Projeto: Eu (true beauty)
2 Cap. 02 - Representante.
Notas iniciais
Ao contrário do que imaginava, Annabeth não conseguiu se acalmar. No dia seguinte, tentou ajeitar com naturalidade seus cachos em seu habitual rabo de cavalo, imaginando se isso não ajudaria a ser menos ridicularizada de longe. Assim que chegou na escola, entretanto, Drew foi a primeira a visualizar seu esforço e fazer um comentário indesejado.
— Hm, olha ela tentando dar uma ajeitada no cabelo – falou alto, enquanto andava com sua quadrilha de amigas – Pobrezinha, não adiantou de nada.
Dessa vez, Annabeth tentou ignorar. Mas seu dia já estava condenado.
Na quarta-feira, dia da prova da Representante de Clariton, Annabeth estava uma pilha de nervos. Mais cedo que de costume, desceu as escadas de sua casa correndo pela manhã, apanhou um sanduiche saudável que seu pai deixava sempre pronto na geladeira e saiu correndo. Ao entrar na garagem, seu pai estava falando ao telefone.
— Eu sei, Atena – ele falava – Mas ela não quer ir. Não vou obrigá-la a fazer nada que ela não quer. – Uma pausa para ouvir a resposta no telefone – Sim, sim. Mas não é do feitio de Annabeth mudar de ideia, você sabe disso. Ela é muito decidida em suas opiniões, igual você – seu pai deu um sorriso.
Annabeth parou por um instante. Sorrindo?, pensou. No telefone? Para a mamãe? Isso é um mal sinal. Sem coragem para continuar ouvindo a conversa no carro escondida, Annabeth saiu da garagem e decidiu pegar um ônibus para a escola.
Ela ficou se perguntando o que estava acontecendo. Não conseguia acreditar que novamente seu pai estava caindo nos encantos de sua mãe. Ele prometera pra Annabeth que tinha sido a última vez, cinco anos atrás. Sua mãe chegara até a voltar para casa deles por coisa de dois meses, antes de encontrar algum projeto superfaturado diferente e sumir pelo mundo, abandonando os dois. Ficava se perguntando que tipo de argumento ela usava contra ele.
Dependência emocional, ela pensou. Assim que eu entrar na campanha de Representante, vou levar papai no psicólogo.
Achou que tinha conseguido resolver o problema na sua cabeça, mas a ideia ficou perturbando-a durante o dia. O coração de Annabeth não parava de acelerar do nada. Na porta da sala da prova, Annabeth bateu de cara com Drew.
— Nerd? – Drew parecia surpresa – O que você pensa que está fazendo aqui?
— Hm? – ela ajeitou os óculos – A prova – apontou para a sala, tentando retomar a compostura.
Drew sorriu com muito sarcasmo.
— Meu bem, aqui é a sala pra avaliação de representante – Drew explicou – Não é a biblioteca.
Annabeth respirou fundo. Não era um bom dia para Drew e suas gracinhas.
— Me dá licença. – e entrou na sala. Drew veio atrás dela, um sorriso enorme no rosto.
— Nerd, nem perca seu tempo fazendo essa prova. Representante é o rosto da escola, não o cérebro. E rosto certamente não é com você, meu bem.
— Não seja ridícula – Annabeth se sentou – Não havia nada sobre rosto no edital.
Drew riu com gosto.
— Minha querida, sinto muito lhe informar, mas essa vaga já é minha. Não importa o quão inteligente você seja. Se você não tiver carisma e beleza, você não vai ganhar. E certamente esse vai ser o seu caso, ainda mais competindo comigo. Saia da sala enquanto você tem tempo.
Annabeth hesitou por um instante.
— Você está errada.
— Pobrezinha – Drew fez carinho na sua cabeça – Vamos ver então. Quer apostar?
O coração de Annabeth deu uma palpitada. Podia sentir seu rosto queimar. Uma forte onda de ansiedade a pegou de surpresa, e tudo o que Drew disse dias atrás começou a bater com força. Somado a atual situação com seu pai, ela sentia que podia perder o controle a qualquer momento.
Foi difícil se concentrar na prova. Annabeth saiu da sala derrotada. Tinha se autossabotado em sua maior garantia de vitória, a prova de conhecimentos gerais. Se a entrevista de sexta-feira fosse malsucedida, suas chances de vencer Drew estariam arruinadas.
Thalia a esperava do lado de fora da sala.
— Annie, minha linda – Thalia a abraçou – Como foi a prova? Tenho um presente para você – ela desembalou uma pequena lembrancinha e colocou na mão de Annabeth – É uma paleta do Angus – Thalia estava animada.
Annabeth praticamente esqueceu dos seus problemas.
— Como você conseguiu isso? – ela gritou bem alto, abraçando Thalia.
— Meu primo – ela respondeu – Ele me vendeu por 100 dólares. Achei que você merecia.
Annabeth brincava com Thalia apertando as bochechas da amiga e a agradecia, enquanto as pessoas saiam da sala. Drew parou para ver a confusão.
— Vocês podem ser esquisitas em outro local? – murmurou. E viu a paleta na mão de Annabeth, uma caveira sinistra estampada nela – Meu Deus, que gosto esquisito... Enfim – deu de ombros – Nos encontramos na entrevista, nerd. Vai ser maravilhoso ganhar de você. – E saiu.
— Eu te avisei, Chase – falou Thalia, mais tarde – Que esse negócio de representante era ridículo, principalmente sabendo que Drew está interessada na vaga.
— É um excelente currículo – Annabeth se defendeu – Minha futura profissão exige o mínimo de popularidade. Achei que seria uma boa ideia, uma chance de virar o jogo ao meu favor.
— Annie, você já é muito popular. Todo mundo sabe quem você é.
— Sim, sou a garota feia e inteligente, amiga de Thalia Grace.
Thalia lhe deu um tabefe na cabeça.
— Não seja ridícula.
Na sexta pela manhã, Annabeth se olhava no espelho. Havia tentado engomar bem o uniforme para parecer uma excelente aluna. Suas unhas estavam curtas, porém limpas. Sua sapatilha era nova, praticamente brilhava. Entretanto, ela não estava segura. Seus óculos não pareciam limpos o suficiente. Seu rosto parecia muito manchado. A sobrancelha estava por fazer.
Suspirou alto e de dirigiu as gavetas do quarto em busca de alguma coisa que poderia ajudar. Na última das gavetas de bagunça de sua escrivaninha, encontrou um batom antigo de quando era criança. Imaginou que, nessa altura do campeonato, o produto não estava das melhores qualidades, mesmo assim o destampou e o passou nos lábios. A cor não era nada madura, um tom de rosa chiclete que transmitia infantilidade. Mesmo sabendo que não parecia nada natural, Annabeth passou o pulso no batom e o esfregou em suas bochechas, como uma espécie de blush. Assim, sem pensar muito, correu para a escola.
Assim que chegou, Thalia a olhou estranho.
— Annie – perguntou – Mas o que é isso?
— Isso o que? – Annabeth fingiu que não sabia do que Thalia estava falando.
— Bem... – Thalia passou a mão em frente o rosto dela. Sua expressão era de preocupação. – É que eu nunca te vi com maq...
— Grace, tenho que ir – Annabeth se apressou em dizer – Já tá na hora da entrevista. – e saiu correndo.
— Boa sorte – Thalia mal teve tempo de dizer.
Annabeth correu para o cômodo onde seriam executadas as entrevistas. Havia 10 garotas esperando do lado de fora da sala, incluindo Drew Tanaka. Ela nem se importou em segurar a risada quando Annabeth se aproximou. As meninas que ali estavam também pareciam alarmadas ao vê-la, segurando a risada também.
— Meu Deus, nerd – Drew ria – O que você fez?
Annabeth ignorou.
— Não vai me dizer que você acha que está bonita assim? – Drew não conseguia se segurar – Realmente, não tem como dizer que você é chata. Nunca imaginei que você me divertiria assim.
— Meninas, poderiam entrar – chamou a coordenadora da escola, abrindo a porta da salinha.
Todas as meninas entraram na sala. Annabeth conseguia sentir o seu rosto quente de vergonha. Que ideia idiota, pensou. De onde tirei que isso iria melhorar algo? Sentou-se em uma das cadeiras disponíveis. A coordenadora encarou-a bem, e teve uma reação quase de susto. As outras garotas cochichavam entre si. Drew mal conseguia segurar o riso.
— Então, como vocês sabem – A coordenadora, sentada numa mesa principal da sala, começou a falar – Vocês estão aqui para assumir o cargo de representante escolar. Essa é uma modalidade teste que estamos implantando esse ano e tivemos muitas inscrições, por isso tentamos eliminar concorrentes que não alcançassem uma média mínima de pontos de inteligência. Se vocês estão aqui é porque bateram essa meta, porém apenas nota não é suficiente para esse cargo.
Ai não, pensou Annabeth.
— Vocês serão o rosto da escola. A pessoa que os outros alunos vão olhar e utilizar como espelho. Devem ser boas alunas, sim, mas devem ser desenroladas, possuir network, saber lidar com as demandas escolares além da sala de aula. Por isso, nessa última fase, vamos avaliar o carisma e habilidades sociais.
Drew, que estava do outro lado da sala, olhou novamente para Annabeth. Sua expressão era clara: eu avisei. A confiança de Annabeth, já pequena, ficou quase inexistente.
— Vamos começar com apresentações simples – a coordenadora continuou – A pessoa chamada vai vir aqui na frente. Vou fazer alguns comentários e perguntas. Tente responder tranquilamente, pois suas colegas vão avaliá-la também. Lembrando: aquela que ganhar aqui, vai ser a representante de todas presentes.
As meninas começaram a ajeitar os cabelos, alisar as roupas e aquecer a voz.
— Annabeth Chase – chamou a coordenadora – Pode chegar aqui, por favor.
Ah, não. Ela pensou. Não queria ser a primeira. Não sabia o que esperar dessa entrevista. Drew olhava pra ela com desdém. Arqueou as sobrancelhas, desafiando Annabeth a se levantar. Mesmo com as pernas tremendo, ela se levantou e foi até a frente. As meninas voltaram a murmurar.
— Então, Annabeth – começou a coordenadora – Como está se sentindo?
— Bem, eu acho – a voz de Annabeth saia trêmula.
— Não fique nervosa – continuou a coordenadora – Afinal, você foi a primeira colocada de nossas provas escritas. Sempre teve excelentes notas e está numa ótima colocação no ranking geral da escola. Me parece uma boa representante.
— Muito obrigada – Annabeth conseguiu abrir um sorriso.
— Meus parabéns pelo desempenho. Porém, como eu já disse, o cargo de representante exige mais do que isso. Consegue expressar com voz alta algumas características suas que possam manter sua posição além das notas escolares?
Annabeth pensou por um instante. Ela era Annabeth Chase, filha de pais divorciados com recaídas. Seus hobbies incluíam quadrinhos de terror, clube de matemática, fazer cursos de arquitetura, bandas de rock. Gostava mais de doces do que deveria. Tinha uma única amiga: Thalia Grace, uma das meninas mais problemáticas da escola. Além do excelente currículo acadêmico, ela tinha poucas coisas para se orgulhar.
Suas mãos começaram a suar e Annabeth começou a esfregá-las com força. Seu coração começou a palpitar novamente, dessa vez acompanhado por uma falta de ar forte. Seu ouvido começou a tocar um zunido agudo. Uma crise de ansiedade, ela pensou. Não, agora não...
As meninas começaram a murmurar. Drew ria.
— Annabeth? – chamou a coordenadora – Annabeth, está tudo bem?
— Temos uma eliminada? – Drew se apressou em comentar – Eu não quero ser representada por uma pessoa que mal consegue falar.
Os olhos de Annabeth começaram a arder. Uma lagrima fujona desceu pelo seu rosto.
— Eu avisei, nerd – Continuou Drew – Ser representante é muito mais do que só ter um cérebro gigante.
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