Projeto: Eu (true beauty)
1 Cap. 01 - Clariton
Notas iniciais
Segunda feira.
Era mais um dia tranquilo para Annabeth. Nada de novo havia acontecido em sua vida nos últimos 2 anos de ensino médio. As notas estavam sempre impecáveis. As atividades extracurriculares estavam em dia. Nenhum namorado ou ficante nos últimos anos. A lista de cursos de arquitetura apenas aumentava na sua caderneta. Todos os seus quadrinhos preferidos de terror estavam lidos e todos os álbuns de punk rock e heavy metal estavam decorados.
Exceto por uma coisa. Annabeth se olhou no espelho. Havia uma nova espinha aparecendo no canto esquerdo do nariz. Seu rosto estava um pouquinho mais avermelhado que o normal. O cabelo, sempre preso num rabo de cavalo desleixado, apertava seus cachos louros de maneira desordenada e sem valorizar as curvas. Os grandes óculos de armação pesada escondiam seus olhos cinzentos. O uniforme da nova escola também não ajudava muito a valorizar a imagem que ela via.
Annabeth não era uma pessoa necessariamente vaidosa. Mas os últimos comentários escutados no corredor do colégio estavam deixando-a incomodada. Ela devia se arrumar mais, eles falavam. Como que vindo de uma família tão rica, ela vem tão desarrumada pra escola?, escutou outro dia. Nem maquiagem salva ela dessa personalidade terrível. O clima já estava meio pesado até ela escutar: ouvi falar que a mãe dela não é presente, deve ser por isso que ela não sabe se arrumar e se comportar.
Annabeth odiava pensar que sua mãe era a causa de mais um problema em sua vida.
Naquela manhã, Annabeth não sentia fome. Pegou as chaves do seu carro – um excelente presente do pai aos 16 anos – e foi diretamente para a escola. No próprio estacionamento, ela já encontrou Thalia, sua melhor amiga.
Thalia não era como a maioria das meninas da escola particular Clariton. Thalia não usava o uniforme completo: normalmente apenas a saia da escola – ou algo de couro que ela tenha achado legal no dia – uma regata branca e sua tradicional jaqueta de couro. Seu cabelo preto, curto e repicado não batiam com a perfeição dos penteados delicados que as meninas costumavam usar. Ela seria um alvo fácil de comentários desagradáveis senão por um detalhe importante: Thalia era uma menina extremamente bonita. Seus olhos eram de um azul tão gélido que chamavam mais atenção do que qualquer roupa gótica que ela gostasse de usar. As leves sardas no nariz traziam ao seu rosto uma delicadeza estonteante, mesmo que os coturnos de sola tratorada quebrasse um pouco do clima.
Annabeth acenou para ela.
— Bom dia, Srta. Grace. – disse sorrindo.
Thalia revirou os olhos.
— Annabeth, é segunda-feira. Maneire no seu humor forçado.
— Não consigo ficar de mal humor perto de você – disse Annabeth – Você é um refresco na minha vida.
— Para de contar mentira, Chase – retrucou Thalia – Semana passada você me mandou tomar naquele lugar porque não havia o lanche que você gostava no refeitório.
As duas seguiram para o corredor das salas de aula. Seguiam brincando e rindo como quem não está sendo observado, e já encontrariam a delas, mas não sem antes trombar com Drew Tanaka.
— Argh, meu dia seria melhor se não tivesse que fazer contato visual com a pessoa de vocês! – ela falou de relance, sem de fato olhar para elas.
Drew era a personificação dos padrões de beleza. Sua pele era bonita — os traços asiáticos eram incomparáveis mesmo -, seu rosto, seu cabelo longo e escuro, seu corpo, sua maquiagem, até o uniforme terrível do colégio Cleriton ficava bonito nela. Mas tudo se acabava quando ela decidia colocar em prática sua personalidade passiva agressiva.
— Já te mandaram ir para o inferno hoje? — Thalia respondeu sem sequer olhar para ela, o que fez Annabeth sorrir – Se não, será que você poderia...?
Annabeth, ainda com seu sorriso involuntário, olhou para Drew. Ela não parecia impressionada ou atingida. Olhava para Annabeth com puro desdém.
— Eu também acharia engraçado se tivesse uma amiguinha pra me defender – disse ela.
Por um segundo, o corredor ficou mais silencioso do que deveria. Annabeth sentiu um formigamento na orelha, como se ela estivesse esquentando. Por um segundo, ela pensou sobre si mesma: Será que só acho graça dos comentários de Drew porque Thalia está aqui pra lidar com ela no meu lugar? Será que ela acha que sozinha, não dou conta?
Thalia parecia ter pensado a mesma coisa.
— Não seja ridícula, Tanaka – se apressou em dizer – Annabeth acaba com você em um segundo.
— Ah, é? – Drew se aproximou de Annabeth, que se encolheu – Vamos lá, Nerd. Manda a ver.
Annabeth pensou que sabia se defender. Mas, naquele momento, sua boca ficou seca e nenhum comentário saiu. Drew riu e, naquele momento, percebeu como ela era um alvo fácil pra atormentar quando estivesse sozinha.
— Me diga, nerd – ela falou, cruzando os braços – Quanto tempo levou pra você se sentir apresentável hoje?
Incomodava Annabeth o fato de Drew ser sagaz. Sua insegurança e ansiedade bateram forte. Pela manhã, Annabeth ficou minutos se olhando no espelho, apenas questionando sua aparência, mas não fazendo nada a respeito. Afinal, ela não sabia o que fazer. Dizer que não se preocupa com isso poderia dar deixa para Drew lhe chamar de desleixada. Dizer que passou muito tempo se arrumando e o resultado foi, bem, esse, significava que ela era um caso perdido. O desespero, porém, a fez encontrar sua voz.
— O suficiente para não depender da opinião dos outros pra existir.
— Qual é, Nerd – riu Drew. As meninas do corredor começavam a andar lentamente para escutar a conversa. – Não banque a moralista. Isso aqui é Clariton. Vivemos para aparência. Você deveria cuidar mais da sua. – e continuo rindo.
Annabeth se embolou um pouco para responder.
— Eu venho a escola para estudar.
— Ai, que gracinha, sua mãe deve estar orgulhosa – Drew colocou as mãos nos ombros dela – Ops, fiquei sabendo que a sua te abandonou pra curtir a vida. Deve ser por isso que você não sabe se arrumar.
Thalia se enfiou na frente das duas, empurrando Drew.
— Você é uma ridícula!
— Retira o que você disse – Annabeth tornou a ficar na frente de Thalia. Seus olhos ardiam – Retira o que você disse AGORA! – gritou para Drew.
O sinal da aula tocou. Drew vencera, seu rosto apresentava um sorriso realizado.
— Ops, não sabia que ia ficar magoada – falou falsamente – Mas não estou mentindo, então isso vai mudar o que? – ela apertou o ombro de Annabeth e saiu andando.
Annabeth soltou o ar que nem sabia que estava segurando. Sua cabeça rodava pensando como que tinha deixado a situação chegar nesse ponto. Se tivesse apenas ignorado o bullying, não teria precisado escutar tantos gatilhos? Mas porque ela ouviria apenas calada? Por que tinha que aceitar coisas ruins para viver em paz? Porque...
— Annie? – Thalia a sacudiu – Tá tudo bem?
— Hm? – Annabeth piscou, fugindo de seus pensamentos – Está tudo sim.
— Não liga para o que ela falou – disse Thalia – Ela é uma megera. A função dela é fazer terrorismo social.
— Eu sei – Annabeth sorriu – Vamos para a sala.
Annabeth agarrou o braço de Thalia, que protestou no começo, e juntas foram para suas salas. Ela tentou manter a concentração e o foco nas atividades, mas sua cabeça não parava de voltar a discussão de mais cedo. Alguma coisa estava se quebrando dentro de Annabeth. Um sentimento terrível, que ela nunca havia sentido, estava começando a dominá-la.
No final da aula, ela e Thalia se encontraram na saída.
— Cineminha hoje? – perguntou Thalia – Tem um filme de terror que estreou esse fim de semana e quero assistir.
— Não posso – Annabeth suspirou – Preciso estudar. Tenho a prova e a entrevista pra campanha da Representante de Clariton é nessa semana. Não posso perder essa oportunidade pro meu currículo.
— Meu Deus, que chatice – resmungou Thalia – Por que você ia querer representar essa escola ridícula? Acho que vou ver com meu primo, então. Meus tios da Califórnia estão na cidade.
— Ah, que gracinha, ela vai levar o priminho no cinema – Annabeth apertou as bochechas de Thalia.
— Não seja ridícula, ele tem nossa idade – Thalia tirou as mãos dela do rosto – Acho que é uma das poucas pessoas que conheço que tem o gosto parecido com o nosso.
Annabeth riu.
— Sinto muito, amiga, eu passo. – Ajeitou sua mochila nas costas – Vou indo então.
Em casa, Annabeth tentava repor a matéria que não havia conseguido prestar atenção nas ultimas horas. A prova para representante não era difícil, mas contava pontos para a seleção. E como esse era o ponto forte de Annabeth, ela não queria ir menos que perfeita nessa fase. Por um tempo, conseguiu se distrair e concentrar. Então seu pai chegou em casa e foi direto para seu quarto.
— Oi, minha linda – Ele disse abrindo a porta – Como foi seu dia?
— Oi pai – Annabeth respondeu, sem nem mesmo tirar os olhos do papel em que escrevia – Foi ótimo, e o seu?
— Foi tão bom quando o seu.
Nossa, então seu dia foi péssimo, pensou ela. Seu pai se aproximou e colocou um presente em cima da folha onde ela escrevia. Isso a fez parar. Era uma embalagem em formato de livro, amarrada com um laço vermelho. Annabeth sorriu imediatamente. Levantou e abraçou o pai.
— Não acredito que conseguiu! – ela exclamou, e já se adiantou em desembrulhar o pacote – Onde comprou?
Era uma versão antiga e autografada do quadrinho de terror favorito de Annabeth, Deuses e Demônios. O escritor original havia falecido fazia anos, mas até hoje havia uma sequência da saga. As cenas favoritas de Annabeth estavam no material original escrito por ele, e seu sonho era conhecê-lo quando era pequena, até que seu pai a explicou que ele já havia falecido e ela chorou muito. Desde então, ele procura uma versão autografada para ela se sentir melhor. Vários presentes de quadrinhos chegaram em sua mesa ao longo dos anos, mas todos com o grande laço azul. Seu pai havia combinado que, quando encontrasse o exemplar, ele mudaria a cor. E esse dia chegou.
— Você sabe que eu sou um mestre da internet agora – o pai de Annabeth se sentou em sua cama – Então utilizei minhas habilidades geniais para encontrá-lo.
— Você está falando daquele post que você reposta toda semana num grupo de quadrinhos no facebook procurando pelo exemplar?
— Assim você faz parecer pouca coisa. – ele riu – E então? Você está feliz?
— Muito, muito, muito – Annabeth abraçava o quadrinho. Fez uma pausa apenas para folear o exemplar e identificar o autógrafo do escritor. Passou os dedos por cima da tinta da caneta e voltou a abraçar o livro – Estou muito feliz. Obrigada pai.
— Não há de quê – ele sorriu – Eu conversei com um garoto por muito tempo, mas ele estava apenas me enrolando para vender. Então do nada ele me mandou mensagem, perguntando se eu ainda tinha interesse pelo exemplar. Me pediu mil dólares nele.
Annabeth quase deixou o livro cair.
— Pai, vá devolver isso agora.
— Relaxa – ele desdenhou – Tudo para minha querida.
Annabeth demorou aceitar, mas não tinha o que fazer. Só lhe restava felicidade.
— Filha, tenho algo para te perguntar – Começou o pai de Annabeth, num tom mais sério – Sua mãe me ligou hoje mais cedo. – O coração de Annabeth parou por um segundo. Ela não disse nada, o que fez seu pai continuar. – Ela me perguntou se por um acaso você não teria interesse em se matricular na Goode High School, em Long Island. Você sabe que é uma escola melhor para seus estudos, precisamos começar a pensar sobre a faculdade.
— Não – ela respondeu, se sentou na cadeira e voltou a fazer suas anotações no papel, mesmo que não estivesse escrevendo nada relacionado ao estudo.
O pai de Annabeth suspirou.
— Eu sei – ele falou – que você e sua mãe não estão em um bom momento. Mas precisamos pensar em sua faculdade. Arquitetura não é uma faculdade barata. Talvez ficando mais perto da sua mãe, você consiga uma bolsa até mais fácil. Ela é uma boa carta de recomendação.
— Você também é uma boa carta de recomendação – Annabeth retrucou.
— Eu sei. Mas sou apenas um professor universitário de história. Sua mãe faz parte do ramo.
— Pai, eu não quero ir.
Sr. Chase percebeu que, se continuasse, talvez estragasse o momento da filha com seu novo suvenir. Então, por hora, ele recuou.
— Está tudo bem, minha querida – ele se levantou da cama de Annabeth, foi até ela e colocou a mão em seu ombro – Não precisamos fazer isso. Vamos dar um jeito.
Lágrimas de culpa brotavam nos olhos da garota enquanto seu pai saia do quarto. Ela não podia culpar o pai por ter considerado a alternativa. Annabeth entendia o suficiente de finanças para saber o peso que uma faculdade traria para o bolso da família deles. Mas pensar que precisava da mãe naquela altura da sua vida, depois de tanto tempo... O orgulho era algo que a dominava com muita facilidade. Uma característica que mal sabia ela que tinha origens maternas.
Uma lagrima pingou sobre o papel de anotações, tirando-a de seu próprio transe. Ela limpou os olhos, fechou o material de estudos e foi para a cama. Foi um dia terrível, pensou. Colocou seu presente em seu lado na cama, o que a fez até soltar um sorriso antes de fechar os olhos e dormir.
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