Prongs
7 Férias de verão e 1o de Setembro de 1975
Notas iniciais
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"Ah, bom, ele sempre fazia papel de ridículo quando Lily estava por perto, não conseguia parar de se exibir sempre que se aproximava dela." Sirius Black, Harry Potter e a Ordem da Fênix.
***
Julho, férias de verão, 1975. Uma semana depois da trágica morte do melhor apanhador dos Montrose Magpies, Fabius Watkins. No primeiro jogo da estréia do campeonato europeu, ele se envolveu em uma terrível colisão contra um helicóptero e morreu na hora.
Meu pai chorou por dias, mas ele achou um jeito de se recuperar.
– Agora posso ter mais tempo para torcer pra você, apanhador.
Desde que contei sobre como me saí muito bem nos últimos jogos da Grifinória (o último do meu quarto ano na disputa de segundo lugar contra a Corvinal tinha terminado em três minutos, disseram até que foi um recorde), Charlus me apelidou de “apanhador”. Tratou-me de um jeito que nunca tinha me tratado antes. Eu passei a ser o seu herói.
Sirius apareceu na chaminé durante a tarde na última semana de agosto, para irmos juntos a casa de Remus. Ele havia nos convidado para conhecermos sua casa em uma cidade trouxa – na verdade, a gente meio que insistiu para ele nos deixar visitá-lo. Sirius e eu começamos a fazer algumas coleções de objetos, então estávamos cada vez mais ligados a coisas trouxas. Além de ser bem interessante, era a melhor forma de nos rebelarmos contra o regime que tirava a vida de inúmeros nascidos-trouxas quase todos os dias desde os últimos anos.
Sirius estava colecionando revistas de mulheres e de motocicletas (algumas eram de mulheres em motocicletas), enquanto eu coletava alguns discos de vinis em lojas de Londres. A banda The Beatles tinha inúmeras músicas legais que eu costumava ouvir em um rádio.
Logo no primeiro dia em sua casa, deu para notar que Remus não conseguia controlar nossa afobação por mais que tentasse muito.
– Geladeira não é para ficar se refrescando, Peter, é para guardar comida! James, isso pode queimar seu dedo... Sirius, não roube o cigarro da minha mãe, por favor, ela fica irada. E é do outro lado que acende!
– Relaxa, Moony – eu disse pulando em cima da cama dele e ligando o som para escutar Beatles, antes de me espreguiçar. – Estamos apenas te preparando para o quinto ano como o mais novo...
Eu, Sirius e Peter dissemos com a voz alegre:
– Monitor da Grifinória!
– É, pretendemos te fazer trabalhar mesmo – acrescentou Sirius, perdendo na tentativa de acender o cigarro com um isqueiro.
– O que é isso? – Peter saiu do banheiro mostrando uma caixa plastificada e rosa.
– Isso é... da minha mãe! Isso é o que mulheres... usam... quando... bem, vocês sabem. Larga isso, Pete!
– Calma, foi mal.
Passamos a tarde passeando ao estilo trouxa pela cidade, tomamos sorvetes, bebemos em bares e visitamos lojas. Eu tinha usado alguma parcela de dinheiro bruxo para trocar por de trouxa, em Gringotes. Fomos a um mercado para comprarmos alguns salgados e refrigerantes, e ficamos mais tempo do que necessário passeando no local. Sirius e eu ficamos em uma sessão interessante.
– Prazer com segurança – li o pacote quadricular da estante e Sirius olhou curioso. – O que pode ser isso?
Ele pegou um.
– Era o que eu estava procurando. Trouxas usam isso para transar.
– Como é que sabe?
– Ano passado, lembra? No jogo dos Magpies no Natal... aquela tal de Charlotte filha do amigo do seu pai. Me mostrou algumas coisas.
– Você transou com ela? E como foi?
– Legal – disse, dando de ombros. – Nada espetacular.
Sirius não aguentou sua própria mentira. Teve que rir tirando o cabelo dos olhos com um movimento.
– Você não acreditaria o que ela fez comigo se eu dissesse. Vou levar uma caixa inteira disso.
Quando voltamos para casa de Remus, Sirius começou a distribuir as camisinhas para cada um de nós.
– Pra você, quando tiver coragem de falar com Dorcas – entregou uma a Remus. – Duas pra você. Uma a mais, já que é o apanhador da Grifinória. E para mim. – Ficou com as cinco que sobraram. – Para o bom uso em Hogwarts esse ano, meus cavalheiros.
– O que é isso? – perguntou Peter, o único com a mão abanando. – E por que eu não ganho um também?
– Não precisa disso para afogar o ganso. Brincadeira. Você também pode ficar com uma, Pete. Mas prometa que nunca vai mostrar isso a nenhuma garota a não ser que ela já esteja pelada embaixo de você, ok? Concorda que você precisa rever o jeito que se comporta com garotas?
– Fácil pra vocês falarem. Garotas correm atrás de vocês, não o contrário.
– Evans não corre – ouvi minha voz quebrar a discussão e notei que eu estive pensando nela.
Olhava para o teto do quarto com os braços atrás da nuca. Comecei a pensar nos anos anteriores. Lembrei dela beijando O’Connor pelos arredores de Hogwarts no final do ano passado e como ele sempre passou por perto para desejá-la “boa aula” com um selinho.
– Acha que eles terminaram esse verão? – perguntei. – O’Connor e Evans, é claro.
– Não sei – disse Sirius, claramente desinteressado nisso. – Pergunte a ela.
Foi uma sugestão sarcástica, mas eu a considerei. Pedi a Remus um pergaminho, uma pena e sua coruja.
Mandei a Evans uma carta.
Nossa primeira troca de cartas.
Querida Evans,
Não é um sonho. Sou eu mesmo, James Potter, enviando-lhe uma carta com a curiosidade de saber se já terminou com O’Connor. Como estão suas férias? As minhas estão sendo ótimas. Estou passando essa última semana na casa de Remus. Ele ganhou o distintivo de Monitor da Grifinória, acredita no azar? É tão coisa de perdedor... Mas e aí, o que seus pais acharam ao saber que você está namorando um cara do sexto ano? Assumindo, obviamente, que tenha contado a eles.
Esperando sua resposta,
James Potter.
P.S: Conhece os Beatles? É uma banda trouxa.
A caligrafia dela era agradável de ler, pequena, inclinada, constante.
Potter,
Não acredito que fez a pobre coruja me entregar uma carta tão inútil. O que interessa a você sobre o que meus pais pensam do meu namorado? E, a propósito, ser monitor não é coisa de perdedor. É muito importante e Lupin deveria se orgulhar, da mesma maneira que estou orgulhosa por ter conquistado o meu próprio distintivo também. E quem não conhece os Beatles?
Não me escreva mais,
L.E
Eu consegui imaginar o tom de voz dela dizendo aquelas coisas para mim. Irritada, com aquela ruguinha entre as sobrancelhas quando franzia a testa, e também com o queixo erguido ao dizer que se sentia orgulhosa por ser nomeada Monitora da Grifinória.
Escrevi minha resposta com um sorrisinho no rosto o tempo todo.
Querida Evans,
A coruja é do Remus. Como eu disse, estou na casa dele. Garanto que ele e tampouco a própria coruja se importa com a utilidade das minhas correspondências. Só estou matando o tédio das férias. Independente se sua pergunta foi retórica ou não, eu me vejo na obrigação de dizer que não acho que O’Connor sirva para você, apenas isso. Parabéns pelo distintivo. Falei que achava isso coisa de perdedor, mas na verdade garotas no comando são as melhores.
Não tem como me impedir de escrever,
James Potter.
P.S: Qual sua música favorita deles?
A próxima carta que ela enviou como resposta não foi para mim.
Caro Lupin,
Espero que saiba que Potter está testando a boa saúde da sua coruja me enviando cartas de inutilidade páreo as aulas de Adivinhação, e isso quer dizer muito. Mas achei que não seria adequado deixar que sua coruja voltasse sem nem uma correspondência, então, como não tenho a menor intenção de ficar de correspondência com o biltre do seu amigo, estou escrevendo a você.
Espero que possamos fazer um bom trabalho juntos como monitores. Sei que de vocês quatro, você não é exatamente o pior. Então, bom fim de férias e nos encontramos em Hogwarts.
Sinceramente,
L.E
Fiquei ao lado de Remus enquanto ele arranhava o pergaminho com a pena para responder a Evans.
Cara Evans,
Deixei o meu melhor e atraente amigo James usar minha coruja para que ele tirasse a dúvida sobre você e Adam O’Connor. E percebi, com certa decepção, que não respondeu a ele. Vocês estão juntos ainda? Responda a James, Evans, pois ele é um cara esperto, inteligente, e o melhor apanhador de Quadribol que a Grifinória não teve há séculos.
Sou tão sortudo por ser o amigo dele.
Obrigado pela consideração em dizer que sou o “melhor”. Mas é James quem realmente tem o cérebro e o bom cabelo. Não o ignore em cartas, é só o que peço e então poderemos fazer um bom e harmonioso trabalho em equipe para colocar ordem em Hogwarts.
Sinceramente,
Remus Lupin.
P.S: James não teve nada a ver com esta carta. Ele não está ao meu lado cochichando tudo o que eu tenho que escrever e nem está me subornando com chocolates.
***
1º de Setembro de 1975 chegou absurdamente rápido. As crianças do primeiro ano estavam nervosas e foi engraçado assustar alguma delas dizendo que teriam de enfrentar desafios mortais para saberem em que casa eles entrariam. Era ótimo estar quatro anos a frente, eles acreditavam em tudo o que dizíamos pois éramos as vozes da experiência.
– E se você se der mal no teste contra o trasgo, é capaz de entrar na Sonserina – eu dizia para um garoto ruivo baixinho, fazendo questão de soar amedrontado. Estávamos na porta do compartimento que ele e mais três crianças se sentaram. Acontece que era nosso compartimento, meu e do Sirius, desde o primeiro ano, e nunca sentamos em outro. – Seria seu fim em Hogwarts.
– Dizem que... – Sirius ajeitou o colarinho do pescoço, engolindo em seco. – Dizem que um garoto se matou na Sala Comunal da Sonserina na mesma noite em que foi selecionado... Dizem que é assombrada.
– Não só a Sala Comunal – Remus entrou na brincadeira. Dizia de um jeito sombrio, até melhor do que qualquer um de nós. – A Casa dos Gritos também. Vocês já ouviram falar da Casa dos Gritos? Dizem que se escutam gritos de fantasmas. É melhor nunca chegar por perto quando estiver no terceiro ano e for a Hogsmeade, outra vila bem assombrada. A última vez que eu cheguei por perto... bem, minhas cicatrizes não são de lutas que tive com um coelho mal comportado. Não contem a ninguém.
– O que estamos querendo dizer – eu voltei a dizer para o grupo de alunos do primeiro ano. Eles se entreolhavam sem ter certeza se deviam continuar acreditando. Por isso, meu olhar foi diretamente para a menina que já estava trêmula. – Vocês não querem se amaldiçoar logo assim de cara, querem? E sabem o que diz a lenda de Hogwarts?
Eles negaram rapidamente com a cabeça.
– Se vocês sentarem nesse compartimento, justamente nesse, serão amaldiçoados. Começando essa noite.
Um a um foi se levantando. Segurando a risada, Sirius, Remus e eu observamos as duas meninas e os dois meninos saindo para nos dar seus lugares no compartimento.
– Eles estão cada vez mais diminuindo de tamanho, não acham? – comentou Sirius, entrando com o seu malão. Sentei-me com as costas na parede da janela e estiquei minhas pernas pelo banco espaçoso enquanto abria um sapo de chocolate, preguiçoso e relaxado.
– Bom dia, Dumbledore – sorri ao ver que fui sorteado com a figura dele, que pareceu ter sorrido para mim também. Sumiu alguns minutos depois.
Sirius e Remus sentaram no banco paralelo ao meu. Sirius abriu o malão para tirar uma revista. Remus olhava para a janela, ansioso. O trem ainda se enchia de veteranos e calouros.
– Estive me perguntando... – falei mastigando o sapo de chocolate sem me preocupar em engolir antes de continuar. – E se fosse lua cheia hoje? Como é que você escaparia daqui para se transformar, Moony?
– Eu não estaria no trem, pra começo de conversa. Dumbledore disse que me daria uma carona se a lua agisse nessas circunstâncias.
– Carona? Tipo aparatar? Legal.
– Estou louco para me licenciar ano que vem – disse Sirius tirando o cabelo dos olhos, por trás da edição de setembro da Gostosas Motorizadas. Seu cabelo estava mais cumprido do que nos anos anteriores, mas nem parecia fazer questão de cortar. – Assim fugiria logo do resto da minha família.
– Está tão ruim por lá? – perguntou Remus.
– Depende do ponto de vista. Ontem minha mãe passou a noite inteira me chamando de traidor de sangue. Eu disse que estava lisonjeado. Achei que teríamos bons momentos depois disso... mas não durou muito tempo.
Quando o trem começou a andar, Sirius pousou a revista aberta no rosto e pediu:
– Me acordem quando chegarmos.
Remus pegou o distintivo de sua mochila e o pregou na camiseta. Depois tirou. Colocou novamente, sem ter certeza se deveria fazer isso. Quando o tirou pela terceira vez, eu disse bastante incomodado:
– Fica lindo em você, se é essa sua preocupação, Moony.
Não era essa a preocupação dele.
– Eu preciso ir até a cabine de Monitores agora. – Fez um segundo silencioso diante da minha expressão. – Por que Dumbledore me escolheria? Ele sabe do meu problema e que eu entro em encrencas...
– ... por nossa causa – disse Sirius, ainda com a cabeça encostada na parede, a revista cobrindo o rosto. – Não porque você procura por isso. Você é um cara responsável.
– Relaxa, Moony. Aproveite. Poderá tirar pontos da Sonserina.
– Eu vou ter que tirar pontos da Grifinória também – olhou para nós dois com preocupação.
– Justo – falei. – Mas deixe isso para Evans.
– Você faz o policial bonzinho, Remus. O monitor que todos vão adorar.
– E não tirará pontos da gente. Jure solenemente.
– Juro – falou depressa. – Encontro vocês mais tarde, então.
– Espera – eu disse quando ele se levantou para sair da cabine. – Pergunta pra Evans qual é a música preferida dela. E me conte depois.
– Por que você quer saber a música preferida dela?
– Porque ela ignorou minha carta – disse como se fosse óbvio. – Agora fiquei curioso.
Remus não insistiu em mais detalhes, o que agradeci, e saiu da cabine depois.
Sirius estava cochilando e percebi que a cabine ficou muito silenciosa depois de um tempo. Senti que tinha alguma coisa estranha.
– Cara, não acha que está silencioso demais aqui?
– É, até parece que o Peter...
Sirius tirou a revista do rosto, lentamente, à medida que notamos o problema. Eu sentei depressa, finalmente percebendo o motivo do silêncio. Peter era quem tagarelava como uma menina nas viagens até Hogwarts e ele não estava ali.
– Você viu ele hoje?
– Será que o deixamos na Estação?
– Não precisamos nos preocupar. Peter já é grande e deve saber se cuidar sem a gente a essa altura.
Relaxamos nossas expressões. Sirius voltou a dormir e eu voltei a pensar em Evans.
Quando Remus voltou meia hora depois, trouxe um Peter bastante abalado com ele.
– Eu o encontrei amarrado no banheiro.
Sirius fez uma expressão feliz.
– E diga que isso envolveu alguma Mary Mcdonalds bem safada.
Mas Peter não estava sorrindo.
– Os caras da Sonserina fizeram isso – disse Remus, porque aparentemente Peter estava envergonhado e zangado demais para falar. – Avery e sua turminha. Viu que ele estava sozinho e foram provocar.
– Que azaração usou contra eles, Pete? – perguntei como se eu estivesse lhe fazendo um teste. Entendi sua expressão e abanei a cabeça, impaciente. – Não se defendeu?
– Olha – ele disse, bufando. – Me pegaram de surpresa! E não podemos usar magia até chegarmos a Hogwarts...
– Eu teria usado – falei sem rodeios. – Preferiria correr o risco a deixar sonserinos me humilharem.
– Vocês não teriam usado porque eles nunca chegariam perto de vocês para te humilharem – disse baixinho, vermelho no rosto, como se não tivesse conseguido ficar calado. Cruzou os braços e sentou ao meu lado, preferindo não olhar para nenhum de nós.
Nunca vimos Peter desse jeito.
– Pensaremos em alguma coisa para fazer contra eles quando chegarmos a Hogwarts, Peter – falei com convicção. – Não vamos deixar barato.
Ele levantou o olhar.
– Sério?
– Claro – disse Sirius. – É o que sempre fizemos por você. Por que esse ano seria diferente? Só porque Remus virou o santinho da Grifinória? Quero dizer, o Monitor?
– Haha, zoem a pessoa com o probleminha peludo aqui.
– Oooooo – debochamos, mas Remus voltou a sentar ao lado de Sirius rindo também. Até Peter abriu um leve sorriso e seus ombros ficaram mais relaxados quando sentou ao meu lado.
Mudei de assunto casualmente:
– E então Remus, perguntou aquela coisa que eu te pedi para perguntar a Evans?
– Sim – ele respondeu.
– O lobo comeu sua língua depois? – ergui uma sobrancelha quando ele continuou observando seu nome no distintivo e não disse mais nada.
– Repetindo com as palavras dela: “Potter te mandou perguntar isso, né?” – Remus imitou Evans e o muxoxo dela – e depois ela foi para a cabine com as amigas, sem me dar a resposta.
– Misteriosa – eu disse, gostando disso. – Plano B existe para esse tipo de situação. Peter, uma missão para você.
– Missão? Pra mim? – seus olhos se alargaram.
– Chegou sua vez, cara. E vai usar minha capa.
Ele se levantou, prontamente.
– Vamos pregar uma peça nos sonserinos?
– Agora não. Vá até a cabine da Evans e descubra o que ela fala de mim.
Peter não questionou. Prontamente se enfiou embaixo da capa para cumprir a missão. Quando saiu da cabine, Sirius comentou:
– Todos nós já sabemos o que ela fala de você. Vai querer mesmo ter uma confirmação disso?
– Arrogante... – assobiou Remus.
– Imaturo...
– Idiota...
– Tem também outra coisa que ela o chama toda vez... virou até clássico – Sirius coçou o queixo fazendo uma viagem pela memória.
Remus também lembrou:
– Biltre.
– Acompanhado com arrogante no final – acrescentou Sirius enquanto os dois riam. – Então, para resumir, meu caro James, não espere coisas boas.
Só me restou voltar a esticar minhas pernas e colocar meus braços atrás da nuca, os olhos fechados com um sorriso tranquilíssimo.
– Estão enganados. Peter vai descobrir-
Ouvimos um tumulto vindo do corredor. Remus saiu para ver o que estava acontecendo. Uma garota passou pelo corredor do trem, exclamando assustada:
– Fantasma no corredor! Esbarrou em mim!
Alguma coisa empurrou o corpo de Remus para entrar de volta em nosso compartimento. Peter estava muito ofegante quando tirou a capa e rapidamente a guardou embaixo do meu malão.
– Foi mal, James, acabei tropeçando em uma menina e não cheguei a me aproximar...
Mas não fiquei bravo com ele. Ficaria, se um minuto depois Lily Evans em pessoa não tivesse aparecido.
Eu não a via desde junho, no final do quarto ano, então estive na expectativa. Seu cabelo estava solto, caindo por seus ombros finos, com a maior parte dele jogado para o lado e a outra atrás de sua orelha, onde um brinco delicado de um peixinho brilhava pelo reflexo do sol vindo da janela, suavizando cada traço de seu rosto sutil, leve, mas contraído, naquele instante, em impaciência.
Encostei meu dorso na parede e dobrei minha perna direita com o pé no banco. Tive necessidade de assanhar meu cabelo ao olhar para ela.
– Tudo bem, Evans? – perguntei, sério.
– Pare com isso, Potter – falou com a voz autoritária.
– Defina isso? Vai ser difícil parar se estiver falando da minha beleza. Nasci desse jeito.
Sirius e Remus riram. Evans, por sua vez, pareceu ter contado mentalmente até três para não se irritar.
– Nem estamos em Hogwarts e já tive que consolar uma garota porque ela estava chorando por sua causa – contou.
– Estamos quietos aqui, Evans – disse Sirius. – Por que acha que tivemos alguma coisa a ver com isso?
– Ela me contou que um garoto de óculos – girou aqueles olhos bem verdes em minha direção – disse que ela seria amaldiçoada só porque estava sentada nesse compartimento.
– Quem faria essa maldade? – eu coloquei a mão no peito, horrorizado.
– Arranque essa sua cara de pau, Potter, talvez aí sim fique atraente sem ela – disse com desprezo. – E parem com pegadinhas de fantasma aqui no corredor. Ninguém está achando graça.
– Bonito distintivo, Evans – eu elogiei, mordendo um feijãozinho azul de todos os sabores e, sem querer, reparando por um tempo longo a região onde ela havia grudado aquele distintivo na roupa. Evans estava especialmente atraente naquele momento. – Combinou com o seu cabelo.
– Tomara que esse feijão tenha o sabor de vômito – ela desejou imediatamente, e ficou para ver, com um sorrisinho maldoso.
Mastiguei aceitando o desafio. Ela olhou com expectativa. De algum modo, eu senti calor ao notar seu olhar por mim. E eu gostei muito daquela sensação. Tentei enrolar esse momento ao máximo.
– Sorvete de baunilha – tirei a conclusão, um tempinho depois. – Uma delícia.
Ela não escondeu a decepção.
– James sempre tem a sorte de pegar os melhores sabores de feijãozinhos – contou Remus com um quê de inveja.
– Raramente tira um ruim – concordou Peter.
– Sorte – eu disse com modéstia. – Tira a bunda daí, Peter. Evans quer sentar ao meu lado, não está vendo?
– Nem em pesadelos – disse, estremecendo.
E foi embora. Não desviei o olhar de suas costas e de seus cabelos enquanto a via se afastando pelo corredor. Também vi com muita atenção que guardava a varinha no bolso traseiro de sua calça jeans.
Quando ela desapareceu de vista, achei seguro começar a tossir, sentindo o gosto salgado e nojento na boca. Gosto de tomate. Macarrão ou coisa assim. Misturado com sorvete de baunilha, azeitona e grama. Horroroso. Por pouco não vomitei.
– O que deu em você hoje? – perguntou Remus vendo minha expressão. – Ou melhor, nessas férias inteiras?
Foi Sirius quem disse:
– Lendo nas entrelinhas, acho que ele estava querendo se exibir pra Evans.
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