Projeto: Eu (true beauty)
5 Cap. 05 – Transferência
Notas iniciais
De: secretaria@goodehighschool.com
Para: annabeth.chase@gmai.com
Prezada Srta. Chase,
É com grande satisfação que informamos que seu processo de transferência foi concluído. Aguardamos sua presença no dia 06/10/2025 (segunda-feira), para o início de seu período letivo. Contamos com sua colaboração para estar adequadamente vestida com o uniforme escolar, que pode ser adquirido em qualquer loja das redes escolares de Long Island. Pedimos encarecidamente que chegue ao campus escolar com trinta minutos de antecedência para recebimento do cronograma escolar, horários e demais informativos na sala da secretaria.
Att.,
Goode High School, setor da secretaria.
Annabeth desligou seu notebook e o guardou em uma de suas mochilas. Pegou um restante de papelada e colocou lá dentro também. Era sexta-feira, quatro de outubro, quando Annabeth e o pai terminavam de embalar as coisas para a mudança. Manhattan e Long Island não eram tão distantes, mas o pai de Annabeth preferia que ela não pegasse um trajeto tão distante para a escola, então ficariam na casa da mãe de Annabeth até encontrarem um local para eles. Isso não estava nos planos de Annabeth, mas ela já havia morado com a mãe e sabia exatamente como evitar ela. Thalia estava do outro lado do quarto, enfiando os poucos sapatos de Annabeth em uma caixa de papelão.
— Não acredito que você aceitou numa boa – Annabeth comentou, rindo de Thalia.
— Aceitar é uma palavra muito forte – Thalia resmungou – Porém, eu sou uma amiga leal e compreensiva. Quero muito que você se encontre e prospere na vida.
— Tem certeza de que você não está nada interessada no fato de que a Goode é uma escola mista e você não quer que eu a apresente garotos novos?
Thalia deu de ombros.
— Não posso negar isso – ela disse – Mas você não pode focar em achar alguém pra mim. Prefiro que encontre alguém para você. A propósito, de quem é esse casaco?
Annabeth parou no meio do caminho que estava fazendo. Ela vestia o casaco do garoto do Empire State, que já virara quase uma lenda urbana em sua própria vida. Nunca mais o vira em lugar algum. Imaginou que, pelo menos, podia fazer o uso do bem que ele deixou com ela. Ela gostava de se lembrar dele e como, de um jeito simples, ele descomplicou um pouco do dia que poderia ter sido o pior de sua vida.
— Ah... – ela pensou – De um conhecido.
— Que conhecido, Annabeth? Eu quero conhecer esse conhecido fantasma! – Thalia estava frustrada. Não era a primeira vez que perguntava sobre isso. – Na verdade, esse casaco me é um pouco familiar.
— É um casaco de menino comum – Annabeth suspirou, enquanto alisava a peça – Eu mal conseguiria identificar o rosto do dono. Se eu não posso devolver, vou desfrutar da peça. É confortável.
— Sei do seu gosto para roupas mais masculinas, mas esse casaco é enorme.
Annabeth não segurou o sorriso. Ela se lembrava da diferença de altura do garoto que a ajudara naquele dia. Se lembrava de todos os detalhes, na verdade, mesmo que não estivesse enxergando muita coisa.
O pai de Annabeth apareceu na porta.
— Oi tio – Thalia acenou.
— Oi, Thalia, tudo bem? – o pai de Annabeth cumprimentou de volta – E aí, como está lidando com a mudança de sua amiga?
— Estou levando.
— Sério? Não deixe de nos visitar. Ontem Annabeth chorou no meu colo dizendo que estava arrependida de tudo e queria ficar com você.
Annabeth, no meio da frase, já correu na direção dele e tentou tampar sua boca. Seu pai desviava até conseguir terminar de falar. Thalia começou a rir.
— O caminhão já chegou, não é? – perguntou Annabeth.
O pai só conseguiu resmungar que sim.
— Então vá carregando as coisas.
— Own, minha Annie vai sentir minha falta – Thalia se aproximou dos dois, os abraçando falsamente – Não fique assim, minha bebê, eu vou te visitar. E vou levar muitos quadrinhos e filmes de terror para a gente maratonar.
— Cala a boca. – Resmungou Annabeth.
Quando tudo estava no carro, entretanto, um aperto no peito de Annabeth a deixou em dúvida. E mais uma vez, ela mentalizou o que estava fazendo, para se mater firme. Deixar Thalia era apenas um dos pontos negativos dessa aventura. Mas Annabeth estava pronta. E tinha certeza de tudo quando o pai acelerou o carro e eles iniciaram a viagem ao som de Highway to Hell.
***
Annabeth colocou a mochila nas costas e fechou a porta do carro. Olhou de cima embaixo a belíssima construção contemporânea que servia de casa para sua mãe. Varandas enormes compunham uma fachada cheia de volumetrias. Perfis de led destacavam o forro amadeirado. Vegetações estrategicamente postas em pontos específicos.
Não era o estilo de Annabeth. Talvez nem era o de sua mãe, na verdade. Mas funcionava, dentro daquele bairro, misturando-se e destacando-se ao mesmo tempo. Annabeth riu.
— Uau – seu pai apareceu ao lado dela – Não imaginei que fosse tão grande.
— Não finja que já não veio aqui – Annabeth saiu na frente.
O pai a seguiu.
— Estava de noite.
— Argh – Annabeth balançou a cabeça – Não me conte nada. Eu não quero saber. – Ela virou-se para seu pai – E por favor, não quero ver nenhum envolvimento de vocês. Guarde isso pra vocês, eu não sou obrigada.
— Pode deixar – ele assegurou. – Mas, filha... Eu sei que não deveria te pedir isso, mas...
— Eu não vou ser legal com ela – Annabeth cortou – Já estou fazendo demais por você por aceitar esse relacionamento ioiô de vocês, porque acredito que vocês são adultos e eu não tenho nada a ver com isso. Agora não me peça para fingir coisas...
— Tudo bem, já entendi. – Ele a cortou – É muita coisa para você e eu não quero te deixar chateada. Se concentre em seus estudos e em dar o seu melhor na escola. Lembre que é a escola que sua mãe...
— Se criou? – Annabeth o cortou – Claro que sei. Não se preocupe, papai. Atena não tem do que reclamar de mim, exceto o que ela inventa.
— Sua mãe não inventa...
Mas Annabeth já estava abrindo a porta da frente. Quando avançou porta adentro, deu imediatamente de cara com sua mãe. Ela não parecia muito satisfeita. Seus olhos, frios e cinzentos como os de Annabeth, olharam-na de cima embaixo. Fazia tempo que elas não se viam pessoalmente, e Annabeth podia sentir a mãe analisando sua aparência e como ela estava, quase como um raio X instantâneo. Por um instante, Annabeth imaginou como seria abraçar a mãe, como a maioria das pessoas faziam ao chegar em casa. Entretanto, o que ela fez foi dizer:
— Achei que você estaria trabalhando.
— Você está um caos – sua mãe retrucou – Como pode viajar desse jeito?
— Meu b... Atena – o pai de Annabeth se aproximou das duas – Como está?
Annabeth aprovou a deixa para entrar. Olhou para o pé direito duplo da sala de estar e riu com sarcasmo sozinha enquanto os adultos conversavam.
— Seu quarto é o último do corredor lá em cima, à esquerda – Sua mãe falou para ela. – Só te peço para que o mantenha organizado.
Annabeth subiu as escadas, carregando sua mochila e uma das malas. No final do corredor, uma a porta estava entreaberta. Quando entrou, teve uma surpresa agradável: o quarto não era um projeto chamativo, digno de uma expo. Na verdade, ele era quase igual ao seu próprio, com paredes e detalhes em azul claro, uma janela grande de frente para a cama com cortinas leves e macias, um grande tapete no centro, escrivaninha já montada com alguns materiais escolares. Uma porta para closet e suíte. Era quase como seu quarto em Manhattan, porém uma versão mais aconchegante e planejada para o conforto.
Um detalhe importante que Annabeth percebeu, era que sua cama posta tinha apenas dois travesseiros, o essencial para dormir. Uma memória antiga de sua infância, quando sua mãe a ajudava a arrumar a cama, passou pela cabeça.
“Mamãe, muitos travesseiros deixa a cama mais difícil de arrumar”, ela reclamava.
Alguém bate na porta, a tirando de seus pensamentos.
— E ai? – Seu pai parecia muito animado – Gostou?
— Dá pro gasto – Annabeth falou, jogando a mochila na cama – Não é como se fôssemos ficar pra sempre.
— Ah – ele pareceu desconversar – Que tal pizza hoje?
— Combinado.
***
Não foi pizza. A mãe de Annabeth insistira que saíssem para um jantar formal em um restaurante que ela conhecia. Annabeth não deixou de ficar chateada, porém decidiu que era uma boa oportunidade para colocar seus exercícios de maquiagem em prática.
Para começar, colocou suas lentes de contato novas e, pela primeira vez em anos, viu seu reflexo no espelho sem os óculos. Como era sua primeira vez, sentiu uma leve coceira nos olhos, mas achou que era normal, devido à falta de costume. Ela suspirou e começou a trabalhar. Organizou os tons da pele com suas novas técnicas de colorimetria, mas manteve o acabamento natural. Passou blush, um delineado marrom nas pálpebras para destacar seus olhos, e máscara de cílios. Era incrível a sensação de se olhar no espelho depois de tanta dedicação. Annabeth abriu um sorriso. Havia lavado e escovado seus cabelos ondulados, mas haviam ficado muito escorridos, então ela deu acabamento com o babyliss que havia comprado no dia anterior. De roupa, achou um vestido branco que havia ganhado em um dos seus antigos aniversários. Ela o vestiu e serviu perfeitamente.
— Uau – seu pai entrou no quarto – Quem é você e o que fez com minha filha Annabeth?
— Eu só a pintei. – disse Annabeth.
— Incrível – ele disse – Não sabia do seu dom para maquiagem também. Devo me preocupar com algum amigo do sexo masculino? – ele parecia brincalhão.
O garoto do Empire State apareceu em sua cabeça. Annabeth coçou os olhos.
— Não – ela gaguejou. Pegou seu sobretudo sobre a cadeira da penteadeira e o vestiu – Quero dizer, não mesmo. Uma menina não pode se maquiar para se sentir bem?
— Você tem toda a razão – ele concordou. – Mantenha esse pensamento até os 25 anos.
O pai a tomou nos braços e a levou para a garagem. Sua mãe já estava lá aguardando, ansiosa, como se estivessem super atrasados.
— Isso é uma grande surpresa – ela falou, olhando para Annabeth.
— Ela não está cada dia mais linda, Atena? – sorriu seu pai.
— Não seja ridículo – Annabeth o cortou, enquanto coçava os olhos sem perceber – Vamos logo.
Entraram no carro e se dirigiram ao restaurante. Era um local bem chic, daqueles que Annabeth via nos filmes e ficava se perguntando do preço das refeições. Hoje ela descobriria tudo isso. Ficou parcialmente animada, mas também ficou incomodada com sua mãe querendo exibir a fortuna para impressioná-la. Torceu o nariz pensando nisso e entrou no restaurante com seu pai. Um homem pegou seus casacos na entrada e o guardou, pois o local era climatizado.
— Boa noite, sejam bem-vindos – Um recepcionista os atendeu no balcão – Como posso ajudá-los? Gostariam de uma mesa ou já tem uma reserva?
— Temos uma reserva – a mãe de Annabeth deu um passo à frente – Atena.
— É um prazer revê-la, Sra. Atena – disse a recepcionista. – Sr. Jackson, poderia acompanhar a família Chase até a mesa 14? – ela chamou a um homem que estava de costas próximo as eles, o mesmo que levara seus casacos.
— Claro – ele se virou para a frente. Annabeth viu que se tratava de um garoto, não um homem mais velho. Usava uma máscara e boné preto, e um avental por cima do uniforme do restaurante – Me acompanhem, por favor.
Annabeth, por um instante, parou. Sensação de déjà vu, ela sentiu. O garoto os acompanhou até a mesa, deixou os menus e se afastou alguns metros, enquanto aguardava eles escolherem a refeição. O jantar era tão caro quanto Annabeth imaginava. Porém, era tão delicioso quanto quando chegou.
— Ah, Atena – comentou seu pai, tentando puxar algum assunto – Muito obrigada pelo jantar, está maravilhoso.
— Por nada – ela disse, enquanto cortava um bife de seu prato – Venho aqui com frequência. Podemos vir mais vezes.
— Metida – resmungou Annabeth.
— Que?
— Nada.
— Bom – o pai de Annabeth interveio – Eu também conheço bons restaurantes aqui em Long Island. Vou trazê-las da próxima vez.
— Não precisa se preocupar com isso por enquanto – Atena falou, de um jeito até suave – Estarei ocupada nas próximas semanas e vou para a Califórnia em alguns dias para visitar um projeto em andamento. E Annabeth vai estar nos primeiros dias de escola, vai precisar se concentrar pra ter um bom resultado na Goode.
Annabeth suspirou.
— Que jeito delicado de dizer que não gosta dos rolês do papai. – ela falou, deixando o garfo e a faca na mesa – E você não precisa se preocupar com meus estudos nessa idade, depois de tantos anos. Eu sei como me dar bem na escola.
— Se dar bem? – Atenna sorriu, quase como um deboche. – Acha que notas é a única coisa que conta em uma escola como a Goode?
— Eu sei exatamente o que preciso fazer. Dispenso conselhos maternos.
— Annabeth... – alertou seu pai.
— Eu vou ao banheiro. – Annabeth se levantou.
Seus olhos estavam coçando ao ponto de saírem lágrimas agora. Ela correu para tirar a lente no banheiro, antes que algo pior acontecesse. Seus olhos lacrimejavam muito nesse momento, mas agora não era somente a coceira da lente. Era o choque de perceber onde tinha se enfiado. Que deveria aguentar o descaso e as implicâncias de sua mãe, que tinha escolhido passar por isso. Uma ponta de arrependimento começava a se formar em seus pensamentos. Onde ela fora se meter?
Ela conseguiu beliscar os olhos no processo de tirar as lentes. Estava irritada e impaciente e não tinha se atentado que mal sabia tirar uma lente. Seus olhos arderam e sua primeira reação foi lavar o rosto para aliviar. Ali percebeu o que havia feito. O choro parou, e de repente começou a sentir um medo involuntário de ser vista sem sua maquiagem, com seu rosto vermelho. Ela enxugou o rosto com papel toalha. A maquiagem havia saído completamente.
— Qual é...? – ela resmungou.
— Mocinha, está tudo bem? – chamou uma voz de mulher do lado de fora – Te vi entrando no banheiro com pressa, queria saber se aconteceu alguma coisa.
— Eu estou bem. – Ela conseguiu dizer.
— Qualquer coisa, estamos à disposição.
Annabeth procurou se acalmar. Não havia trazido nenhuma maquiagem, pois não tinha o costume de carregar bolsas. Ficou frustrada por não ter pensado nisso antes. Ela recolocou a lente de contato em seus olhos e se dirigiu a recepção de cabeça baixa.
— Boa noite, eu estava na mesa 14, consegue me entregar meu casaco?
— Claro – uma voz masculina respondeu. Ela viu o vulto da pessoa se mexendo, como se estivesse tentando olhar seu rosto. – Só um momento.
— Obrigada.
Ela esperou impaciente, mas tentou se manter tranquila. Uma brisa fria vinha do lado de fora. Annabeth abraçou-se para melhorar o frio, pensando em como um moletom seria muito mais confortável nesse momento. O recepcionista retornou com seu casaco. Ela tentou vesti-lo, mas estava segurando seu celular e com a cabeça baixa ao mesmo tempo.
Sem que nem pedisse, o garoto da recepção ergueu levemente a gola do sobretudo, para que ela conseguisse colocar os braços.
— Muito obrigada – ela falou, desajeitada – Minha mãe e meu pai ainda estão lá, eles devem pagar a conta. Estou indo.
— Você vai sozinha? – perguntou o recepcionista, quase preocupado.
— Ah... – ela pensou sobre o que poderia dizer. Não poderia dizer a um homem aleatório que estava sozinha – Não, meu... meu namorado está lá fora. Vou indo.
— Espera – ele tirou o boné da própria cabeça e colocou na dela. Annabeth olhou rapidamente para ele. Uma cabeleira negra e bagunçada tentava cobrir os olhos do garoto, verdes como o mar – Está serenando lá fora. Vá com cuidado, tenha uma boa noite e vá com cuidado. – Ele falou, formalmente.
Annabeth desviou o olhar e apenas saiu. Pegou o primeiro taxi que encontrou e voltou para casa da sua mãe. Chegou em seu quarto já tirando o boné e jogando em cima da cama, sentou-se na escrivaninha e, com calma, aprendeu a tirar as lentes de contato. Depois disso, fez a limpeza correta do rosto, trocou de roupa, colocou um pijama bem confortável e deitou-se na cama.
Estava exausta. Chateada com como a noite tinha acabado. Não queria ter perdido o controle, quanto mais no primeiro dia de mudança. Ela olhou para o lado e viu o boné que o recepcionista lhe emprestara. Ficou pensando como, de repente, ela tinha duas peças de dois garotos diferentes em seu quarto, quando a menos de um mês, mal tinha chegado perto de meninos.
Annabeth pegou o notebook e se colocou novamente a estudar. “Como deixar sua maquiagem a prova d’água, choro e suor”. Passou algumas horas estudando sobre isso. Alguém bateu em sua porta. Annabeth fechou o notebook e ficou em silencio. Tinha medo de sua mãe já ter vindo lhe dar um esporro. Para sua alegria, era seu pai, com uma caixa de pizza na mão.
— Oi, tenho uma entrega – ele sorriu.
Annabeth não resistiu em sorrir também. Levantou-se da cama correndo, como uma criancinha e se serviu de uma fatia de pizza de pepperoni. Estava morrendo de fome, pois abandonara o jantar no meio do caminho.
— Não acho que você esteja merecendo essa satisfação toda – falou seu pai.
— Você nunca deixaria sua filha passar fome.
— Ah, ela sabe se cuidar – ele deixou a caixa de pizza em cima da escrivaninha e se sento na cadeira – E aí, quer conversar?
Annabeth se concentrou apenas desfrutar do seu alimento.
— Claro que não quer – ele continuou – Olha, Annabeth... Eu preciso que você seja mais tolerante. Sua mãe cometeu erros. Mas você não pode deixar de respeitá-la.
— Eu sei – ela disse quando acabou o lanche – Mas ela também precisa entender que cometeu erros, e que é difícil para mim também.
— Eu tenho certeza de que posso conversar com ela sobre isso.
— Então estamos resolvidos – Ela pegou a caixa de pizza e ofereceu ao pai – Pegue a sua parte. O restante é meu.
Annabeth saiu para comprar seu uniforme no sábado pela manhã. Também passou no shopping e comprou alguns produtos a prova d’água, acessórios e duas bolsas, para usar quando saísse. Andando no shopping, enquanto caminhava, passou em frente uma loja de sapatos na promoção. Annabeth olhou para seus tênis: estavam gastos, mas limpos, porém não parecia que, depois de toda a arrumação, era um calçado que combinaria com sua nova rotina. Lembrou-se de suas sapatilhas novas em casa e pensou se seria um desperdício. Mesmo assim, entrou na loja.
Na segunda, Annabeth acordou bem cedinho para se arrumar. Passou bastante fixador de maquiagem quando estava pronta, vestiu o uniforme escolar novo e seu novo par de mocassins modernos, com meias ¾. Colocou em sua mochila nova e delicada cadernos, estojo com materiais, um livro para pausas entediantes e uma necessaire com algumas maquiagens reserva para emergências. Ela se olhou no espelho com orgulho de sua nova imagem.
— Nada de falar de quadrinhos – ela começou a listar em voz alta. Tinha feito uma lista de assuntos proibidos, tudo que pudesse passar qualquer imagem de estranhesa nas pessoas – Nada de bandas de rock ou filmes de terror. Não se empolgar demais em falar de arquitetura. Não brigar na aula de história – essa era pesada pra ela, ser filha de professor de história fazia ela ter conhecimentos estranhos – e tentar sorrir mais. – ela se olhou no espelho mais uma vez e fez joinhas com as duas mãos – Tranquilidade. Você consegue! – ela falou um pouco alto demais no final.
— O que está acontecendo aqui? – sua mãe apontou na porta do quarto.
Elas não conversaram direito desde a sexta a noite e o clima ainda estava estranho.
— Nada – Annabeth se recolheu.
— Arrume esse quarto – falou Atena, antes de sair.
Annabeth esperou os passos de sua mãe sumirem no corredor e se adiantou em ir pra escola. Diferentemente da escola de Clariton, que era um pouco longe de sua casa, para a Goode, Annabeth poderia usar o ônibus escolar. Não que fosse o melhor dos transportes, mas ela não era mimada o suficiente para insistir em ir de carro para um local tão perto.
Antes de entrar no ônibus, ela respirou fundo. Para a sua surpresa, ela recebeu um bom dia bem agradável do motorista e diversos olhares dos garotos do ônibus. Percebeu como abriam o espaço para ela passar. Perguntaram o seu nome, embora ela não respondesse ninguém. Seguiu pelo corredor até o final do ônibus, onde se sentou em um banco sozinha, na janela. Agradeceu a brisa da janela aberta, com medo de começar a suar de nervosismo. Tirou a um espelhinho da mochila e conferiu se tudo estava certo com seu rosto. Sorriu feliz com a durabilidade do fixador e guardou o espelho.
Já na escola, Annabeth se encaminhou direto para a secretaria. O local era de fácil acesso e bem sinalizado, o que a ajudou a não se perder e nem precisar pedir ajuda a ninguém. Enquanto caminhava, sentiu mais olhares sobre ela e chegou a escutar alguns comentários.
Ela é nova aqui?, ouviu de uma voz feminina. Nossa, ela é tão bonita!, disse uma voz feminina. Que gata!, falou uma voz masculina. Parte de Annabeth ficou satisfeita com as reações. Parte dela ficou desesperada por essa atenção, pensando se sempre seria assim e o quanto isso a faria ficar incomodada no longo prazo. Mesmo assim, ela tentou não se abalar e seguiu seu caminho com uma expressão serena e confiante.
Na secretaria, após ela cumprimentar a todos com um bom dia, um homem de cadeira de rodas se aproximou dela.
— Olá, querida – ele cumprimentou – Você deve ser Annabeth, certo? – ela assentiu – Fiquei feliz quando descobri que uma menina com tanto prestígio escolar estudaria com a gente. Seus anos em Clariton foram bons?
— Ah – Annabeth pensou no que dizer – Foram ótimos.
— Excelente – ele sorriu. Tinha olhos agradáveis e uma barba por fazer. Tinha um ar sábio e tranquilo e parecia que poderia responder todas as suas perguntas – Sou Quíron, professor de literatura, mas atuo também na coordenação. É um prazer conhecê-la.
— Igualmente, senhor – Annabeth aceitou a mão que lhe foi estendida.
— Aqui está seu horário – ele lhe entregou uma folha com anotações – Gostaria de poder levá-la até a sala de aula, porém tenho outro compromisso nesse momento. O representante da sua turma é Jason Grace, que não está aqui no momento – Quíron virou-se para trás – Ah, Percy? Consegue levar Annabeth até a sala de aula?
Annabeth não havia reparado, mas na parte de trás da mesa de Quíron, havia um garoto com a cabeça abaixada na mesa entre os braços, dormindo.
— Percy – Quíron chamou novamente – já está na hora da aula – e lhe jogou uma caneta estereográfica na cabeça. Percy levantou a cabeça, meio perdido. Estava com uma cara cansada e Annabeth se segurou para não rir ao ver um pouquinho de baba no canto da boca dele.
— Bom dia, senhor – ele bocejou. Esfregou a manga no casaco no rosto. Pegou a caneta estereográfica e destampou, meio que automaticamente. – Posso pegar? Não sei se eu trouxe caneta hoje.
Quiron suspirou, como se isso acontecesse sempre.
— Claro – ele falou, exausto – Poderia acompanhar Annabeth até a sala de aula? Ela estudará com você a partir de hoje.
Foi a primeira vez que Percy fez contato visual direto com Annabeth. Ele a analisou por alguns segundos, que pareceram uma eternidade. Annabeth já estava achando que ele também a achara bonita e ia fazer algum comentário sobre isso. Porém, ele virou-se para Quíron e perguntou.
— Eu sou obrigado?
— Sim, você é – cortou Quíron imediatamente, com seu sorriso tranquilo.
Percy suspirou e se levantou. Esfregou o rosto com as mãos e bagunçou ainda mais os cabelos escuros. Por fim, colocou a caneta no bolso e manteve as mãos lá enquanto caminhava até a porta da saída. Annabeth analisava esse comportamento fascinada. Ah, então é assim que um garoto adolescente encrenqueiro se comporta na escola?, ela pensava. Percy parou na porta da secretaria e olhou para trás, diretamente para Annabeth.
— Você vem? – disse ele, olhando diretamente nos olhos dela. Annabeth olhou para os dele também. Eram verdes como o mar.
Lembrou-se de uma das regras que passou consigo mesma hoje cedo e abriu seu maior sorriso.
— Sim – ela falou – Vamos lá.
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