Notas iniciais
Boa noite meninas. Como passaram a semana? Espero que bem. Prontas para descobrir o que houve com a Bella e a Esme? Para compreender qual o caminho final de Promises? Capítulo denso, mas muito importante. E não me responsabilizo por qualquer seguimento do mesmo... Até as notas finais. Apreciem Com Moderação... Capítulo Postado Em: 19/10/22

POV Bella

Parece que foi ontem que cheguei à fazenda, mas agora estou a dois dias de partir...

Somente mais dois dias.

Quarenta e oito horas...

Ou menos, já que meu voo é bem cedo e provavelmente nesse horário no sábado, não esteja mais entre as terras da Silver Horse...

Com a viagem batendo a porta, organizei a semana para não deixar nada para trás.

Na segunda-feira passei praticamente o dia todo conversando com Harry, pondo-o a par de tudo que desenvolvi nesse tempo, para que após minha partida ele possa voltar a cuidar dos animais da fazenda, tão bem como sempre fez.

A partir disso procurei tratar de assuntos que não exigiriam um cuidado mais extenso, optando por apenas manter tudo em ordem e garantindo que nada saia dos eixos.

Assim, hoje é efetivamente meu último dia de trabalho, o último que estagiarei de fato na Silver Horse, pois amanhã apenas cuidarei dos últimos ajustes pessoais para a viagem, como as despedidas e até a organização das minhas malas, que não tive tempo de fazer até agora.

Na verdade tenho adiado essa tarefa durante toda a semana, pois apesar de ter falado a Edward, quando passei a ficar em seu quarto, que nem mexeria com tantas roupas, por conta do tempo curto, acabei não cumprindo tal pretensão.

E agora minhas coisas estão espalhadas pelo quatro como um todo, dentro do closet, no seu banheiro, parecendo a certo aspecto até pertencentes ao espaço, quando na verdade não são.

Ontem quando conversei com meus pais, mamãe chegou a perguntar se já estou com tudo pronto e como está minha ansiedade para voltar. E tive que mentir ao responder ambas as perguntas.

A primeira para não ouvir um sermão desmedido, sendo que arrumarei tudo e ainda tenho hoje e amanhã para fazê-lo.

Mas a segunda pergunta não pude responder sinceramente, talvez por não querer chateá-los, pois não quero que pensem que não estou com saudades, desejando revê-los, mas também por não ter certeza de como me sinto.

Por em algum lugar aqui dentro saber que não estou pronta para deixar esse lugar e voltar à antiga vida.

A minha vida...

Esse verão ficará marcado para sempre, isso é fato.

As experiências que vivi aqui são incomparáveis e receio que jamais serei capaz de vivenciar algo semelhante ou ao menos parecido.

Porém a situação como todo é apenas isso, algo passageiro e agora estou prestes a voltar à vida real.

Para próximo aos meus pais, a universidade, onde concluirei minha graduação da maneira que sempre sonhei.

E talvez por conta dessa maravilhosa oportunidade, de estagiar nessa fazenda, acabe encontrando um trabalho que culmine na realização final. E a partir disso meu destino será traçado.

Não por aqui, mas a partir daqui...

— Srta. Bella...

— Bom dia.

Cumprimentei um dos rapazes da fazenda que acaba de sair do estábulo para iniciar mais um dia de trabalho.

Mais um dia costumeiro em sua vida, outra quinta-feira qualquer, como foi a anterior e será também a próxima.

Enquanto continuo parada encontrando coragem de entrar para iniciar minha despedida com os animais.

Eu poderia esperar até o fim do dia, mas depois do show que dei ontem com Gus, quero me prevenir e resguardar para não desabar totalmente à noite, ainda mais que daqui a pouco também terei que me despedir de Jasper e Alice, que enfim deixarão a fazenda também, após terem cumprido seu trabalho.

Eles já prometeram que assim que arrumarem um tempo em sua agenda maluca e conturbada, farão uma visita ao meu pai e assim poderemos nos rever, então com eles sei que hoje trocaremos apenas um até logo, com a perspectiva do reencontro em breve.

Mas ainda sim, de todo modo fecharemos um ciclo passado aqui na fazenda. E um ciclo que graças a Deus terminou muito bem, já que cumpriram seu objetivo e não só descobriram o verdadeiro responsável pelas sabotagens, como também conseguiram proceder com sua prisão.

E agora nem mesmo próximo a nós o infeliz está, já que há essa hora sua transferência já ocorreu e tudo que fez, assim como sua lembrança, ficará totalmente no passado.

Apesar de tudo poderei ir embora feliz e tranquila, sabendo que a fazenda e todos que aqui vivem e trabalham, ficarão em paz. Pois partiria infeliz e frustrada se tivesse que seguir deixando esse assunto inacabado para trás.

Respirei fundo novamente criando a coragem de entrar no estábulo e como esperado o encontrei vazio.

Apesar de cedo, a maioria dos funcionários que usam os cavalos para a lida já pegaram suas montarias, desse modo, os animais que estão aqui são apenas os particulares.

E para minha sorte até Thor e Storm ainda não saíram para o dia de afazeres, pois pelo que entendi das conversas por alto no café da manhã, Emm e Edward foram resolver alguma coisa em um dos galpões e só depois virão pegar as montarias.

Caminhei singelamente entre as baias deixando os animais perceberem minha presença e também me preparando para iniciar as despedidas.

Sabendo que nenhuma delas será fácil, decidi começar por Thor e a Diana, assim encostei-me à divisa das baias acariciando suas crinas.

— Oi... Como estão?

Eles relincharam em resposta.

— As coisas têm corrido bem nos últimos dias, não?

Thor relinchou e Diana apenas o olhou de lado.

— Você tem sorte Diana, não precisou encarar tantos desafios nesse verão quanto seus companheiros, mas não tenho dúvida que também foi de grande auxílio à Rose.

A égua abaixou a cabeça fazendo com que meus carinhos aprofundem-se mais entre sua crina.

— Sim. Vocês dois são muito especiais aos seus donos. – Me afastei um pouco. – E sei que continuarão apoiando-os no que precisarem. E é só isso que posso pedir que continuem sendo maravilhosos ao Emm e a Rose. E desejo que tenham uma vida incrível, pois são animais preciosos.

Encostei as mãos em seus focinhos ganhando cheiradas singelas e quando me afastei ambos relincharam em despedida.

Controlando meus nervos me dirigi à baia da Hope, comprovando mais uma vez quão bem ela está e como fiz uma grande benfeitoria em salvá-la de um destino injusto e cruel.

— Oi menina.

Alisei a cabeça e a crina com as duas mãos me fartando com sua pelagem macia.

— Eu tenho tanto orgulho do que conquistamos juntas Hope. Orgulho da minha obstinação, mas sem sombra de dúvidas, muito mais orgulho da sua força em não desistir. Apesar da vida difícil que teve antes, não desistiu da vida e ao vir para cá se agarrou a nova oportunidade.

Recebi um relincho de resposta.

— Pois é. E você terá um futuro incrível. Acredito que em breve encontrarão um novo parceiro para que possa procriar novamente e ai sim cumprir seu destino na maternidade. E apesar de infelizmente não poder estar aqui para acompanhar isso, sei que ocorrerá tudo bem, pois você merece menina.

Continuei a acariciá-la, mas já sentindo as lágrimas começarem a me dominar.

— E agora só posso agradecê-la pela oportunidade que me deu em ajudá-la. Jamais esquecerei essa parceria, tão pouco que é uma verdadeira esperança, não só a fazenda, mas a mim também. Obrigada Hope.

A égua se balançou na baia e relinchou quando me afastei, sorri diante do gesto contente por vê-la tão vivaz aproveitando o melhor da vida como merece.

Porém ao virar em direção à baia de Storm tive que aguardar um pequeno instante antes de ir tratar dos nossos assuntos.

— Oi garanhão.

Apesar de ter total ciência de que estou falando consigo, o cavalo apenas olhou em minha direção, sem demonstrar muita agitação pelo ato.

— Você é realmente duro na queda, hein? Até seu dono acabou cedendo, mas você não perde a pose, sim?

Alisei sua crina, recebendo um pequeno balançar de cabeça.

— Mas tudo bem. Esse é você e ninguém será capaz de mudá-lo e nem queremos. Pois não poderia ser companheiro melhor ao Edward e de coração espero que essa parceria se mantenha por muitos anos ainda...

O cavalo finalmente relinchou parecendo concordar com meu ponto.

— É. Eu sei que Edward é seu elo forte. Assim como você é o dele. Por isso só quero pedir que continue cuidando e sendo o companheiro sensacional que seu dono merece. Já que nenhum de vocês mudará, tenho que torcer para que não se envolvam em muitas enrascadas juntos.

Ele bufou e por conta da proximidade tomei todo o ar no rosto.

— Nem adianta contestar, vocês são uma dupla e tanto em vários aspectos, mas isso quer dizer que até na hora de arrumarem problemas, estão sempre juntos. Por isso tenho que apelar a você que não o deixe e que também se cuide, ok?

O olhei seriamente e o cavalo sustentou meu olhar.

— Muito bem, sobre isso estamos combinados. Agora quero falar sobre outro ponto. Não tenho certeza sobre o que realmente acontece entre você e a Snow, mas quero alertá-lo de que ela não é uma égua qualquer que poderá seduzir sem pensar nas consequências. – Afirmei categórica. – Então se caso pretende ter algo sério, é bom deixar isso claro e tornar-se não só seu garanhão, mas verdadeiro companheiro, especialmente se tiverem seus próprios potros, sim?

O cavalo relinchou batendo as patas em conjunto.

— É bom mesmo que honre sua posição. E com isso acertado, quero pedir que cuide dela. – Funguei. – Pois Snow é a melhor égua que qualquer um poderia ter. E você é um sortudo por ela o querer desse modo. Então seja um bom companheiro a ela e ao Edward, é só o que posso pedir. – Alisei sua crina. – E se cuide também, pelo bem dos dois que tanto gostam de você. Adeus Storm...

Delicadamente fui afastando a mão do cavalo, porém fui pega totalmente desprevenida ao vê-lo inclinar a pata esquerda e baixar a cabeça em sinal de cumprimento...

E simplesmente não contive o fluxo exacerbado de lágrimas.

— Não Storm. Você não esperou o momento em que estou indo embora para demonstrar que também gosta de mim, não é?

O cavalo voltou à posição e ficou me olhando.

— Você é realmente igual a ele. Se já não soubesse que nasceu para ser sua montaria, atestaria isso agora.

Incapaz de me conter aproximei-me novamente encostando a testa na ponta da cabeça do cavalo e saudando-o com um adeus completo.

— Foi uma honra conhecê-lo Storm. E sentirei muito sua falta. – Afastei o rosto. – Mas ficarei tranquila em saber que estará aqui cuidando deles por mim...

O cavalo relinchou e compreendi que está confirmando a promessa.

Devagar virei em direção à baia da Snow que fica exatamente em frente à dele e assim que a égua olhou em meus olhos começou a relinchar.

— Não, não. Está tudo bem. Não se preocupe.

Aproximei-me tocando seu focinho e a acalmando.

— Quer dizer. Não está sendo nem um pouco fácil me despedir, mas é o que tenho que fazer, por isso não precisa se preocupar.

Incapaz de conter o fluxo de lágrimas, com certeza não agora. E sabendo que não conseguirei me despedir de modo contido de Snow, como fiz com os outros, abri sua baia para lidar diretamente com ela.

A égua fez menção de sair do cercado, imaginando que a tiraria para montar, mas indiquei com a mão que preciso de espaço para entrar, então ela se conteve.

Aproveitei a proximidade para acariciar não só sua crina, mas todo seu corpo, deixando as lágrimas continuarem a cair e guardando em mim não apenas um pequeno aspecto seu.

— Sabe Snow, a primeira vez que a vi, mesmo com os avisos do Emm e a preocupação dos outros funcionários, não tive medo de você. – Passei a mão das costas até chegar à crina. – Eu até deveria, pois aprendemos isso em classe, como animais amedrontados podem ser hostis, tornando-se até perigosos, mas não senti nada disso com você. – Parei bem a sua frente. – Eu simplesmente soube que estava necessitando de apoio, compreensão, que precisava da minha ajuda e a ofereci. Lidei com você com os conhecimentos que tinha, mas também me deixei ser levada pela sua energia. E acho que acertei, não é?

Ela lambeu minha mão que estava pelo seu focinho.

— Apesar da escolha de profissão, de amar especialmente cavalos, nunca pensei que um dia teria um companheiro desse tipo. Não com as aspirações de vida que a Califórnia me proporcionava. Então essa viagem apareceu e eu fiquei em pólvora por pelo menos ter a oportunidade de conviver com vocês, lidar com os cavalos no dia a dia. Porém entre todos os presentes que essa experiência me trouxe, uma das maiores foi você.

Snow relinchou duas vezes me fazendo sorrir.

— Sim. Não importa o que aconteça daqui para frente, está selado que para sempre pertenceremos uma a outra. Ainda que os Cullen lhe entreguem como montaria de alguém diferente, nosso elo jamais se quebrará. Você sempre será minha égua Snow, a primeira e sem dúvida a mais especial égua que poderia sonhar em ter. Assim como eu também sempre serei sua parceira. Porque confio que como jamais me esquecerei de você, tão pouco se esquecerá de mim e de tudo que passamos juntas nesse verão.

O próximo ato foi simplesmente natural em abraçar a égua do jeito que é possível entre nós.

— Eu sentirei muito sua falta Snow. Apesar de saber que seu lugar é aqui na Silver Horse e que esse é simplesmente o melhor lar do mundo, não poderei conter os impulsos da saudade. Você foi mais do que minha montaria e companheira durante esses meses, mas tornou-se também minha melhor amiga. E nada seria igual sem você. Obrigada por tudo. Eu te amo.

Intensifiquei nosso toque sem querer de modo algum soltá-la, mas quando o fiz encontrei seu olhar compreensivo.

— Você encontrará ainda mais felicidade aqui menina e de algum modo sempre estaremos juntas. Mas quero que me prometa que irá se cuidar e especialmente cuidar do restante dos seus amigos, pois estou confiando essa missão a ti. – Ela esfregou o focinho no meu ombro. – Isso. E deixo ainda mais o pedido de olhar com carinho pelo Storm e o Edward, você sabe do que eles precisam...

Pisquei e ela relinchou em concordância.

Acariciei um pouco mais sua crina, porém logo me afastei para deixar a baia.

— Eu não a tirarei para montar agora, pois preciso de um minuto para me recompor, mas estamos combinadas, sim? Você e eu Snow, somos para sempre...

A toquei entre os olhos e me afastei.

Antes de sair olhei individualmente para cada um dos cavalos que acabei de me despedir e sem mais forças deixei o estábulo correndo em direção à casa dos Cullen.

Diante do meu estado optei por não subir até o quarto e arriscar encontrar alguém, com isso entrei no lavabo localizado ao lado do escritório do Carlisle e tomei o tempo necessário para me recompor, não só emocionalmente, mas fisicamente também.

Lavei o rosto, prendi o cabelo em um rabo de cavalo e fiquei alguns instantes me encarando no espelho, esperando as forças voltarem para seguir com o dia.

Quando deixei o cômodo fui acometida pelos vozes de Rose e Esme, e foi inevitável não ouvir o assunto que estão tratando.

— Eu realmente sinto muito mamãe, mas tenho esse compromisso marcado desde o início da semana.

— Eu sei querida, não se preocupe. Acho que terei que aguardar seu pai retornar.

Quando elas me viram sorri encabulada.

— Perdão, não queria ouvir a conversa de vocês.

— Imagina Bella, não estávamos falando nada demais.

— Sim querida. Rose tem que sair e estava precisando ir a Collierville comprar umas coisinhas de última hora para o almoço de despedida de Jasper e Alice.

— Porém eu vou a Memphis. – Rose informou. – Assim, mesmo que pudesse dar carona à mamãe até o centro de Collierville, não teria como trazê-la de volta a tempo, porque tenho horário a cumprir.

— E Carlisle saiu para ir conversar com um fazendeiro vizinho, não tenho ideia de quando voltará. – Esme concluiu.

— Ele foi de carro? – Questionei.

— Não, a cavalo.

— Então eu posso levá-la se quiser Esme.

— Não será incômodo para você querida?

— De maneira nenhuma Esme. Se Rose não pode levá-la, eu a acompanho até o centro.

— Está combinado mamãe. A senhora e Bella vão até o centro de Collierville no carro do papai, enquanto seguirei mais tranquila ao meu compromisso em Memphis.

— É uma excelente solução. – Esme pontuou e sorrimos. – Só preciso pegar minha bolsa.

— E eu minha carteira e o celular. – Informei.

Desse modo nos despedimos de Rose e subimos em direção aos quartos.

De volta à sala não aguardei dois minutos para Esme aparecer e seguirmos a garagem para pegar o carro do Carlisle.

Será bom não só acompanhar Esme e lhe prestar esse favor, como também espairecer minha mente das emoções de outrora, assim quando retornar a fazenda para proceder com o restante dos meus afazeres, já estarei mais recomposta.

— Sinto muito por lhe dar esse trabalho Bella. – Esme comentou logo após passarmos do portão principal da Silver Horse. – Ainda mais que deve ter suas próprias questões com a viagem tão próxima.

— Não se incomode Esme, não é trabalho algum. Na verdade é um prazer acompanhá-la.

— Eu agradeço a gentileza, mas não consigo deixar de me ressentir por não dirigir.

— Não se sinta assim Esme. Apesar de não dirigir, você faz muitas coisas que outras pessoas não fazem e jamais seriam capazes de fazer. Como cavalgar, por exemplo.

— Obrigada Bella. – Trocamos um sorriso afável. – Carlisle tentou me ensinar quando comprou seu primeiro carro. E depois tanto Rose, quanto Edward se dispuseram também ao assumirem suas próprias direções, porém simplesmente não desenvolvi a aptidão.

— Esse é um bom ponto. Dirigir não é algo básico que todas as pessoas conseguem fazer, realmente é uma questão de aptidão. E se você não a desenvolveu, não teria como proceder de forma diferente. Mas não se recinta disso, pois com certeza não faltam motoristas para guiá-la onde necessitar.

— É a minha sorte. Já que até mesmo você está procedendo com a gentileza também.

— E o faria quantas vezes fossem necessárias.

— Pena que já está prestes a partir.

Ponderei um instante antes de responder.

— Sim. Ainda é difícil acreditar que realmente já tenho que ir embora...

— E como está se sentindo com a expectativa da partida? Imagino que esteja com muitas saudades dos seus pais.

— Sim. Isso com certeza. Apesar de já não morar com eles desde que iniciei minha graduação, sempre arrumávamos tempo para nos ver entre os fins de semana e feriados. E também sempre passei as férias de verão com eles. Então toda a experiência foi diferente, não só por conta da distância, mas por conta do tempo separados também.

— Eles vão buscá-la no aeroporto quando chegar?

— Vão e passaremos o fim de semana juntos, apesar de já retomar as aulas na segunda-feira, desfrutaremos desse primeiro momento para matar as saudades. E depois virá o meu aniversário, com isso teremos um novo momento a compartilhar.

— Será uma pena que não passe seu aniversário aqui, ainda mais depois de ter presenciado tantas comemorações.

— É verdade. – Sorri. – Jamais poderia imaginar que durante esses meses estaria presente em três comemorações diferentes, mas estou feliz por ao menos ter feito parte desses momentos.

— Sim, isso é verdade. Mas não pense que só porque estará longe deixaremos a data passar em branco, aguarde nossa ligação de felicitações.

— Será realmente um prazer falar com vocês no dia. – Afirmei. – Mas também sei que meu coração se encherá de ainda mais saudade de tudo e todos. Pois realmente o tempo que passei aqui ficará marcado comigo para sempre.

— Para nós também Bella. Você trouxe muitas mudanças significativas à fazenda, que não partirão com você.

— Obrigada Esme, mas ao menos poderei ir embora tranquila sabendo que tudo ficará bem com vocês, em todos os aspectos.

Apesar de não falar claramente, Esme compreendeu o ponto nas entrelinhas.

— Sim. Esse alívio é predominante em todos. Pois jamais pensamos que algo assim pudesse acontecer conosco, mas é bom saber que tudo já acabou. Ainda que seja difícil assimilar também que justamente ele poderia fazer algo assim, com tudo tendo acontecido há tantos anos.

— Não conseguimos assimilar fatos assim, pois não temos a índole maléfica igual às deles, mas não podemos nos deixar enganar diante de tantas pessoas ruins que existem por ai.

— Você tem razão. Por sorte nesse caso contamos com o respaldo da polícia, até onde foi possível, mas, sobretudo, dos detetives para assegurarem nossa segurança.

— Exatamente. E quando a justiça plena não pôde estar conosco, tivemos a imensa sorte de contar também com uma proteção a mais. – Trocamos olhares singelos, então completei. – Para sempre terei uma divida com Edward por ter me salvado naquele dia...

— Não querida, quanto a isso não precisa se preocupar. O sentimento é nobre, mas não realmente necessário. Vocês podem compartilhar outros elos, mas não se atenha justamente a esse, pois tanto o que Edward fez por você, quanto o que Carlisle fez comigo, foram apenas demonstrações diretas dos seus sentimentos...

Continuei focada na estrada, ainda mais por já estarmos chegando ao centro de Collierville e apesar de saber que Esme está me olhando, não me ressenti em permanecer em silêncio, pois sabendo o quão sábia é, compreenderá o intuito do mesmo...

Quando entramos efetivamente na cidade, Esme informou os estabelecimentos que precisará ir, então estacionei em uma proximidade boa dos mesmos e saímos do carro.

A acompanhei nas compras e foi realmente bom ter um último vislumbre do centro de Collierville, já que sábado quando estiver indo embora, passarei por aqui apenas a caminho de Memphis e seu aeroporto, então esse é significativamente o momento final em meio à cidade.

Porém como Esme precisava de mantimentos específicos, não demoramos muito na jornada de compras, desse modo voltamos ao carro e comecei a guiá-lo a caminho da fazenda.

— Carlisle mandou mensagem questionando sobre onde estou.

Esme comentou pouco após termos entrado na caminhonete.

— Ele já está de volta à fazenda?

— Sim. E como não me encontrou enviou a mensagem querendo saber de mim, mas já o informei que vim à cidade com você e que agora estamos voltando.

— Bom, assim ele não fica preocupado.

— Sim. Com certeza seus pais compartilham desse sentimento, muito a julgar pela profissão do seu pai, mas acredito que você também passará pela experiência quando tiver seu marido.

— Que experiência?

— As pequenas nuances de toda relação. Preocupações corriqueiras. A sensação de paz e tranquilidade quando reencontra o parceiro, seja após um dia longo de trabalho ou apenas a alguns minutos de distância.

Ela sorriu e foi impossível não acompanhá-la diante da imagem tão singela que projetou.

E não me contendo, soltei.

— Esme, posso lhe fazer uma pergunta?

— É claro, o que quiser.

— Como você se descobriu apaixonada?

— Ah, querida...

— Eu lembro que contou durante o almoço em comemoração a união do Emm e a Rose, que após conhecer o Carlisle, sentiu como se tivesse sido acometida pelo amor à primeira vista. Mas foi isso mesmo? O amor aconteceu naquele momento e você simplesmente soube?

— Confesso que realmente senti meu coração bater diferente quando o vi pela primeira vez, mas essa pulsação tem me acompanhado desde então. Assim, não sei se posso afirmar que passamos pelo amor instantâneo. – Ouvi seu riso. – E imagino que queira ouvir que notei realmente que o amava quando fui pedida em namoro, depois em casamento, talvez até no dia que me salvou do Charles, mas sinceramente não.

Desviei os olhos da estrada um instante para contemplar sua expressão.

— Acho que o sentimento realmente me pegou em uma ocasião cotidiana, costumeira, como acabei de relatar. Em uma noite que Carlisle foi me visitar, após ter passado o dia inteiro cuidando da fazenda, apesar de visivelmente cansado, não abriu mão do nosso compromisso. E quando o vi, quando realmente entendi que ele estava ali, compreendi também que já não poderia mais viver sem ele. Que amava meus pais, meus familiares, que amava a vida que tinha e os sonhos que almejava. Mas nenhum desses sentimentos se comparavam ao que sentia por ele. Então acredito que foi ali que senti sem qualquer precedente no meu íntimo que o amava mais do que tudo no mundo e que precisava viver esse amor em sua total plenitude...

Fiz uma força tremenda para manter-me firme ao volante e não deixar minhas emoções nublarem meu senso de direção, o que foi bem difícil diante de tudo que acabei de ouvir, ainda mais se parar para pensar nas reações do meu coração ao compreender certos pontos, até então guardados...

Porém mesmo com toda atenção, acabamos sendo acometidas por um tranco do carro, não tão forte, mas ainda sim passível de preocupação.

— O que houve querida?

— Não sei bem. – Informei observando o carro pelos retrovisores. – Acho que um dos pneus furou, vou encostar para verificar.

— Está bem.

Por sorte a estrada até a Silver Horse é tranquila e não terei problema em parar o carro.

Ao fazê-lo rapidamente desci comprovando de imediato que estava certa e o pneu traseiro direito furou.

— Esme, o pneu realmente furou.

— Ah, que coisa. Avisarei ao Carlisle para que ele venha nos encontrar.

— Não será necessário. Eu sei trocar pneu. – Vi seu olhar admirado. – Meu pai ensinou esses e outros mecanismos assim que tirei a habilitação.

— Seu pai realmente fez um bom trabalho.

— Obrigada. Por isso não se preocupe, será rápido. Só o tempo de pegar o estepe na caçamba e fazer a troca.

Ela assentiu diante da minha indicação, com isso caminhei até a traseira da caminhonete, abri a porta e prestes a erguer o painel para pegar o pneu, senti braços me rodearem e algo muito pesado e forte cobrindo meu nariz, apesar de tentar lutar, acabei sendo acometida...

Abri os olhos sem ter ideia de quando ou porque os fechei...

Incomodei-me com o ambiente escuro, mas tão longo senti outros parâmetros de incômodo.

Por que minhas mãos estão amarradas? E minhas pernas? O que está acontecendo?

— Bella?

Reconheci a voz e fiz um esforço para virar a cabeça, já que ela está doendo bastante.

— Esme? O que está...?

Então os flashes voltaram.

Nós duas voltando para a fazenda quando o pneu furou, desci para trocá-lo, então fui agarrada e mesmo tentando me soltar, apaguei.

— Ah, meu Deus.

— Bella, você está bem? Como está se sentindo?

Finalmente fiz meus olhos e cérebro voltarem a trabalhar juntos e a olhei constatando que está na mesma situação que eu, com as mãos amarradas atrás das costas, enquanto os pés estão presos à frente.

— Esme, o que aconteceu?

— O Charles...

Estremeci a mera menção do nome do infeliz.

— De algum jeito ele escapou e conseguiu nos sequestrar.

— Não. Não. Não. Não. Isso não pode estar acontecendo.

— Eu sinto muito querida. Você não devia estar metida no meio disso.

— Não Esme. Isso não é culpa sua. O único culpado é o infeliz que está fazendo isso conosco. – Esbravejei. – Aliás, você sabe onde estamos?

— No antigo galpão de serragens da Silver Horse.

Imediatamente meus olhos arregalaram.

Não.

Não acredito que estou novamente aqui.

Um lugar que se tornou tão importante em minha vida tudo por conta de uma noite, mas que agora ficará marcado também com uma nova memória completamente ruim...

— E como viemos para cá? – Praticamente murmurei.

— Assim que foi pegar o pneu na traseira da picape, fiz uma pergunta e você não respondeu o que achei estranho, então resolvi sair do carro para ver como estava e se precisava de alguma ajuda. Foi quando o vi.

— Eu fui dopada, não é?

— Sim. Ele estava com você desmaiada nos braços quando os encontrei.

— Ele a dopou também?

— Não, não foi preciso.

A olhei intrigada.

— Ele a ameaçou Bella. Disse que poderia tentar correr e fugir, mas que assim nunca mais a veria. Então me mostrou a arma e eu simplesmente cedi.

— Esme, não...

— Eu jamais a deixaria a mercê dele.

— E como chegamos até aqui? Ele pegou o carro do Carlisle?

— Não. Nem ao menos encostou, provavelmente para não deixar marcas de DNA. Ele simplesmente a pegou no colo e me mandou caminhar à frente. Eu mal acreditei quando começamos a entrar nas terras da Silver Horse, porém por aqui ser bem longe do restante dos pontos da fazenda, conseguimos passar sem ser vistos por ninguém.

— E também acredito que não conseguiremos ser captados pelas câmeras de segurança... – Ponderei frustrada.

— Acredito que não. – Lamentou.

Encostei a cabeça na parede tentando pensar se existe a mínima hipótese de solução para nós, porém meus pensamentos foram desviados quando vi a figura odiosa de Charles Evenson aparecer.

E nesse instante ele não poderia estar mais diferente da persona que conheci anteriormente quando fingia ser Alistair Weinberg.

Não sei desde quando começou a ficar desleixado, se tudo se deu no momento em que foi preso, no início da semana ou a falta de zelo vem de antes. O fato é que suas roupas estão amarrotadas, o cabelo desarrumado e a barba por fazer, compondo o quadro do caos.

— Ah, resolveu se juntar a nós senhorita Swan...

Pronunciou com desdém e até seu tom de voz está diferente, provavelmente tudo foi composto de modo falso para dar realidade ao personagem.

— Seu...

— Não, não senhorita Swan. Vamos manter o tom civilizado, sim? Será melhor para todos.

— O que pretende fazer conosco?

— Acho que minhas intenções já estão bem claras, mas gostaria de ouvi-las?

— Por favor, Charles. Deixe Bella ir embora. – Esme pediu e a olhei consternada.

Como se fosse aceitar sair e deixá-la.

— Seu problema é comigo. Eu estou aqui, você já tem o que quer, mas, por favor, deixa-a ir. Ela não tem nada que ver com isso.

— Ai é que se engana Esme. A senhorita Swan tem muito a ver com tudo que aconteceu e acontecerá. – Ele mostrou um sorriso macabro. – Mas serei sincero. Minha primeira ideia não era sequestrar vocês duas em particular. O plano inicial consistia em finalizar tudo com a execução da mamãe e filhinha, porém o destino quis que ao invés disso a senhorita Swan estivesse presente e acho que foi até melhor. – Seu olhar fixou em mim. – Pois você me recorda muito a Esme quando era jovem, não só em personalidade, mas também em aparência. Enquanto que infelizmente a filha dela nasceu parecida demais com o desgraçado do pai.

— Não ouse falar mal do Carlisle.

— Lave a sua boca antes de falar qualquer coisa dele.

Protestamos de pronto.

— Quietas as duas! Não queiram se crescer para cima de mim ou posso acabar com isso mais cedo do que esperam.

Ameaçou apontando a arma e imediatamente nos refreamos.

— Isso, muito melhor. – Abaixou o cano. – Agora poderemos manter a conversa em um nível civilizado.

— Como você conseguiu escapar?

Acabei soltando incapaz de conter a curiosidade e percebendo que talvez mantê-lo falando seja nosso maior trunfo no momento.

— Ah, senhorita Swan. A essa altura você já deve ter percebido que sou um homem bastante inteligente. Desse modo, muito diferente dos provincianos dessa cidade. Justamente por isso vocês só conseguiram descobrir minha verdadeira identidade quando contrataram pessoas de fora para investigar. E nesse ponto tenho que dar o braço a torcer a inteligência de vocês, algo que não suspeitei que chegaria a tanto, mas suspeito que talvez isso tenha sido obra sua, já que não nasceu aqui, com isso, não tem o gene provinciano dos moradores locais.

— Mas pelo que sei o senhor também nasceu pela redondezas.

Comentei em referência as informações que Jasper e Alice passaram a nós.

Cuidado senhorita Swan. Eu até posso ter nascido pela região, mas há muito tempo não sou mais como os moradores daqui. Justamente por isso assim que soube que seria transferido comecei a arquitetar meu plano de fuga, que acabou ocorrendo de modo mais simples do que o esperado, já que os guardas responsáveis pela minha transferência não devem ser os melhores exemplares da profissão.

— Você matou algum deles? – Esme murmurou.

— É claro que não. Que pensamento horrível Esme. Não se lembra do quão sou gentil e afável?

Não consigo mensurar o que é pior, seu olhar frio como de uma serpente ou a voz comedida indicando uma frieza sem igual.

— Assim como vocês, os policiais estão amarrados no lugar em que os rendi. – Continuou a contar. – E tudo foi tão fácil que até me deu pena, mas que culpa tenho de caírem no truque mais velho do mundo? Eu apenas falei que estava muito apertado e por estarmos no meio da estrada, ao início do dia, não pensaram duas vezes em parar e assim que rendi o primeiro policial, desacordando-o e pegando sua arma, foi fácil fazer o mesmo com os outros dois. A partir dai foi só esperar pelo momento de encontrá-las.

— E como sabia que sairíamos da fazenda?

— Senhorita Swan, ninguém passa a vida inteira planejando formas de vingar-se para deixar meros detalhes como esses passarem despercebidos.

— Não posso acreditar que você passou todos esses anos amargurado conosco por conta do que houve há trinta anos.

— Pois passe a acreditar Esme, porque não houve um só dia que não tenha pensado em providenciar nosso acerto de contas. Seu marido imbecil me deve, assim como você.

— Nós não lhe devemos nada. Quando Carlisle o dispensou ainda pagou todos os seus direitos justamente.

— Oh, não. Não me refiro a dinheiro, esse eu conquistei muito bem sozinho. Vocês me devem é outra coisa. Minha vida. Minha felicidade. Você jogou tudo fora quando me dispensou para ficar com o Carlisle.

— Eu amava o Carlisle. Nós estávamos noivos.

— Se ele não tivesse aparecido naquela noite nosso destino teria sido bem diferente.

— Nunca! Minha vida aconteceu do jeito que tinha que ser. Eu casei com o homem que amo e tenho passado maravilhosos anos ao seu lado. Ele me deu tudo que sonhava e mais.

— Eu poderia ter feito tudo isso por você também, se tivesse ficado ao meu lado, esperado...

— Não. Como acabou de falar, a questão não é dinheiro. Minha felicidade não provém do fato do Carlisle ser dono da fazenda. Ele é a minha felicidade. Os filhos que tivemos são minhas maiores alegrias. Nosso amor é meu motivo de viver. E nenhum homem seria capaz de me dar nada disso. Muito menos você...

— Sua vagabunda ingrata!

Seu movimento de erguer a arma foi muito veloz, porém por um milagre consegui raciocinar tão rápido quanto.

— Por que você me escolheu?

Gritei chamando-lhe a atenção.

— Por que achou melhor ter encontrado Esme e eu juntas? Sei que não foi somente por nossa semelhança já informada.

Com o olhar concentrado em mim finalmente o vi piscar e continuei instigando-o.

— Tem mais por trás, não tem? Conte-me, acho que tenho o direito de saber o porquê de estar aqui.

Ele pareceu voltar a si, ao menos o tanto que um psicopata consegue e se afastou de Esme.

Tirou a arma das nossas vistas, andarilhou ao nosso redor e após alguns segundos voltou a falar.

Você merece estar aqui senhorita Swan. E no fundo sabe disso, pois sabe que tem sido um pé no saco desde que chegou. – Não o refutei, deixando-o ter seu momento. – Afinal de contas, que pessoa vai para um lugar estudar e se envolve tanto nos assuntos da casa? Da família? E entre os seus? Você é realmente uma criaturazinha obstinada, não é? Mas a pena foi ter vindo justamente parar aqui. De todos os lugares ao redor do país que poderia ter ido fazer seu estágio, a opção de vir exatamente para esse lugar foi o que mudou tudo.

— Eu não me arrependo de nada do que fiz, especialmente de ter vindo para cá, ainda que esse seja o meu destino. – Afirmei.

— Como disse, você sabe o porquê, mas não me oponho em deixar tudo claro. Apesar de já ter visto suas movimentações e achado tudo estranho, a razão da mudança veio no dia que interferiu em um dos meus planos mais básicos. Quem faria conta de uma vaca prestes a parir? Seria uma perda, mas não uma tão sentida, o intuito era deixar somente mais uma dúvida no ar. Porém você não pôde deixar as coisas seguirem o curso normal, não é?

— Você fez com que a vaca fugisse?

Praticamente sussurrei incrédula.

— Você parece realmente surpresa...

— Achávamos ou ao menos eu achei que a fuga dela tinha sido algo natural. Nunca atribuiria aquilo a uma das sabotagens.

— Pois que bom que tivemos tempo de esclarecer esse ponto. Eu fui o responsável por isso.

Abaixei a cabeça repassando a situação por um instante.

— As queimadas, não só aqui, mas em outras fazendas, foram obras suas também? – Esme o questionou.

— Não. Aquilo foi ação do tempo mesmo. Não me daria ao trabalho de prejudicar outras propriedades também, que não estavam no meu objetivo e tão pouco para despistar as suspeitas. Eu queria que vocês soubessem que algo estava acontecendo.

— Foi por isso que assassinou a vaca e o bezerro junto ao touro reprodutor, não é? Para não só atingir-nos, como também concluir seu plano prévio. – Soltei.

— Exatamente. Você interviu da primeira vez, mas não pôde fazer nada da segunda. E eu queria que vocês soubessem. Especialmente a senhorita e o imbecil do filho do Carlisle. Queria que soubessem que todo o trabalho que tiveram acabou sendo em vão. Que não importava sua excelente qualificação como veterinária salvando-os uma vez, nada poderia desviá-los do destino que eu havia traçado a eles.

— Você é um monstro!

Mesmo sabendo que qualquer palavra pode prejudicar-nos, acabei não me contendo.

Monstro... Criancinhas têm medo de monstros senhorita Swan. Acredito que mereça uma nomenclatura mais adequada, não concorda?

Novamente está rondando por minha mente a dúvida sobre qual aspecto seu é o pior...

— E você fez tudo isso sozinho?

— Sim Esme. Eu nunca fui homem de precisar de apoio ou companhia para nada. E isso se estabeleceu firmemente após você me rechaçar como seu companheiro de vida. A partir dali coloquei como objetivo claro manter-me apenas comigo mesmo. E o plano não começou agora, tão pouco há anos recentes, não. Tudo está sendo montado na minha cabeça desde sai daqui. Mas sabia que para executar o que gostaria, precisaria tomar duas atitudes prévias. Primeiramente apagar a existência do homem que conheceram. Assim Charles Evenson foi prontamente aniquilado e em seu lugar Alistair Weinberg surgiu para ser tudo que ele não foi. Com isso, a segunda providência era ter dinheiro, pois ninguém conquista nada, nem vai a lugar algum sem dinheiro. E eu trabalhei nisso por mais de vinte anos, pois não queria apenas me estabelecer, queria realmente ser detentor de tudo que pudesse almejar, sem nunca mais me preocupar com nada.

— Você cita que levou vinte anos para conquistar a estabilidade desejada. – Comentei. – Mas por que dos outros dez para finalmente colocar o plano em prática?

— Porque acima de tudo sou um homem paciente e após dedicar praticamente toda minha vida a um único objetivo, não arriscaria perdê-lo nem por um segundo. Esse ano, essa vez em que me viram na cidade, não foi de longe a primeira que retornei para cá. Esses dez anos se consistiram em conhecimento. Eu estudei cada pedaço da fazenda, cada pequena nuance que a envolveu. Para minha sorte cheguei bem no momento que Carlisle e Edward começaram a dividir as tarefas, tão logo descobri o elo com o senhor McCarty. E deixei para finalizar agora para ter ciência também de como seria a procedência da nova herdeira na administração. E finalmente com tudo esclarecido, comecei a agir. Mas não posso levar todo o mérito, já que os Cullen são verdadeiros provincianos de Collierville, que não mudaram métodos de trabalho ao longo desse tempo, alguns tão pouco desde a época em que trabalhava aqui. Assim não foi difícil acessar os galpões e proceder com as primeiras sabotagens.

— Somente um psicopata teria o sangue frio de executar tudo isso. Não ter vida, tudo em busca de uma vingança.

— Agora você usou uma palavra mais madura, muito bem senhorita Swan. Mas por que eu sou o errado em questão? Por que não consegue compreender o meu lado da história? Analisar tudo pelo meu ponto de vista? Por que Carlisle pode seguir com a vidinha tranquila, enquanto tive que contentar-me em viver dia após dia sonhando com o momento que o veria pagar por tudo que me fez? Por tudo que me tirou?

— Carlisle nunca fez nada contra você. Você fez contra nós. No passado e agora.

Ele pareceu não ter ouvido os protestos de Esme, pois prosseguiu.

— Mas a essa altura do campeonato, atingir apenas os culpados diretos pela minha desgraça não era o suficiente. Foi desse modo que a ideia de prejudicar de uma vez ambos os filhos, surgiu. Com a incriminação do melhor amigo e namorado. E foi tão fácil, sério. Chegou a ser patético de tão simples atingi-los nesse ponto.

— Nada...

— E não posso deixar de informar a você, senhorita Swan. Que deveria agradecer ao vizinho dos Cullen pelo que lhe fez àquela noite, do contrário acabaria eu mesmo fazendo algo diretamente com a sua pessoa, mas como já teve sua dose de disciplina, segui com o plano original de atingir apenas o senhor McCarty.

— Você teve alguma coisa a ver com o que Jacob fez comigo? – Esbravejei.

— Não. De modo algum. Já informei que fiz tudo sozinho. A ação dele apenas refreou minhas próprias ideias. Mas veja só como são as coisas. No fim você será um dos pontos finais de tudo, junto a minha tão adorada Esme. Não poderia ter imaginado final melhor.

— Mas...

— Chega! Já cansei. – Gritou perdendo a pose compenetrada. – Fui muito bonzinho até aqui respondendo essas perguntas, esclarecendo suas dúvidas e ouvindo impropérios inúteis. Está na hora de terminar o que viemos fazer aqui.

Ele se afastou deixando nossas vistas e começamos a gritar por socorro, como também o chamando para tentar compreender o que acontecerá, mas queria não ter conseguido concluir a última parte.

Pois assim que o vi com galões de líquidos transparentes nas mãos, o temor por nosso destino tomou conta de todo meu ser.

— Vejo que já entenderam o que acontecerá. O grande ponto é se as deixarei ser consumidas pelo fogo que alastrará o galpão ou lhes darei um fim misericordioso antes disso. Vou pensar por um instante, mas você não se importam, não é? Sei que não, afinal de contas, não têm escolha.

Ele começou a jogar o álcool perto de nós e continuou caminhando provavelmente no intuito de preencher todo o galpão.

— Meu Deus Bella. Eu sinto muito.

— Esme, eu já falei. Isso não é sua culpa.

— Você não deveria estar aqui. Ele acabar com a minha vida já será a destruição da minha família. Mas acabar com a sua também? Como seus pais ficarão? Como minha família ficará ao perder nós duas? O Edward...

— Esme, não coloque seus pensamentos nesse caminho. – Pedi fortemente. – Vamos tentar pensar por um instante. Procurar um meio de escapar. Continuar gritando. A essa altura já devem estar a nossa procura. Temos que ter fé que alguém nos encontrará.

Assim que terminei de falar enxerguei as labaredas começando a tomar forma e voltei a gritar, mas estranhei não ouvir a voz de Esme comigo, então a olhei notando que parece estar ficando com falta de ar, talvez até com o princípio de um ataque de pânico.

— Esme. Esme. Olhe para mim. Ouça-me, por favor.

Ela virou um pouco o rosto em minha direção, o que para o momento já é o suficiente.

— Respire. Devagar. Vá respirando, mas poupe seu fôlego. Não aspire muito o ar, pois não devemos inalar a fumaça.

Passei a respirar conforme estou indicando e aos poucos ela seguiu meus passos.

— Isso. Agora quero que feche os olhos. Concentre-se apenas na sua respiração. E não os abra. Comece a criar na sua mente refúgios do que está acontecendo, pois se o pior acontecer, ao menos seremos embaladas por doces lembranças...

— Bella...

— Não, não, não. Poupe sua voz. Relaxe. Respire devagar. Agora feche os olhos. – Finalmente ela cedeu ao pedido. – Isso. Se mantenha assim. Eu estou aqui com você.

Já não sei se o desgraçado ainda está aqui ou optou pela decisão de deixar-nos e foi embora, mas tomei os próximos segundos para ficar vigiando-a, garantindo que continue na medida do possível minimamente bem.

Então resolvi seguir meu próprio conselho e fechar os olhos procurando levar minha mente a um lugar bem diferente daqui, mas no meu caso acabei não indo tão distante.

Pois logo fui acometida pelas lembranças da primeira vez que estive aqui.

Com Edward...

Como fizemos um parto juntos, o que com certeza não teria ocorrido sem seu suporte.

E após o êxito, como entretemos nosso tempo com as perguntas, que serviram tanto para ajudar a nos conhecer, mas também marcaram o ponto limiar para nossa entrega desmedida.

Jamais esquecerei a nossa primeira vez, não só por conta de toda a situação, mas o modo como nossos corpos se encaixaram, como nos entregamos totalmente sem reservas, mostrando apenas o indício do que estava por vir...

De repente meu cérebro foi preenchido completamente por ele...

A primeira vez que o vi montado em Storm, tão imponente, como o verdadeiro dono da fazenda, mas não só isso, a certo modo, como o dono do mundo, ao menos do seu mundo.

Passei a nossa primeira discussão, as antipatias iniciais, correndo logo para uma provocação mútua e espirituosa.

Todos os olhares que trocamos em meio a momentos mais contemplativos e singelos, os encontros furtivos em frente às portas dos nossos quartos, até passarmos a uma espécie de trégua, chegando à amizade.

O ciúme que senti e por muito tempo não admiti nem a mim mesma, quando o vi beijando a moça na boate em Memphis.

Para então o vislumbre claro e as sensações confortadoras do nosso primeiro beijo no rio.

Quem tem a oportunidade de beijar alguém em um rio? Um rio de verdade? Ainda mais compartilhar o primeiro beijo desse modo?

Eu tive. Nós tivemos. E foi perfeito...

Assim como seus sucessores, até o momento que a contagem parou de ser medida. Mas sei que cada um deles foi especial dentro do seu momento.

Achei que já tínhamos passado por muito, mas de verdade o tive em alta conta quando me ajudou com a Hope, então com a vaca e seu bezerro.

Pois não há nada em meu íntimo capaz de consternar-me tanto quanto compartilhar a emoção e o amor por um animal como fizemos.

E nossas entregas corporais passaram a figurar uma parte tão importante de mim que simplesmente não posso mensurar.

Apesar de ter ciência de que em breve ficaria sem tudo isso, a cada novo pequeno momento, sentia-me como se fosse capaz de alcançar o céu, tamanho sentimento preenchendo meu peito.

E ele tornou-se meu herói ao salvar-me de um ato cruel, talvez o mais cruel possível contra uma mulher. Não só me salvando fisicamente, mas também ajudando a proteger minha alma de um destino terrível.

E por conta disso jamais poderei esquecê-lo...

Mas tudo isso é pouco, praticamente nada, diante do real motivo que me faria incapaz de tirá-lo totalmente da minha vida, ainda que quisesse.

Em meio ao turbilhão de pensamentos, já começando a sentir um incômodo claro na garganta e nariz, ainda fui capaz de expressar um sorriso.

Pois estava crente que mesmo após minha partida, de algum modo meu coração permaneceria aqui...

E agora isso se concretizará.

Infelizmente não da forma que esperava ou gostaria.

Mas a partir de agora, para sempre ele ficará na Silver Horse...

Senti o quente das lágrimas escorrendo pelo meu rosto, mas nem isso me fez abrir os olhos, pois não quero perder sua imagem em meus pensamentos.

É a ela que quero me apegar diante do fim...

— Edward...

CONTINUA.

Notas finais
N/A: É hoje que preciso providenciar minha fuga para as montanhas? Espero que não, do contrário como poderei voltar com a continuação? ;). Se a despedida com o Gus foi forte, como lidar com o momento derradeiro da Bella com os cavalos? Vocês já estavam esperando por algo assim? Eu mesma estava só com um lencinho durante todo o momento... E compreendemos como foi que a Bella e a Esme acabaram saindo e também se encontrando na atual situação. Acredito que o capítulo foi todo delas. As conversas no carro, mostrando como também se apegaram nesse meio tempo. Uma boa ligação com a conversa do Edward e o Carlisle no capítulo passado, sim? E a declaração da Esme sobre como descobriu o amor, sério. Um casalzão desses só merece coisas boas... Mas infelizmente parece que eles não terão a continuação do final feliz merecido. Ou será que sim? Ainda há esperança? O momento ruim ao menos serviu para muitas dúvidas serem respondidas, a elas e a nós. Mas se tiverem questões em aberto, não deixem de relatar nas reviews. E agora? Estão ansiosas para acompanhar a continuação no próximo capítulo? O que estará por vir? Coloquem essas ideias e mais em seus comentários, estou muito animada para ler todas as impressões. Não deixem de seguir meu twitter: @KNRobsten. Para ficarem por dentro de todas as novidades. E até quarta-feira que vem com o penúltimo capítulo. ~Kiss K Nanda.