Prometida

14 Perdão


Shikamaru Nara pisou ofegante na entrada do castelo, subindo de dois em dois degraus a grande escadaria, abriu a porta do gabinete real com um empurrão sofrido – considerando todo o esforço que fez para chegar até ali – encontrou lá dentro Minato, Hiashi e Naruto, os três com os olhos arregalados focados no moreno, que respirava alto enquanto tentava falar claramente.

– Chamem as tropas... rápido... eu achei Orochimaru...

O coração de todos ali bateu com mais intensidade, a surpresa acompanhada de uma esperança terna fez com que os três pulassem de seus respectivos assentos, intimamente, o medo de nunca mais achá-la dominava os piores pensamentos de dois homens ali dentro, e pegar um possível suspeito pelo desaparecimento de Hinata poderia significar resgatá-la logo.

O príncipe.

O líder do clã Hyuuga.

Cúmplices de um amor maior que seus próprios seres.

– Vou selar meu cavalo! Chamem os guardas! – a voz exaltada quase não foi compreendida, enquanto o loiro deixava o cômodo apressado.

Os joelhos de Nara finalmente cederam ao seu cansaço, caindo sobre o carpete. Ainda tremulo, Hiashi ajudou o pobre rapaz a manter-se em pé novamente, guiando-o para fora, o único que sabia o caminho era Shikamaru, ele era essencial para a execução da possível captura.

– Aguente, meu jovem, a vida de minha filha está em suas mãos competentes – o Hyuuga tentava animá-lo, seguindo de encontro à Naruto, que os aguardava com os cavalos já preparados, e uma frota de cinco cavaleiros.

O moreno foi acomodado no mesmo animal que o príncipe, os dois seguiram a frente, o mais rápido que era possível dentro daquela situação, o esconderijo não era longe dali, mas cada segundo se assemelhava há horas, o coração quase pulando da boca e as rédeas completamente frouxas para dar mais liberdade de movimento aos cavalos, todos estavam envolvidos no momento, a tensão era palpável.

O lábio tremulo do Uzumaki, podia ser facilmente confundido com frio misturado de nervosismo, mas se observasse mais de perto, e ignorasse os constantes barulhos ao redor, se notava, ele estava orando, uma prece intima; nunca fora religioso, mas não via a quem mais recorrer naquele momento, ele a queria viva, ele a queria a salvo, ele a queria logo, Hinata.

– Ali à frente! – os cascos escorregaram na lama, e um relincho ecoou entre as árvores.

Os homens armados arrobaram a porta do alçapão escondido com folhas, não demorou muito para achar Orochimaru, perto de uma mesa repleta de cilindros, o cheio era forte, algo fora do habitual, atrás da mobília surgiu uma segunda figura, com os fios longos e cinzas amarrados.

– Você está preso em nome do rei!

Nenhuma resposta foi dita.

– Como chegaram aqui? – a pergunta não foi dirigida a nenhum dos invasores, os dois homens se olhavam, ignorando a presença da frota real.

– Shion... talvez – respondeu Orochimaru.

– Shion está aqui? – Naruto pisou duro sobre o chão, nitidamente preocupado com a loira – Os prendam logo! – disse irritado para os soldados, vasculhando o lugar, encontrou uma porta ali perto, a empurrou com força notando que estava trancada.

– Foi a sua princesa que nos trouxe a Condessa, vossa majestade – o sorriso frio do criminoso, criava um contraste assustador com a pele branca doentia, e o cabelo preto sem brilho – se tiver sorte, vai achar uma das duas viva ai dentro.

O choque inicial foi trocado por um desespero, enquanto os dois homens eram levados para o castelo, Naruto esmurrava a porta com dificuldade, sendo ajudado pelos que permaneceram ali.

...

– O maior problema, sou eu – disse a loira enquanto perfurava fundo seu próprio torax com a adaga, caindo de joelhos, observando a escuridão da sala a engolir gradativamente.

– Shion! Shion!

O sangue manchava o chão empoeirado, e os olhos perolados brilhavam conforme as lagrimas caiam, uma compaixão se encheu dentro de si, os pulmões doíam; nem escutava mais as fortes batidas na porta, os estrondos assustadores não eram, de forma alguma, mais horripilantes que a cena na qual assistia bem a sua frente.

– Eu perdoou você... eu perdoou... – os soluços se misturavam a fala, entrecortada pelo choro, a princesa sorriu ouvindo a melodiosa voz da condessa, sua mente misturava a realidade com suas lembranças, e estando perto de seu fim, um momento de completa lucidez se fez presente.

– Eu não... pedi o seu perdão... b..bastarda – tossiu, curvando o corpo sobre a lâmina – eu escolhi... isso... – se fez uma pausa, recuperando o fôlego – espero... só que eu mesma... possa me perdoar... um dia.

O tronco da Hyuuga doida, o esforço para se soltar lhe machucava os braços, a face avermelhada combinava com o pranto de desespero.

– Pare.. de fazer... tanto escândalo – a loira encostou a cabeça no piso, tendo seus fios brilhantes manchados de um vermelho nauseado – eu estou.. feliz...

Ninguém realmente entende o sentimento de ser odiada, a repulsa que é transmitida no olhar, as palavras ácidas, os gestos desumanos; não, não existe de fato, a possibilidade de alguém compreender como é difícil se amar o suficiente para equilibrar a raiva alheia, a não ser é claro, que você seja Shion.

Enquanto as mãos brancas e femininas retiravam a adaga de seu próprio corpo, a dor de ser perfurada pelo metal, a dor de ter a carne cortada e sentir o sangue manchar o resto da pele ainda limpa, não eram tão insuportáveis quando as feridas abertas em seu coração, sendo ela a princesa da lua, sua posição sempre impecável era uma coisa a ser treinada diariamente.

Não poder ser fraca,

Sendo sim, sempre perfeita, p e r f e i t a...

Isso a fez beirar a loucura.

Todos os seus deslizes até hoje tiveram uma punição, a sim, seu pai sempre foi duro, não aceitando menos que a atitude digna de um membro de sangue azul, sua lembrança mais feliz foi brincar com Naruto, quando ainda era menina, sentir-se querida por ele. Foi ai que nasceu sua obsessão, ao contrario do que todos achavam, ela não o queria em si, mas ansiava a felicidade que ele proporcionava nela.

Shion fechou os olhos, deixando que a mesma cena de quando conheceu o Uzumaki, repedisse em sua mente, em uma continuidade infinita, até o seu fim.

– Eu... que te perdou... por não permitir... minha felicidade... – suspirou for fim, relaxando, e deixando que paz da morte a desse conforto.

A Hyuuga apertou os dedos, jogando o corpo para frente, sua roupa estava em farrapos, sua mente uma loucura, lastimou a morte de uma mulher que tentou matar-lhe, e se sentia profundamente culpada por ter sido incapaz de salva-la.

O corpo sem vida de Shion chocou os homens, quando a porta foi finalmente posta a baixo. Naruto olhou para a princesa correndo em direção a mesma, Hiashi por sua vez, amparou a filha, soltando-lhe finalmente com a ajuda dos soldados.

– Papa – Hinata sussurrou, o mais velho chorou apertando a filha junto ao peito.

– Que bom.. que bom... – dizia, sem lhe passar despercebido como ela havia o chamado, exatamente como quando era ainda menina.

O Uzumaki suspirou, levantou o cadáver da loira, carregando-a até o palácio, vez ou outra, trocava olhares com a condessa, resolveu esperar que as coisas se acalmassem para abordá-la. O caminho foi longo, a pequena caiu de cansaço nos braços do pai, estava visivelmente abatida, toda vez que lhe focava, sentia raiva pelos responsáveis por causarem tão mal a ela.

...

Ao chegarem, Hiashi pediu que algumas servas ajudassem sua filha a se banhar, impediu que Hanabi ou Neji a vissem ainda, tudo o que Hinata precisava agora, era de um pouco de paz.

Já era tarde quando Naruto finalmente finalizou os preparativos para o sepultamento da princesa da lua, o rei estava inconsolado, e pediu para levar o corpo da filha de volta para seu reino, as carruagens foram preparadas, e depois de interrogar Orochimaru foi acertado que as rivalidades e tramas entre os dois reinados seriam perdoados, a morte de um membro da realeza já era castigo o bastante dentro daquelas situações.

Ambos os criminosos – Orochimaru, e o outro homem que logo foi identificado como Kabuto – foram condenados a morte, sendo eles responsáveis por sequestro, manipulação e atentado contra Konoha.

Todos os experimentos que fizeram com a Hyuuga foram analisados, toda a pesquisa dos dois foi confiscada, e estava sendo estudada por Nara.

O Uzumaki pode finalmente repousar depois de muito tempo, adentrou seu quarto encontrando a morena abraçada aos seus travesseiros, completamente adormecida.

Deitou-se ao seu lado na cama, puxando o corpo delicado e sensível pelos machucados contra o seu peito, ela se alinhou ali quase automaticamente, estreitou os braços ao redor dela, tomando o dobro de cuidado para não ferir-lhe mais, beijando-lhe o todo da cabeça.

A admirava, admirava sua força, sua capacidade de passar por tanta coisa e ainda estar inteira, só Deus sabe, como Naruto a amava.

Só ele sabia também, o quanto estava feliz em tê-la de volta.

Em baixo tom, ele fez uma segunda oração naquele dia, agradecendo por suas preces terem sido ouvidas.

Suspirou fundo, soltando ainda, um ultimo pedido.

– Se case comigo, pequena.

Notas finais
Oi amados, sinto muito a demora, mas dessa vez a culpa não foi minha, a bateria do meu not morreu de leve (e esse cap estava salvo nele), e só esse fds passado que consegui comprar uma nova. Como devem ter notado, estamos nos últimos capítulos haha espero que curam a reta final das coisas. Gente, quero que entendam um pouco do lado da Shion, no capítulo anterior eu tentei mostrar um pouco dos sentimentos dela, e nesse aqui, dou continuidade ao raciocínio, o cap ficou pequeno mesmo, porque eu não queria misturar as bolas hahaha Vejo vocês nos comentários.