Notas iniciais
Olá, tudo bem com vocês? Mais um capítulo para vocês, espero que gostem :)

No dia seguinte, Annabeth desceu para tomar café da manhã. Seu pai estava no balcão esperando por ela. Ele não parecia bravo, apenas preocupado. Colocou na frente dela uma caneca com café quente e serviu seu prato com ovos mexidos, sem dizer nada. Annabeth ficou grata pelo café. Tinha passado o dia anterior com o cachorro-quente do garoto do Empire State, seu corpo precisava de energia.

— E então? – seu pai começou – Não vai me contar o que aconteceu?

— Posso usar seu cartão de crédito? – Annabeth perguntou.

Seu pai piscou.

— Claro que sim. Eu tento te fazer usar ele como uma adolescente normal há anos. – Ele estava surpreso – Mas espere. Não mude de assunto. Quero saber o que aconteceu.

— Meus óculos quebraram – ela continuou escondendo as coisas – Preciso de um par novo. Estava pensando em fazer lentes também. E queria comprar umas coisinhas no shopping.

— Claro. Quero dizer, o que?

Annabeth sorriu. Havia feito planos a noite toda, de como resolver seu problema com sua própria imagem. Se não estava confiante o suficiente com isso, ela precisava achar uma maneira de resolver. Sua vida não iria parar por causa de um problema escolar. Ela se levantou da mesa. Tinha comido seus ovos e tomado café rapidamente.

— Pai, não se preocupe. – Ela falou – Isso não vai acontecer novamente. Poderia me dar o cartão?

Não muito tempo depois, Annabeth estava a caminho do shopping. Ela suspirou ao parar em frente uma loja de maquiagem, pronta para tomar um banho de conhecimento sobre o assunto. Na noite anterior, assistira vários vídeos sobre o assunto e descobriu que maquiagem se tratava de colorimetria, simetria, técnica e acabamento: e esses são termos que Annabeth estuda todos os dias em seus cursos e leituras sobre arquitetura. Quando assimilou isso, ela sentiu a confiança necessária para começar sua jornada na maquiagem.

Após as compras, Annabeth fez uma parada na joalheria e fez a encomenda de seus óculos novos, assim como lentes de contato. Enquanto aguardava para fazer o pagamento, analisou algumas semijoias e viu um colar delicado com um pingente do Empire State, que brilhou seus olhos. Ela se lembrou do garoto misterioso do dia anterior, e uma vontade súbita de encontrá-lo a tomou.

Antes de voltar para casa, Annabeth subiu novamente no observatório do Empire State. Segurava o casaco do garoto nos braços e olhou ao redor do ambiente pensando que talvez poderia reconhecê-lo, se ele estivesse ali, o que era improvável considerando que ela não conseguia vê-lo direito no dia anterior. Esperou por uma hora ali em cima, mas não chegou a ver nem ouvir a voz de se parecesse com a dele. Então, voltou para casa.

Ela pensou em ligar para Thalia e mostrar suas compras novas, mas isso teria que ser justificado e Thalia ia querer saber o que aconteceu no dia anterior. Annabeth não estava com paciência de explicar. Então, ela se jogou em testar e aprender como utilizar seus produtos novos.

— Por que isso é tão difícil?! – choramingou, depois de passar meia hora tentando esfumar um blush corretamente em seu rosto – Por que em mim fica parecendo uma chinelada?

Ela percebeu que não seria fácil. Não existia BIM na maquiagem. Era como desenhar seus projetos a mão, em uma prancha de papel enorme, apenas com lápis e régua, mantendo escala, espessura, sombreamento impecáveis enquanto tomava cuidado para não manchar o restante do desenho.

O sábado e o domingo foram uma sequência de tentativa e erro. Desenha e apaga. Na segunda-feira, o rosto de Annabeth estava irritadíssimo e ela não conseguia entender o porquê.

— Aí não. – Resmungou, olhando no espelho – Como que algo que era para me deixar mais bonita está acabando com minha pele? – e choramingou ainda mais.

Na escola, Thalia localiza Annabeth imediatamente após chegar.

— Chase, não me faça ficar com raiva de você – ela acusou – Por que você sumiu o fim de semana inteiro? Eu cheguei a ligar pro tio Frederick por sua causa! Como que você mal me responde desse jeito?

— Sinto muito, Thalia – ela respondeu – Eu estava ocupada.

— Ah, claro, com certeza. Eu também estava ocupada. Minha casa está cheia de parentes. Achei que você iria lá conhecer meus primos.

— Desculpe. — Annabeth queria deixar claro que não estava a fim de conversar.

— Eu sei sobre a entrevista – Thalia acusou – Eu sei o que aconteceu.

Annabeth parou de andar abruptamente.

— Que?

— Annie, o que está acontecendo com você? – Thalia olhou-a preocupada – Você sabe que pode contar essas coisas pra mim, não é?

— Como você ficou sabendo? – Annabeth perguntou, já com medo da resposta.

— Bem – Thalia hesitou – Uma das meninas acabou te filmando tendo uma crise de ansiedade. E filmou Drew e as outras rindo de você. E postaram no grupo da escola.

— Grupo da escola?

— Annie, como uma representante não está no grupo da escola?

Não era a intenção de Thalia, mas Annabeth se sentiu atingida. Thalia acabara de jogar mais uma comprovação de que ela não deveria estar se candidatando para esse cargo. Ela não era cogitada nem para ser colocada em um grupo geral, enquanto Thalia era. Por um instante, ela ficou magoada com a amiga. Talvez Drew estivesse certa: sem Thalia, Annabeth não tinha como sobreviver ao mundo escolar.

— Ei – Thalia viu que a tinha magoado – Me desculpe, não era o que eu queria dizer.

— Mas disse.

Annabeth foi sozinha para a sala naquele dia. Conseguia sentir os olhares de algumas pessoas no caminho. Ótimo, ela pensou. Não era esse tipo de popularidade que ela estava em busca. As aulas seguintes foram um tormento.

Em algum momento do dia, Annabeth passou em frente a uma sala da escola onde de passava uma sessão de fotos. Drew Tanaka, impecável como sempre, tirava fotos em frente a um cartaz com os dizeres: “Representante de Clariton, 2026”. Drew logo a viu espiando pela janela. Annabeth não conseguiu desviar o olhar da cena e Drew aproveitou para esbanjar seu sorriso mais diabólico para a câmera, enquanto sussurrava devagar para Annabeth conseguir fazer a leitura labial perfeitamente.

Eu. Te. Avisei.

Em algum momento da semana, Annabeth recebeu seu vídeo chorando na entrevista. Ela ficou tão envergonhada consigo mesma, tão frustrada por perder o controle da situação... Considerou todas as opções possíveis, denuncia na escola, boletim de ocorrência, passar de pessoa em pessoa e mandar apagar o vídeo... Nenhuma das alternativas a faria recuperar a dignidade que ela sentia que tinha perdido naquele momento.

O que confortava Annabeth era chegar em casa e testar sua nova atividade. Descobrira os produtos de skincare e limpeza da pele, o que ajudaram com a irritação que ela sentia. Nos momentos de autocuidado, ela se perdia em si mesma e a sensação era ótima. Enquanto se maquiava, pensava nas coisas que estavam acontecendo com ela. De vez em quando, o garoto do Empire State também aparecia em seus pensamentos.

Na quarta-feira, ela e Thalia se acertaram. A leve discussão havia pesado o clima entre as amigas, mas depois de dois anos grudadas, não é um simples mal-entendido que as separaria. Thalia estava na casa de Annabeth em seu quarto, as duas jogadas em cantos separados, mexendo em seus celulares.

— Não é que eu não achasse que você não tinha chance de ganhar – Thalia falava, enquanto matava zumbis em seu joguinho – Eu simplesmente não via você naquilo.

— Eu sei – Annabeth selava monstros de volta em suas catacumbas – Eu só queria tentar algo que não fosse tão óbvio para meu currículo. No final Drew estava certa, minha aparência não me permite viver certas coisas.

Thalia levantou os olhos do jogo.

— Não seja ridícula, Annabeth – ela falou – Primeiramente que não há nada de errado com sua aparência. E depois, que se isso é um requisito do cargo, por que insistir nele?

Annabeth deu de ombros.

— Drew me disse algo que também concordo. O fato de que, quando estou com você, eu aguento muito mais o tranco, porque você está comigo para me defender.

— Se é assim que você se sente, você precisa encarar esse problema. Você tem uma mente brilhante, amiga, só tem algumas dificuldades sociais. Isso é completamente normal. Se você se abrisse com as pessoas, tentasse fazer novas amizades, tenho certeza de que viveria cheia de amigas. Porém Clariton não é o lugar para isso. Essa escola é ridícula.

— Você acha mesmo? – Annabeth tinha ficado ligeiramente emocionada com as palavras de Thalia.

— Eu tenho certeza.

Annabeth quase a contou sobre seu novo Hobbie para Thalia, mas ainda não estava pronta para abrir esse segredo com a amiga. Quando Thalia foi embora, Annabeth ficou pensando sobre o que ela dissera. Clariton era ridícula, arcaica. Um ambiente pensado para igualar meninas em desenvolvimento, ao mesmo tempo em que colocava umas contra as outras. Por mais que pensasse, não conseguia se imaginar prosperando naquele local, não quando Drew seria o espelho do que aquele lugar “deveria ser”.

Mas para onde ela iria? Enquanto rodopiava em seu quarto pensando, Annabeth subitamente parou onde estava. É loucura demais, pensou ela. Seria como dar para minha mãe exatamente o que ela quer.

Mais uma vez, Annabeth se olhou no espelho. Seu cabeço estava lavado e solto, seus cachos suaves ondulando em suas costas. Seu rosto ainda era manchado, porém limpo e com formas elegantes. Só precisava ser valorizado. Seu óculos grande e pesado logo seria substituído por lentes de contato.

Ela começou a se perguntar o que havia acontecido com ela. Quando se tornara tão insegura, ansiosa, medrosa? Quando começou a se importar tanto com a opinião alheia? Ela sabia quem era: ela era Annabeth Chase. Determinada. Inteligente. Obstinada. Segura de si. Ela não se candidatou ao cargo de representante porque era ingênua, ela se candidatou porque sabia que conseguiria lidar. Algo se quebrou dentro dela no meio do caminho e isso a fez parte de sua confiança, principalmente a relacionada a aparência. E mesmo sabendo quem é, não é algo que vai ser curado agora. E talvez essa escola não merecesse mais a Annabeth de sempre, quanto mais sua versão melhorada em que ela estava trabalhando.

Annabeth não queria ganhar o jogo com Drew. Ela só queria continuar com suas crenças de sempre, dando seu melhor e conquistando seus objetivos. E, assim como Thalia disse, se aquilo era algo que Drew tinha interesse, esse não deveria ser o de Annabeth.

Sua mãe a desafiara dias atrás. Não me faça me arrepender de ter sugerido sua mudança para a Goode High School, ela havia dito no texto. Ah, pois você não vai se arrepender, mãe. Mas também vai ter que aceitar que sozinha – sem seu nome, sem Thalia –, minha passagem naquela instituição será tão memorável quanto a sua.

Ao deitar-se na cama, Annabeth já havia tomado sua decisão.


Notas finais
Não se esqueçam dos comentários para motivar a autora :) Beijooos <3