessário. Isso rendeu muita dificuldade e concentração até da parte dos melhores alunos. E eu não estava conseguindo me concentrar no que fazia, porque me pegava olhando Evans com suas caretas e xingando baixinho cada vez que a planta espirrava em seu roupão protetor. Achei legal que ela não estivesse com nojo, mesmo assim. Estava aguentando tudo. Mary Macdonalds, por outro lado, estava fazendo uma expressão de que ia vomitar a cada segundo, especialmente porque o cheiro da estufa estava insuportável. Sem contar o próprio Peter, que realmente vomitou. Bem no pé de Sirius. Provavelmente o único que obteve algum sucesso foi Frank Longbottom; tinha encontrado um modo de enfeitiçar a planta para ela ficar “anestesiada”, então ganhou vários pontos para a Grifinória por isso.

Foi meio que um alívio quando terminou; foi uma aula cansativa e nos sujamos muito. Ao final dela, guardamos nossos roupões e pegamos nossas mochilas para sairmos para o intervalo, tempo necessário para tomarmos um banho. No caminho para fora da estufa, não acompanhei meus amigos e eu fui até Lily.

Estava sozinha botando uns livros na bolsa quando falei:

– Tudo bem aí, Evans?

– Fedendo e suando como um trasgo – jogou a bolsa no ombro com delicadeza e começou a caminhar. – Você?

– Bem atraído por isso, pra falar a verdade – sorri.

Ela continuou caminhando como se ela não tivesse entendido a indireta. Se entendeu, o que era mais provável julgando pela sua inteligência nas aulas, então me ignorou. Tive que dar alguns passos para alcançá-la novamente. Coloquei minhas mãos nos bolsos enquanto caminhávamos lado a lado. Ela sempre mais apressada.

– Hogsmeade na sexta, então? – sugeri casualmente.

– Ah, claro.

– Sério?

– Não.

Eu sorri ainda mais. Eu não conhecia esse lado sarcástico de Evans. Adorei.

– Hogsmeade no sábado, então?

Sorriu incrédula.

– Não – dessa vez foi longo e claro.

Domingo? – tentei mais uma vez. Ela nem se deu ao trabalho de responder, só me lançou aquele olhar prático para me calar a boca. O que eu sempre desobedecia, é claro. – Vamos, Evans, sugira um dia então.

– Que tal nunca?

Seu cabelo estava preso em um laço frouxo, todo despenteado, emaranhado, indicando que realmente precisava de um bom banho depois daquela aula tão desastrosa de Herbologia. Com certeza não estava esperando que um cara viesse chamá-la para sair no momento em que seu cabelo estava sujo. Bom, pra mim, ela estava bem linda.

– Não seja má, Evans.

– Então não insista.

– Então sai comigo.

– Vai ser difícil para você acreditar nisso, Potter – falou com um fingido sofrimento. – Nem todas as garotas desse castelo têm suas prioridades resumidas a ouvi-lo falar o quão sensacional você é em uma vassoura. Banheiro feminino – apontou para a porta –, então tchau.

Sumiu atrás dela, deixando-me parado ali no corredor, sem saber se ria ou ficava frustrado. Não acredito que acabei de levar um fora.

Tentei não parecer tão abalado quando alcancei Sirius, Remus e Peter a caminho do almoço. Quero dizer, não era o fim do mundo só porque uma garota não quer sair com você sendo que você tem se acostumado desde o terceiro ano a ter garotas querendo sair com você. Aparentemente Sirius e Remus fizeram uma aposta, porque Sirius entregou um chocolate na mão de Remus quando eu disse que Evans não quis sair comigo.

Estávamos no corredor para caminhar até o Salão Principal, quando Sirius me chamou a atenção:

– Talvez isso te anime. OI!

Era Ranhoso, andando com pressa. Sorri antecipadamente, ajeitando meus óculos e tirando a varinha do bolso.

– Quer chegar depressa a algum lugar, Ranhoso? Dou uma ajudinha.

A luz rosa que saiu da minha varinha atingiu seus pés, transformando-os em tênis com rodinhas. Ranhoso perdeu o equilíbrio, derrubou os inúmeros livros que segurava na mão, e alcançou uma velocidade rápida, chegando a atropelar outros alunos. Sirius, Peter e eu gargalhávamos, especialmente quando os patins de Ranhoso fizeram as duas pernas se abrirem em um verdadeiro espacato. Sirius fez um encantamento para ele se equilibrar como uma bailarina.

Ele caiu quando se debruçou contra a parede no fim do corredor. Os alunos que passavam deram risada também, e ninguém o ajudou.

– Ei, Prongs, olha isso.

Moony tinha se aproximado dos livros que Ranhoso deixara cair ao perder o equilíbrio. Segurou um deles, entre outros que tinham cara de serem da seção proibida da biblioteca.

Cinco Sinais de Que Está Vivendo Com Um Lobisomem – Edição Ilustrada

Sirius pegou o livro depressa, observando a capa com desgosto e fúria.

Ele não ousaria.

– Deve ser coincidência – disse Peter.

– Que deseje só ser coincidência. Ou alguém aqui abriu o bico!

Sirius olhou para Peter, que encolheu na hora.

– Eu não falei nada! Eu juro!

– É só coincidência – cortei os dois aos cochichos. Não queria acusações falsas. – Ninguém falou nada para ele. Temos matérias sobre lobisomens, Sirius.

– Não, cara, estou achando que Ranhoso desconfia... andei reparando que ele está observando muito a gente. Tem certeza que você não falou nada, Peter? Ele não veio te perguntar nada?

– Claro que não! Eu nunca falaria sobre isso com ninguém, muito menos com o Ranhoso!

– Vamos ter que ficar de olho se ele não está seguindo a gente quando saímos. Até lá, sem acusações. – Olhei de Sirius para Peter, e de Peter para Moony, que estava com os ombros tensos.

– Potter, você vai pagar por isso! – gritou Snape do outro lado do corredor, ainda tentando ficar em pé com os patins. Começou a despejar um monte de palavrões.

Quieto, Ranhoso – disse Sirius, impaciente, com a varinha. E a voz de Ranhoso não saiu pelos próximos minutos, só grunhidos.

– Caras – Remus disse com a voz baixinha. Ele apontou o distintivo de seu peito e nós compreendemos.

– Seu dia de sorte, Ranhoso – eu disse, sorrindo, e desfazendo os patins dos pés dele. Sirius desfez a azaração de sua voz. Agora só estava com as meias sujas. Mais risos.

– Imagina como deve ser a cueca – caçoou Sirius. Nesse momento, Ranhoso foi alcançar alguma coisa na mochila dele, provavelmente a varinha, mas a voz de Evans foi mais rápida.

Como ela estava na direção do corredor oposto, não viu o que fizemos com ele anteriormente, mas trazia os livros de Ranhoso nos braços.

– Esses livros são seus, Severus – ela dizia, e Snape parou no ato. A voz de Lily foi falhando aos poucos quando me viu ao lado de Sirius e nossas varinhas em mãos. E depois viu Snape só de meias. A expressão dela mudou imediatamente. – Vocês nunca cansam?

Por alguma razão, Ranhoso apressou-se a tirar os livros dos braços de Evans como se tivesse a intenção de escondê-los dela.

– Procure outra coisa para ocupar seu tempo – disse Lily a mim.

– Você podia sair comigo.

Ranhoso olhou furiosamente para mim, quando fiz aquela sugestão. Mas não teve com o que se preocupar, pois Lily foi bem clara:

– Não. Vamos, Severus.

Estavam se afastando quando perguntei:

– O que é que vê nesse ranhoso, hein, Evans?

Ignorou-me. Olhei frustrado para suas costas enquanto se afastava ao lado dele. Eu realmente não estava acostumado a isso; a perder.

Somente um treino cansativo de Quadribol e a noite de lua cheia no próximo sábado para fazer minha cabeça fugir do assunto Evans por um momento. Não deu certo.

Fizemos o uso do mapa que estávamos criando naquela noite de lua cheia. Quando nos reunimos na Floresta Proibida, eu tirei o pergaminho e desdobrei.

– Então hoje vamos testar o feitiço do mapa – eu disse aos três. – É possível que acabem nos encontrando se não formos cuidadosos, então pelo menos devíamos proteger o segredo do mapa.

– Como é que vamos fazer isso? – perguntou Peter.

Siriu roçou a ponta da varinha no pergaminho.

Malfeito feito.

– Excelente – eu disse, observando as linhas feitas com nossas penas dissiparem aos poucos, até que finalmente o pergaminho ficou em branco. – E quando quisermos ver o conteúdo... precisaríamos de um tipo de palavra-chave.

– Podemos usar o feitiço que os professores usam como senhas para abrirem as portas de Hogwarts.

– Boa idéia, Moony.

Nós quatro colocamos nossas varinhas sobre o pergaminho dessa vez. O feitiço perpassou por toda sua textura.

– Que acham de... pomo de ouro? – sugeri.

– Muito fácil de adivinhar – disse Sirius.

Animagos Unidos – Peter deu sua idéia.

– Claro, Peter, se fôssemos garotas em uma festa de pijama que vão salvar o mundo – eu disse ironicamente.

– Estou pensando em usarmos uma frase... – disse Remus.

Padfoot é um cachorrinho que tem pulgas.

Prongs é tão cabeçudo que precisa de chifres para equilibrar a cabeça ao corpo.

Padfoot é um cachorrinho...

– Não – disse Remus como se realmente tivesse considerado as sugestões. – Algo como... Não seremos pegos fazendo algo de bom.

Nos recusamos a fazer algo de bom assim que abrirmos esse mapa – disse Peter.

– Muito extenso. Algo claro e objetivo. Tipo um juramento.

Juro que Prongs é um idiota que está apaixonado por Lily Evans e ele quer usar o mapa só para ver onde ela está.

– O que você entende de claro e objetivo, Padfoot?

Juro que Padfoot está pedindo para ser azarado e quero deixá-lo careca.

Não se podia fazer brincadeira com o cabelo de Sirius, ele ficou irritado. Então sorri em um tom de desculpas.

Mas juro solenemente que não pretendo fazer isso.

Nos entreolhamos e pensamos ao mesmo tempo, os quatro juntos:

Juro solenemente que não vou fazer nada de bom!

O mapa voltou a formar suas linhas e algumas pegadas apareceram em sua composição, pegadas essas que ziguezagueavam e caminhavam por todos os cantos do mapa.

Era possível ver os nomes. Albus Dumbledore estava usando o banheiro naquele momento, por exemplo.

– Isso é demais, saberemos o que cada professor está fazendo uma hora dessas!

– Vamos ver se McGonagall está tendo algum caso com um professor ou aluno?

– Não! – disse Remus quando Peter sugeriu isso. – Não vamos desperdiçar a utilidade desse mapa para coisas como essas. Precisamos saber se Ranhoso está nos seguindo.

– Masmorras – falei. Imediatamente procuramos o lugar no mapa. – Provavelmente com Mulciber e Avery. Os nomes estão juntos. – Voltei a olhar para Sirius. – É, pode só ter sido uma coincidência aquele livro. Peter não dedurou a gente...

Obrigado, James – disse Peter, cruzando os braços.

Mas Sirius ainda estava desconfiado, porque não olhou para Peter.

– Dez minutos para a lua cheia – anunciou Moony. – Estou indo...

Moony não gostava que assistíssemos a sua transformação, pedia muito cautelosamente que não o acompanhássemos até a casa. Eram mudanças que agonizavam sua pele e sua mente, por tanto ele costumava tremer e gritar.

Respeitávamos isso.

Sirius levou consigo o mapa, ainda sem encarar Peter, até que ele se irritou com isso.

– Eu nunca ia dedurar, Sirius!

– Não sei, Peter, você não aguenta uma pressãozinha. O que é que eles queriam fazer contra você quando te amarraram no banheiro do trem? Quiseram tirar alguma informação de você, não é?

– Eles só estavam... me humilhando. Pra provocar vocês!

– Exato. E você deixou. Você deixou. Se alguém souber o que estamos fazendo todas as noites de lua cheia...

– Não quero mais escutar isso, vocês dois. Se Ranhoso desconfia de alguma coisa, foi porque andou bisbilhotando! – eu retruquei. – Prometa, Peter, jure solenemente que você nunca nos trairia.

– Nunca! – exclamou.

Sirius estreitou os olhos, jogou o Mapa em minha mão para empurrar Peter contra o tronco de uma árvore e tirou a varinha do bolso. Peter estremeceu.

Nunca vai jurar ou nunca vai trair, Pettigrew?

– Eu juro! Eu juro! Dou minha palavra de Maroto que eu não disse nada a Snape!

Palavra de Maroto – eu repeti. – Sirius, ele deu sua palavra de Maroto, então eu acredito nele.

Eu não estava sendo sarcástico.

– Desculpe, Wormtail, eu precisava ter certeza – falou Sirius dando um tapinha em seu ombro. Peter roçou os dedos grossos em seu pescoço e a tensão do corpo diminuiu quando Sirius o chamou pelo apelido. – Não tinha motivos para se desesperar se não nos dedurou, Peter. Não tinha motivos para ter medo de que eu e Prongs o azarássemos. Não importa mais... Moony já deve estar se transformando, vamos nos-

– Snape saiu das masmorras. – Eu estava olhando para o Mapa quando vi as pegadas que indicavam a assinatura de Snape se moverem para fora da Sala Comunal da Sonserina. Estava desacompanhado. – Agora está indo para... Não, não... o idiota está descendo para a...

Vimos uma fonte de luz passar pela entrada da floresta. Olhei para o céu. As nuvens densas caminhavam ao redor da lua cheia. Imediatamente nos cobrimos com a Capa de Invisibilidade que eu sempre trazia na mochila.

Snape passou por nós sem olhar para os lados. O que mais ele poderia estar fazendo ali senão para descobrir o que nós aprontávamos a essa hora?

Ele andou bisbilhotando.

Sirius estava enfurecido, eu podia senti-lo respirando pesadamente. Perdendo a paciência com o idiota do Ranhoso, Sirius saiu debaixo da capa.

– Snape! – exclamou para a figura negra que nos seguiu. Peter e eu observamos os dois. – Ei, Ranhoso!

Com uma demonstração convincente de que estava assustado com alguma coisa, Sirius disse:

– Não é seguro aqui!

Sirius começou a mancar. Segurou-se em uma árvore para fingir que estava impossível de continuar andando. Snape apontou sua varinha iluminada na direção de Sirius.

– Então vocês-

– É sério, Ranhoso... não queira ver o que tem lá...

aonde? – seus olhos brilharam de curiosidade, excitação e triunfo.

– Não posso dizer-

– Diga! Ou contarei a Dumbledore o que fazem durante toda a lua cheia! Acham que eu não sei? Acham que eu sou estúpido?!

– Está pensando em achar o que por aí? Não tem nada na Floresta Proibida... devia se preocupar... você não tem idéia do que existe dentro daquele lugar... devia se preocupar com o Salgueiro Lutador!

Salgueiro Lutador!

O que diabos Sirius Black estava fazendo?!

– Tem alguma coisa lá dentro... Mas se quiser se matar, sinta-se a vontade! Quer ser esperto? Fica longe de lá!

Snape olhou para todos os lados. Era tentador demais. Não sabia o que fazer; então olhou com desconfiança para Sirius.

– O que tem dentro do Salgueiro Lutador, Black?

– Eu é que sei? Nem tenho coragem de entrar lá no túnel...

Túnel!? E você não tem coragem? – tinha uma sombra de um sorriso de deboche.

– Eu que não vou ser estúpido... até tentei ir agora... mas não consigo chegar perto. O barulho. Olha, tchau, Ranhoso. Eu quero viver.

Dizendo isso, girou as costas e foi embora, deixando Ranhoso parado na floresta com a expressão mais indecisa do mundo.

Iria ou não iria?

– O que você ta fazendo? – eu perguntei a Sirius quando alcançamos uma região segura para tirarmos a capa e nos encararmos.

– Ele nem vai chegar perto, Prongs. Só fiz aquilo pra assustá-lo. E se encontrar o Moony por causa daquele narigão bisbilhoteiro, vai ser bem merecido.

Sem saber o que pensar, sem ter certeza de que aquela teria sido uma boa idéia para fazer Snape parar de bisbilhotar onde não podia... eu abri o Mapa e observei o nome dele para ter certeza de que Sirius tivesse feito um bom trabalho deixando-o assustado...

Mas aquele narigão era maior do que pensávamos.

– Ele não está voltando, Sirius.

– Eu avisei ele – disse friamente. – Quem mandou enfiar o bico onde não lhe foi chamado, hein?

Dessa vez, somente Peter riu.

– Que foi, Prongs? A idéia é genial. Mais uma pegadinha pra fazê-lo aprender a lição. Aliás, ele nem vai conseguir passar pelo Salgueiro Lutador mesmo.

– É – eu disse. – Se bem que merece sujar as calças de medo, mesmo.

– Vamos explorar – chamou e então se transformou no cão para começar a correr. Peter imediatamente o imitou, virando o rato. Eu dei uma olhadinha para trás... Snape não estava mais a vista.

Transformei-me no cervo e tentei esquecer o mundo.

Mas não parei de pensar na pegadinha que Sirius tramou para o Ranhoso. Ele merecia todos os tipos de azarações possíveis. Merecia se machucar, eu o odiava o suficiente para que não me importasse com isso, mas...

Ele não voltara ao castelo; estava determinado o suficiente para encontrar o que havia dentro do Salgueiro Lutador e porque estávamos envolvidos nisso. Com certeza contaria a Evans... que contaria a Dumbledore... que se soubesse que Sirius aprontara aquilo... iria expulsá-lo, iria tirá-lo da escola...

Valia a pena? Sermos expulsos se fizéssemos Remus machucar Snape?

Já soube o que fazer.

Ouvi o latido do cão, quando eu mudei o rumo.

Voltamos a nossa forma humana, com Sirius atrás de mim.

– Onde está indo, Prongs?

Lembrei do que Dumbledore nos disse na noite em que descobrimos sobre Remus.

Não somente pela segurança, sr. Potter. Se o sr. Lupin voltasse amanhã e soubesse que feriu os próprios amigos, ele nunca se perdoaria.”

Se Remus souber que teria machucado qualquer aluno, não importasse qual, ele viveria para sempre com culpa, sendo que a culpa seria nossa se deixássemos isso acontecer. Passamos anos tentando nos transformar em Animagos para ajudá-lo a se manter manso e calmo na lua cheia... se Remus soubesse o que Sirius pretendeu fazer e eu o deixei seguir com a brincadeira...

Havia certas coisas que, talvez, pudessem ser evitadas.

Por isso eu corri em direção ao Salgueiro Lutador.

Não seja tarde demais, não seja tarde demais.

Eu imobilizei o Salgueiro Lutador e, mesmo sabendo que Remus já estava transformado a essa altura, entrei no túnel.

Foi a tempo de ver Snape chegando ao fim dele, com a varinha acesa.

– Sai daqui, Snape! – gritei correndo para alcançá-lo.

– Potter!

– Sai daqui, idiota!

– Não! Eu vou descobrir o que vocês fazem! Se acham os melhores, mas estão escondendo...

Ele entrou na Casa dos Gritos. Eu não poderia me transformar em um cervo, Snape não podia saber de mais nada, de que éramos animagos ilegais... ele ferraria com tudo!

Tive que sacar a varinha e joguei um feitiço contra ele.

Accio!

O corpo de Snape voou para dentro do túnel novamente, mas sua expressão estava gélida. Amedrontada.

– Ele viu você? – gritei, ofegando, os olhos fixos no fim do túnel, apenas esperando. – Você o encarou?

– Um... lobisomem. Eu sabia. Eu sabia.

Impedimenta!

Foi por puro reflexo quando joguei o feitiço contra o lobo que surgiu no túnel. Estava correndo em nossa direção. Desculpe por isso, Remus, desculpe mesmo.

Os movimentos dele diminuíram, dando tempo de levantar Snape para empurrá-lo para fora do túnel o mais rápido possível. Corremos, com ele a minha frente. Eu olhava constantemente para trás, para ter certeza de que Moony ainda estava lento. Mas o feitiço se desfez rapidamente e ele começou a avançar... rosnando, com fome, perigoso.

Estávamos nos aproximando da entrada do túnel, mas o lobo deu um bote em direção as minhas costas. Eu imediatamente gritei:

Protego!

Uma barreira invisível impediu que me abocanhasse. Sua cara foi atingida pela barreira e o animal, por alguns segundos, ficou desorientado.

Conseguimos sair do túnel. Empurrei Snape até ele cair no chão de grama.

– Sai daqui, seu idiota, sai daqui!

– Vocês... você e Black... sabiam o que tinha lá dentro! Sabiam que ele ia me atacar!

Ranhoso tirou a varinha do bolso e a apontou em minha direção.

Mas fomos interrompidos com um breve rosnado.

O lobo tinha saído do túnel também. E nos encara com aqueles olhos, cheio de expectativas.

Eu não ia machucar Moony... Eu não ia...

Mas ele ia me machucar...

Eu estava ferrado.

Uma gigante sombra negra se fundiu aos pelos do lobo, quando o atacou. Era Sirius em forma animaga. Os dois se atracaram em uma luta corpo a corpo, sem dentes, sem arranhões, sem mordidas, apenas para afastá-lo de onde nós dois estávamos.

O que era aquilo? – perguntou Ranhoso rispidamente. – O que era aquilo?

Eu o empurrei de novo.

– Não acha que já meteu esse nariz em lugares suficiente demais por essa noite? – eu perguntei furiosamente. – Ainda me obrigou a ter que salvar a sua vida.

Salvar a minha vida? – crispou quase se debatendo de ódio. – Você acha que você salvou a minha vida, Potter?

– Você está vivo agora, Ranhoso.

Ele respirava pesadamente. Foi me jogar alguma azaração, mas ele não viu o que eu via. Um dos galhos do salgueiro começou a vir em nossa direção.

Eu era mais rápido, mais ágil e tinha mais reflexo. Consegui me desviar, mas o idiota do Ranhoso não. E seu corpo foi levado para longe. Caiu desacordado.

Só faltava agora eu ter que levar esse idiota para ala hospitalar.

Mas não precisei. Um grande cachorro se aproximava, mas dessa vez não era Sirius.

– Canino... Canino, espere! – dizia uma voz grossa e conhecida. O guardião de Hogwarts apareceu segurando uma lamparina acesa e a coleira que puxava seu cão aparentemente afobado. Era o homem mais alto que eu já vi em minha vida, o gigante, com barbas espessas por todo o queixo e vestes surradas. – Um aluno fora da cama... James, não é? E... ora, ora, Ranhos-, quero dizer, Snape.

Quase sorri ao vê-lo se embolar com o apelido, mas eu estava tenso.

– O que aconteceu aqui?

Ranhoso acordava lentamente e se levantou. Assustou quando viu a aproximação de Hagrid, juro que fez até uma expressão meio desgostosa, mas Hagrid não reparou.

– Salvei a vida desse ingrato – eu disse. – Tava bisbilhotando o Salgueiro Lutador.

– Por que alguém faria isso? Machucou, garoto?

– Não, to bem – respondi.

Hagrid riu pelo nariz.

– Perguntei ao outro garoto. A perna parece machucada, quebrou?

– Não – Snape disse com visível desprezo. – Eu posso andar sozinho.

– Não vai andar sozinho não. Vou acompanhar os dois para a sala do diretor Dumbledore. Estão fora da cama em uma hora que não deveriam estar... e vão se explicar a ele.

Não nos explicamos a Dumbledore naquela mesma noite, porque Ranhoso e eu começamos a gritar um com o outro em sua sala e ele claramente não tinha a intenção de ouvir aquilo no horário de seu sono. Pediu para voltarmos amanhã cedo.

Quis voltar para a floresta, com Sirius, Peter e Remus, mas não voltei. McGonagall fez questão de me acompanhar até meu dormitório e ter certeza de que eu estivesse nele. Entrou no dormitório para ver se Remus, Peter e Sirius também estavam. Viu as camas com os lençóis elevados indicando que tinha alguém deitado. A verdade era que toda noite quando saíamos, usávamos um feitiço para parecer que estávamos na cama, caso algum Monitor-Chefe ou a própria McGonagall fosse lá para verificar. Até gravamos o som de Peter roncando, para dar mais autenticidade.

Não dormi naquela noite, então vi Sirius abrindo a porta durante a madrugada, com Peter. Tentamos não nos encarar muito, talvez para que não deparássemos nossas respectivas expressões... de arrependimento e culpa, coisa que a gente não estava acostumado a ter.

O estranho era que pouco nos importamos com Snape. O problema foi com Remus e o que quase o fizemos cometer...

Sirius tirou a camisa para colocar o pijama e, antes de se enfiar na cama dele em frente a minha, ele disse:

– Amanhã vou falar a Dumbledore que a culpa foi minha se Ranhoso te encrencar. É possível que te tirem do jogo contra a Lufa-Lufa...

– Vou assumir também – eu disse, sem sentir raiva de Sirius. Não conseguia, mesmo que eu soubesse que ele não fez algo admirável.

Por que, cara? Não foi você que manipulou o idiota para ele ir até lá.

– Porque, desde o primeiro ano, fazemos as coisas sempre juntos. Você e eu. Se não fosse você que o manipulasse, eu mesmo faria.

– Mas o que é que te fez correr pra salvar o Ranhoso?

– Porque eu sei que se Remus estivesse ali naquele momento, teria tentado nos impedir de irmos adiante com a brincadeira.

– Tem razão. Prongs? – chamou Sirius alguns minutos depois que já estava deitado.

– Sim, Padfoot?

– Por um acaso não chegou ver se Ranhoso acabou molhando as calças, chegou?

– Olha, Padfoot, tenho a impressão de que aquela mancha não foi porque ele limpou o nariz nela. Padfoot? – perguntei, depois que acabamos de rir.

– Sim, Prongs?

Por alguma razão, eu estava pensando em Lily Evans quando eu disse:

– A gente não presta.

Notas finais
Muuuito obrigada quem chegou até aqui! Tivemos um capítulo maior, com mais James, digamos, se apaixonando e aprontando e sendo arrogante e pedindo Lily pra sair com ele, digno de levar foras e foras, mas nunca perder a confiança. O próximo capítulo é sobre uma certa lembrança que envolve... cuecas sujas. Até lá!